Alcinéa Cavalcante

Liberdade de expressão!
Macapá - Amapá

Dia: 27 de abril de 2010

Retrato do descaso

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 27/04/10 as 3:18 pm

Olha aí. Mais um prédio do governo do Amapá abandonado, servindo de criadouro de mosquito da dengue. Enquanto isso, o governo gasta milhões em aluguéis.
Este prédio fica no centro comercial de Macapá, na mais movimentada rua do comércio local, a Cândido Mendes, quase esquina com a avenida Presidente Vargas.
Quem olha assim pode até pensar que por dentro ele está inteiro.

Mas isso é só a fachada

Veja como ele está por dentro

O teto e as paredes sumiram. O que restou foi muita  água empoçada, pedaços de pau, mato, restos de telha, mosquitos da dengue, sujeira e fedentina

Boa tarde!

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 27/04/10 as 2:38 pm

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

(Darcy Ribeiro)

Violência

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 27/04/10 as 1:33 pm

Li nos jornais que este foi o fim de semana mais violento dos últimos tempos. De sexta-feira a domingo mais de duzentas ocorrências foram registradas. Dez pessoas foram assassinadas à bala e à faca,  outras morreram no trânsito.
Centenas de casos de esfaqueamento, atropelamento, ameaças e brigas foram registrados em três dias.
A maioria dos crimes acontece na madrugada e tem como principal fator desencadeante a bebida alcóolica.
Um jovem de 18 anos foi esvicerado no banheiro da boate Haras, no bairro São Lázaro. Aliás, esse boate está famosa pela quantidade de assassinatos, brigas e lesões corporais que ali acontecem.
Nas praças e nos pontos turísticos de Macapá – como o Parque do Forte e Praça Zagury – bebida alcóolica e drogas são vendidas livremente para crianças de 10, 11 e 12 anos. Embriagadas ou drogadas essas crianças são presas fáceis para os pedófilos.

Mais  sobre o alto índice de violência no Amapá aquiaqui

Homenagem ao Poeta

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 27/04/10 as 12:59 am

A Confraria Tucuju vai homenagear, no sarau de sexta-feira,30, o poeta Arthur Nery Marinho (1923-2003).
Uma homenagem justíssima a este poeta, músico, jornalista e desportista que nasceu em Chaves (PA) mas aos 23 anos de idade veio para o Amapá e nunca mais saiu daqui. Cantou, tocou e escreveu as coisas desta terra como se fosse a sua terra natal.
Compadre de meus pais, Arthur Nery Marinho frequentava muito nossa casa. Lembro-me que quando eu era criança eu ficava boaquiaberta ouvido-o declamar suas poesias para minha vó Elvira Araújo.
Nossa casa tinha uma grande varanda, onde minha vó, paralítica, passava a maior parte do dia em sua cadeira de rodas rezando, cerzindo, lendo, fazendo crochê… o poeta chegava, cumprimentava-a e começava a declamar (outro que costuma fazer isso era o Cordeiro Gomes, mas em outro post eu conto). Eu corria para ouvi-lo e a poesia que eu mais gostava era Auto-Retrato, que está publicada no livro Sermão de Mágoas. Ele dava tanta vida ao poema que eu, na inocência da infância, jurava que ele tinha o corpo todo marcado de cicatrizes.
Uma das imagens que ficaram gravadas na minha retina é o poeta levantando a barra da calça ao dizer o verso “E por toda parte a perna cortada.” Eu arregalava os olhos na tentaviva de ver os golpes em sua perna e morria de pena dele. “Isso deve doer muito”, eu pensava.
Só na adolescência fui entender o Auto-Retrato do poeta.

Cresci, fiquei adulta,  meus pais se separaram, morreram e meu contato com o poeta foi rareando. Mas nas poucas vezes que nos encontramos após a morte de meu pai sentia o enorme carinho que ele tinha por mim e isso me fazia muito feliz.

Poucas vezes estive na casa dele. Era uma casinha tão aconchegante, na rua mais tranquila do bairro Jacaré-acanga, bem na frente de uma pracinha. Pensava com meus botões: todo poeta deveria morar num lugar assim, onde há paz, verde, crianças jogando bola, gente enamorada e canto de passarinhos. Uma das vezes que estive lá foi para convidá-lo a sair na escola de samba Unidos do Buritizal, em 1992, cujo enredo era “Alcy Araújo – o poeta do cais”. Fazia pouco tempo que Arthur tinha passado por uma delicada cirurgia na cabeça. Mas mesmo assim ele topou. Enfrentou o desafio de ir para a avenida, sambar em homenagem ao compadre, na comissão de frente da escola que estreava no carnaval. E estreou em alto estilo: foi a vice-campeã.

Outras vezes encontrei com ele embaixo da mangueira da Sead. Ele costumava dar uma paradinha ali quando ia falar com os secretários de Estado em busca de apoio para a publicação do livro “Sermão de Mágoa”. E foi ali, embaixo daquela mangueira, numa manhã de sol bochechudo e céu azulzinho de 1993, que ele me deu a boa notícia: finalmente Sermão de Mágoa ia ser publicado. Já estava no prelo. Vibrei. E foi também embaixo da mangueira que ele me deu um exemplar do livro tão logo saiu da gráfica, antes do lançamento.

O poeta Arthur Nery Marinho faz parte da primeira geração dos modernos poetas do Amapá.
Nascido em Chaves (PA), em 27 de setembro de 1923, veio para o Amapá em 1946. Ao lado de Alcy Araújo Cavalcante, Álvaro da Cunha, Aluízio Cunha e Ivo Torres, Arthur desenvolveu importantes projetos culturais.
Está na Antologia Modernos Poetas do Amapá, na enciclopédia Brasil e Brasileiros de Hoje, na Grande Enciclopédia da Amazônia e na Coletânea Amapaense de Poesia e Crônica.
Foi vice-presidente da Sociedade Artística de Macapá, diretor do Jornal Amapá, presidente da Federação Amapaense de Desportos (hoje FAF) e sócio-fundador da Sociedade Esportiva e Recreativa São José e do Grêmio Literário e Cívico Ruy Barbosa.
Em 1993 publicou o livro de poesias “Sermão de Mágoa”. Morreu em 24 de março de 2003 e alguns meses após sua morte a Associação Amapaense de Escritores fez o lançamento do livro de poemas e trovas “Cantigas do Meu Retiro”.

O Sarau será no Sesc Centro (Av. Padre Júlio Maria Lombaerd, esquina com a rua General Rondon), a partir das 20h. Além da homenagem ao poeta haverá show da banda Afrobrasil, exposição dos artistas plásticos Wagner Ribeiro e Miguel Arcanjo, comercialização de artesanato, obras literárias, CDs e DVDs de artistas regionais.

Um poema de Arthur

Paisagem amazônica

Para escrever
meu revoltado verso,
jamais dei a volta ao mundo,
meu Senhor!

Vim pelas margens dos igarapés,
onde o sorriso
é doentio e triste
e a ignorância há séculos persiste
e é pálida
e mirrada a própria flor.

Mais poemas de Arthur Nery Marinho aqui, aqui, aqui e aqui.