Alcinéa Cavalcante

Liberdade de expressão!
Macapá - Amapá

Entrevista

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 13/02/11 as 5:51 pm

O blog inicia hoje uma série de entrevistas, no formato ping-pong, com políticos, poetas, artistas, autoridades etc. As entrevistas serão postadas sempre aos domingos.
Abrindo a série, o blog entrevistou o senador Randolfe Rodrigues.

Foto: Manoela Pinheiro

Senador mais jovem do país, nascido em Garanhus (PE) mas desde os oito anos de idade morando no Amapá, Randolfe Rodrigues (PSOL) ainda criança acompanhava o pai nas reuniões e manifestações do PT em Macapá, fez parte do Movimento Estudantil, liderou no Amapá o movimento “Fora Collor”, foi deputado estadual pelo PT por dois mandatos. Em 2005 trocou o PT pelo PSOL e acabou não se reelegendo em 2006 porque o partido não conseguiu fazer o coeficiente eleitoral.
Há duas semanas no Senado, Randolfe já mostrou que não será um mero coadjuvante. Já “chegou chegando”, mostrando a cara, entrando na disputa pela presidência do Senado e assim quebrando a unanimidade em torno de Sarney. Está propondo a rediscussão do pacto federativo  e vai brigar para que o Amapá tenha direito a uma parcela maior do FPE. Ele acha injusto que estados com menor arrecadação de ICMS que o Amapá tenham um FPE maior.

O jovem senador assegura que seu mandato será dedicado a “recuperação do orgulho de ser amapaense”.
Historiador, advogado, mestre em planejamento e políticas públicas e professor universitário, Randolfe não pretende deixar a sala de aula. Na sexta-feira, quando desembarcou em Macapá um de seus primeiros compromissos foi ministrar aulas de Direito Constitucional na Faculdade Seama.
Depois das aulas, Randolfe Rodrigues concedeu esta entrevista ao blog:

Blog - Durante a sabatina ao ministro Luiz Fux, do STF, a maioria dos senadores jogou confetes e até se eximiu de perguntar. O Sr. foi um dos poucos que utilizou a prerrogativa do questionamento. Isso não foi uma ousadia?
Randolfe
Não! Foi o cumprimento da minha atribuição constitucional, de acordo com o artigo 52 da Constituição Federal, de apreciar a indicação para ministros do Supremo Tribunal Federal após arguição pública. A melhor forma que eu tinha de homenagear a inteligência e o perfil progressista do dr. Fux era questionando e provocando-o para que  povo brasileiro conhecesse suas posições.

O sr. é o mais jovem senador do Brasil. Ao entrar no Senado e se deparar com políticos octogenários, ex-presidentes da República, políticos de grande experiência, como o sr. se sentiu?
Randolfe
– Todo mundo pergunta quando a ficha caiu. Acho que caiu quando visitei o Senado logo após a eleição e o serviço de segurança se assustou quando eu disse que era senador. Nesse mesmo dia, um general de quatro estrelas do Exército me procurou e quando eu fui cumprimentá-lo, recebi como resposta uma continência. Fiquei sem saber bem o que fazer, quando eu estendi a mão e ele estufou o peito, armou a posição de sentido e se apresentou com aquela voz altiva batendo continência. Fiquei com a mão estendida até que um assessor da liderança do PSOL me explicou que eu deveria dizer a ele que ficasse à vontade. Depois conversamos sobre uma viagem para conhecer o Comando Militar da Amazônia. Acho que aí eu comecei a ter dimensão do que estava acontecendo.
O povo do Amapá antecipou a minha biografia, porque o Senado é um lugar de ex-presidentes, ex-governadores e ex-ministros de estado.

Como foi chegar e logo enfrentar José Sarney?
Randolfe
– Quando cheguei vi logo aquele imenso consenso em torno da candidatura de Sarney. Percebi que uma alternativa só poderia sair do PSOL. Mas, eu ainda não estava com a decisão amadurecida. Na sexta-feira anterior à eleição recebi um telefonema do jornalista Josias de Souza, que me demonstrou uma certa inquietação com esse consenso. Nesse momento eu já havia consultado várias pessoas por telefone em Macapá. Percebi que não tinha mais retrocesso.

Não teve receio que sua candidatura a presidente do Senado pudesse  parecer porralouquice, oportunidade para aparecer?
Randolfe – Tive sim, várias vezes. Mas uma das minhas atribuições é recuperar a autoestima de ser amapaense. Tive a preocupação de não fulanizar o debate, mas de fazê-lo da forma mais elevada, mostrando que representamos campos opostos na política brasileira. Quem representará melhor o estado, aquele que se coloca como submisso, ou aquele que faz o debate da grande política? Eu estou convencido de que o Amapá será mais respeitado e mais bem representado por quem se dispor a fazer o debate da grande política. Não é se comportando de forma submissa que o Amapá terá vitórias em Brasília.
Como aprendemos com nossos avós, quem muito se abaixa…

Na campanha o sr. foi agredido por ex-aliados políticos. Restou alguma mágoa?
Randolfe – Nenhuma! Aprendi na política a entender o outro. A política surgiu para acabar com as guerras. Então, eu não posso fazer da política um espaço para o ódio, rancor. Os ataques vieram, na campanha não respondi e no mandato não considerarei e não lembrarei.

O senhor liderou o “Fora Collor” no Amapá. Agora, no Senado, é vizinho de bancada do ex-presidente. Como foi o encontro com ele?
Randolfe – A imprensa nacional destacou o encontro dos dois caras pintadas com Collor –  eu e Lindbergh. Comigo ele foi muito educado. Senta ao meu lado no plenário. No dia da eleição para presidente do Senado logo que cheguei eu disse “bom dia presidente”, em seguida fui chamado para a tribuna. Prestei atenção que ele estava concentrado no meu discurso. Quando desci, o senador Sarney me cumprimentou e logo em seguida ele, que disse: “Parabéns, um discurso muito forte, elegante, mas contundente. Você é muito jovem, quantos anos você tem?”. Respondi, 38. Ele disse que eu era muito jovem e que havia chegado muito cedo ao Senado da República. Logo depois fui cumprimentado pelo ex-presidente Itamar Franco. Fui cumprimentado, curiosamente, na ordem cronológica pelos três ex-presidentes. Itamar disse: “Meu rapaz, que bela postura a sua”. Foi o menos protocolar, me disse que não o chamasse nem de presidente, nem de senhor, mas de Itamar.

E as senadoras mulheres, como o receberam?
Randofe –
Minha companheira de bancada é mulher, a senadora Marinor Brito. As mais velhas são muito maternais e carinhosas. A pergunta que mais ouvi foi: “menino, de onde tu saíste?”. Ouvi isso também da jornalista Eliane Cantanhede, a primeira a me abordar depois do discurso na eleição do Senado.

A imprensa nacional o apelidou de Harry Potter. Quem  é o Voldemort?
Randolfe – Voldemort é quem faz a política pelo poder, quem não a faz em benefício da coletividade.

O sr. voltou de Brasília com uma lesão nos lábios e no queixo. É alguma alergia ao clima politico da capital federal?
Randolfe
Para o ambiente das casas legislativas já tenho anticorpos. A alergia foi mesmo pelo ar seco de Brasília. Quem sabe a gente começa a levar um pouco de umidade amapaense para o cerrado.

O sr. vai continuar dando aulas na faculdade em Macapá?
Randolfe
Eu não vejo Brasília como um lugar de morada. Pra mim é um lugar de trabalho, meu lugar é aqui. Comecei a dar aulas nessa sexta-feira. Sou obcecado, apaixonado por ser  professor. A melhor coisa que aconteceu comigo depois da eleição de 2006, quando não fui reeleito para a Assembléia, foi voltar para a sala de aula, fazer o mestrado. Ser senador não é minha profissão, minha profissão é ser professor e essa perspectiva não quero perder.

Randolfe recebeu em seu gabinete representantes da Associação Nacional
dos Procuradores Municipais (ANPM) para tratar da PEC 153
Foto: Gisele Barbieri

Randolfe em reunião com Auditores Fiscais do Trabalho
Foto: Gisele Barbieri