Alcinéa Cavalcante

Liberdade de expressão!
Macapá - Amapá

Dia: 5 de dezembro de 2011

Boa tarde!

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 05/12/11 as 1:47 pm

“Quero colocar uma guirlanda na minha vivenda não para mostrar aos outros, uma jóia do artesanato, mas alertar a cada um que aqui tem um espírito esperançoso em que a felicidade precisa prosperar…”
(André Wernner)

Retrato em preto-e-branco

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 05/12/11 as 1:40 pm

A foto é dos anos 70 – Esses gatinhos estão comemorando a aprovação no vestibular.
Sabe quem são, por onde andam e o que fazem hoje?
(Foto: contribuição do promotor aposentado Jonatas Pereira Cardoso)

Cronistas do blog

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 05/12/11 as 9:18 am

As mentiras também ajudam a viver
Cléo Farias de Araújo

Na canção “Traumas”, gravada em 1971, Roberto Carlos, em certo trecho, canta: “Meu pai um dia me falou pra que eu nunca mentisse, mas ele também se esqueceu de me dizer a verdade da realidade do mundo que eu ia viver”.

Meditando nessa expressão, fiquei a pensar até que ponto o cantor tinha razão. Afinal, meus pais e demais parentes sempre nos ensinaram a sermos verdadeiros e que, como a mentira tem pernas curtas, nos recomendavam jamais faltar com a verdade. Os Padres Vitório Galliani, Paulo di Coppi e Jorge Basile, nas aulas de catecismo, também nos mandavam seguir a mesma linha de atitude.

Com o passar do tempo, aqui e acolá, eu percebia certas situações, digamos assim, esquisitas dos meus pais, muitas vezes secundadas e/ou confirmadas pelos mais velhos. Por exemplo: Em época de vacas magras, a gente comprava uma lata de conserva e um quilo de farinha. Ao misturar, quase não dava pra ver os pedaços da carne enlatada. Mamãe dizia que era pra não dar dor de barriga, pois conserva era indigesta e se a gente comesse muito naquele dia, ia passar mal.

Questionamento: Minha imaginação trabalhava e algumas vezes, eu olhava pra barra de sabão pintadinho (eu acreditava, com firmeza, que era feito de conserva) e pensava que, se misturasse um pouco, o farofão ficaria melhor. Mesmo que desse dor de barriga!

Em outros momentos, quando o dinheiro não dava pra comprar farinha, mamãe servia só a galinha cozida e o caldo (ou o que tivesse de comida). Pra completar o almoço, relatava que estávamos com dor de garganta e farinha só iria piorar a situação. E mais: era melhor comer logo, antes que o bichano do vizinho viesse nos furtar. Sem comer farinha por uns dois dias, a gente ficava logo bom da garganta e não iria perder o passeio do final de semana, na granja do Dr. Celso.

Questionamento: A gente abria a boca na frente do espelho e não via nada de anormal.

Se, naquele horário das três da tarde, passava o picolezeiro ou o homem do cascalho, se as vacas estavam gordas, a gente podia chamar o vendedor, pois ia ter festa. Contudo, se a coisa estava braba, a resposta era que o produto oferecido na rua não tinha higiene e fazia mal pra garganta.

Questionamento:Embora apertássemos nossos pescoços em busca da algum sinal de doença, não achávamos nada.

De tanto questionar, num belo dia, meu irmão mais velho, acabou sendo “convencido” por umas boas “cinturãozadas” dadas pela mamãe, a tomar uma colher de azeite de andiroba (arrrrghhh!), “só pra prevenir”.

Vendo essas coisas acontecerem, por muito tempo, eu me perguntei:
E onde ficam os ensinamentos para não mentir?
Será que mentira é assim chamada só quando é praticada por criança?
Adulto não mente? Qual a versão para a atitude dos adultos?
A mentira, no sentido de enganar a fome e a falta de dinheiro, é permitida?
Será que os atos praticados por nossos pais, em tempos de vacas magras, serviam pra não deixar a tristeza entrar em casa?

Essas e outras perguntas passaram a povoar minha mente, até que lembrei de outra música, cantada por Jerry Adriani, que dizia assim:
“Quando eu fui criança
Tinha a esperança
De tudo um dia saber”.

Mais à frente, conclui:
Hoje, eu cresci. A vida já me ensinou
De tudo e até de amor
Mas algo não sei e ainda quero saber”.
Foi, então, que percebi que, ao crescermos, temos que virar bailarinos na dança da vida. O tempo passa e vejo que já até menti algumas vezes pros meus filhos, principalmente quando o pagamento estava prometido para aquele dia e não saía, ou quando o avião passava, na época do Círio de Nazaré e eles pediam pra ir à Belém. No primeiro caso, eu disse que a sorveteria estava fechada naquele dia; no segundo, disse que não havia mais passagens para vender: o avião estava lotado.

Experimentando o outro lado da situação, tenho que concordar que Roberto Carlos tinha razão, ao cantar, no final daquela música:
Agora eu sei o que meu pai queria me esconde
Às vezes as mentiras também ajudam a viver
Talvez um dia pro meu filho, eu também tenha que mentir
Pra enfeitar os caminhos que ele um dia vai seguir
”.