Alcinéa Cavalcante

Liberdade de expressão!
Macapá - Amapá

Há 23 anos o poeta e jornalista Alcy Araújo partia para o cais definitivo

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 22/04/12 as 1:58 pm

“Eu sou Alcy Araújo, poeta do cais. Proprietário de canções e esperanças
quando são mais nítidas as horas de sofrer.”

Alcy Araújo Cavalcante nasceu na Vila de Peixe Boi, no interior do Pará, a 7 de janeiro de 1924.

Criança ainda transferiu-se com a família para Belém, vivendo depois em pequenas cidades às margens do Amazonas, Madeira, Juruá e outros rios da região.

De retorno a Belém  cursou a Escola Industrial, tornando-se mestre marceneiro e de outras especialidades relacionadas com o ofício, que chegou a exercer por algum tempo.

No entanto, a vocação e um precoce desenvolvimento intelectual levaram Alcy Araújo a trocar a bancada da oficina pela mesa do jornal aos 17 anos. De  1941 até 1953 trabalhou nos jornais paraenses Folha do Norte, Folha Vespertina, Imparcial, O Estado do Pará e O Liberal.

Em meados de 1953 ingressou no funcionalismo do Território Federal do Amapá, onde exerceu cargos de relevo. Trabalhou em quase todos os jornais e emissoras de rádio amapaenses e fundou, com outros poetas e jornalistas, vários jornais e  revistas, como a Rumo e a Latitude Zero. Contudo a mais importante contribuição de Alcy Araújo ao Amapá deve ser aferida pela sua intensa e constante participação na vida intelectual e artística – tanto através da imprensa, como nos demais instrumentos e instâncias da cultura amapaense.

Alcy Araújo está na Antologia Modernos Poetas do Amapá, na Enciclopédia Brasil e Brasileiros de Hoje, na Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira, na Grande Enciclopédia da Amazônia, entre outras  antologias nacionais e internacionais.

Em 1965 lançou em Macapá o livro Autogeografia e em 1983 lançou no Rio de Janeiro “Poemas do Homem do Cais” e em 1996  foi lançado pela APES “Jardim Clonal”.

Alcy Araújo Cavalcante, meu pai, tinha a alma pura,  de criança que acredita no Natal e na Esperança e assim cheio de esperança colocou sua poesia a favor da luta por um sociedade melhor, livre das desigualdades e das injustiças.

Alcy Araújo partiu para o cais definitivo em 22 de abril de 1989. Deixou vários livros de poesia, crônicas, contos e romances inéditos. (Leia mais sobre Alcy  aqui )

Alcy Araújo, o jornalista, no jornal O Liberal no comecinho dos anos 50

Dois poemas de Alcy Araújo

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 22/04/12 as 1:56 pm

Lembrando-me
(
Alcy Araújo)

Penso no menino solitário
com medo da noite
no silêncio escorrendo
das palavras paralíticas.

Penso no homem solitário
com medo do mundo
das aflições aflorando
nos gestos de maldade.

Bem sei: no menino e no homem
estão a necessidade de ternura
a busca/ânsia
a inquietação diante
de um Deus desconhecido.

Também nas dobras da inocência
ou no escuro dos pesadelos singulares
escuto seus passos cotidianos.
Identifico lágrimas diárias
na rua desprovida de mar
no cais retornando
no espelho matinal
nos corpos frequentados.

Neste amar crescendo
vindo do azul interior
descubro desassombrado
uma saudade.
Aí apago na parede
em trânsito
o retrato em preto e branco
do menino.

Participação
Alcy Araújo

Estou convosco.
Participo dos vossos anseios coletivos.
Vim unir meu grito de protesto
ao suor dos que suaram
nos campos e nas fábricas.

Aqui estou
para juntar minha boca
às vossas bocas no clamor pelo pão
sancionar com este rumor que vai crescendo
a petição de liberdade.

Estou convosco.
Para unir meu sangue ao sangue
dos que tombaram
na luta contra a fome e a injustiça
foram vilipendiados em sua glória
de mártires
de heróis.

Vim de longe
percorrendo desesperos.
Das docas agitadas de Hamburgo
das plantações de banana da Guatemala
dos seringais quentes do Haiti.
Vim do cais angustiado de Belém
dos poços de petróleo do Kuwait
das minas de salitre do Chile
Passei fome nos arrozais da China
nos canaviais de Cuba
entre as vacas sagradas da Índia
ouvindo música de jazz no Harlem.
Afundei nas geladas estepes russas.
morri ontem no Canal da Mancha
e hoje no de Suez.
Tombei nas margens do Reno
e nas areias do Saara
lutando pela vossa liberdade
pelo vosso direito de dizer
e de amar.

Estou convosco.
Voluntariamente aumento o efetivo
dos que não se conformam
em viver de joelhos
morrendo sufocando lágrimas
nas frentes de batalha
nas prisões
para dar à criança recém-parida
o riso negado aos vossos pais
o pão que falta em vossas mesas.

Meu filho
e o filho do meu filho
saberão que o meu poema não se omitiu
quando vossas vozes fenderam o silêncio
e ecoaram inutilmente nos ouvidos de Deus.

Um poema de Cora Coralina

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 22/04/12 as 1:28 pm

Não Sei
(Cora Coralina)

Não sei… se a vida é curta
ou longa demais pra nós,

Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
Mas que seja intensa,
verdadeira, pura…
Enquanto durar.

Tá na Carta Capital

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 22/04/12 as 12:03 pm

O compadrio e a caixa-preta
Matheus Pichonelli

Há quase um ano, o promotor da Defesa do Patrimônio Cultural e Público do Amapá, Afonso Gomes Guimarães, deu início a uma verdadeira via sacra para investigar possíveis casos de nepotismo nos órgãos públicos do estado. Desde agosto de 2011 ele tenta obter informações sobre a folha de pagamento dos funcionários da Assembleia Legislativa. Em vão. Em todas as tentativas, esbarrou na falta de vontade dos deputados amapaenses e do próprio Judiciário local.

Primeiro, solicitou os documentos ao presidente da Assembleia, Moisés Reategui de Souza (PSC), que se negou a repassar os dados.

Em seguida, ingressou com ações na Justiça para acessar os dados dos funcionários em duas frentes: a própria Assembleia e os bancos que realizam os pagamentos.

Em ambos os casos, obteve decisões favoráveis em primeira instância. Diante dos recursos apresentados, o Tribunal de Justiça barrou, no entanto, a empreitada.

Os dados da Assembleia continuam, assim, numa caixa-preta inacessível – e joga para o centro das suspeitas os próprios desembargadores. Dados obtidos por CartaCapital revelam que parentes de cinco dos nove desembargadores da corte trabalham no Legislativo amapaense.

A prática pode indicar um exemplo específico de nepotismo – quando autoridades usam a influência do cargo para empregar parentes como assessores de órgãos públicos de outros Poderes. Uma prática comum ainda no País, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e que contamina decisões viciadas dos tribunais.

O exemplo do Amapá coloca em xeque as formas de controle sobre o nepotismo, prática vedada pelo Supremo Tribunal Federal desde agosto de 2008, quando foi editada a súmula vinculante número 13. A medida coibiu a contratação de parentes de autoridades e de funcionários para cargos de confiança, de comissão e função gratificada no serviço público.

O problema é, quase quatro anos depois, as próprias autoridades ainda se negam a informar quem são, o que fazem e quanto ganham seus funcionários.

A via sacra da Promotoria para ter acesso aos dados no Amapá é simbólica. A ação civil pública escrita pelo promotor Afonso Guimarães com pedido para a Assembleia disponibilizar dados sobre seus servidores, é de outubro de 2011. No documento, ele citava o site oficial da Casa como uma página que não “obedece aos dispositivos legais relativos à transparência administrativa e em quase nada contribui para a divulgação dos atos administrativos e para o favorecimento do controle social”.

O pedido foi atendido pela juíza Alaíde Maria de Paula, da 4ª Vara Cível e da Fazenda Pública de Macapá. Por ordem da magistrada, o presidente da Assembleia tinha cinco dias para apresentar as folhas de pagamento de seu pessoal referentes ao período de dezembro de 2010 a julho de 2011. A Assembleia recorreu ao Tribunal de Justiça, que cassou a decisão em 23 de janeiro deste ano por ordem do desembargador Luiz Carlos – pai do deputado federal Luiz Carlos Filho (PSDB-AP).

Em outra frente, o promotor tentou obter as informações por meio dos bancos com os quais os servidores mantêm contas. Os pedidos das ações cautelares foram atendidos pela mesma juíza. Dias depois, o banco Santander conseguiu uma liminar no tribunal, em outubro de 2011, com o argumento de que as informações eram acobertadas pela proteção à intimidade e sua divulgação dependeria da existência de “interesse público concreto”.

Diante do impasse, o promotor Afonso Gomes Guimarães disse ter protocolado um recurso no Superior Tribunal de Justiça contra a decisão do TJ.

O relator do pedido no TJ foi o desembargador Dôglas Evangelista – que, segundo documentos encaminhados à reportagem, é marido e ex-cunhado de funcionários da Assembleia.

Evangelista é um dos desembargadores do Amapá citados em inquérito da Polícia Federal após a Operação Mãos Limpas – que em 2010 prendeu 18 pessoas, entre elas o então governador Pedro Paulo Dias e secretários estaduais. Os magistrados eram suspeitos de manter contatos e proferir decisões favoráveis a integrantes de uma suposta quadrilha suspeita de desviar até 300 milhões de reais públicos.

Procurado, o desembargador não respondeu aos questionamentos da reportagem encaminhados via assessoria de imprensa. A Assembleia do Amapá também não respondeu desde quando e em quais condições os parentes do desembargador trabalham na Casa (a lei não impede que parentes de autoridades trabalhem em órgãos públicos desde que sejam concursados).

O caso de Evangelista não é único. Segundo os documentos, a Assembleia emprega ainda as cunhadas dos desembargadores Mário Gurtyev e Carmo Antônio, além de Edinardo Tavares de Souza, diretor administrativo da Assembleia, e filho do desembargador Edinardo Souza – também citado no inquérito da Operação Mãos Limpas.

A lista à qual a reportagem teve acesso mostra ainda que o filho e a mulher de outro desembargador, Agostino Silvério, também estão na folha de pagamento do Legislativo. A mulher, identificada como Jorlene Lima de Jesus Silverio, recebeu pagamentos de 6.410 reais em 15 de julho do ano passado. Procurado, o desembargador também não esclareceu a situação.

Para o advogado Jorge Hélio Chaves de Oliveira, conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o caso do Amapá é apenas “uma caixa de ressonância, um eco do que acontece no Brasil”. Segundo ele, dois problemas perpetuam as práticas que deveriam ser combatidas pela súmula antinepotismo: a falta de transparência dos portais oficiais, como sites dos tribunais de Justiça, e o “verdadeiro compadrio feudal de famílias que ainda exercem verdadeiras ditaduras patrimonialistas dentro dos tribunais”. (Leia mais)

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 22/04/12 as 12:14 am

João o mendigo
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Num centro para mendigos e moradores de rua, um alcoólatra de nome João, considerado até então um beberrão irrecuperável, ficou tocado pela generosidade dos voluntários do centro, e mudou completamente de vida. Tornou-se a pessoa mais serviçal de todas. Dia e noite, João ajudava incansavelmente. Nenhum serviço era humilde demais para ele. Podia ser a limpeza de um quarto, onde algum bêbado tinha passado mal, ou esfregar os banheiros imundos.

João fazia tudo o que lhe pediam sorrindo e visivelmente agradecido porque  era-lhe permitido ajudar. Sempre era possível contar com ele, quando precisava dar comida na boca de alguma pessoa extremamente fraca ou tirar o agasalho e colocar para dormir alguém que já não dava mais conta de fazer isso sozinho.

Uma tarde, o capelão do abrigo falou ao grupo dos presentes sobre a necessidade de pedir a Deus força para mudar. De repente um homem levantou, aproximou-se do altar, caiu de joelhos e começou a gritar:

- Ó Deus! Faça que eu me torne como João! Faça que eu me torne como João!

O padre aproximou-se dele e lhe disse:

- Ó meu filho, talvez fosse mais certo você pedir: Faça que eu me torne como Jesus!

– O homem olhou para o capelão e com jeito de quem não entende bem perguntou: Por quê? Jesus é como João?

Uma história simples e de mendigos para imaginar como seria o mundo se nós cristãos fôssemos confundidos com Jesus. Com certeza não pelos discursos e nem pelos milagres, mas simplesmente pelas atitudes amorosas de serviço e fraternidade.

A página do evangelho deste domingo é a continuação de outra muito conhecida: a dos discípulos de Emaús. Após terem reconhecido Jesus ao repartir o pão e terem admitido que as palavras dele tinham aquecido e reanimado o seu coração triste, voltaram imediatamente para Jerusalém. Desta vez foi no meio da comunidade reunida que Jesus vivo e ressuscitado apareceu para explicar os acontecimentos e enviar todos eles em missão. Várias vezes os evangelhos dizem que antes da paixão, morte e ressurreição de Jesus, os discípulos não entendiam bem o sentido de tudo aquilo, mas agora, aos poucos, as coisas iam se clareando. Tudo o que tinha acontecido podia ser explicado com as Escrituras e fazia parte de um maravilhoso plano do amor de Deus.

Aquele pequeno grupo que tinha conhecido e seguido Jesus naqueles anos chegou à conclusão que o agir e o falar dele só podiam ser o agir e o falar de Deus. Nos gestos e palavras de Jesus, na sua morte na cruz e na sua ressurreição era possível afirmar a presença do Pai. Em Jesus, Deus tinha manifestado toda a sua vontade, tudo o que ainda faltava dizer à humanidade para que acreditasse. A certa altura, aqueles poucos homens e mulheres se sentiram tão amados por Jesus, tão seguros de sua fé nele, que não conseguiram mais guardar para si a boa notícia e saíram pelo mundo afora para anunciar o jeito novo de viver e morrer de Jesus. Quem o seguisse no caminho da cruz, passando pela porta estreita da doação da própria vida para servir aos irmãos, também um dia teria parte da sua ressurreição. A novidade de tudo aquilo era tão grande que, diz o evangelho, eles tinham dificuldade de acreditar de tão alegres e surpresos que estavam. A fé não pode ser triste, como também não pode deixar de ser surpreendente, porque, se assim não fosse, deixaria de ser fé e se tornaria simples raciocínio, ideologia ou explicação humana.

Eles deviam ser testemunhas da “novidade” Jesus. Mas como? Anunciando, no nome dele, a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações (cf. Lc 24,47). De lá até hoje nunca mais a comunidade dos cristãos deixou de obedecer à ordem de Jesus: testemunhar tudo aquilo, comunicar em todo lugar e a todas as gerações o que Jesus tinha dito e feito. A história da comunidade de Jesus, que nós chamamos de Igreja, está aí, com os seus altos e baixos, com os seus santos e os seus pecadores.

A Boa Notícia de Jesus nunca mais parou. Os tempos mudaram, mas ao coração humano, que busca o sentido da vida e da morte, do bem e do mal, da alegria e do sofrimento, os exemplos continuam a falar mais do que as palavras.

O mundo continua precisando muito de testemunhas que vivam o que afirmam acreditar. Somente outros tantos “Jesuses”, em carne e osso, podem convencer os outros a vencer os medos e as dúvidas e acreditar, de coração sincero, na bondade do Pai.

Precisamos de mais e mais “Joões” como aquele mendigo do abrigo da historinha. A quem pede para ver Jesus, todos os cristãos deveriam poder responder: – Olhe para mim – Ao menos um pouco da “novidade” de Jesus deveria ser visível em nossa vida. Este e somente este é o nosso primeiro testemunho. Depois vem o resto.