Até bem pouco tempo se dizia que quando a cuíca dava o primeiro ronco as divergências políticas desapareciam. Ferrenhos adversários políticos esqueciam as diferenças, as farpas trocadas durante as campanhas eleitorais e iniciavam a temporada de troca de confetes e serpentinas. Todos juntos com um só objetivo: fazer um grande carnaval, produzindo um belo espetáculo, capaz de atrair turistas, principalmente da Guiana Francesa e do Pará, e aquecer a economia.

Hoje as divergências políticas foram levadas para dentro do carnaval e aí se começou a atravessar o samba.

O PMDB (leia-se grupo dos Borges) dominou a Liga das Escolas de Samba e usa o carnaval para atingir o governador Waldez Góes, o prefeito Roberto Góes e seu partido, o PDT, que devagarinho devagarinho foram alijando os Borges dos governos estadual e municipal.
Na queda de José Roberto Galvão (o último indicado por eles que ainda estava no governo) os Borges não mugiram nem tugiram publicamente. Se guardaram pra quando  o carnaval chegasse, que já estava pertinho. E quando a cuíca deu o primeiro ronco, eles começaram a dar o troco, mas parece coisa de criança. Senão, vejamos: isolaram a vice-presidente da Liesa, Aracilene Monteiro, porque ela preside a escola do coração do prefeito Roberto Góes, Jardim Felicidade. Depois a Liesa (que, lembre-se, é dominada pelos Borges) destronou o Rei Momo Sucuriju porque ele, além de ser do Jardim Felicidade, é amigo do prefeito.

Roberto Góes não gostou da gracinha e deu uma canetada decretando que Sucuriju é o Rei. A Liesa tratou de espalhar que a Prefeitura estava se metendo onde não era chamada. Não colou. Todo mundo sabe que carnaval é festa municipal e em qualquer cidade – inclusive o Rio de Janeiro, que tem o melhor carnaval do mundo – a escolha da Corte do Carnaval é responsabilidade da Prefeitura.

No Festival de Samba Enredo, que ocorreu sábado passado, a Liesa não credenciou a Rádio Difusora – emissora oficial do governo e que cobre o carnaval desde a época das batalhas de confetes – e tentou de todas as formas impedir que a rádio fizesse a cobertura do evento. “O governo não manda no Sambódromo, quem manda é a Liga”, teria dito a presidente da Liesa. Acontece que o Sambódromo é do governo e a Difusora foi lá e na marra instalou seus equipamentos e fez a transmissão ao vivo. Me digam se esse tipo de retaliação não parece  briga de moleque de grupo escolar? Coisa do tipo: Ah, tirou o Galvão dali a gente tira a Difusora daqui.

A grana – Waldez Góes, como sempre, faz de conta que não é com ele. E vai dando corda. Reservou quase dois milhões de reais para a Liesa.  Inadimplente, a Liesa apresentou, diante do governo, a Embaixada de Samba Cidade de Macapá pra receber essa dinheirama toda. Waldez se fez de bobo e repassou a grana. O que tem de errado nisso? Talvez nada. Coincidentemente  a Embaixada de Samba é presidida por um Borges. Cabe a Embaixada administrar o dinheiro da Liesa e repassar para as demais escolas a parte que cabe a cada uma nesse bolo. E sabe-se que quem tem a grana tem o poder, daí a subserviência dos representantes das escolas à diretoria da Liga.

Escondendo informação – Os Borges são detentores de inúmeras concessões de rádio em todo o estado. A Liesa resolveu fazer um programa de carnaval. Onde? Claro que numa emissora dos Borges. Se o horário é comprado ou não, ninguém sabe. A Difusora há anos e anos mantem um programa carnavalesco líder em audiência: o Avenida do Samba. A Liesa se recusa a passar qualquer informação para o programa. Aliás, não passa para nenhum veículo de comunicação. Guarda a sete chaves toda e qualquer informação para ser divulgada apenas na emissora dos Borges. Não tem site, não tem blog, não tem nada que possa difundir as informações. O programa na emissora dos Borges não  tem audiência. É apresentado pela própria presidente da Liesa num horário muito ingrato, no finalzinho da tarde. Horário que só se escuta rádio em localidades do interior onde não chega a televisão.

A brincadeirinha de criança de esconder informação resultou no fracasso de público no festival de samba enredo. Mesmo baixando o preço do ingresso de dez reais para cinco reais as arquibancadas ficaram vazias. O que contribuiu para esse fracasso, além da falta de informação, foram as presepadas do ano passado, quando o festival ficou conhecido como “Festival da Bagunça” e o carnaval de 2009 foi chamado de “Carnaval das Trapalhadas”. Só pra lembrar: desde o ano passado os Borges dominam a Liesa.

Trapalhadas - Falar em trapalhada, estava marcado para ontem à noite o início dos ensaios técnicos. Não se sabe por que foi desmarcado. Como a Liesa guardou a informação para dar só no seu programa no final da tarde, o público não ficou sabendo. Muita gente foi ao Sambódromo, os ambulantes com seus carrinhos de cerveja, batata frita e churrasquinho foram pra lá e amargaram prejuízo.
Outra trapalhada de ontem: na quarta-feira a Liesa informou aos Piratas Estilizados que no dia seguinte a escola receberia a visita da Corte do Carnaval. A escola mandou fazer salgadinhos, comprou refrigerante e água mineral, convidou a comunidade e a imprensa para um coquetel, arrumou tudo, deixou tudo bonito. Em cima da hora, por volta das 19h de ontem,  a Liesa informou à diretoria dos Estilizados que a visita da Corte estava cancelada. Os motivos? Não disse.

E de trapalhada em trapalhada o carnaval amapaense vai perdendo o brilho. O setor empresarial, desconfiado, este ano pouco investiu nas escolas de samba. Prova disso é que faltando uma semana para o carnaval, tem escola que ainda está sem alegorias e sem fantasias.

Ou se tira a política de dentro do carnaval ou a política vai acabar com o carnaval, como aconteceu no Pará.