Alcinéa Cavalcante

Liberdade de expressão!
Macapá - Amapá

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 16/06/13 as 4:18 pm

VOCÊ CONTINUA SENDO UM BOM MENINO
Dom Pedro José Conti, bispode Macapá

É bastante famoso o diálogo acontecido entre padre Flanagan, fundador da Cidade das Crianças no Nebraska e Eddie um garoto de 10 anos que o xerife lhe tinha entregado para ver se  “dava um jeito”. Eddie tinha se tornado assaltante e ameaçava as pessoas com um revolver. Pe. Flanagan teve muita paciência com ele. Tentou conquistá-lo a qualquer custo, chegando a comprar doces e roupa especial para ele, mas o menino era mesmo impossível. Certo dia Eddie se apresentou no escritório do padre e lhe disse em tom ameaçador: – Vamos acabar de vez com esta história. Você tentou me comprar de toda forma. Eu aproveitei e quase cai na sua armadilha. Mas ontem decidi: chega! – Você é tudo fingido! – ainda gritou o rapaz. – Prova isso – o desafiou Pe. Flanagan – se não, fica calado -. – Acabei de dar um chute na freira: o que você me diz? – - Que você continua sendo um bom menino – - Você diz assim, mas não acredita, por isso é falso e mentiroso. Diga se não é verdade?- Pe. Flanagan respondeu com calma: – Um bom rapaz não é aquele que obedece em tudo aos seus mestres? – - Certo – disse Eddie – - Então – retomou o padre – você teve por mestres ladrões e assaltantes, todas pessoas que o levaram ao mal e agiu sempre como um bom aluno. A prova é o chute que deu na freira. – Eddie ficou boquiaberto com este raciocínio. Olhou para padre Flanagan e, pela primeira vez deu um sorriso, mas logo começou a chorar e caiu nos braços do seu exemplar educador. Quando Eddie deixou a Casa das Crianças, dez anos depois, era outra pessoa. – Agora você é um bom cristão, também se ainda meio grosso! – disse Pe. Flanagan ao despedir-se dele.

É sempre uma alegria para pais e educadores ver uma criança, um adolescente ou um jovem corresponder ao carinho e entender quanto é amado, também se aprontou e ainda apronta coisas erradas. Se reconhecer o amor recebido, um dia saberá corresponder. Parece mais difícil acontecer isso para adultos calejados, digamos, por experiências tristes e às vezes, convencidos mesmo que não exista ninguém bom neste mundo, capaz de amar o outro de graça. Sempre deve ter alguma fraude escondida. É difícil para quem foi muito explorado, enganado e iludido, acreditar na sinceridade do amor. No entanto, como cristãos, devemos dizer que existe, sim, alguém que nos amou e nos ama de antemão sem pedir nada em troca, simplesmente esperando a nossa resposta. É Jesus; ele ensinou e viveu tudo isso. O perdão que ele oferecia aos pecadores era a prova do amor infinito do Pai, acima de toda culpa ou mal feito. Era possível começar uma vida nova.

É fácil identificar na parábola dos dois devedores, aos quais são perdoadas as dívidas, as personagens principais da página do evangelho deste domingo. De um lado temos a pobre pecadora, já famosa e reconhecida por todos. Alguém pré-julgado da qual se podia falar com desprezo publicamente. Uma mulher perdida, afinal. Do outro lado temos um homem rigorosamente obediente à Lei, daqueles apontados como bons exemplos a serem imitados, correto, certinho, de fazer inveja.

Jesus não esconde as culpas da mulher pecadora; simplesmente abre os olhos ao fariseu orgulhoso da sua, ao menos aparente, perfeição. Por isso Jesus pergunta a Simão qual dos dois devedores perdoados ficará mais agradecido. Com efeito, entre a prostituta e o fariseu existe a diferença abissal de quem reconhece as suas culpas e quem as esconde ou aproveita da sua aparente honestidade para julgar os demais. A pobre mulher chora, beija e perfuma os pés de Jesus, considerando-se assim indigna de levantar os olhos para aquele homem tão diferente dos outros. Recebe o perdão e a paz e é elogiada pela sua fé. O fariseu esqueceu-se de acolher bem Jesus em sua casa, como quis esquecer-se dos pecados dele achando-os, talvez, uma dívida pequena demais. Pequena mesmo? Pode ser, mas sempre dívida que somente a generosidade do amor pode perdoar. Perdeu a chance de manifestar a sua gratidão.

Jesus reconhece a fé da pecadora arrependida; ele, por sua vez, bota fé na força do perdão. Como deve acontecer com um bom mestre que nunca desiste do discípulo até conduzi-lo num caminho melhor.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 09/06/13 as 12:05 am

2090
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

 O Senhor Atílio estava para morrer. Os seus olhos percorriam as paredes do quarto nº 280 da melhor clínica do país.

- As probabilidades estão todas a nosso favor – dizia o médico – Num futuro bem próximo a ciência médica estará em condição de lhe devolver a vida. Com certeza poderemos curar a sua doença e assim o senhor viverá ainda por muitos anos.

O rico Sr. Atílio estava satisfeito com as palavras do médico. Morreu tranquilamente e o seu cadáver foi congelado. Sonhou estar deitado numa linda praia e abriu os olhos. Piscou algumas vezes e viu ao seu lado um homem desconhecido, careca e aparentando certa idade.

- Bom dia – disse o desconhecido.

- Bom dia – respondeu o Sr. Atílio.

- Que pendentes esquisitos o senhor tem nas orelhas – disse o Sr. Atílio.

- Não são pendentes. São antenas e nunca são desligadas – respondeu educadamente o desconhecido.

- Me desculpe, mas em que ano estamos? – Perguntou o Sr. Atílio.

- Em 2090 – respondeu o homem.

- Passou um bom tempo – disse o Sr. Atílio – o meu patrimônio foi conservado?

- Acredito que não, respondeu o desconhecido – tive que desembolsar muito dinheiro para fazê-lo ressuscitar.

- Foi muito gentil de sua parte – retomou o Sr. Atílio – mas… Diga-me: encontraram uma cura para a minha doença?

- Dizendo a verdade, eles tentaram por um bom tempo, mas depois tiveram que desistir.

Assustado, o Sr. Atílio se levantou com grande esforço na cama e disse:

- E agora o que vai acontecer?

- Não fique agitado, por favor; isso não é bom antes de um transplante de coração – disse com calma o desconhecido.

- Entendo – disse o Sr. Atílio, voltando a deitar-se. E perguntou:

-Tem alguma coisa que não funciona no meu coração? –

- Não – disse o desconhecido – no seu não, mas tem alguma coisa que não funciona no meu.

Apesar dos avanços da ciência a nossa condição humana é mortal. Não sabemos mais o que inventar para nos iludir que nunca morreremos. Amamos a vida, mas poderíamos amá-la mais ou amá-la de maneira diferente, sabendo, de antemão, que a deixaremos um dia. A questão não é simplesmente viver mais e mais, é, sobretudo, como viver. Não falo da tão badalada “qualidade de vida”, algo possível, hoje, mas que ainda existe para bem poucos. Falo do significado mais profundo da nossa existência.

Qual o sentido de estarmos neste mundo, nesta condição tão frágil de um lado e tão grande do outro?  Logo aparecem as contradições da vida. Desejamos muito viver, mas sabemos que vamos morrer. Desejamos uma vida feliz e gastamos muitas energias em fazer coisas e juntar bens que, afinal, teremos que deixar para os outros. Percebemos cada vez mais que temos capacidades para criar, inventar, transformar este mundo. Temos grandes possibilidades e, com isso, também, grandes responsabilidades. A esses dilemas cada um reage de forma diferente. Alguns nunca pensam seriamente no sentido da vida. Outros se satisfazem com os sucessos deste mundo e os bens materiais, por mais curta que seja a sua durabilidade. Enfim, há os que olham além desta realidade e buscam algo mais profundo, algo – ou alguém – que desafie os tempos e as limitações humanas. Não pode ser simples curiosidade, deve ser algo que dá sentido e valor a tudo o que fazemos neste mundo e além dele. Ou “alguém” que, ao encontrá-lo, dê luz de eternidade às coisas que passam.

No evangelho deste domingo, Jesus sente compaixão por uma mãe viúva que está levando para o enterro o único filho. Ele se apresenta como o “senhor da vida”, como alguém que pode dizer ao jovem, falecido, de levantar-se para, assim devolvê-lo, vivo, à mãe em lágrimas. Devem ter reparado que isso acontece na porta da cidade – lugar de entrada e saída, um limiar. Lá se encontram duas multidões: o cortejo de quem está levando o jovem falecido para o enterro e o cortejo dos discípulos de Jesus. É exagerado chamar um de cortejo da morte e o outro de cortejo da vida? No entanto esta é a mensagem do evangelho. Jesus é o profeta da vida nova, não simplesmente porque não vamos mais morrer, mas porque, com Jesus, a morte não tem mais a última palavra.

Tudo começa, porém, com a compaixão. Esta é a luz do amor, a luz que dá vida à vida. Sentir compaixão é o primeiro passo para vencer a indiferença, o egoísmo, para nos abrirmos ao outro percebendo, ao mesmo tempo, a nossa fragilidade e, portanto, deixando-nos também amar pelo outro. Esta é a vida nova que Jesus ensinou e viveu. Foi a compaixão do Pai que levou o Filho ao amor total na cruz e à vida nova da ressurreição. Cabe a cada um de nós decidirmos em quem confiar, de qual das multidões queremos fazer parte. A dos discípulos de Jesus ou não. Cuidado, porém, com as falsas promessas. Têm muitos senhores Atílios por aí.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 02/06/13 as 12:30 am

Estou aqui sentado, pensando na minha vida
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

 Muitos anos atrás, numa região da França, vivia um rei que nunca conseguia rir. Chamavam palhaços e humoristas de todas as partes do mundo para diverti-lo, mas o rei permanecia sério. Certo dia, um jovem se apresentou à corte declarando que tinha capacidade de fazer o rei rir. Ninguém acreditou, mas, para evitar serem acusados de ter jogado fora uma nova chance, permitiram que o jovem fosse até o soberano. Levaram-no até a sala do trono e assistiram a uma cena inacreditável: o jovem foi sentar-se perto do trono do rei e ficou calado o tempo todo. Depois de algum tempo, o rei, triste e desconsolado, perguntou-lhe:

- Você foi chamado para me divertir, por que não está fazendo nada para me fazer rir?

- O jovem, bem tranquilo, respondeu:

- Não tenho nenhuma intenção de fazer o senhor rir, estou aqui sentado pensando somente na minha vida.

Incrível! A absurda sinceridade do jovem fez o rei dar uma gargalhada poderosa e, assim, o bom humor voltou para a aquele pais.

Repetir que quem complica a vida muitas vezes somos nós mesmos é banal, mas é uma simples verdade. Em lugar de agir com sinceridade e transparência parece que tenhamos sempre algo para esconder, algo que nos ameaça e, portanto, vivemos na defensiva.  Preferimos ficar calados para não nos expormos com as nossas palavras e não sermos criticados ou rebatidos. Outras vezes medimos nossos gestos e palavras por medo de sermos julgados pelos outros. Acontece também o contrário: falamos o que não devemos, condenamos ou absolvemos sem nenhum conhecimento da real situação, e assim por adiante. Pecamos por excessos de medo ou de superficialidade. Subestimamos a nossa capacidade de refletir e ponderar as coisas. Talvez bastasse sermos nós mesmos. Capazes de reconhecer os nossos defeitos – que não adianta esconder tanto assim – e de aproveita r dos dons que todos temos. Quantas vezes um gesto simples e espontâneo vale mais do que as formas sofisticadas de relacionamento, quando, por exemplo, o cerimonial nos obriga e a formalidade esvazia os próprios gestos.

No evangelho deste domingo, Jesus louva a fé do centurião. É um pagão, verdade, mas sincero e honesto. Até alguns dos anciãos, tão rigorosos e prontos a julgar os outros, reconhecem que o estimam. Ele também tem em grande consideração o empregado que está doente. Admitamos que não seja tão comum os patrões falarem bem dos seus empregados. Por fim, como bom militar, o centurião está acostumado a obedecer e a mandar para ser, por sua vez, obedecido. Parece mesmo que este homem não tenha nada para esconder. Diz o que pensa e age de consequência. A sua fé é simples e sincera. Também com Jesus tem o maior respeito. Não manda, pede. Não cobra, confia. Reconhece não ser digno de Jesus ir até a sua casa; propõe que diga uma só palavra e o servo ficará curado. Os evangelhos são sóbrios por natureza, mas desta vez Lucas expr essa com lucidez o raciocínio do centurião, sem inúteis enfeites ou rodeios de palavras. Jesus mesmo ensinou que devemos saber dizer sim, quando é sim, e não quando é não. “O que passa disso vem do Maligno” (cf. Mt 5,37).

Acredito que esta sinceridade e simplicidade devem caracterizar também, ou sobretudo, a nossa fé. Antes de ser explicitada e declarada no seu conteúdo, a fé deve surgir alegre e aprazível em nosso coração. Não pode ser um peso ou um conjunto de sofisticadas distinções, acolhidas ou não; deve ser uma entrega confiante àquele Deus que assim se fez conhecer, porque assim se manifestou em Jesus e, acreditamos, continua a nos amar e perdoar. A fé pode brotar de algumas simples reflexões sobre a realidade humana. Pensar em nossa própria vida de peregrinos neste mundo pode fazer rir o rei da história, mas é o primeiro passo. No silêncio interior, quando os palavreados se calam, ficamos somente na escuta do nosso coração. Sobressai o essencial. Rezamos para que seja a nossa fé-confiança em Deus-Amor. Para o resto? Talvez uma boa r isada resolva. Rir das nossas complicações é um bom conselho.

Pro vô

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 26/04/13 as 4:21 pm

Pro vô
*Janaína Corrêa Serra

Não tem mais “cafezinho de vô” pra levar. A rotina daqui vai ser outra, que é pra gente se adaptar ao ausente. Alguém se fez de fora, se fez embora mundo adentro, dimensão afora.

Falta uma peça no meu jogo, um personagem na minha história. Essa parte de mim viajou. Pegou carona pra Via Láctea, foi desvendar cometa e descobrir mistério de estrêla. Esse meu homem herói subiu em trem-bala, foi mais rápido do que havia planejado, mas afinal se fosse lento não lhe caberia a autoria.

Quando o físico se vai e só as lembranças se fazem presentes, surge a tal da saudade. Achamos chato se não sentimos tocar mão com mão ou se não olhamos cara a cara. Tolice, pura coisa dos que não aprendem a usar o instrumento mais bonito que há. Povo que esquece de acionar o coração. O amor é maior que todos os tipos de pontes e conexões.

Tonico, canta pra mim. Vô, não quero dormir antes de poder ouvir Carinhoso na tua voz. Ou então antes de escutar que a Pepita de Guadalajara não tem vergonha na cara e que a estrela Dalva no céu vai despontar. Precisava que os teus brancos e prateados deitassem no travesseiro vizinho pela última vez, mas a vida gosta dessas surpresas, adora fazer nossos anjos voarem alto de repente, sem avisar.

Amor meu, não vou te prender, não. Se agora tens asas é porque teu destino é estar no alto, no teu céu de palavras, nessa imensidão azul. Mas olha, vem nos meus sonhos dar um “oi”, vem de vez em sempre que assim não morro de saudade. Como dirias pra mim: Nas nuvens ou na insensatez, me beije só mais uma vez, depois volte pra lá.

*Janaína Corrêa Serra é neta do jornalista Corrêa Neto falecido domingo passado aos 74 anos

Se eu quiser falar com Deus

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 26/04/13 as 1:21 pm

Se eu quiser falar com Deus
*Juliana Corrêa 

juA ausência de meu avô não leva de nós seu legado. Herança essa que ultrapassa as barreiras materiais e entra no campo do conhecimento e da curiosidade. A morte não cala o conhecimento, não cala a ética, não cala a história de uma vida inteira dedicada à informação correta, fosse ela originada de qualquer lugar.

Começo agradecendo imensamente às pessoas que cuidaram de meu avô nos últimos e mais difíceis anos de vida: Dona Rosa, sua fiel secretária, amiga e confidente; Patrício, seu enfermeiro fiel e o mais humano que Deus podia colocar em nosso caminho e Ruth, nossa secretária do lar que todo santo dia cuidava para que tudo acontecesse de maneira a não desregular a rotina da casa.

Ao Dr. Cláudio Leão, que por inúmeras vezes se dedicou aos cuidados com meu avô, ouvindo suas histórias e articulando para que tudo saísse da melhor maneira possível durante suas inúmeras internações e tratamentos intensivos. A seus grandes amigos, de longas datas, Elson Martins, Phelippe Daou, João Silva, Paulo Silva, João Capiberibe, Júlia Alcolumbre, Tabosa, Ana e Sandro Gallazzi, entre tantos outros que ora brigavam, se desentendiam, mas conseguiam perceber que o valor do projeto de vida que eles escolheram todos juntos era maior do que os perrengues do dia-a-dia.

Agradecer imensamente à nova safra de políticos que permitiram que ele morresse com esperança renovada de que daqui pra frente nós faremos o mundo mudar. E também agradecer aos maus políticos, pois graças a vocês, ele conseguiu realizar seu objetivo de vida, que era combater a má política. Entendam que sua ira não era contra as pessoas, e sim contra as condutas erradas.

Nosso muito obrigado a todas as pessoas que debatiam os mais diversos assuntos com ele, via internet. Vocês foram o combustível da vida dele após a doença que limitava sua vida social. Concordando ou discordando das suas convicções, vocês alimentavam sua existência mais do que qualquer nutriente palpável.

Meu avô pode se tornar o homem espetacular que foi, graças a tantos sofrimentos por ele vividos ao longo de seus 74 anos. Em Belém do Pará, ficou órfão de mãe aos sete anos de idade e precisou sofrer alguns maus tratos nas mãos de madrastas até que, aos 16 anos, fugiu de casa para nunca mais voltar.

Ingressou na Marinha, através da qual foi campeão carioca de tênis de mesa e se orgulhava muito de contar que, graças a este título, ele era o único marinheiro fardado que podia entrar no Clube Náutico do Rio de Janeiro para dar aulas de ping-pong. Jogou na equipe sub-21 do Vasco da Gama, seu time do coração até o fim da vida.

Decidiu ser Jornalista por não aceitar passar por esta vida em vão. Voltou ao Pará, desta vez em Bragança, onde conheceu sua esposa Vera. Já ativista na oposição de tudo o que achava incorreto, fugia constantemente da Ditadura Militar e por isso casou-se via procuração. Juntos, foram para Manaus, onde viveu as maiores aventuras que um jornalista pode viver. Dentre elas: voar em um avião Catalina com 16 parafusos a menos na asa para cobrir um grande acidente aéreo no meio da selva. Dentre elas também, fugir dentro de um cesto, no lombo de um burro, floresta adentro, para não ser assassinado pelos soldados da ditadura.

Passou dificuldades no Amazonas, tudo para fazer o que mais amava: comunicar. Veio para o Amapá com sua esposa e os dois primeiros filhos em busca de dias melhores, onde seu pai já estava vivendo. Aqui fez a maior parte de sua história e o restante de sua família. Combateu o governo do antigo Território, foi preso, sofreu tentativa de atropelamento, de suborno e muitos assédios morais, mas nunca calou para absolutamente ninguém.

Discordou de amigos, pediu desculpa a alguns desafetos. Sempre abriu espaço para todo tipo de opinião. Respirava opiniões. Chegava a dizer que era preciso provocá-las para que as pessoas saíssem da zona de conforto.

Vivia dizendo que não queria virar nome de rua, porque isso é inútil. Queria inspirar as pessoas a serem melhores e se quisessem homenageá-lo, que plantassem muitas flores para atrair bem-te-vis e beija-flores, pois ele os adorava.

Pulou as fogueiras dos maus tratos, solidão, fome, tuberculose, diabetes, complicações pulmonares, amputação de uma perna, escreveu até os 74 anos com o auxílio de uma lupa e no fim calou-se… Partiu nos braços de um anjo que Deus colocou em sua vida pra trazer carinho até o último momento, sua namorada Rechene. Não calou, porque tinha muitas perguntas a fazer para Deus.

*Juliana Corrêa é neta do jornalista Corrêa Neto falecido domingo passado aos 74 anos

 

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 31/03/13 as 12:30 am

Páscoa, vida nova
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Contam que o grande cientista Galileu Galilei, já avançado na idade, a quem lhe perguntava quantos anos tinha, respondia: “Oito, talvez dez”.Ao interlocutor, que o olhava sem entender, explicava: “Meu amigo, os anos que eu já vivi não me pertencem mais, já os perdi. O que posso ter ainda é o que resta da minha vida. Portanto, pense bem, o cálculo não está tão errado assim”. Sábias palavras de um homem consciente da pequenez humana.

Estamos acostumados a medir o tempo de nossas vidas tendo como limites o dia do nascimento e o dia, ainda desconhecido, da nossa morte. No entanto se podemos dizer que morremos um pouco a cada dia, podemos também fazer destes dias – da vida que passa – o amanhecer de uma vida nova, a vida de Jesus ressuscitado, que venceu a morte de uma vez por todas.

Fazemos tanto esforço para prolongar a nossa vida. É nossa obrigação, sem dúvida alguma, porque esta vida é o primeiro grande dom que recebemos, de graça, das mãos de Deus. O que vale, porém, não é a mera sucessão dos dias, como se a nossa vida fosse “vegetativa”, o que vale é a nossa maneira de viver. Nós somos uma mistura maravilhosa de pensamentos e ações, de impulsos e decisões, de afetos, desejos e vontades. Assim Deus nos fez: livres, ativos e criativos. Não conseguimos ficar parados como os vegetais; menos ainda nascemos, mais ou menos programados, como os animais. Podemos usar e abusar da nossa liberdade.  Podemos fazer o bem e podemos fazer o mal; às vezes confundimos tudo, mas às vezes est amos muito conscientes das nossas possibilidades de dar a vida ou de destruí-la; de dar esperança e alegria ou de sermos causa de desespero e lágrimas.

Como cristãos já deveríamos ter entendido que a morte verdadeira, afinal, é o mal que fazemos; todo coração incapaz de amar está morto também se funciona perfeitamente e bate sem parar. Precisamos colocar a vida nova da ressurreição de Jesus em nossas vidas, muitas vezes cheias de entulhos e de escuridão, faltando-lhes a beleza e a luz esplendorosa da Páscoa.

Quem teve a paciência de acompanhar a catequese da liturgia da Palavra, durante os últimos domingos da Quaresma, deve estar entendendo tudo isso. Todos os evangelhos nos convidaram a passar da morte para a vida. A figueira devia ser cortada porque não produzia frutos, mas ganhou uma sobrevida, na esperança de não ocupar mais o terreno inutilmente. O pai da parábola disse ao filho mais velho que o outro, o irmão dele, estava morto, mas agora voltou a viver. Por fim Jesus salvou a pecadora do apedrejamento e a devolveu, perdoada, para uma vida nova dizendo para ela: “Vá em paz e não peque mais”. Com o seu trabalho, o vinhateiro se propôs a dar vida nova para a figueira improdutiva. O pai devolveu ao filho aquela dignidade que tinha desprezado, mas nunca perdido. O filho pródigo encontrou uma vida nova no coração do pai que nunca esqueceu aquele que o tinha abandonado e considerado como morto, visto que pediu, antecipadamente, a sua parte da herança. Por fim, a adúltera, já condenada à morte por uma lei amparada por um falso deus, experimentou em Jesus a misericórdia do Pai que não condena o pecador, mas quer que viva por meio do perdão.

Páscoa é, portanto, uma nova vida, vida de amor que vence o ódio e o mal; vida de bondade, compaixão e misericórdia que supera toda indiferença e cegueira do coração. Tempo de vida verdadeira é quando gastamos os nossos dias para amar, mesmo sem ter total consciência disso, e, melhor ainda, se o fazemos sem nenhuma pretensão ou busca de recompensa. Quando saímos do nosso egoísmo interesseiro e amamos o nosso próximo com generosidade e gratuidade é a Páscoa acontecendo; é a vida nova de Jesus produzindo os seus frutos. Os dias que passamos articulando o mal, as horas que perdemos buscando o nosso exclusivo interesse, os instantes que gastamos na desonestidade e na mentira, não são dias de vida, são tempo de morte. Vale a pena nos perguntarmos, dos anos que já  vivemos, quantos vivemos para a vida e quantos para a morte? Talvez seja melhor não perder mais tempo e decidir viver a vida nova do amor de Jesus. É a Páscoa acontecendo a cada instante. Contra esta vida – vida de amor em Cristo – a morte não tem mais poder nenhum, já está vencida.

Artigo

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 27/03/13 as 11:56 am

UEAP rumo a uma Universidade Sustentável
Antonio Claudio Carvalho

Na última quinta-feira, dia 21 de março, o governador Camilo Capiberibe encaminhou à Assembleia Legislativa o Projeto de Lei 001/2013 que institui o Plano de Cargos, Carreiras e Remunerações (PCCR) do quadro efetivo dos docentes da Universidade do Estado do Amapá (UEAP).  Este é certamente um marco histórico, digno de registro, rumo à consolidação de uma das mais importantes estruturas do poder público estadual, em prol da sociedade amapaense.

O passo inicial para isso foi dado logo no início do governo, em janeiro de 2011, quando o governador Camilo Capiberibe nomeou para o cargo de Reitora, a Professora Maria Lúcia Borges. Uma servidora da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), com mestrado e doutorado na área de educação e com mais de 20 anos de experiência na estruturação e melhoria do ensino do Amapá.  Participou decisivamente do modelo exitoso de educação implantado município de Macapá na gestão do então prefeito João Alberto Capiberibe, passando pela secretaria de educação do estado e depois ingressando, através de concurso público, no quadro de docentes da UNIFAP.

Em janeiro de 2011, encontramos uma universidade estadual com uma estrutura sem as mínimas condições de atender as exigências da legislação da Educação Superior.  Não havia tido a preocupação, ou decisão política, de se consolidar legalmente a Universidade junto aos órgãos reguladores, tanto no Conselho Estadual de Educação, quanto no Ministério da Educação (MEC), em Brasília. Literalmente ela só existia no âmbito do estado do Amapá, pois não estava credenciada no MEC e, consequentemente, não constava no cenário da Educação Superior do País, uma vez que não era contabilizada por não participar do Censo da Educação Superior. Muitos dos cursos não tinham nem mesmo o básico: o projeto pedagógico encaminhado ao Conselho Estadual de Educação e a situação era caótica para os estudantes que estavam concluindo o curso, pois não se tinha previsão de formaturas, em razão de não haver condições legais para emissão de diplomas.

Hoje, pouco mais de dois anos depois, a realidade é outra: uma universidade com um quadro de professores permanentes com expressivo número de titulações entre Mestres e Doutores; ex-alunos graduados e diplomados atuando no mercado de trabalho ou prosseguindo os estudos de pós-graduação em instituições de todo Brasil. Mais de 20 alunos egressos da UEAP foram aprovados em seleções de mestrado nas mais importantes universidades brasileiras. No ano passado a UEAP recebeu notas 4 e 3 no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) para os cursos de licenciaturas e engenharias, respectivamente.  Este desempenho colocou a UEAP, dentre todas as universidades brasileiras, no grupo das 26% que receberam conceito 4 e no grupo das 40% que receberam 3. Uma excelente posição entre as universidades da Amazônia.

Não obstante, todos esses resultados positivos não teriam muita importância se não estivéssemos trabalhando rumo à consolidação de uma universidade estadual pública, democrática, eficaz e sustentável.  O primeiro passo neste sentido foi, fundamentalmente, a realização do concurso público que permitiu a formação de um quadro de servidores efetivos na instituição e, por conseguinte, a estruturação das entidades representativas de classes, como a formação do SINDUEAP (Sindicato dos Docentes da UEAP) e o fortalecimento dos Centros Acadêmicos. A eleição dos coordenadores dos cursos dentre dos docentes efetivos é outra demonstração do fortalecimento das instituições democráticas ruma à consolidação e sustentabilidade da UEAP.

O início do processo de construção do PCCR do quadro efetivo dos docentes da UEAP foi um pouco desajeitado e, por isso, houve certos desconfortos e desentendimentos. O SINDUEAP tentou encaminhar diretamente para apreciação do governador Camilo Capiberibe uma pré-proposta feita sob o ponto de vista do Sindicato.  O governador, considerando a importância e magnitude do documento, decidiu que o mesmo teria que ser construído e encaminhado de forma institucional. Assim designou que a Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia (SETEC) priorizasse o ato e, com a reitoria da UEAP deflagrasse o processo de institucionalização do referido PCCR.

Felizmente, como Diretor do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agrário (SINPAF), sindicato que representam os funcionários da Embrapa em todo o Brasil, eu tinha alguma experiência no assunto em tela. Como membro da Comissão de Negociação do SINPAF, participei diretamente da construção dos dois mais exitosos Acordos Coletivos implantados nos Centros de Pesquisa da Embrapa em todo o Brasil (2007 e 2008).   Essa experiência ajudou muito a liderar a construção do PCCS da UEAP.  O primeiro passo que adotamos como coordenador do processo foi instituir uma comissão de negociação paritária, formada entre os dirigentes do SINDUEAP e da UEAP, com agenda pré-definida de reuniões e obrigatoriedade do registro em Atas de cada item negociado.  Assim, com acumulação dos pontos convergentes, acordados e registrados, formos adquirindo confiança entre as partes e subindo degrau-a-degrau, em busca de um documento que pudesse ser pactuado ente o Governo e os docentes da UEAP. O processo não foi simples, precisamos de quase cinco meses de intensivos e calorosos debates. Às vezes cordiais, às vezes tensos, mas sempre com o canal aberto de negociações e confiança entre as partes. O final foi um documento moderno e inteiramente legitimado.

As conquistas desse PCCR serão decisivas na consolidação do futuro da UEAP. Seus efeitos serão sentidos de imediato, evitando evasão no quadro atual dos docentes e contribuindo significativamente na atração de quadros altamente qualificados, que juntos formarão a base dos futuros dirigentes da instituição.  Os três pró-reitores nomeados recentemente são todos do quadro efetivos dos docentes da UEAP.

Essa é uma boa oportunidade para dizermos obrigado Sr. Camilo Capiberibe. Primeiro, por sua visão de estadista e apoio político que nos permitiu tamanho avanço, concluindo um PCCS sólido que garante atraentes condições iniciais e uma progressão contínua na carreira dos docentes. Segundo, por sua determinação que já definiu a agenda para começarmos o processo de consolidação do quadro dos técnicos administrativos da UEAP.  Obrigado também, pela Lei de sua autoria, que como deputado estadual fixou o orçamento da UEAP em 2% do ICMS e agora, como governador, ter implantado esse orçamento, que totaliza já para o ano de 2013 mais de 12,5 milhões de reais.   Por fim, os esforços que o governo está envidando para lançar nos próximos meses a Ordem de Serviço da construção do campus definitivo da UEAP na rodovia JK,  nos dão a certeza que em breve teremos uma universidade estadual consolidada e sustentável.

1ANTONIO CLAUDIO CARVALHO é funcionário de carreira da Embrapa, mestre em estatística aplicada pela USP e doutor em desenvolvimento pelo NAEA. Atualmente ocupa o cargo de Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia do Amapá.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 24/03/13 as 2:03 pm

Fraternidade e Juventude
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

No capítulo terceiro da Regra de São Bento podemos ler esta norma: “Todas as vezes que devem ser feitas coisas importantes no mosteiro, convoque o Abade toda a comunidade e diga ele próprio de que se trata. Ouvindo o conselho dos irmãos, considere consigo mesmo e faça o que julgar mais útil. Dissemos que todos fossem chamados a conselho porque muitas vezes o senhor revela ao mais jovem o que é melhor”.

Este grande santo, vivido entre o quinto e o sexto século, fundador de uma ordem monástica que existe, ainda hoje, já tinha entendido que os jovens podiam colaborar de maneira eficaz na própria organização dos mosteiros. Podemos pensar também que se São Bento teve que colocar esta norma na sua Regra foi, talvez, porque, raramente, os jovens eram ouvidos nas questões “importantes” da fraternidade. Talvez seja esta uma questão que, apesar de ter passado tantos anos, de fato se apresente a cada geração. Sempre ouvimos falar de “conflito” generacional, de uma confrontação entre o que os mais adultos afirmam ser o certo e o novo que os jovens acreditam ter condições e capacidades de fazer.

Podemos ler também deste ponto de vista a história do mundo. De geração em geração, de conflito em conflito, as coisas vão caminhando. O que parecia imutável no passado, os jovens transformam ou vivem de maneira diferente e criativa. Nenhuma mudança é fácil. Nenhuma passagem acontece sem sofrimentos e saudades. No entanto devemos reconhecer que é na continuidade da busca que se abrem novos caminhos, que se alcançam novas metas, as quais, por sua vez, abrem a outros horizontes. Assim vai a história da humanidade, ela nunca vai ser uma mera repetição do passado, nunca se cansa de nos surpreender. Com um ritmo cada vez mais acelerado cada geração jovem freme por querer dizer e fazer algo de novo. Os saudosistas ficam para trás e o novo irrompe na vida com a força e a garra da juventude. Quantas ideias, quantas descobertas científicas, quantas intuições brotaram nos primeiros anos da vida das pessoas, junto com os sonhos e os projetos de quem sabe que tem a vida toda à sua frente. Nem tudo o que foi imaginado poderá tornar-se realidade, mas, sem dúvida alguma, alimenta a esperança, dá força para superar obstáculos, leva a tomar decisões novas e corajosas.

Assim deveriam ser os jovens, todos os jovens. Lamentamos que alguns busquem a felicidade trilhando caminhos errados que levam à tristeza, à solidão, à morte. Outros, por se sentirem mal amados, pensam em afirmar-se com a violência. Nada entristece mais que a visão de jovens desperdiçando as suas melhores capacidades e energias, sem rumo algum, tendo perdido qualquer sentido da vida.

Vivemos numa sociedade onde o mito da juventude eterna tomou conta dos mais adultos. Quantos sacrifícios inúteis são feitos para esconder os anos que se acumulam nos rostos e nos gestos dos mais velhos. Os jovens não precisam fingir ou pintar uma juventude que não existe mais. Eles são jovens mesmo, cheios de vida, de sonhos e de esperanças. Cabe aos adultos colaborar com eles, escutá-los com carinho e amizade. Os jovens, também com as revoltas deles, pedem para ser ajudados, querem saber dos adultos se vale a pena lutar por coisas grandes como a verdade e a justiça, a fraternidade e a paz. O mundo jovem não precisa somente de celulares, computadores, tabletes ou redes sociais e tudo o que eles sabem utilizar com habilidades surpreendentes, eles precisam também dar respostas às perguntas que todo ser humano se faz: se são o dinheiro e o poder que fazem as pessoas felizes, se o amor existe ou se todas as alegrias da vida acabam com o passar dos anos, deixando só feridas e amarguras.

Os jovens querem saber se vale a pena ainda acreditar em Deus, se compensa ser amigos de Jesus e confiar nele. É nesses momentos que os pais, os mestres e a sociedade toda, podem ajudar os jovens a dar um sentido à própria vida. Não somente com conselhos e boas palavras, mas com o exemplo de adultos que vivem e praticam o que cobram dos mais jovens. Precisamos de adultos capazes de transmitir às novas gerações a beleza da vida – e da fé, para quem acredita – para que estas, por sua vez, não somente continuem no mesmo caminho, mas façam ainda mais e sejam melhores. Somente assim os mais velhos deixarão este mundo com o coração em paz e os mais jovens não se esquecerão, tão cedo, dos bons exemplos daqueles que os precederam.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 17/03/13 as 12:33 am

Chifres o orelhas
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um leão foi ferido pelos chifres de um touro. O rei dos animais baixou uma ordem, então, para expulsar do reino todos os animais que tivessem chifres. Espalhada a notícia, cabras, touros, carneiros, veados, corças, fizeram as suas trouxas e mudaram de ares. Uma lebre que comia grama, vendo a sombra das suas orelhas, achou-a parecida com chifres e resolveu ir embora também, apavorada com a possibilidade que os guardas do rei leão a descobrissem. Antes de se afastar foi despedir-se do amigo grilo que ficou admirado com a decisão da lebre. O grilo tentou de todo jeito fazer a lebre voltar atrás na decisão tomada, mas não conseguiu, pois esta confessara que morria de medo ao pensar que alguém poderia se enganar, pensando que suas orelhas fossem chifres.

Uma historinha antiga e popular para nos lembrar com quanta facilidade e superficialidade, muitas vezes, julgamos os outros e, por consequência, somos julgados. Justamente porque vivemos em comunidade somos objeto dos olhares e das críticas alheias. Em muitos lugares, hoje, lemos avisos com as palavras: “Sorria, você está sendo filmado”. É um alerta para saber que alguém está nos reparando através de uma telecâmera. Talvez não seja sempre verdade, mas é melhor não arriscar. Ninguém gosta de ser surpreendidos por uma multa entregue pelo Correio, ou por um vigilante na saída do Supermercado querendo surrupiar nossa bolsa. Tudo em nome da segurança, podemos até concordar. A questão é que, quase sempre, o olhar dos outros é também um julgamento. A frase poderia ser mudada em: “Sorria, você está sendo julgado”, que não mudaria quase nada, porque é o que acontece. Vendo os outros fazerem alguma coisa, já especulamos o que seja e o porquê o estejam fazendo. Difícil escapar da imaginação dos outros. Obviamente, isso vale também para nós: o que não sabemos, inventamos. Se depois a bisbilhotice eletrônica se espalha com a velocidade da luz, pouco importa. O estrago já foi feito, ou, quem sabe, tenhamos defendido a verdade e desmascarado a mentira.

Nada de mais atual que o caso da mulher do evangelho deste domingo surpreendida em flagrante adultério. Culpa tão grave de merecer, naquele tempo, e com aquelas leis, o apedrejamento. Talvez hoje as pedras que temos nas mãos sejam as mensagens da internet, mas continuam sendo, muitas vezes, fatais. Quantas pessoas sofrem por muito tempo as consequências de uma exposição caluniosa ao público ávido de novidades e de escândalos. Raramente, depois, dá para desfazer o mal causado.

Como cristãos devemos ser sábios e prudentes. Não somente pelas palavras de Jesus: “Quem é sem pecado atire a primeira pedra” (Jo 8,  ), mas sobretudo para não confundir o pecado com o pecador. É verdade que o pecado existe porque existe quem o pratica e, portanto, é algo de real e não uma mera ficção. No entanto Jesus nos lembra da cura da misericórdia e do perdão justamente para salvar a vida do pecador. “Pois Deus enviou seu Filho ao mundo não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17). Salvação que quer alcançar a todos, também aos que estão julgando a mulher! A eles também Jesus oferece o perdão na condição que se reconheçam pecadores e mudem de vida. O pior para nós todos é quando queremos julgar sem sermos julgados; queremos condenar os outros nos considerando melhores. Talvez sejamos tão responsáveis das coisas erradas do mundo quanto aqueles nossos irmãos que condenamos; não pelo mal que talvez, graças a Deus, não fazemos, mas,  simplesmente, pelo bem que deixamos de fazer.

O mal não é vencido pelas condenações, mas pelo amor que resgata, pela caridade que ajuda a sair das situações perigosas, pela solidariedade que humaniza a vida. Nós cristão acreditamos que nenhum ser humano pode vencer o mal por sua própria conta, precisa se deixar amar – até a morte na cruz – pelo amor de Jesus. Amor gratuito, total, para todos. As palavras finais do evangelho são: “Mulher, ninguém te condenou?… Eu também não te condeno. Podes ir em paz e, de agora em diante, não peque mais”. Hoje podemos dizer, com razão, uns aos outros: Sorria, você está sendo salvado . Pelo amor de Jesus.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 17/02/13 as 1:17 pm

A tentação da curiosidade
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

O dia estava muito quente. Um empregado trabalhava duro no jardim do seu patrão. Sem pensar duas vezes, começou a blasfemar gritando contra Adão e Eva porque, pensava, afinal foram eles a causa de tanto suor e fadiga. O patrão ouviu as suas imprecações, aproximou-se dele e perguntou:

- Por que estás xingando tanto assim Adão e Eva? Aposto que no lugar deles nós também teríamos feito a mesma coisa.

- Eu não – respondeu – irritado o trabalhador – eu teria resistido à tentação!

- Veremos – disse o patrão, e o convidou para o almoço.

Na hora marcada, o empregado apresentou-se à casa do senhor e foi levado a uma sala onde tinha uma mesa preparada com vários tipos de comida. O patrão lhe disse:

- Pode comer tudo o que quiser; somente não deve mexer na vasilha tampada que está no meio da mesa, até a minha volta.

O trabalhador, que estava com muita fome, aproveitou bastante da comida. No entanto, morrendo de curiosidade, não tirava os olhos da vasilha que estava no meio da mesa. O que estava escondido lá dentro? O patrão demorava e ele não resistiu. Bem devagarzinho levantou um pouco a tampa. Imediatamente saiu um rato. O empregado fez de tudo para pegá-lo e colocá-lo de volta. Mas a caçada foi difícil. Pratos caíram no chão e algumas cadeiras foram derrubadas ruidosamente. Com a zoada o patrão voltou e disse, sorrindo, ao seu funcionário:

- Meu amigo, daqui para frente será melhor xingar menos Adão e Eva, viu?

Uma historinha alegre para refletir sobre um assunto muito sério: a fragilidade humana. Cada um de nós tem as suas tentações e todos os dias experimentamos como é difícil resisti-las. Apesar dos alertas da nossa consciência sobre o erro que estamos para cometer, a tentação se apresenta sempre muito atrativa, fácil, vantajosa e sem perigo. Por que não aproveitar? Um pouco de risco também, muitas vezes, em lugar de desanimar, aumenta a vontade de provar a nossa esperteza. Como resistir? São Paulo diria: Quem me libertará deste corpo de morte? Ele mesmo responde: Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. (cf. Rom 7,24-25).

No primeiro domingo de Quaresma, sempre encontramos um evangelho que nos fala das tentações de Jesus no deserto. Tentações terríveis que o acompanharam a vida inteira. O que estava em jogo era a própria missão dele. Jesus podia ter aproveitado da sua fama de “messias” para chegar ao poder, à riqueza, ao inebriante sucesso humano. Com certeza também alguns dos seus seguidores queriam que ele instaurasse um reino poderoso neste mundo. Um reino onde ele seria o mais importante, onde seria deus! Esta é, e sempre será, a tentação de todo ser humano: aceitar ser criatura limitada e, portanto, admitir a própria dependência de Deus, ou querer ser “deuses” e assim travar uma luta sem fim onde o Outro acaba sendo o eterno rival.

Desde a primeira tentação apresentada pela Bíblia tudo não passa de um grande engano. Deus oferece ao homem e à mulher um jardim para que sejam felizes, dentro dos limites de serem “criaturas” amadas por Ele. Na relação de obediência amorosa a Deus realizarão o sentido de suas vidas. Para serem felizes o homem e a mulher devem confiar em Deus. No entanto não pode ter amor verdadeiro sem liberdade e, portanto, sem uma adesão consciente e responsável. É neste ponto que entra em cena o Tentador. Simplesmente ele distorce para o casal a imagem de Deus. Ele não é nada confiável: Mente – não é verdade que irão morrer – e é ciumento, porque não lhes deixa conhecer o bem e o mal, assim nunca serão como Ele. Os dois caem na tentação, duvidando da palavra de Deus. A opção de toda escolha não é simplesmente entre ter fé ou não tê-la, é entre confiar em Deus ou optar pela própria autossuficiência.

A falta de fé-confiança nos afasta, cada vez mais, de Deus e nos impede de compreender o seu amor. A obediência-confiança total de Jesus ao Pai vence toda tentação e reconduz toda a humanidade, uma vez por todas, ao reencontro com o Deus verdadeiro, rico em misericórdia.

Em Jesus acaba a disputa entre Deus e o homem, porque nele Deus se manifestou plenamente confiável. Para nós é possível novamente corresponder livremente ao amor de Deus, porque Ele mesmo nunca deixou – e nem deixará – de amar a humanidade, mesmo quando é desobediente, revoltada e pecadora. Aí está a força para vencer toda tentação. Muitas vezes, porém, ainda “confiamos” mais nas ilusões do Tentador do que nas Palavras de Deus. A quaresma é sempre um tempo bom para reavivar a nossa fé, para reconstruir em nós a imagem dEle que o mal desfigurou.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 03/02/13 as 12:17 am

A Meridiana
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um rei do Oriente trouxe de uma viagem em terras longínquas uma meridiana para os seus súditos que ainda não conheciam as horas. Aquela invenção mudou a vida das pessoas. Olhando a meridiana, todos aprenderam rapidamente a dividir e a organizar as horas do dia. Começaram a ser diligentes, pontuais e ordenados. Dessa maneira, em poucos anos, o reino prosperou e ficaram ricos. Quando o rei morreu, os súditos, agradecidos, decidiram erigir um monumento que o lembrasse para sempre. A meridiana, também, era o símbolo e a origem das suas riquezas e, portanto, resolveram construir ao redor dela um magnífico templo com a cúpula de ouro. Quando acabaram de fechar a cúpula, os raios do sol não alcançaram mais a meridiana e assim aquele fio de sombra, que havia marcado o tempo, em todos aqueles anos, desapareceu. Em pouco tempo, alguns cidadãos deixaram de ser pontuais, outros faltaram com a diligência e outros voltaram a ter uma vida totalmente desordenada. Cada um resolveu andar pelo seu caminho, fazer as coisas quando e como bem queria, sem mais nenhuma atenção para os outros. O reino todo foi para a ruína.

A moral da história é simples. Aquelas pessoas deram muito valor à meridiana e se esqueceram da luz do sol que, de fato, fazia funcionar o relógio mais antigo do mundo. Isso acontece quando nós não buscamos o sentido mais profundo da vida e dos nossos conhecimentos. Ficamos satisfeitos com as aparências e perdemos a substância. Ocorre também com as pessoas e com as situações que vivemos.

O evangelho deste domingo é a continuação do trecho proclamado na semana passada. Jesus ainda está em Nazaré e o povo fica encantado com as suas palavras.  Devem ter pensado: se, como dizem, este homem tem poderes extraordinários, ele é dos nossos e vai fazer o que nós queremos. A eles não interessava quem era Jesus de verdade, quem o tinha enviado e por quê. Queriam curas, milagres, nada de questionamentos ou compromissos. No entanto Jesus tinha muito mais para lhes dizer. O amor de Deus que ele ensinava não podia ficar exclusivo para uma só aldeia, para um só povo. O Reino de Deus que ele anunciava e resgatava era, e é, muito maior porque é para todos. Com efeito, Deus não distribui privilégios porque quer a fraternidade. Não distingue ninguém com vantagens e regalias porque quer a partilha e a comunhão. O amor do Pai que Jesus manifestava devia chegar até os confins da terra. Todos os pobres e sofredores deviam poder ouvir e acreditar na boa notícia que o Filho amado vinha  comunicar. Todos deviam poder participar da alegria dos pequenos aos quais sempre são desvendados os segredos de Deus.

Se os moradores de Nazaré tivessem acolhido as palavras de Jesus poderiam ter sido os primeiros praticantes do Reino, os primeiros construtores da paz e da justiça. Um exemplo para todos. Mas não foi assim, não quiseram acreditar no profeta que tinha saído deles e que agora os convidava a segui-lo numa missão tão grande, tão nova e… tão perigosa. É sempre muito arriscado querer mudar o mundo e dizer coisas diferentes.  – Quem ele acha que é? – devem ter pensado – Melhor acabar logo com este exaltado antes que faça maiores estragos com as suas ideias e o seu modo de agir! -.  A tentativa de matar Jesus, jogando-o no precipício foi somente uma antecipação do que um dia irá acontecer com ele e o que sempre muitos tentam fazer quando a luz e a esperança do Evangelho interferem nos seus planos tenebrosos de orgulho e de poder.

“E a luz brilha nas trevas e as trevas não conseguiram dominá-la” escreve São João no prólogo do seu evangelho. A luta entre a luz e as trevas continua também na vida de cada um de nós. Quantas vezes achamos melhor apagar esta luz. Mas o resultado é desastroso. Sem a luz de Deus, sem a luz da fé e do amor só podem ganhar o mal, a desordem e a confusão. Como naquele reino onde, sem a luz do sol, a meridiana parou de funcionar. E a ruína foi grande.

Artigo

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 31/01/13 as 11:30 am

Leis rigorosas existem, o que falta para haver redução no número de mortes no trânsito no Brasil?
Alex João Costa Gomes

joaogomesNos últimos anos temos observado um aumento no rigor das leis de trânsito no país, mas paralelo a isso houve um aumento também no percentual de mortes no trânsito brasileiro. Segundo o Instituto Avante Brasil (IAB) que realiza estudos acerca desse tema, há um crescimento anual de 4% no número de mortes em nossas vias. Entre 2001 e 2010 o crescimento foi de 40,3%. Para o IAB em 2012 a estimativa era de mais de 46 mil mortes, já para 2014 durante a Copa do Mundo teremos, caso esse crescimento continue, mais de 50 mil mortes no trânsito do Brasil. O sinal de alerta já foi ligado a muito tempo.

Com a entrada em vigor da Lei 9.504/97 que é o nosso Código de Trânsito Brasileiro (CTB), houve redução no número de mortes em 1998, foram 30.890 nesse ano, redução considerável em relação a 1997 que foi de 35.620. Em 2008 entra em vigor a Lei 11.705/08, conhecida como Lei Seca, o rigor aumenta e a população fica cautelosa, mas logo o jeitinho brasileiro entra em ação, e formas de burlar a Lei Seca foram criadas. Em 2012 entrou em vigor a Lei 12.760/12, dando mais respaldo aqueles que realizam a fiscalização de condutores dirigindo sob o efeito do álcool. Agora no último dia 23 de janeiro, entrou em vigor a Resolução de nº 432/13 do CONTRAN, dispondo sobre os procedimentos a serem adotados pelas autoridades de trânsito e seus agentes de fiscalização no que tange ao consumo de álcool e a direção veicular, é a chamada Tolerância Zero.

Ao longo dos anos no país normas mais rigorosas foram criadas, citamos alguns exemplos de leis relacionados à questão do consumo de álcool e direção, visto que o número de mortes no trânsito por causa dessa combinação perigosa (álcool e direção) é um fator relevante, além do que estamos no período de carnaval no Brasil, onde o consumo de álcool aumenta, bem como o número de acidentes de trânsito e mortes. No Amapá em 2011 e 2012 não houve mortes no trânsito durante o período carnavalesco (os dias de festas), o poder público tem agido com o objetivo de evitar que isso aconteça, mas é algo que não depende tão somente da vontade e ações dos Órgãos de fiscalização de trânsito. Segundo estudos do DENATRAN o fator humano é preponderante para que aconteçam os acidentes e mortes em nossas vias, são da ordem de 90% (imprudência, negligência e imperícia), 4% são oriundos de falhas mecânicas no veículo e 6% devido às condições da malha viária.

Temos Leis rigorosas, ações integradas do poder público, campanhas de conscientização na mídia, notícias nos meios de comunicação diuturnamente sobre acidentes e mortes no trânsito pelo país, até porque diariamente mais de 130 pessoas perdem a vida em nossas vias, e esse número pode ser bem maior, por ano temos mais de 40 mil mortes, então, o que está faltando para ocorrer uma redução efetiva no número de mortes no trânsito brasileiro? Sinalização, fiscalização, ações educativas ou disciplina consciente? Devemos nos julgar primeiramente, verificar nossas ações para com essa problemática, quem sabe não encontramos uma resposta.

Como é tempo de carnaval, vamos nos divertir, mas com responsabilidade, respeitando as normas vigentes e principalmente a vida.

Alex João Costa Gomes  é Bacharel e Licenciado em História

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 27/01/13 as 3:06 am

Eu fiz a ti
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

 Um santo homem passeava pelas ruas da cidade quando viu, numa esquina, uma criança maltrapilha e suja pedindo esmola. Elevou o seu pensamento a Deus:

- Ó Senhor, como podes permitir uma coisa destas? Suplico-te, faças alguma coisa.

De noite, sentado na poltrona de sua casa, assistiu ao noticiário da TV. Apareceram cenas de violência, de morte, de crianças abandonadas, feridas e doentes. Novamente rezou:

- Ó Senhor, quantos sofrimentos. Eu te peço, faças alguma coisa, por favor!

No silêncio da noite, o Senhor Deus lhe disse claramente:

- Eu já fiz alguma coisa: fiz a ti!

Muitas vezes pensamos que seja obrigação de Deus resolver certos problemas. Ou que Ele tenha ficado indiferente e insensível aos nossos sofrimentos. Chegamos a duvidar do seu amor. Este não é somente um dos mal-entendidos a respeito de Deus, é também a forma mais simples para nos desculparmos e não assumirmos as nossas responsabilidades. Será mesmo que Deus não fez – ou não faz – nada para nos ajudar?

O evangelho deste domingo nos apresenta Jesus voltando à sua cidade natal: Nazaré. Já havia muitas conversas sobre ele; algumas boas, falavam das suas curas e dos seus milagres, outras lembravam a sua família conhecida por todos. Jesus também ensinava. Assim lhe deram para ler e comentar um trecho do livro do profeta Isaías. Animado pelo Espírito, o profeta proclamava em poucas palavras o grande projeto de Deus. Estava comunicando a boa notícia da libertação para todos os que estavam presos pelas correntes da miséria, da opressão, da injustiça, da cegueira. Começava algo de novo; devia ser o tempo no qual se manifestava a bondade e a presença amorosa de Deus junto ao seu povo. Entendemos que eram palavras belíssimas capazes de dar coragem aos desanimados e reacender a esperança nos corações enfraquecidos. A pergunta que surgia, porém, nos corações dos ouvintes era sempre a mesma: “Até quando devemos esperar para que tudo isso aconteça? Talvez ocorra se Deus mesmo vier no meio de nós”. Mas, desta vez, inesperadamente, pela boca de Jesus, um homem igual a eles, bem ali na frente deles, veio a confirmação: “Hoje, se cumpriu esta passagem da Escritura que acabaste de ouvir” (Lc 4,21).

“Hoje”, é a palavra chave para entender não somente esta página do evangelho, mas a própria missão de Jesus. O “hoje” não significa que tudo já está feito e que nada mais tem para fazer. Isso é o que pensam os que acham que Jesus devia ter resolvido todos os problemas uma vez por todas e que, portanto, não devia ter mais sofrimento e injustiça alguma no mundo. A terra já deveria ser um céu. No entanto se ainda não é assim é porque Jesus foi um grande mentiroso e um vendedor de ilusões. Igual aos moradores de Nazaré que ficaram decepcionados com Jesus. Eles teriam gostado muito mais dele se tivesse sido um milagroso salvador da pátria. Pelo jeito, os preconceitos não mudaram muito.

O “hoje” do evangelho de Lucas significa que o tempo da espera terminou, porque agora o próprio Jesus é a boa notícia que Deus está enviando à humanidade. Ele é o “hoje” do Reino, acontecendo. Quem acreditar nele e começar a viver o que ele ensina encontrará a sua própria libertação. Quem seguir a Jesus experimentará o que significa quebrar, primeiro em si mesmo, as correntes do egoísmo e do desamor. Não poderá mais explorar ou escravizar alguém, não poderá mais desprezar um irmão. Será olhos para os cegos, ouvido para os surdos, pernas para os paralíticos, esperança para os tristes e abatidos. Perdoará inimigos e chegará a doar a sua própria vida.

O “hoje” do amor de Deus para com todos já começou, só falta a nossa colaboração, só falta acreditar mais. Falta ter a certeza de que a fraternidade, a paz e a justiça, não são mais impossíveis. Infelizmente continuamos desacreditando na capacidade do amor de transformar o mundo e os corações humanos. Assim não enxergamos o bem que acontece ao nosso redor, a fé que move montanhas, o Reino de Deus, grão de mostarda, crescendo. Em lugar de cobrar de Deus deveríamos acreditar mais no “hoje” do bem e fazê-lo acontecer, aqui e agora, em nossas vidas. Ele nos fez cristãos para isso.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 13/01/13 as 4:26 pm

O rosto de Jesus
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um dia o monge Epifânio descobriu que tinha o dom de pintar belíssimos ícones. Queria pintar um que fosse a sua obra prima; queria pintar o rosto de Jesus. Mas onde encontrar um modelo certo que expressasse ao mesmo tempo, sofrimento e alegria, morte e ressurreição, divindade e humanidade? Epifânio não teve mais sossego, viajou a Europa toda perscrutando cada rosto. Nada. O rosto capaz de representar Jesus simplesmente não existia.

Uma noite, porém, quando estava repetindo as palavras do salmo: “A tua face, Senhor, eu procuro. Não me escondas o teu rosto…” pegou no sono. Teve um sonho. Um anjo o reconduzia junto às pessoas que havia encontrado e lhe mostrava um detalhe que tornava aquele rosto semelhante ao de Jesus: a alegria de uma jovem noiva, a inocência de uma criança, o sofrimento de um doente, o medo de um condenado, a bondade de uma mãe, o desânimo de um órfão, a severidade de um juiz, a hilaridade de um menestrel, a misericórdia de um padre, o rosto desfigurado de um leproso.

Epifânio voltou para o seu convento e começou a trabalhar. Um ano depois, o ícone estava pronto e o apresentou ao abade e aos confrades. Todos ficaram boquiabertos e caíram de joelhos. O rosto de Cristo era, simplesmente, maravilhoso; tocava o coração, questionava e alegrava. Inutilmente perguntaram a Epifânio quem tinha sido o modelo.

Ainda hoje podemos somente imaginar o rosto de Jesus. Artistas, santos e poetas continuam livres para representá-lo por meio de todas as artes antigas e modernas. Cada um de nós pode fazer o mesmo. Todos podemos dizer que possuímos o “nosso rosto” de Jesus.  É aquele que fala ao nosso coração. Mas ninguém poderá dizer ter o único e definitivo retrato do Senhor, porque ele não cabe em nenhuma moldura, também se, ao mesmo tempo, deixa-se encontrar por todos. A busca nunca vai acabar. No entanto não é por isso que o conhecemos menos ao ponto de confundi-lo com outros. Os Magos acertaram e adoraram aquele Menino – e somente aquele – com Maria, sua mãe. No meio de tantos que iam receber o batismo de penitência de João Batista, o céu se abriu sobre Jesus – e somente sobre ele – e a voz do Pai falou: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu benquerer”.

Se for verdade que podemos fazer obras de arte diferentes sobre Jesus, ele, no entanto, continua o único Filho amado pelo Pai, da manjedoura de Belém até a cruz e o túmulo vazio da Páscoa. Nós cristãos acreditamos que o único Deus verdadeiro se fez conhecer, em sua plenitude, em Jesus. João na sua primeira carta escreve: “Todo aquele que nega o Filho também não possui o Pai. Quem confessa o Filho possui também o Pai” (1 Jo 2,23) e na segunda: “Todo aquele que se adianta e não permanece na doutrina de Cristo, não possui a Deus. Aquele que permanece na doutrina, esse possui o Pai e o Filho” (2 Jo 9).

Por que tanta insistência nessas citações? Porque estamos vivendo o Ano da Fé e, desde a sua abertura, os católicos são convidados a decorar e rezar os Símbolos de nossa fé: os “credos”. Afinal eles são a ampliação da fórmula do batismo cristão, obedecendo à ordem de Jesus de batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (cf. Mt 28,19). Lembram-nos o que afirmamos e acreditamos do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ao mesmo tempo, porém, defendem-nos de afirmações erradas, de proclamações que não tem nada a ver com a fé cristã. Uma maneira para nos alertar dos “falsários”, antigos e modernos, daquelas obras de arte que são as “profissões da fé”, os credos, e que nos foram transmitidas de geração em geração. Quem afirmar algo diferente, portanto, está falando de outro Jesus, talvez de outro Deus, é bom sabê-lo.

Podemos continuar a busca por um modelo do rosto de Jesus, mas que bom se ao rezarmos o Credo, ao professarmos sinceramente a nossa fé, caímos de joelho e ficamos admirados e atraídos pelo nosso Deus, agradecidos por ter enviado o seu Filho amado, que, ainda hoje, podemos encontrar, conhecer, amar e seguir.

Artigo

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 07/01/13 as 1:21 pm

Torna-te quem és
Wagner Gomes

Certas pessoas dão mais importância à moldura que ao conteúdo do quadro; mais ao veículo que os transporta do que à paisagem que as rodeia; mais a forma que à essência das coisas e das gentes.

Não quero perder mais tempo com a discussão do “sexo dos anjos”, nas teorias sem praticidade, das práticas sem teor concreto e significativo. Enfim…, não suporto perder meu tempo.

Aprendi com Quintana que, “existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma época da vida de cada pessoa em que é possível sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar apesar de todas as dificuldades e todos os obstáculos. Uma só idade  para nos encontrarmos com a vida para vivermos apaixonadamente e aproveitarmos tudo com toda a intensidade, sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que podemos criar e recriar à vida nossa própria imagem e semelhança, vestirmo-nos de todas as cores, experimentar todos os sabores e entregarmo-nos a todos os amores sem preconceitos nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que toda a disposição de tentar algo de novo e de novo  quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na nossa vida chama-se presente e tem a duração do instante que passa”.

Por outro lado aprendi também a lição do escritor argentino Jorge Luis Borges que no fim da vida encarou “se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito. Relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério… Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais os entardeceres, subiria mais nas montanhas, nadaria mais nos rios. Iria a lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvetes e menos sopa. Teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Eu fui uma destas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida. Claro que tive momentos de alegria mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Não percam o agora… Se pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente…”.

Para encerrar e homenagear os amigos e amigas (Ronaldo Serra, Eduardo Correa, Márcia Correa e Vitória Machado) que me acompanharam num recente amanhecer em frente ao Rio Amazonas, e sentindo que o “tempo foge”, compartilho texto de Ricardo Gondim, que me parece bastante elucidativo para quem “precisa viver”, pois a felicidade só acontece em raros momentos de distração:

Tempo que foge!

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos à limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: – Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo. – Texto extraído do livro “Eu creio, mas tenho dúvidas – a graça de Deus em nossas frágeis certezas”. Editora Ultimato, Viçosa – MG, 2007, p. 102 – 103. (WAGNER GOMES)

Receita para desvotar

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 27/12/12 as 5:45 am

RECEITA PARA DESVOTAR
Ruben Bemerguy , advogado

“quando se me impõe a solução de um caso jurídico ou moral, não me detenho em sondar a direção das correntes que me cercam: volto-me para dentro de mim mesmo, e dou livremente a minha opinião, agrade, ou desagrade a minorias, ou maiorias”. (cfr. Rui Barbosa “O dever do Advogado” Fundação Casa de Rui Barbosa, Ed. AIDE, 1994, pág. 43).

O exercício liberal da advocacia, especialmente aos que se dedicam um pouco ao direito administrativo e constitucional, proporciona uma leitura relativamente real da conjuntura política vivida no Estado. É que, muitas vezes, a coincidência de fatos postos a defesa, de tão repetitivos, proporcionam interpretar o ambiente político a que todos estamos sujeitos.

Me refiro, em curtas palavras, ao que observo, a partir de minha profissão, na gestão da saúde pública. O diálogo do Estado com o conjunto dos agentes que atuam na área, sejam pessoas físicas ou jurídicas, servidores públicos ou não, parece ver-se substituído pela desnecessária – essa palavra merece ser sublinhada – e grave violência política – essa também merece – que instrumentaliza um perverso maniqueísmo que, por sua vez, em minha opinião, oculta, ou pelo menos disfarça, o adequado enfrentamento as demandas da saúde pública.

É uma pena que essas demandas, com as quais me deparo e enfrento dia a dia, se limitem a nosso escritório de advocacia e se comprimam em escaninhos forenses sem que se oportunize, por falta de instâncias sociais públicas, um sério debate sobre o comportamento do Estado e seus reflexos em direitos individuais, quando menos.

Ilustro meu sentimento a partir de apenas dois casos concretos:
O Estado do Amapá firmou contrato com empresa (por razões éticas, vez que não tenho autorização para fazê-lo, deixo de registrar o nome que a distingue) para prestação de serviços de tomografia em um hospital público, cedendo, inclusive, além de equipamento, área no interior de hospital público para viabilizar o serviço. A empresa, por sua vez, conduziu também, além de profissionais, outros equipamentos ao local para permitir o desempenho. Entre os equipamentos constavam cadeiras, geladeira, lixeiro, maca, bebedouro, entre o mais. Ocorre que a inadimplência contratual do Estado obrigou a paralização dos serviços e, após intervenção do Ministério Público, nova licitação, para os mesmos serviços, foi feita, sagrando-se vencedora a mesma empresa.

O Estado do Amapá, ao invés de adjudicar a licitação, ou anulá-la se assim motivasse, preferiu a solução mais inapropriada, mais impetuosa, irascível mesmo, e confiscou todos os bens da empresa privada sob o álibi curioso da existência de um “estado de emergência”. Não desconheço que a situação da saúde no Estado é crítica, mas essa debilidade não se eterniza por acaso e não é com a prática truculenta que será superada. O certo que a falta de ternura administrativa levou consigo, manu militare, às cadeiras, geladeira, lixeiro, maca, bebedouro e tudo mais, para atender a urdida emergência. Não teria o Estado do Amapá capacidade de adquirir esses bens por meios próprios e lícitos a qualquer tempo respeitando o patrimônio alheio? Estaria o Estado do Amapá tão fortemente embebecido em gesso a ponto de expor-se ao escárnio administrativo confiscando bens tão vulgares até no comércio local? Se o Estado houvesse optado, o que já seria absurdo, pelo confisco de bens exclusivamente indispensáveis ao início de serviços de saúde urgentes, penso que seria menos cômico. Se o Estado, respeitando a propriedade privada e a livre iniciativa, julgasse absolutamente necessários os bens particulares e, assim, os desapropriasse, pagando previamente a respectiva indenização, seria, do ponto de vista jurídico e político, admissível. Mas confiscar, apreender, tomar a força é um traço repugnante e põe em dúvida biografias. Esse fato foi solucionado por atuação judicial e os bens devolvidos a empresa dona.

A mesma sorte das cadeiras, geladeira, lixeiro, maca, bebedouro, se assentou em outro cliente – também não me é permitido nominar. Este foi citado em uma operação policial e a ordem judicial originária da atuação determinava que fossem afastados os servidores públicos que ocupassem cargos ou funções comissionadas ou que manuseassem recursos públicos. O cliente, muito embora não se enquadrasse em nenhuma das condições, foi sumariamente afastado do exercício da medicina em hospital público pela Secretaria de Saúde do Estado. Comunicado o fato ao juízo, este determinou o retorno do cliente ao serviço público na medida em que não ocupante de cargo ou função comissionada. Ao contrário de cumprir a ordem, em demonstração de pura e desnecessária insolência, o Estado do Amapá justificou a existência de processo administrativo contra o cliente e que o havia afastado para que respondesse ao inquérito fora do serviço público. Notificada a Secretaria de Saúde para que apontasse a que processo administrativo se referia, na medida em que nenhuma notificação havia o cliente recebido, a manifesta truculência sequer acudiu singela resposta ao cidadão. Uma resposta comum, que dissesses estar ele respondendo a uma sindicância, revelasse pelo menos o número do processo. Não. Nem isso. É verdade que essa intransparência administrativa pode parecer simples para as autoridades do Estado do Amapá e um reforço ao discurso que divide o bem do mau, desde que o governo seja o bem. Mas para quem está sendo acusado, o mínimo que pode esperar, independente de sua posição ideológica ou da gravidade ou não da acusação, é que, pelo menos, seja notificado da acusação que sofre para permitir a mais singela defesa. O contrário é o caos.

Não estou aqui a fixar que a empresa, seja ela qual for, está imune a incursão do Estado. Muito menos digo que servidor público não possa ser cautelarmente afastado de suas funções. Não é isso. Se os atos encontram proteção constitucional ou legal, tudo é possível. O que causa indignação, o que se repele, o que veste de luto a democracia mais tenra, é a forma inapta, incivil, de buscar objetivos a custa da razão e do direito que desqualificam a cidadania em proteção a um discurso sazonal, não verdadeiro e muito chato.

Essa experiência, porém, como tudo na vida, tem um lado positivo. A cidade de Macapá espera um novo governo. Os olhos da cidade estão ávidos, não só por uma gestão competente mas, também, que a solução dos pleitos sociais e eventuais conflitos se avie pelo caminho do diálogo, institucional e constitucional. O exemplo do Estado do Amapá, pelo menos ao que agora se vê, não é modelo a ser seguido e merece ser desvotado, se quisermos, em meu sentir, vencer os desafios da saúde pública municipal.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 09/12/12 as 2:45 pm

O monge rico e o monge pobre
Dom Pedro José Conti, Bipo de Macapá

Numa cidade tinha dois mosteiros. Um era muito rico ao passo que o outro era paupérrimo. Certo dia, um dos monges pobres se apresentou ao mosteiro dos ricos para se despedir de um amigo monge que morava por lá.

 – Por algum tempo não vamos nos ver, amigo – disse o monge pobre – decidi partir para uma longa peregrinação e visitar os cem grandes santuários: rogo-lhe que me acompanhe com a sua oração porque terei que subir e descer montanhas perigosas e atravessar rios impetuosos.

 – O que você leva consigo para enfrentar uma viagem tão longa e arriscada? – perguntou o monge rico.

– Somente uma cuia para a água e um saquinho de arroz – sorriu o monge pobre.

 O outro estranhou a resposta e olhou para ele com severidade:

 - Meu querido, você simplifica demais as coisas. Não pode ser tão incauto e desavisado. Eu também estou de partida para a peregrinação aos cem santuários, mas não viajarei antes de ter arrumado tudo o que poderá servir-me na viagem.

 Um ano depois, o monge pobre voltou para casa e correu de pressa para visitar o amigo e lhe contar a grande e rica experiência espiritual, que tinha conseguido viver com a peregrinação. O monge rico escutou o amigo e, baixando os olhos, teve que confessar:

 - Infelizmente, eu ainda não terminei a minha preparação para a viagem.

A historinha fala por si. Tem “preparações” que nunca terminam. Tem pessoas que se preparam a vida toda, mas esta fase preparatória demora tanto que dificilmente chega a uma conclusão e elas mesmas acabam esquecendo o que queriam ser, não sabem mais para quê se prepararam tanto.  A preparação – é o que diz a própria palavra – é o que vem antes do evento: uma ação anterior. Contudo o momento mais importante é o evento, não a preparação. Um bom preparo fará de um jovem um bom profissional, mas se a preparação nunca acaba, talvez aquele jovem não chegue a ser o profissional que queria ser. Possuirá, provavelmente, muita teoria, mas nenhuma experiência prática.

O tempo do Advento é uma preparação que se encerra com o evento do Natal. Devemos nos preparar para viver plena e conscientemente a alegria do nascimento de Jesus. De outra forma, arriscamos continuar na expectativa; o Natal virá, passará e… Nos deixará indiferentes. Todo o ano, temos esta possibilidade: preparar-nos bem para que o Natal do Senhor não se apague junto com os pisca-piscas e as demais luminárias chamativas que enfeitam casas e ruas. Nada mais fácil. Não foi suficiente todo o Antigo Testamento e a pregação vigorosa de João Batista para garantir, diríamos hoje, o “sucesso” de Jesus. Verdade que Ele não buscava nada disso, mas a sua morte na cruz revela uma rejeição quase total. Digo quase porque alguns, poucos, resolveram, também naquele tempo, deixar tudo e segui-lo. Fugiram na hora da paixão, mas depois, com a força do Espírito Santo, venceram todo medo e covardia.

Apesar de todas as promessas e de todas as profecias, muitos ainda estavam equivocados sobre o Messias que devia chegar. Esperavam alguém rico e poderoso, que resolvesse na hora todos os seus problemas. Jesus veio pobre, humilde e sofredor; no entanto com as suas palavras e ações, mostrou o caminho para que nós aprendêssemos por nossa livre vontade a solucionar, fraternalmente, as questões que afligem a humanidade. Ele ensinou o caminho do amor. Com a sua ressurreição venceu a morte, para nos garantir que a vitória final será dele.

O menino deitado na manjedoura do Presépio é o mesmo Jesus das Bem-aventuranças e dos Ais, que perdoa à pecadora e expulsa os vendilhões do templo; que chama a Deus de Pai e nos convoca para a comunhão da partilha e da unidade. Os pobres foram os primeiros a encontrá-lo e a adorá-lo. A longa espera tinha chegado ao fim.

“Preparai os caminhos do Senhor” grita João Batista. Preparemo-nos para acolher Jesus, desfazendo pré-conceitos e medos. Para a grande peregrinação da fé, não precisam muitas coisas: bastam a coragem da decisão e a leveza da liberdade. Para quem busca o Reino de Deus e a sua justiça, o resto lhe será dado por acréscimo (cf. Mt 6,33), como o monge pobre. O monge rico, pelo jeito, está ainda arrumando as malas.

Artigo – Transpetro nas águas do Amapá

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 21/10/12 as 11:28 am

TRANSPETRO NAS ÁGUAS DO AMAPÁ

Fernando Chaves Pinto – Empresário

Petrobras deve fortalecer setor energético, com transporte e armazenamento de combustíveis. Uma questão de logística.

É oportuna a intensificação de uma luta para sanar, e não apenas minimizar, a distribuição de combustíveis no Amapá e baixo Amazonas, a par de seu armazenamento.

Que o terminal específico de combustíveis – o Petroporto – da Transpetro é a infra-estrutura mais valiosa de que conhecemos não restam duvidas.  Conscientes disto devemos, multiplicar formulas para atrair e manter, em nossas águas, navios da Transpetro.

A falta de uma decisão somos levados a crer que a morosidade e a dificuldade em implantar este terminal sejam os vícios das soluções emergenciais.

Não temos, no Amapá, lastro para um desembolso financeiro de tão grande porte. Não há alternativa: a Transpetro precisa intervir, com urgência, nessa questão do protótipo do terminal.

O preço do atraso

Muito preocupante, na visão de todos, é o fato de as Urbes de Macapá e Santana ( em que se concentram, segundo o IBGE 76%  da população total do Amapá, com cerca de 364.000 habitantes) sofrerem com a  falta constantemente de combustíveis, notadamente “OPGE”, óleo para geração de energia.

O sistema radial da Eletronorte nem sequer permite contingências simples, o que aumenta o tempo e a freqüência das interrupções, na rede de distribuição no sistema da CEA.

As causas já são por demais conhecidas: falta combustível, pois o Amapá não deslanchou no avanço de ações estruturais contra os gargalos da infra-estrutura de implantação do terminal fluvio- marítimo de combustíveis.

Todavia, o momento não é de olhar somente para o passado. É importante que empresariado local e regional, em termos de Norte e Nordeste apresente uma saída.

Dois movimentos simultâneos, a meu ver, para o momento, se impõem para a Transpetro: um, a aquisição do terreno, conforme já aprovado pela DTNEST (Dutos e Terminais do Norte e Nordeste, especificamente em área sita na confluência do Igarapé da Fortaleza com a margem esquerda do Rio Amazonas, que, conforme a portaria nº 71/2000, do Ministério dos Transportes, em Brasília, DF, é área portuária…) o outro, o projeto técnico, cuja conceituação tramita na ANTAQ (Agência Nacional de Transporte Aquaviário), em Brasília, DF, no contexto do protocolo nº 1084/2000, com visão de futuro.

A propósito, permito-me sugerir que a DTNEST/TRANSPETRO, convalide o relatório do Engº Ricardo Henrique da Silva, da DTNEST, em Belém, PA, enviado, desde janeiro de 1999, à Transpetro, no Rio de Janeiro (apud: revista Petrobras, Ano VII, nº 64, novembro de 1999, matéria de capa e pags. 8,9,10 e 11).

Não é possível, portanto, qualificar senão como inserção das mais oportunas, marcada com o sinete do patriotismo, a decisão de atrelar ao Amapá a distribuição de combustíveis – o “Bunker”, óleo marítimo, e o “OPGE”, óleo para geração de energia-, além da distribuição de gás.

“A partir do Amapá, fica mais econômico e mais rápido o acesso a esses pontos do Rio Amazonas e seus afluentes. O trajeto é bem menor do que saindo de Belém” – diz Ricardo Henrique da DTNEST, Belém, PA.

Gargalos e escassez de talentos

O programa de aceleração do crescimento (PAC) tem R$ 132 bilhões reservados para a área de logística.

Uma infra-estrutura logística é fundamental para acomodar o crescimento da produção e manter a produtividade, no escoamento de combustíveis, no Amapá.

Convivemos com gargalo na distribuição, com um maior tempo entre a origem e o destino, além do alto índice de insegurança, principalmente no transporte com balsas.

A tecnologia tem ajudado as operações de logística a dar passos mais largos. O geoposicionamento, em tempo real, no controle e rastreamento de carga deve ser implantado.

Ademais, o diferencial competitivo está no desafio de conseguirmos encontrar e manter o melhor, em capital humano – o bem mais valioso de uma empresa.

Cada vez mais, as empresas tentam transformar as pessoas no “segredo do sucesso”, mas é preciso desenvolvê-las e propiciar-lhes desafios…

Cabe-nos e á Transpetro, portanto, como colaboradores e futuros grandes aliados, planejarmos o caminho a seguir, nas águas do Amapá.

Artigo

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 06/09/12 as 12:45 am

A Grave Situação do Saneamento em Macapá – Água
Por Alcione Cavalcante,  Engenheiro Florestal

                               Infelizmente, a nota dada a CAESA, numa escala que vai de 0 a 10 é 0,79. É o que diz o recente estudo realizado pelo Instituto Trata Brasil que publicou o “Ranking do Saneamento – As 100 maiores cidades do Brasil”. O estudo tomou por base dados oriundos do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – SNIS, para o ano de 2010, elaborado pela Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades.

A metodologia utilizada pelo Instituto Trata Brasil para definir o ranking, foi elaborada com base em três diretrizes: eficácia no atendimento adequado em saneamento básico, o esforço para alcançar a universalização e a produtividade na operação. Essas três diretrizes, por sua vez estão associadas a três grupos de indicadores, no caso, nível de cobertura, melhoria na cobertura e eficiência.

Sob todos esses aspectos a situação do Amapá é lastimável e a herança recebida pelo Governador Camilo, como diria o Ex-presidente Lula, é maldita. O quadro geral indica que necessariamente vamos requerer significativos e continuados esforços, não apenas de parte do executivo do estado, mas principalmente dos representantes no Congresso Nacional, através de emendas parlamentares de um lado e gestões junto o Governo Federal com relação a outros fundos. Aos deputados estaduais cabe a não menos importante missão de desenhar um orçamento mais conectado com as necessidades da população, que priorize ações voltadas ao saneamento, coisa que não logramos experimentar ao longo dos últimos anos. Vale aqui lembrar o chavão que se impõe no caso “cada real investido em saneamento representa alguns reais economizados na saúde”.

Mas vamos ao que interessa. Inicialmente vale destacar a situação relativa ao abastecimento de água em Macapá. Os dados levantados indicam que apenas 43 % da população efetivamente conta serviços de abastecimento de água da empresa. O número em si já não é bom. Quando comparados com os municípios sede da Região, a situação exposta é mais grave. Estamos bem aquém da média registrada para a Amazônia legal, que é de 76% e muito abaixo de Cuiabá-MT (98 %), Boa Vista-RR (97%) e Manaus-AM com (96 %) que praticamente já universalizam o serviço, além de Belém-PA e Rio Branco – AC com mais de 75 % da população atendida. Neste quesito somente logramos vencer de Porto Velho-RO (33 %)

 

Outro ponto importante está relacionado ao esforço empregado para avançar na universalização do abastecimento. Neste quesito a situação também não é confortável. Para se ter ideia da distância que nos separa citamos, por exemplo, Manaus -AM que chegou a quase 42.000 ligações para uma demanda de 57.000 ligações aproximadamente.  Boa Vista – RR, por sua vez instalou mais de 2000 unidades para apenas 4151 ligações faltantes. Macapá registrou, em 2010, apenas 1508 ligações para um universo de 71.000 ligações faltantes.

 

Ainda sob a mesma ótica é interessante expor a relação entre o indicador de novas ligações realizadas em 2010 e o número de ligações faltantes para a universalização. Esta relação está vinculada ao ritmo empreendido no sentido de universalizar o abastecimento de água. Neste caso nossa relação, excluindo-se Belém e Porto Velho é das mais desfavoráveis, está situada no patamar de 2%. Ou seja, para cada 100 unidades faltantes, estamos atendendo, com base em 2010, apenas duas unidades por ano. Comparativamente, Manaus chegou a 78 e Boa Vista a 48 unidades para a mesma necessidade.

Essas situações nos levam a refletir: quantos anos os municípios citados levariam para universalizar o abastecimento, mantido o ritmo de 2010? Na Amazônia, em média, algo em torno de 9 anos; Manaus, pouco mais de um ano, São Luiz 20 anos e Macapá 50 anos. Seguramente não merecemos isso nem para esta nem para as futuras gerações.

Artigo

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 28/07/12 as 3:27 pm

A juventude e o nosso trânsito
João Gomes*

No Brasil vivemos um momento em que as facilidades para se obter um veículo são muitas, dessa forma a frota principalmente de carros e motos tem aumentado muito rapidamente ao longo dos anos, além é claro de termos no bojo da sociedade moderna  uma liberdade, ou uma postura libertária de nossa juventude que ultrapassa todos limites impostos por normas e regras estabelecidas em nossos códigos e em nossos valores morais.

O fácil acesso a carros e motos aliados a forma irresponsável que alguns adolescentes e jovens dirigem esses veículos, tem provocado nos últimos anos um crescimento no número de mortes da juventude brasileira em nosso trânsito, de 1998 a 2008 houve um acréscimo de mais de 32% nessa triste estatística. O DENATRAN em 2009 apresentou um estudo sobre o comportamento dos jovens como condutores e caronas, 65% são caronas de outros amigos em festas, que dos entrevistados 35% não utilizam o cinto de segurança em hipótese alguma, creio que esse número pode ser bem maior, além disso, para incrementar tal relação equivocada, 55% retornam de carona com amigos que ingeriram bebidas alcoólicas antes de dirigir.

O jovem dirige mais depressa segundo estudos do IBOPE, e comprovou que esse comportamento está atrelado a adrenalina e ao álcool, sendo que isso se intensifica quando eles estão em grupos, ou seja, percebemos que há uma forte influência do circulo social aos quais os mesmo frequentam e pertencem. Isso é lamentável, mas não devemos aceitar passivamente que nossa juventude perca a vida e tenham os sonhos interrompidos por não compreenderem o limite entre o certo e o errado, levando-os a morte tão precocemente.

Atualmente estamos observando uma verdadeira guerra civil em nosso trânsito, são mais de 35 mil mortes por ano, esse número só tende a aumentar caso a nossa ação de inércia não mude, nossos jovens estão inseridos infelizmente nesse contexto, devemos nos preocupar com o trânsito desde a tenra idade de nossos pequeninos, a educação deve ser o fator preponderante nessa relação com adolescentes e jovens e o trânsito brasileiro. A que se impor limites e usar o não mais frequentemente para essa atual geração, valores morais devem ser resgatados, o jeitinho brasileiro de sempre querer se dar bem deve ser eliminado das relações sociais vigentes. O trânsito deve ser uma preocupação de todos e todas e tratado como uma questão de saúde pública, pois não devemos perder de forma precoce o que deve ser o futuro do Brasil, nossa juventude. Devemos ter ousadia para mudar.

* Alex João Costa Gomes é Bacharel e Licenciado em História