Chá da tarde

Se tu viesses ver-me
Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesse toda nos teus braços…
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

Eu não vou perturbar a paz

hoje90

EU NÃO VOU PERTURBAR A PAZ
Manoel de Barros

De tarde um homem tem esperanças.
Está sozinho, possui um banco.
De tarde um homem sorri.
Se eu me sentasse a seu lado
saberia de seus mistérios
ouviria até sua respiração leve.
Se eu me sentasse a seu lado
descobriria o sinistro
ou doce alento da vida
que move suas pernas e braços.

Mas, ah! eu não vou perturbar
a paz que ele depôs
na praça, quieto.

No caminho com Maiakovski

No caminho com Maiakovski
Eduardo Alves da Costa

Na primeira noite, eles chegam mansamente
e roubam uma flor do nosso jardim.
E nós não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem.
Pisam nas flores de nosso jardim, batem em nosso cão
e nós, mais uma vez, não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles entra em nossas casas,
violenta a nossa família, bate em nossas crianças
e arranca-nos a voz da garganta.

E nós já não podemos falar nada,
porque já não temos voz.

Chá da tarde – O pão de cada dia (Thiago de Mello)

O pão de cada dia
Thiago de Mello

Que o pão encontre na boca
o abraço de uma canção construída no trabalho
Não a fome fatigada
de um suor que corre em vão.

Que o pão do dia não chegue
sabendo a travo de luta
e a troféu de humilhação.
Que seja a bênção da flor
festivamente colhida
por quem deu ajuda ao chão.

Mais do que flor, seja fruto
que maduro se oferece
sempre ao alcance da mão.
Da minha e da tua mão.