Alcinéa Cavalcante

Liberdade de expressão!
Macapá - Amapá

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 19/05/13 as 1:49 pm

Estou muito ocupado
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Eu era jovem e me sentia forte. Naquela manhã de primavera, saí de casa e gritei:

- Estou disponível, quem me quer que me pegue.

Pela estrada passava o Rei com seu séquito de mil guerreiros.

– Eu te aceito ao meu serviço – disse o Rei parando o cortejo – Receberás parte do meu poder. Mas do poder dele eu não sabia o que fazer e o deixei ir embora.

– Estou disponível para todos. Quem me quer? – Repeti. Naquela tarde de sol, um velho pensativo me parou e disse:

- Eu te contrato para os meus negócios. Vou te pagar com muito dinheiro – e me mostrou um monte de moedas de ouro.  Mas eu não sabia o que fazer do dinheiro dele e me virei do outro lado.

Ao anoitecer cheguei perto de um casebre. Apareceu uma linda jovem e falou:

Eu te aceito. Terás o meu sorriso como recompensa.

Eu fiquei perplexo: quanto dura um sorriso? Entretanto aquele sorriso desapareceu e a jovem sumiu nas sombras. Passei a noite deitado na grama e de manhã estava todo molhado pelo orvalho.

- Estou disponível, quem me quer?

O sol já brilhava sobre a areia quando percebi que tinha uma criança sentada na praia brincando com três conchinhas. Quando me viu, levantou a cabeça e sorriu:

- Eu te quero – ela falou – e em troca não tenho nada para te dar.

Aceitei o contrato e comecei a brincar com ela. Às pessoas que passavam e perguntavam por mim, respondia:

- Não posso, estou muito ocupado. A partir daquele dia, senti-me um homem livre.

Peguei emprestada esta bela página do poeta Tagore. No domingo de Pentecostes, devemos refletir sobre o Espírito Santo, a “força do alto”, o advogado, o consolador, prometido e doado por Jesus. Ele mesmo quando falou do Espírito a Nicodemos o comparou ao vento, porque sopra onde quer e ninguém sabe de onde vem e para onde vai (cf. Jo 3,8). Não tem portas e nem janelas que possam segurá-lo. O Espírito é a liberdade de Deus para amar. Uma liberdade que, parece uma contradição, o obriga a amar. Deus não escolhe e por isso não pode errar e nem fazer menos, pior ou diferente. É a perfeita liberdade de fazer e escolher sempre o único melhor: amar. Também se pode custar a vida do Filho encarnado.

O Espírito é o contrário do interesse, da ganância, do lucro e da vantagem. O Espírito é pura gratuidade. Se não fosse assim, se Deus escolhesse as coisas para ter algo em troca, esta, sim, seria uma contradição do amor. Não seria mais o amor total. Como as brincadeiras das crianças, muito ocupadas em gastar livremente as suas energias. Liberdade e gratuidade juntas para amar.

Pensando bem, o Espírito Santo é também o contrário da prudência, do medo, dos cálculos estratégicos. Os apóstolos perdem o medo, as portas são escancaradas; não  para que entrem os judeus ameaçadores, mas para que eles possam sair. A boa notícia de Jesus agora está livre para chegar até os confins da terra.

O Espírito Santo é o contrário da dúvida, da confusão, da desunião. A fé é proclamada sem titubeios: Jesus é o Senhor. O anúncio é ouvido e compreendido por cada um em sua própria língua. Os povos continuam diferentes com sua própria história e sua própria cultura, mas agora se encontram para formar um único corpo onde as diversidades enriquecem e vale para todos e acima de todos o bem comum.

O dia de Pentecostes é também o dia do envio em missão.  Depois daquele dia, o Evangelho nunca mais voltou atrás. Nós, os cristãos, é que podemos ficar parados, podemos ter resolvido dar um tempo, decidido descansar. O Espírito Santo não, porque vai à nossa frente, antecipa-se, prepara os ouvidos e os corações para que acolham a Palavra de Vida. O Espírito Santo é a força da evangelização. Ajuda o pregador a falar, o catequista a explicar, os pais a educarem na fé os seus filhos. Mas também está com os filhos, com os que buscam a verdade e até com os indiferentes, incomodados pela Boa Notícia.

O Espírito não promete nada em troca. Ele mesmo é a meta e o prêmio. É só gratuidade e liberdade porque somente é amor.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 12/05/13 as 6:21 pm

Vou furar a sua mão
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

 Uma avó muito pobre criava um neto que tinha ficado órfão. Com o passar dos anos descobriu, horrorizada, que o rapazinho tinha o costume de roubar. Era um pequeno ladrão. Conselhos, sermões, súplicas e castigos já não serviam mais para nada; o pequeno estava acostumado no vício. Uma noite, a avó, não tendo mais a quem recorrer, ameaçou o neto com uma aterrorizante punição:

- Está vendo este ferro com o qual mexemos nas brasas da lareira? Se você roubar de novo, quando ele ficar vermelho, eu vou furar a sua mão!

- O menino não acreditou naquela ameaça e continuou a roubar. As denúncias chegaram aos ouvidos da pobre idosa. Assim, logo que o rapaz chegou a casa, arrastou-o até a frente das brasas onde o ferro já estava esquentando. O neto ficou pasmado, não queria acreditar no que estava acontecendo. A avó, com todas as suas forças, segurou-lhe a mão, depois pegou o ferro já vermelho e… transpassou a mão dela. Hoje, o rapaz é um homem. É alguém que não rouba mais. Se tivesse que meter a mão nos objetos dos outros, preferiria antes queimá-la.

Uma história triste e ao mesmo tempo surpreendente. Um amor muito grande pode chegar a um extremo deste. Até dar a própria vida para salvar a vida de outros.

Chegando ao final do tempo pascal com as solenidades de Ascensão e Pentecostes nós entendemos que Jesus cumpriu até o fim a sua missão. Deu tudo, amou-nos até o fim. O perigo é sempre aquele esquecer ou deixar por menos o que ele fez por nós todos. Deixou-nos o mandamento do amor; disse-nos para nos amarmos como ele nos amou. No entanto, mais do que as palavras vale o exemplo. Sem a cruz, Jesus poderia ser um dos muitos sábios religiosos ou pensadores que apareceram e sempre vão aparecer na história da humanidade. Sem a ressurreição também poderia acabar tudo no silêncio de um túmulo. Morte e ressurreição sempre serão um só, único e grande mistério da vida de Jesus. Salvador e Redentor, para os que acreditam; um caso simplesmente fantasioso ou inexplicável para os céticos de plantão.

Como último dom dele e do Pai, Jesus prometeu e enviou o Espírito Santo para sempre lembrar e entender o que ele fez e ensinou. O Espírito realiza a promessa do Senhor de não nos deixar órfãos, desamparados, esquecidos (Jo 14,18). O Espírito não é, porém, uma memória cristalizada uma vez por todas. A boa notícia do evangelho é uma palavra viva. O Espírito vai ajudar a lembrar de tudo o que Jesus fez e ensinou para que ele continue falando e caminhando junto aos homens e às mulheres de hoje, como fez no passado e fará no futuro. É por isso que os apóstolos não puderam ficar parados olhando para o céu; eles espalharam-se pelo mundo para comunicar a todos quanto grande é o amor, a misericórdia e a fidelidade de Deus. Somente assim a proposta de Jesus é e será colocada sempre ao alcance de todos. Todas as gerações dos homens que buscam a verdade, que estão com fome e sede de justiça, que são chamados construtores de paz, poderão conhecer e confrontar-se com Jesus, com a sua mensagem e o seu exemplo.

Alguns ficarão incomodados, outros continuarão incrédulos, mas muitos se tornarão, por sua vez, discípulos e testemunhas do profeta crucificado, o Filho de Deus, rosto humano do Pai. Enquanto alguns, poucos ou muitos, se deixarem “ferir” e marcar pelo fogo do Espírito Santo a missão está garantida. São feridas e marcas do amor divino, como tantos cristãos e cristãs experimentaram e ainda experimentam.

São chagas doloridas, mas saudáveis. Ferimentos de bondade e de sacrifício. Falando de Cristo, São Pedro escreve: “Por suas feridas fostes curados. Andáveis desgarrados como ovelhas, mas agora voltastes ao pastor e protetor da vossa vida” (1 Pd 2,24-25). Tenho certeza que ainda hoje muitas mães sofrem por causa dos erros dos seus filhos. Choram e definham. Mas nunca perdem o amor. Pena que alguns filhos  entendam isso tarde demais.

Festividade de N.S. de Fátima

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 11/05/13 as 11:22 am

OHoje, às 19h, tem missa campal na Igreja Nossa Senhora de Fátima seguida do show musical do Padre João Carlos e banda, como parte da programação em louvor a de N.S. de Fátima, cujo dia é comemrado em 13 de maio, segunda-feira.
Amanhã, domingo, também às 19h, haverá 12,  haverá celebração de missa campal e logo em seguida show da cantora Juliele.
Na segunda, 13 de maio, considerado mundialmente pelos católicos, o dia de Nossa Senhora de Fátima, será celebrada  missa ao meio-dia, que será transmitida pelo canal Amazon Sat; e a noite, haverá missa campal celebrada pelo Bispo de Macapá, Dom Pedro Conti, às 19 h, seguida da procissão das luzes pelas ruas do bairro Santa Rita – Cora de Carvalho/ Hildemar Maia/ Presidente Vargas/ Manuel Eudóxio Pereira/ Pe. Júlio Maria Lombard/ / Hildemar Maia/ Cora de Carvalho.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 05/05/13 as 12:02 am

Carlinhos o vendedor de ovos
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Carlinhos ganhava a vida vendendo ovos. Tinha aprendido o serviço com o pai e estava orgulhoso do seu trabalho. Fora do pequeno comércio dele estava escrito em letras vermelhas bem grandes: OVOS. Certo dia, uma certa pessoa entrou para dizer-lhe:

- Carlinhos, adivinha o que eu tenho na mão.

Carlinhos aceitou a brincadeira e respondeu:

- Me dê ao menos uma pista para eu poder adivinhar.

– Vou te dar mais de uma: eu tenho na mão algo que tem as aparências de um ovo, tem o gosto e o cheiro de um ovo. Tem a forma de um ovo e as medidas de um ovo. Dentro é branco e amarelo, é liquido antes de ficar cozido, mas fica mais consistente com o calor…

- Não precisa dizer mais nada; já entendi – falou Carlinhos abrindo um largo sorriso – deve ser algum tipo de doce!

Podemos rir ou chorar do pobre vendedor de ovos. No entanto podemos querer saber se o que aquela pessoa tinha na mão era de verdade um ovo. Deixando a brincadeira de lado, devemos reconhecer a facilidade com a qual podemos enganar e ser enganados pelas palavras que usamos. Às vezes, a culpa é de quem se comunica. Se não sabe se explicar bem, fica difícil entendê-lo. Outras vezes a culpa é nossa. Preferimos fingir não ter entendido ou entendemos somente o que nos agrada ou, pior, chegamos a distorcer as palavras do outro e a fazer-lhe dizer o que ele não disse. São os famosos mal-entendidos: às vezes verdadeiros, outras vezes, inventados, como saída de emergência.

No evangelho deste domingo, Jesus fala das suas palavras, aquelas que Pedro, um dia, chamou de “palavras de vida eterna” (cf Jo 6,68). No entanto também as palavras de Jesus podiam e podem ser mal-entendidas, distorcidas e jogadas fora. Se não tomamos cuidado podemos fazer Jesus dizer alguma coisa e depois fazer-lhe afirmar exatamente o contrário. Quantas vezes apelamos a palavras do Velho e do Novo Testamento para justificar atitudes e decisões que de cristão tem pouco ou nada. Na hora da desculpa, até a Palavra de Deus, lida do nosso jeito e a nosso favor, serve.

É neste sentido, me parece, que Jesus fala de dar ouvido e guardar as suas palavras com amor. Precisa do amor em primeiro lugar para estarmos abertos a escutar o que o outro tem para nos dizer. Amor é atenção, disponibilidade, acolhida. O amor sincero procura entender, não julgar, não se deixa enganar pelos pré-conceitos. O amor confia nas palavras do outro e as considera preciosas, por isso elas devem ser guardadas para poder ser lembradas na hora certa, para tornar o outro presente através das suas palavras. São as lembranças; a memória de quem amamos.

Mas tem outra razão: o amor permite compreender o outro além das palavras que ele nos diz. Elas também são limitadas, nunca expressam tudo aquilo que gostaríamos dizer, sobretudo quando o que queremos dizer é tão importante, tão grande, que nenhuma palavra o poderia conter. Multiplicar as palavras também seria inútil, nada acrescentaria. Quando duas pessoas dizem que se amam, naquela palavra está contido muito mais do ela diz. Lá está o desejo de união, está o projeto de suas vidas para que se tornem uma vida só. Lá está a partilha dos sentimentos, dos sonhos, das vitórias e das derrotas. Quando Jesus dizia a alguém que estava perdoado dos seus pecados lá estava também o amor do Pai, a festa do retorno a casa, a dignidade recuperada, o início de uma vida nova. Somente o amor preenche o não dito. É o amor que faz lembrar muitas outras palavras, os momentos passados juntos, a alegria da comunhão e a tristeza da falta. É por isso que Jesus ensinou que também na oração não devemos multiplicar tantas palavras. O amor se cala porque não consegue mais dizer tudo o que sente. Somente contempla e ama.

Infelizmente tudo isso vale também para o mal. Quantas vezes lembramos as palavras que nos machucaram para reavivar o ódio e deixar que a amargura envenene a nossa vida.

Ao Carlinhos da história faltou esperteza, a nós, muitas vezes, falta mesmo o amor.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 28/04/13 as 1:28 pm

Nas costas do discípulo
D. Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Seguindo uma antiga tradição São Jerônimo, o famoso santo que tanto trabalhou para um melhor conhecimento da Bíblia, no seu comentário à Carta aos Gálatas, narra que o apóstolo João, já muito velho, fazia-se levar nas costas por um discípulo para poder participar das assembleias litúrgicas. Não tinha mais condição de fazer a homilia e se limitava a dizer estas simples palavras:

- Filhinhos, amai-vos uns aos outros.

Certo dia, os irmãos, cansados de ouvir sempre as mesmas palavras, resolveram lhe perguntar por que continuava a repeti-las. João respondeu:

- Porque este é o mandamento do Senhor e se fosse o único a ser cumprido já seria suficiente!

Também nós ouviremos, no evangelho deste domingo, as palavras bem conhecidas de Jesus: “Amai-vos uns aos outros!”. O que parece repetitivo, de fato, é sempre o maior desafio para nós cristãos. Digo isso não somente porque amar de verdade não é tão simples, banal e espontâneo, como, às vezes, pensamos, mas também porque Jesus nos pede para amar como ele nos amou e, assim, este amor fraterno se torna o sinal visível de sermos, ou não, seus discípulos.

Para entender o amor de Jesus não basta lembrar a sua morte na cruz. Ele falou e agiu a vida inteira com amor e por amor. Os Evangelhos foram escritos para nos ajudar a entender e acreditar que Jesus estava nos fazendo conhecer o jeito de amar de Deus. Um Pai amoroso sente compaixão por seus filhos, acolhe-os e os perdoa. Um Pai aponta o caminho para os filhos e é o primeiro a percorrer este caminho. Jesus não somente ensinou que não tem amor maior do que aquele de quem dá a vida pelos seus amigos; ele amou a todos até o fim, até os inimigos aos quais perdoou na cruz. Todos os gestos, sinais, ou “milagres”- se preferirmos- de Jesus manifestaram um homem capaz de entender as aflições dos outros, de estar ao lado de quem sofre na vida. Com isso ele nos ensinou que Deus sempre está conosco e nunca nos abandona, também se respeita a nossa liberdade ao ponto de poder ser rejeitado e traído. Celebrando a Eucaristia os primeiros cristãos não somente obedeciam ao mandamento de Jesus de repetir aquele gesto em sua memória; sabiam que assim era possível continuar a reconhecer, encontrar e experimentar o inesgotável amor de Deus.

Por consequência, os discípulos de Jesus antes de formar algo visível, mais ou menos organizado, devem ser uma comunidade fraterna capaz de continuar a comunicar o que ele ensinou, não por meio de palavras arrebatadoras ou discursos eloquentes, mas com a vivência daquilo que está sendo pregado. Foi pelo exemplo das primeiras comunidades, pela coragem dos mártires, pela fidelidade dos pequenos que a mensagem de Jesus se espalhou e chegou até nós.

Não podemos ter nenhuma dúvida que o mandamento do amor que Jesus nos deixou será sempre atual e decisivo para o crescimento das suas comunidades. Cada época cria novas formas de egoísmo. Ao lado da sede de poder e de riqueza dos poderosos – que sempre existiu e que contagia também os pobres – hoje podemos reconhecer na busca do bem-estar individual, na indiferença diante dos problemas sociais e na armadilha do consumo, algumas das novas situações que exaltam a defesa dos próprios privilégios e, portanto, conduzem ao esquecimento do bem comum e à incapacidade de encontrar novos caminhos de justiça e de paz.

As nossas comunidades, os nossos grupos e movimentos deveriam brilhar pelo amor fraterno e pela alegre acolhida de quem chega. De fato, a cada geração é proposta a mensagem da fé, mas esta, sem a vivência da caridade, corre o perigo de ser reduzida a um conjunto mais ou menos compreensível de verdades. Sempre vamos precisar de alguém que nos repita, sem cansar, que devemos nos amar uns aos outros como Jesus nos amou. Sem isso ficaríamos irreconhecíveis, mas se praticássemos somente isso já estaríamos cumprindo a nossa missão.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 14/04/13 as 3:35 pm

Um Papa fotogênico?
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Antes dos dias do Conclave, do qual saiu eleito o papa Francisco, o repórter de um programa humorístico da televisão brasileira perguntou a um dos cardeais desta nossa terra: “Se é o Espírito Santo que escolhe o Papa, o que estão fazendo ali dentro tantos cardeais?”. Não sabemos se houve resposta do cardeal; ela foi cortada. Também aquele repórter, com certeza, não era o mais interessado em querer ouvi-la. Melhor assim porque não teria sido nada fácil explicar a ação de Deus a quem, talvez, pouco ou nada acreditava.

Confiar na ação do Espírito Santo, para nós cristãos, não significa dispensar a mediação humana. Se Deus não usasse meios humanos para se comunicar, qualquer mensagem dEle seria simplesmente incompreensível. Não está errado, portanto, dizer que Deus aceita as limitações humanas para poder ser entendido e, com isso, também amado por nós que somos condicionados pelo tempo e pelo espaço. Em Jesus, Deus se conformou às fraquezas humanas até a morte para poder reconduzir a humanidade ao seu encontro. Não podia ser diferente para a Igreja que tem uma missão divina, mas é formada por pessoas concretas com as qualidades e os defeitos que todos nós carregamos.

Precisamos lembrar tudo isso porque, de outra forma, não entenderíamos a maravilhosa mensagem do evangelho deste domingo.  O humano e o divino se entrelaçam continuamente. Os apóstolos eram pescadores antes de seguir o Senhor. Voltaram ao seu trabalho, fadigoso e incerto. Não pescaram nada, mas o desconhecido na beira do lago manda jogar a rede de novo. Confiaram e a pesca foi extraordinária. No entanto a rede não se rompeu. Jesus tinha dito a eles que iam ser “pescadores de homens”. A nova comunidade de Jesus crescerá; novos membros chegarão a acreditar; ficarão unidos pela fé, pela esperança, pela novidade do Evangelho.

Muito humana é também a necessidade de comer; todos os dias precisamos nos alimentar. Isso vale também para os discípulos de Jesus, ele sempre lhes prepara uma mesa para que na comunhão e na partilha nunca percam a coragem de viver e anunciar a vida nova da fraternidade e da paz. É a Eucaristia que nos alimenta, fortalece e nos envia em missão para que o mundo todo se torne “um só coração e uma só alma”.

No final temos o chamado de Pedro para apascentar o rebanho de Jesus. Três vezes ele precisa repetir que ama o Senhor. A fraqueza que manifestou nos dias da paixão está sendo transformada agora pelo amor. Finalmente Pedro entendeu que devia se deixar amar primeiro por Jesus, para poder amá-lo também. Na noite da ceia, ele não queria que Jesus lhe lavasse os pés. No jardim, estava disposto a lutar por ele. Pedro queria salvar o Senhor. Agora entende que foi Jesus a salvá-lo, derramou o seu sangue também por ele, pobre pescador da Galiléia. Este Jesus que o amou tanto pede agora o seu amor como resposta generosa até ser conduzido onde nem imaginava e nem queria ir. Em todo gesto de amor tem algo de humano, mas também tem muito de divino.

Às vezes as fraquezas humanas obscurecem a ação divina, outras vezes são, justamente, as limitações humanas que revelam a grandeza da obra de Deus. Isso é maravilhoso porque nos lembra que a Igreja não evangeliza para promover a si mesma, para aumentar o seu prestígio e o seu poder. Ela, toda, é a primeira servidora do Evangelho.

Conta uma anedota que Papa João XXIII estava bem cansado, após uma longa sessão de fotos oficiais e menos oficiais, e pensava no resultado dessas fotos. Ao encontrar o famoso bispo americano Fulton Sheen, conhecido pelo uso que fazia da televisão como um novo instrumento de evangelização, disse a ele: “O bom Deus sabia, há setenta e sete anos, que eu iria me tornar papa. Não poderia ter-me feito um pouco mais fotogênico?”.

É que o Espírito Santo não escolhe pela beleza, escolhe pelo amor.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 07/04/13 as 11:04 am

O médico ladrão
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Uma velha senhora doente dos olhos mandou chamar um médico. Ele foi atendê-la e, sempre que lhe aplicava um unguento, roubava alguma coisa da casa, já que ela estava de olhos fechados. Depois de tratá-la e de levar seus móveis, apresentou-lhe a conta. Como a velha não quis pagá-lo, ele abriu-lhe um processo. No tribunal, ela declarou que tinha se comprometido com ele a pagar desde que ele a curasse; ora, no momento, ela estava vendo bem menos que antes da cura: – Antes – disse ela – eu via todos os móveis de minha casa; agora não vejo mais nenhum.

Sempre simpáticas as antigas fábulas de Esopo. No caso, a senhora idosa acabou vendo melhor do que o médico pensava: percebeu que tinha sido roubada. A vista é um grande dom, mas não basta enxergar bem, é preciso compreender o que estamos vendo. É por isso que na frente da mesma realidade nem todos os que estão olhando enxergam a mesma coisa.

No segundo domingo de Páscoa, todo ano encontramos o evangelho de João que apresenta a primeira aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos reunidos e bem trancados em casa por medo dos judeus. Tomé não estava presente e não acreditou naquilo que os outros diziam ter visto. Oito dias depois, Jesus compareceu novamente e repreendeu o apóstolo incrédulo. Em resposta este fez abertamente a sua bela profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”. Com certeza esta foi uma das primeiras expressões do “credo” da Igreja com referência a pessoa de Jesus, o crucificado-ressuscitado começando a chamá-lo, assim, de Senhor e Deus.

Sempre estamos prontos a ficar do lado do pobre Tomé, porque achamos que ele tinha todo o direito de conferir os sinais da paixão no corpo de Jesus para não ficar pensando que os outros pudessem ter visto errado. No entanto bem sabemos que nós nunca vamos poder repetir a mesma experiência; nós estamos exatamente na condição dos bem-aventurados que terão que acreditar não por uma visão pessoal, mas pelo testemunho dos outros, de quem “viu e acreditou” (cf. Jo 20,8). O segredo da história, portanto, está no testemunho. Podemos nos perguntar: Tomé não acreditou imediatamente mais pelo fato de não ter visto o Senhor Jesus na primeira vez ou mais pela atitude dos discípulos que continuavam trancados em casa? O nosso amigo tinha todo o direito de duvidar daquilo que os outros diziam, simplesmente, por continuar a vê-los ainda com tanto medo. Deve ter pensado que se tivesse sido verdade que Jesus estava vivo e tinha doado a eles o dom do Espírito Santo (cf. Jo 21,22) por que estavam guardando para si a Boa Notícia? O que estavam esperando para sair em missão? A prova, legítima, da dúvida de Tomé está na forma como o livro dos Atos dos Apóstolos nos conta a chegada do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Naquele dia, portas e janelas foram escancaradas e os apóstolos saíram para pregar a absoluta novidade: aquele que foi crucificado estava vivo, tinha vencido a morte e, agora, Ele era o Senhor da Vida. O medo se foi. Por causa deste anúncio, eles foram caluniados, açoitados e até mortos. Pelo testemunho deles a fé em Jesus “Senhor e Deus” chegou até nós.

Quantas vezes, nos dias de hoje, perguntamo-nos: Por que é tão difícil crer e por que também dá tanto trabalho quebrar o gelo dos corações, atrair as pessoas, para que se deixem ajudar a encontrar Jesus, aquele que é capaz de comunicar vida, força e esperança a todos os que o procuram de coração sincero? A resposta ainda é e sempre será o nosso testemunho. A nossa fé deve ser corajosa, deve ser bem visível e inequívoco; deve ser comprovada pelas nossas obras, pela dedicação em transformar o mundo com o bem e o amor, pela defesa da justiça em favor dos pobres e dos pequenos.

A ausência de fé ao nosso redor é uma acusação contra nós. Pode ser que nos tenhamos apropriado de algo que não é somente nosso e que precisamos devolver. A velha senhora desmascarou o médico ladrão. Para acreditar, o mundo nos pede o testemunho da fé. Se está nos cobrando é porque percebe que lhe falta alguma coisa. Isso é bom.

Via crucis em Macapá

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 29/03/13 as 8:15 pm

SGrupos de teatro encenaram hoje em vários pontos da cidade a via crucis de Jesus

Programação da Semana Santa na Catedral de São José

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 27/03/13 as 1:18 pm

Quinta-Feira Santa – 28/03
19h – Lava pés e Adoração ao Santíssimo

Sexta-Feira Santa – 29/03
8h – Via Sacra
13h – Confissões
15h – Sermão das Sete Palavras, Liturgia da Paixão e Morte de Cristo e em seguida a Procissão com a imagem do Senhor Morto

Sábado Santo – 30/03
21h – Vigília Pascal

Domingo de Páscoa – 31/03
9h – Missa na Igreja Santo Antonio – rua Odilardo Silva com Mendonça Júnior
19h – Missa na Catedral São José

Papa recomenda que fiéis sigam exemplo de Cristo

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 27/03/13 as 1:01 pm

Francisco recomenda que fiéis sigam exemplo de Cristo aprendendo a perdoar e a conviver com os pobres

Renata Giraldi*
Agência Brasil

Brasília – O papa Francisco fez hoje (27) a primeira audiência geral e lotou a Praça São Pedro, em frente à basílica de mesmo nome. Ele dedicou o sermão à catequese da Semana Santa. Depois da Páscoa, o ele disse que vai retomar as catequeses sobre o Ano da Fé, como fazia o papa emérito Bento XVI. Francisco destacou que a Semana Santa é o período para que os fiéis lembrem que é necessário seguir o exemplo de Jesus Cristo, aprendendo a perdoar e a conviver com os pobres e humildes.

“Mas o que significa viver a Semana Santa para nós?”, perguntou o papa. “É acompanhar Jesus no seu caminho rumo à cruz e à ressurreição. Em sua missão terrena, ele falou a todos, sem distinção, aos grandes e aos humildes, trouxe o perdão de Deus e sua misericórdia, ofereceu esperança; consolou e curou. Foi presença de amor.”

O papa reiterou que o exemplo de Cristo é válido para todos. “Que tudo isso tem a ver conosco? Significa que esta é também a minha, a tua, a nossa caminhada”, ressaltou. Francisco advertiu que não basta ir à igreja: “Não podemos nos contentar com uma oração, uma missa dominical distraída e não constante”.

O sermão foi feito em italiano, mas a síntese da catequese e da saudação foi lida por um tradutor. Em português, o responsável pela leitura foi o padre Bruno Lins. “Queridos peregrinos de língua portuguesa, particularmente, os grupos de jovens vindos de Portugal e do Brasil: sede bem-vindos. Desejo-vos uma Semana Santa abençoada, seguindo o Senhor com coragem e levando a quantos encontrarem o testemunho luminoso do seu amor”, disse.

*Com informações da rádio do Vaticano

Páscoa judaica

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 23/03/13 as 1:26 pm

Na próxima terça-feira, 26, o Comitê Israelita do Amapá celebra o Pêssach. É uma festa muito importante para o povo judeu.
Abaixo publico artigo do presidente do Comitê Israelita do Amapá, Samuel Benchaya, explicando o que é o
Pêssach

Pêssach, a páscoa judaica
Samuel Benchaya

A Festa de Pêssach, festejada no dia 15 do mês de Nissan do calendário lunar judaico do ano de 5773, correspondente ao dia 26 de março de 2013 do calendário universal, comemora a libertação dos filhos de Israel da escravidão egípcia, cerca de 1290 a.c.

Mencionado nas Escrituras Sagradas, acontecimento histórico que se constituiu como um dos fundamentos principais por tradição da criação espiritual e da civilização do povo judeu.

Os antepassados judeus, escravizados sob o jugo do Egito, a beira da destruição total, foram salvos pelo Eterno, libertados e levados para o caminho para a Terra Prometida, após receberem a Torá no Monte de Sinai.

A libertação física ganhou conteúdo espiritual e o destino eterno do judaísmo, fato que exemplifica o significado na história da humanidade, a forma concreta da ideia de liberdade como prova e símbolo de independência para um povo.

A Festa de Pêssach, Festa da Liberdade, começa no dia 15 de Nissan e se prolonga por oito dias até entrarem no Mar Vermelho, quando, salvos, em terra firme, cantaram a Shirá, a canção de louvor a D´us.

Os judeus são proibidos de ingerir alimentos a base de fermento. Limpam-se as casas, para que não permaneça nenhum alimento fermentado (Chamêts), que simbolizam defeitos pessoais, altivez e orgulho; ocasião em que se faz exame de consciência dos atos e comportamentos, a erradicar da alma as más qualidades, o “fermento” que está dentro de si.

Matsá (Matsot), “pão da pobreza”, alimento que os antepassados judeus comeram na escravidão, lembrança da pressa com que saíram do Egito, nos momentos da libertação, quando não deu tempo para a massa fermentar, feita só de farinha e água.

Bom dia!

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 19/03/13 as 4:40 am

SA imagem do padroeiro do Amapá, São José, na velha catedral

A agenda do Papa

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 15/03/13 as 11:16 am

Vaticano – Menos de 48 horas depois de ser eleito, o papa Francisco tem agenda lotada até quarta-feira (20). O papa  recebe hoje (15) os cardeais, na Sala Clementina, no Palácio Apostólico, a residência oficial dos pontífices. Amanhã (16) ele concede a primeira entrevista coletiva, a exemplo de Bento XVI e João Paulo II, que morreu em 2005. A expectativa é que mais de 5 mil jornalistas participem da entrevista.

A segunda aparição pública do papa está programada para domingo (17), quando ele celebrará a Hora do Angelus, ao meio-dia, na Praça de São Pedro. A chamada Hora do Angelus é celebrada  pelos católicos com orações para lembrar o momento em que o anjo Gabriel anunciou à Virgem Maria a concepção de Cristo.

Na terça-feira (19), haverá a missa de inauguração do pontificado do papa Francisco. Na ocasião, ele estará paramentado – com as vestes de papa – e o sapato vermelho, além do anel do pescador – que é o símbolo do pontificado, usado no dedo anular da mão direita. A missa está marcada para as 9h30 (5h30 de Brasília).

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que o papa emérito Bento XVI não participará da missa de inauguração do pontificado de Francisco. Para os religiosos, Bento XVI quer cumprir o que determinou ao renunciar no último dia  28: viver recluso e em oração.

Na quarta-feira (20), o papa Francisco deve receber os chamados “delegados fraternos”, as autoridades convidadas para a cerimônia de inauguração do pontificado. A presidenta Dilma Rousseff confirmou presença na cerimônia.

(Renata Giraldi, Enviada Especial da Agência Brasil/EBC)

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 24/02/13 as 12:11 pm

O caminho para o mar
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá
 

Um rio, na sua tranquila corrida para o mar, chegou em um deserto e parou. Diante de si, tinha somente pedras espalhadas por todo lugar e dunas de areia a perder de vista. Ficou paralisado pelo medo. – É o meu fim – pensou desesperado – nunca vou conseguir atravessar este deserto. A areia vai engolir a minha água e eu vou desaparecer. Nunca mais chegarei ao mar. Sou um rio fracassado.

Aos poucos as suas águas começaram a ficar sujas. O rio estava virando lama e estava morrendo. O vento, porém, tinha ouvido as suas lamúrias e decidiu salvar-lhe a vida.

– Não tenhas medo, deixa que o sol te esquente. Tu vais subir ao céu na forma de vapor. Depois eu mesmo pensarei o restante.

Mas o medo do rio aumentava:

- Eu não sou feito para voar nos ares, eu devo correr entre as margens, líquido e majestoso.

O vento insistiu e explicou:

- Quando chegares ao céu, vais te transformar numa nuvem. Eu te levarei além do deserto e tu poderás cair novamente sobre a terra, na forma de chuva, vais voltar a ser rio e vais chegar ao mar.

O rio, porém, teve mais medo ainda. Assim foi devorado pelo deserto.

Podemos dizer isso de muitas formas, mas a nossa vida é feita de contínuas transformações. Somos sempre a mesma pessoa, mas também mudamos. As etapas da vida nos fazem passar pela infância, pela juventude, pela idade adulta e, enfim, pela velhice. Os traços pessoais permanecem, no entanto, às vezes, mudamos tanto que ficamos quase irreconhecíveis. As maiores transformações, porém, não são as do nosso corpo. Mudamos muito mais nas ideias, nos afetos, nos pensamentos, nos sonhos e nas esperanças. O ser humano vive em transformação. É por isso que queremos saber de onde viemos e para onde vamos.

Se a vida é um caminho, para onde nos conduz? Podemos encontrar as respostas escutando o que o Filho, Jesus, nos diz, dando ouvido e acreditando na voz do Pai que o enviou. A missão de Jesus foi a de nos fazer conhecer o amor do Pai. Ele quis reconduzir a humanidade ao encontro com Deus, numa nova aliança de amor. Deu atenção aos mais afastados, aos mais sofridos, buscou as ovelhas perdidas. Desmascarou uma religiosidade hipócrita feita de rigor exterior e sem coração. Perdoou e não condenou os pecadores. Entregou totalmente a sua vida a esta missão e pagou muito caro por tudo isso: foi morto na cruz. No entanto abriu o único caminho possível para a verdadeira transformação da vida pessoal de cada ser humano e do mundo inteiro: o caminho do amor. Os apóstolos começaram a entender tudo isso somente na manhã radiosa da Páscoa e ao anoitecer daquele dia quando o reencontraram ressuscitado.

Cada um de nós é chamado a dar um sentido às transformações que acontecem em sua vida. Cada etapa é o fim de algo, mas pode ser também um novo começo. Vale também para os acontecimentos da vida. Alguns são esperados e preparados, outros nos pegam de surpresa e devemos reaprender a conviver com a nova situação. Tudo, em nossa vida, poderia – ou deveria – servir para nos tornar melhores. Mais capazes de amar e sofrer; mais capazes de doar e aceitar ser ajudados; mais capazes de confiar e ser confiáveis. Mais corajosos na fé, mais firmes na esperança e mais generosos no amor. Mais felizes. Nem sempre isso acontece. Muitas vezes mudamos para pior. Ficamos mais egoístas, interesseiros, vingativos e rabugentos. Sempre mais tristes e perdidos. É porque deixamos de prestar atenção e acreditar naquilo que Jesus fez e ensinou. O caminho para a vida nova da ressurreição passa pela subida ao Calvário, tem que morrer um pouco todo dia ao nosso orgulho para deixar a paz do Senhor tomar conta do nosso coração. “Somos cidadãos do céu” nos lembra a carta aos Filipenses neste domingo.

Somos rios que devem correr para o mar, de transformação em transformação. Não somos feito para morrer nos desertos da vida.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 20/01/13 as 12:05 am

O velho violino
Dom Pedro José Conti
, Bispo de Macapá

Numa casa de leilões, o homem que gritava as ofertas pegou  um velho violino. Estava todo arranhado e a madeira já tinha perdido o seu brilho. As cordas estavam balançando quase soltas. O leiloeiro sorriu e achou que não ia ganhar nada com aquela peça estragada, no entanto o levantou e, como de costume, gritou:

- Qual é a oferta para este velho violino? Começamos com…100 dólares. Quem dá mais?

- Cento e cinco – respondeu um.

- Cento e quinze – gritou outro. Alguém falou:

- Cento e vinte.

- Cento e vinte, cento e vinte – repetia o leiloeiro – Quem dá mais?

De repente, do fundo da sala um homem de cabelos grisalhos levantou-se e pegou no arco. Com um lenço tirou a poeira do instrumento e esticou as cordas. No silêncio da sala, começou a tocar uma linda melodia, doce e suave. Quando a música acabou, o leiloeiro voltou a insistir:

- Qual é a oferta para este velho violino? – Muitas vozes responderam:

- Mil dólares, dois mil, três mil, três mil e um, três mil e dois, e três mil e três, vendido! – finalizou o responsável do leilão. Todos aplaudiram. Mas alguém perguntou:

- O que foi que fez mudar tanto o valor do violino? – Logo chegou a resposta:

- Foi o toque do maestro!

O evangelho das Bodas de Caná é conhecido demais e oferece muitas reflexões. João evangelista explica que este foi o primeiro “sinal”de Jesus. Nós ainda insistimos no “milagre” da água transformada em vinho. Na realidade, o evangelista queria dizer muito mais. Com a presença de Jesus, as coisas velhas se tornaram novas e melhores. Em si, a novidade é uma só: o próprio Jesus, mas isso faz que também a antiga Aliança se torne nova e que o vinho “novo” seja melhor do que o velho. Tudo isso acontece durante um casamento, isto é, um compromisso de aliança entre os noivos.

A figura do casamento é familiar aos profetas quando querem explicar o compromisso amoroso de Deus com o povo escolhido e a sua inabalável fidelidade. O que Deus prometeu ao seu povo, desde o tempo do namoro no deserto, agora vai ser realizado plenamente. O “noivo” chegou para selar, agora, uma nova e eterna aliança. Será para sempre. Os odres do vinho velho secaram; o vinho novo, porém, é melhor do que o anterior e não tem como negar a sua qualidade. A festa do casamento – aliança entre Deus e o seu povo – não somente não irá acabar, como será uma festa ainda mais alegre.

Para o evangelista João, a “hora” de Jesus acontecerá no Calvário – a hora da glória -, no entanto neste primeiro sinal já se manifesta a seriedade do compromisso. Os discípulos começaram a crer nele. Para completar tudo isso, Jesus chama a mãe Maria de “mulher”, exatamente como a chamará da cruz, entregando-lhe o apóstolo João como filho. Jesus irá realizar outros “sinais” ao longo do quarto evangelho. Quem tiver a disponibilidade de segui-lo irá conhecê-lo mais, será confirmado na fé e, no final, também se tornará “filho” tendo Maria como mãe. Isso o evangelista já tinha escrito bem no início do seu evangelho falando da Palavra de Deus feita carne: “A quantos, porém, a acolheram, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus: são os que creem no seu nome. Estes foram gerados não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade de homem, mas de Deus.” (Jo 1,12-13). A Igreja-comunidade também é a “nova” mãe que sempre gera “novos” filhos na fé.

Podemos parar, já temos motivos suficientes para refletir. Nós somos convidados a fazer parte da festa desta nova aliança e a crer que seja mais perfeita do que a antiga. No entanto não entenderíamos o novo se não reconhecêssemos a bondade do velho. Jesus não veio para abolir a antiga aliança, mas para levá-la à plenitude. O antigo preparou o novo. Foi a palavra do “mestre” Jesus que revelou em plenitude o amor do Pai. Foi a vida doada de Jesus que resgatou o valor inestimável do amor de Deus para com todos. Quase como a música do maestro que deu muito mais valor ao velho violino do leilão.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 06/01/13 as 12:38 am

O novelo de lã
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Tinha uma grande festa na corte. No salão mais bonito do palácio, o rei recebia as homenagens e os presentes dos súditos. A fila dos doadores já estava quase no final quando chegou uma pobre mulher idosa, apoiando-se num cajado e arrastando os pés. Carregava um pequeno embrulho. Quando chegou à frente do rei abriu o pacote e lhe ofereceu um simples novelo de lã. Era o presente dela e das duas ovelhas que criava. Todos viram e não conseguiram segurar o riso. Aquele não era presente para um rei. No entanto o soberano aceitou a oferta, cumprimentou a senhora e deu a ordem para iniciar a festa.

A idosa saiu da sala entre os comentários sarcásticos dos convidados e voltou para a sua pobre morada. Quando chegou perto, ficou apavorada. A sua casinha estava toda circundada por soldados que estavam colocando piquetes no chão e estendiam entre eles um fio de lã branca. A mulher pensou que tivessem vindo para prendê-la, porque o rei tinha ficado ofendido com o seu humilde presente. O comandante dos guardas, porém, fez uma reverência para a idosa e disse:

- Por ordem do nosso bom rei toda a terra que poderá ser circundada pelo fio de lã, que você levou para ele, será sua.

Assim a generosa senhora recebeu com a mesma medida com que havia doado.

O sentido da solenidade da Epifania vai muito além da forma literária do relato de uma viagem e do encontro dos Magos com o menino Jesus. Apesar do medo, da inveja e do ódio de Herodes, a Epifania é a festa da luz – a estrela – da alegria e da fé. Sobre os Magos, não sabemos de onde vieram e qual outro caminho pegaram para voltar na terra deles. No entanto eles sempre representarão todos os homens e mulheres de boa vontade que buscam um sentido mais profundo e bonito da vida. Precisamos de luz, porque com ela todos nós enxergamos mais e melhor. Na escuridão da ignorância e da dúvida, é muito difícil acertar o caminho. A alegria é, também, a lógica consequência de quem dá um rumo novo à sua vida, cheio de confiança porque está convencido que é o rumo certo. Por fim, confiança é outro nome da fé, sobretudo quando podemos conhecer mais de perto e melhor o nosso Deus. Por sua vez, a fé se torna luz para as nossas decisões nas encruzilhadas da vida e mantém o nosso coração alegre e esperançoso.

Com efeito, a página do evangelho deste domingo reaviva em nosso coração a esperança que um dia todos os povos da Terra possam vibrar de alegria, felizes por ter encontrado o Senhor, por serem capazes de adorá-lo como ele merece, cheios de gratidão e reconhecimento por tão grande amor. Os Magos manifestam esses sentimentos com os seus presentes: o ouro, o incenso e a mirra. Quem entendeu o dom que Deus nos fez vindo ao nosso encontro com a sua humanidade sente a necessidade de também oferecer algo. Mas o que podemos dar ao nosso Rei que ele já não tenha? Os presentes dos Magos, bem entendemos, nada acrescentam à divindade do Menino Deus, nada mudam da pobreza humana que escolheu, em nada amenizam o seu sofrimento e a sua morte na cruz. Reconhecem, porém, quem ele é e o que irá realizar – e já realizou – para esta humanidade ainda tão temerosa e desconfiada.

“Que tens que não tenhas recebido?” (1 Cor 4,11) pergunta Paulo aos Coríntios. É verdade. Sempre pedimos tanto a Deus, cobramos felicidade, bens, alegria, saúde, vida. Damos tão pouco a ele – e aos pobres – e raramente agradecemos.

Ele não precisa dos nossos presentes, mas eles são uma declaração da nossa fé, um humilde reconhecimento da sua grandeza e do seu amor. Somente assim teremos o coração aberto para receber mais, não numa troca, mas na gratuidade e na generosidade que somente o amor explica. É isso que faz todo presente precioso.

Como o novelo de lã da pobre senhora. O que para os outros era sem valor e objeto de zombaria, para o Rei foi um rico presente, porque junto ao fio de lã estava o coração da mulher. É só o que Jesus nos pede, mas é tão difícil e por isso vale muito.

Bairro do Trem celebra a padroeira

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 08/12/12 as 1:33 pm

Hoje é dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do bairro do Trem.  A programação em homenagem à padroeira neste dia começou às 7h  com Missa Solene. Mais tarde, às  16h, tem  Missa Campal e em seguida a tradicional procissão pelo seguinte itinerário: avenida Cônego Domingos Maltêz, rua Hamilton Silva, av. Antonio Coelho de Carvalho, rua Odilardo Silva, av. Cônego Domingos Maltêz. Após a benção prossegue a programação social.
   
Histórico – Nossa Senhora da Conceição, a segunda paróquia criada em Macapá, é constituída atualmente por quatro comunidades: a matriz, no bairro do Trem; Santa Inês, com a igreja na orla do rio Amazonas; Nossa Senhora de Nazaré, no Araxá; e Cristo Rei, no bairro Pedrinhas. O atual pároco é o padre diocesano Fábio Rogério Bezerra Pereira. Uma das festas mais antigas dedicadas à Imaculada Conceição no Amapá ocorre no bairro do Trem, há mais de sessenta anos, desde 1949, na época da primeira capela de madeira erguida no terreno bem em frente à atual sede do Trem Desportivo Clube.
Em maio de 1950 o missionário italiano do PIME (Pontifício Instituto das Missões Exteriores), padre Antonio Cocco lançou a pedra fundamental da nova capela, consagrada e inaugurada em maio de 1954, pelo bispo da então Prelazia de Macapá, Dom Aristides Piróvano, hoje com a monumental torre ao lado esquerdo, a atual igreja Nossa Senhora da Conceição recebe muitos fieis o ano inteiro, especialmente neste período de festividade.

“A festa da Imaculada Conceição é tempo de renovação espiritual, de um novo fervor e ardor missionário. Celebramos o Ano da Fé e nos aproximamos de mais uma Jornada Mundial da Juventude em 2013, ano que para a nossa paróquia será enfatizada a experiência missionária, um ano de aprofundamento da fé em atos”, orienta o pároco padre Fábio Rogério.
O dia 08 de dezembro é quase um feriado nacional porque muitas cidades no Brasil celebram o dia dedicado a Nossa Senhora da Conceição, a exemplo do Amapá: padroeira do bairro do Trem, em Macapá; do município de Calçoene, no extremo norte do Estado; do bairro Comercial, em Santana; da cidade de Afuá/PA, do outro lado do rio Amazonas, e de tantas outras localidades do interior do Estado.

(Texto: Oscar Filho – Pastoral da Comunicação
Foto: Alcinéa)

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 02/12/12 as 11:42 am

A pedra ameaçadora
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Ninguém sabia se havia sido um anjo ou um demônio a colocar aquela pedra enorme naquele lugar. Ela estava encostada na montanha, mas podia desprender-se dela a qualquer momento e acabar com boa parte da pequena vila que estava no fundo do vale. Os homens tinham acolhido o desafio de vigiar os movimentos da pedra. Todas as noites, um deles subia ao monte com uma lanterna na mão e ficava observando. Se a pedra saísse do lugar, ele devia avisar a população da vila tocando uma trombeta. Podia chover ou soprar o vento, com a lua no céu ou se caísse neve, um homem vigiava para que todos pudessem dormir em paz. Ficar vigiando a pedra era uma grande fadiga, mas também um orgulho. Na manhã seguinte, aquele homem descia do monte e parecia-lhe que toda a vila estivesse sorrindo para ele, agradecida.

 O tempo, porém, passou e trouxe outras satisfações e outros orgulhos. Assim, aos poucos, pareceu inútil aquilo que antes era considerado importante. Havia séculos que a grande pedra estava lá e nunca tinha se mexido, porque deveria cair logo agora? Também, diziam, era tarefa do prefeito pagar um vigia para este trabalho. E o governador? Que ele também ajudasse com o dinheiro público.

 Depois de muitas discussões, os homens decidiram suspender o trabalho da vigilância. Não tinha mais graça nenhuma continuar. Nunca é fácil gostar do próprio dever. A não ser que a pessoa encontre nela mesma o gosto daquilo que faz e cada dia renove o seu compromisso. Aqueles homens eram atraídos demais por prazeres exteriores para procurar razões interiores. Nunca mais ninguém subiu ao monte para conferir. A pedra ainda está lá, mas já desceu um bom metro rumo ao vale.

No início do tempo de Advento, recomeçando o ano litúrgico, somos convidados sempre a ficar atentos e a vigiar. Podemos pensar em coisas pavorosas, mas não é para tanto. Seria suficiente pensar em nossa vida que passa. Ninguém de nós sabe o que nos reserva o futuro. Como sempre serão alegrias e tristezas, momentos bons e momentos difíceis. A nossa vida é uma mistura de tudo isso.

Estar atentos, portanto, pode significar simplesmente dar atenção ao que está acontecendo e saber reconhecer a presença do Senhor que veio no meio de nós, mas sempre vem para oferecer o seu amor a todos. Pensamos nas situações da vida, mas também nas oportunidades que ela nos oferece. Pessoas que encontramos pelos caminhos do mundo; gestos e ações de bem, de bondade, paz e justiça que podemos realizar.

Vigiar, diz-nos o evangelho deste domingo, é fazer de tudo para não nos tornar “insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida”. Parece o retrato da nossa sociedade: todos tão atarefados, tão preocupados, correndo o dia todo, porém cada um atrás dos seus interesses, com a sensibilidade e, portanto, com a consciência entorpecida. Acordamos quando acontece algo de grave e de sério para nós. Se depois é questão de dinheiro, somos supersensíveis. Brigamos até o fim. Raramente nos deixamos envolver com as dificuldades dos irmãos. Falar em bem comum é discurso para candidato idealista; poucas vezes é fruto de uma consciência de cidadania unida à vontade de resolver os problemas juntos, assumindo a responsabilidade, também pessoal, de construir uma sociedade mais justa e fraterna.

O mistério do Natal de Jesus nos lembra da sensibilidade de Deus que continua vendo e ouvindo os clamores do seu povo e decide estar ao lado do pequeno e do pobre, de todo ser humano que deixa de lado o orgulho e reconhece a sua finitude. Somente assim acontece o encontro entre o amor de Deus e a nossa sede de amor. Também naquele tempo os insensíveis, seguros de si, não souberam acolher o Salvador. No entanto é com ele, o Senhor que vem, que sempre aprendemos de novo quanto vale ter um coração sensível e amoroso.

Ficamos sempre atentos, vigiando para nós e para os outros também, antes que a pedra gigantesca do egoísmo e da insensibilidade nos faça parecer inútil amar. Neste caso, a pedra já teria destruído a nossa vida, porque teria rolado do monte até parar em nosso coração. Talvez sem perceber.  

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Postado por: Alcinéa Cavalcante em 22/07/12 as 3:04 pm

Três barras de chocolate
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

- Se quiser entrar na nossa gangue deve fazer o que eu mando – falou o chefe do grupo.

Alex queria muito fazer parte da turma, mas estava com medo: nunca havia roubado antes.

– Existe sempre uma primeira vez. – insistiu o chefe – Você não tem escolha.

- O plano é este: – explicou o vice – Nós vamos distrair o velho e você esconde o chocolate no bolso, simples! Se não o fizer é porque você é um covarde medroso.

- Não sou, não – respondeu Alex – vamos lá!

Os três entraram na mercearia onde o velho dono vendia de tudo. O chefe e o vice começaram a olhar as diversas mercadorias, depois perguntaram o quanto custava o tal caderno, a tal caneta e assim por adiante. Do outro lado da mercearia Alex já podia fazer desaparecer algumas barras de chocolate e encher os bolsos. Antes de sair, pagaram o caderno e ainda ganharam umas gomas para mastigar, que o velho dono dava a todas as crianças. Já de fora, correram para se esconder e comer em paz o fruto do golpe.

– Agora você é um dos nossos – proclamou o chefe.

Na manhã seguinte, quando saiu da escola, Alex entrou novamente naquela mercearia. Estendeu ao velho dono uma nota e disse:

- Três barras de chocolate.

- Pode pegar Alex – respondeu o ancião.

- Já as peguei ontem – respondeu o menino – tive que fazê-lo, foi uma prova de coragem.

- O velho pegou a nota, deu-lhe o troco, o chiclete também, e lhe disse:

- Esta, de hoje, foi a sua verdadeira prova de coragem!

Fazer o que muitos outros fazem nos dá segurança; e isto não vale somente para jovens e crianças. Quando estamos em grupo gritamos mais forte, cantamos e, às vezes, dizemos coisas que não teríamos coragem de repetir em casa. Isso acontece num estádio, numa manifestação, num show. No meio da multidão, perdemos a identidade – porque ninguém nos conhece – em troca ganhamos a coragem de fazer loucuras. Temos a impressão que as emoções se multiplicam, choramos e rimos mais, deixamo-nos conduzir pelos outros. Quem começa, ninguém sabe, e nem interessa saber; todos mandam e todos obedecem; a multidão parece uma pessoa só, enfeitiçada. O lado positivo de tudo isso é que também o povo e os pobres, sobretudo, podem manifestar juntos com mais vigor as próprias insatisfações e indignações. A fé também tem os seus momentos de massa. Contudo não podemos nos deixar sempre conduzir pelos outros ou esperar fazer as coisas porque os outros as fazem. No meio da multidão, não podemos desistir da nossa consciência e das motivações pessoais que nos levaram a agir daquela maneira, a participar daquele evento.

No evangelho deste domingo, Jesus olha com compaixão a numerosa multidão que o esperava porque “eram como ovelhas sem pastor”. O povo havia corrido e chegado antes de Jesus e dos apóstolos. O que estavam buscando? O que queriam? Talvez ainda não o soubessem, mas não desistiam de procurar. Em resposta receberam as muitas coisas que Jesus começou a ensinar.

Ainda hoje, uma multidão que se desloca ou que se reúne é sinal de busca. Estão procurando algo, ou têm algo para gritar, que está entalado na garganta. Talvez ainda falte o pastor ou, temos a impressão, são tantos os que se oferecem para orientar e ensinar ao povo, que este fica mais ainda desnorteado. Quando tudo se torna relativo ou confuso é ainda mais difícil discernir quem diz a verdade e quem mente, quem quer o bem do povo e quem quer aproveitar da boa fé dele. Por isso, estar no meio da multidão não significa abdicar da nossa responsabilidade, desistir da própria opinião ou renunciar a uma opção pessoal de fé. Uma comunidade verdadeira não é massa uniforme; ela promove as pessoas e não as anula para que sobressaia m somente alguns líderes iluminados.

Para não perder a nossa identidade, precisamos de momentos de silêncio e de reflexão. Somente interiorizando emoções, sentimentos, anseios, esperanças e fé, podemos manter a nossa personalidade e, com ela, a liberdade de escolha. É justamente para não serem “como ovelhas sem pastor” que Jesus leva os seus amigos para um lugar deserto e afastado. O descanso é também para refletir e enxergar melhor o Pastor a quem querem seguir.

Para entrar no grupo, o nosso amiguinho Alex roubou o chocolate, é verdade, mas depois voltou para pagar. Não se escondeu e nem culpou os outros; a voz da sua consciência falou mais alto.

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Postado por: Alcinéa Cavalcante em 08/07/12 as 1:58 pm

O pescador e a sua esposa
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Numa pequena aldeia de pescadores, onde os homens ficavam longe de casa por muito tempo, pescando com os seus barcos, vigorava uma lei muito antiga e terrível. O adultério era punido com a morte. A esposa que fosse surpreendida traindo o marido devia ser jogada ao mar do alto de um grande recife com as mãos e os pés amarrados. Aconteceu que uma jovem mulher, daquele lugar, acabou traindo o marido que estava pescando em alto mar. O povo da aldeia ficou indignado e decidiu que a lei devia ser aplicada com rigor. Inutilmente a pobre jovem pediu clemência. Amarraram-na e jogaram-na do alto do recife. Porém, antes que ela caísse no mar, uma rede bem forte, apareceu de repente e a segurou. O marido tinha chegado para salvar a sua esposa.

Nenhum incentivo à infidelidade; fique bem claro. Simplesmente o gesto de um pescador que, diretamente interessado no assunto, decidiu resolvê-lo de maneira diferente. O novo e inesperado nos pegam sempre desprevenidos. Pelo fato de não estarmos preparados, a nossa reação é tentar encaixar o “novo” no “velho”, isto é naquilo que já está sob o nosso controle e está conforme os nossos esquemas racionais e “tradicionais”. Afinal, ninguém gosta de ser pego de surpresa, de ter que admitir que não sabe como lidar com o realmente novo.

Voltando a Nazaré, sua cidade natal, Jesus inicialmente é objeto de admiração. Os seus conterrâneos são obrigados a reconhecer a sua sabedoria e os grandes milagres que fazia. Pensando bem, no entanto, decidem que tudo isso estava errado. Jesus é o carpinteiro, um pobre sem-terra – um não proprietário – que vive, portanto, dependendo dos serviços que outros lhe encomendam. Naquela pequena cidade, todos se conhecem e eles sabem muito bem quem é a mãe dele, a família e os demais parentes. Passam da maravilha ao escândalo. Negam o novo, o diferente, o incerto, para ficar com a segurança do velho, do comum, do que parece mais aceitável “porque sempre foi assim”!

Cabe, nesta altura, uma pergunta: afinal, qual seria mesmo a novidade de Jesus que aquele povo encontrou tanta dificuldade para aceitar? É, e será, a dificuldade de sempre: aceitar que Deus possa falar através de um ser humano em tudo semelhante aos outros. Pelos sinais que fazia e os ensinamentos que oferecia, deviam admitir, em Jesus, a presença de alguém superior: se não era o chefe dos demônios, só podia ser…Deus! No entanto, não entrava na cabeça deles que Deus pudesse se apresentar humano, pobre, fraco e humilde. Em lugar de acreditar que em Jesus era o próprio Deus que estava se fazendo conhecer, trocam a alegria da acolhida e da gratidão pelos preconceitos, as categorias e os esquemas de sempre. Estes sim que estão ao alcan ce deles e com eles estão acostumados. Por que mudar? Apesar de todas as promessas e de todas as profecias, um Deus que se fazia homem para ser o irmão – salvador de todos – que vinha para nos tomar pela mão e nos reconduzir ao encontro do Pai; não fazia parte dos planos deles. Essa “novidade” incomodou tanto que, um belo dia, resolveram acabar com ele, pregando-o numa cruz.

As coisas não mudaram muito. Também se dissermos: Se pudesse ver e tocar em Jesus, eu acreditaria – estamos enganando a nós mesmos. Simplesmente estamos adiando a decisão de confiar, ou não, na maneira de Deus ter se feito conhecer naquele homem chamado Jesus. Sempre tentaremos construir um deus segundo os nossos critérios. Um deus ao nosso alcance, que se possa manipular e instrumentalizar. Jesus foi, e continua sendo, novo e diferente demais. Veio para quebrar todos os nossos esquemas, porque Deus é assim, pensa, age, decide, ama até o fim, como fez aquele homem Jesus.

Os adúlteros infiéis somos nós; traímos o Deus vivo e verdadeiro, para seguir os falsos deuses que nós mesmos criamos e construímos porque a estes podemos fazer querer o que nós bem queremos. Estaríamos perdidos se “o noivo”, Jesus, não viesse sempre de novo em nosso socorro jogando a sua rede para nos salvar. Ele é o verdadeiro pescador de homens, porque o Deus da vida quer que “todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2,4).