Castigo e bênção
Milton Sapiranga Barbosa

Na  minha época de  moleque no bairro da Favela,  adorava  fazer mandado para os  adultos,   em especial para  a família Amorim,  que morava  atrás da Igreja dos Irmãos, bem ao lado da casa da mamãe, lado direito da subida da Mendonça Furtado. Seu Amorim e sua esposa, Dona Marieta e os filhos, Sônia, Tereza,  Antero e o genro Ermano Moro, um italiano muito gente fina e, até mesmo a outra filha do casal,  Dona Zarelli, quando vinha do Rio de Janeiro visitar os pais,  usava meus préstimos, quando precisava de alguma coisa do comércio local. Eles eram  generosos na gratificação após  a realização da tarefa que me fora incumbida. Gostavam de mim,  pela honestidade na devolução do troco e da rapidez com que   ia no comércio e voltava. Essa rapidez (e também a honestidade) foi adquirida  graças a minha mãe, que quando mandava  comprar tabaco no Casa Canuto (ficava  na esquina da general Gurjão com general Rondon), e  que, segundo ela, vendia o melhor fumo pra cachimbo, sempre dizia: Vou cuspir aqui, se chegares depois do cuspo secar, tu já sabes . E como sabia. Era  surra na certa. A palmatória, com furo no meio ia bater “espaiado”.  Eu ia num pé e voltava no outro (a pedido dela).
Além da casa Canuto, também fazia compras  no Seu Rafael, no comércio do Cacú, Bar Popular, Casa Duas Estrelas, Casa Amim, entre outras.  Nesses locais, quando via um adulto entornando uma dose de cachaça e em seguida franzindo a cara  e dando aquela cusparada no chão ou na parede, achava nojento e pensava: Um dia posso até beber, mas nunca vou beber cachaça.  Tornei-me adulto  e,  junto com outros colegas de infância que também chegaram a maior idade, contraí dois vícios extremamente danosos: passei a fumar e a beber. Acho até  que foi CASTIGO, pois minha bebida preferida  era a maldita cachaça, consumida  dos 18  até os 46 anos de idade. Foi então que  constatei ser verdade o ditado popular: Nunca diga desta água não bebeberei! Eu  disse e paguei.
Bebi, bebi, mais bebi muita cachaça. Pescaria sem  pelo menos duas garrafas da branquinha, nem pensar. Gostava tanto, que às 5 da manhã já tomava um copo cheio para enganar o sol.  Criei  a triste fama de bom bebedor da água que passarinho não bebe até  em Roraima, quando eu e meu compadre Humberto Moreira fomos  lá a serviço da Rádio Nacional.
Convidados  pelo Chiquinho, irmão da prefeita de Serra do Navio, Lucimar Amorim,   fomos  jogar pela TELÁIMA na Cidade de Bonfim, distante uns  150 a 200 quilômetros da capital Boa Vista, creio eu . Na  viagem de volta, o motorista da Kombi abriu uma garrafa de cachaça e  passou em frente  para os demais molharem a garganta. Quando chegou na vez do Humberto, ele agradeceu e disse: Meu compadre me representa e então me entregaram a garrafa acima do meio. Deitado com a cabeça  apoiado no pneu socorro, só fiz entornar a garrafa  e o Humberto teve que  dizer: Toma, senão ele seca. Mas  o vício, que  eu considerava CASTIGO, graças à minha querida e abençoada mãe, abaixo de Deus, um dia acabou.

Era um sábado de maio, véspera do Dia das Mães (como muitos ,acho que todo dia é dia desse anjo em forma de mulher), mas  comercialmente, é festejado no segundo domingo do quinto mês do ano. Naquele dia passei a noite  farreando com os amigos em Santana  e no dia seguinte,  domingo, por  volta de 9 da manhã,  ainda exalando  aquele  bafo desgraçado, fui  abraçar   Dona Alzira  e a mana  Mariazinha, duas mães maravilhosas, responsáveis pela formação de meu caráter. Como mamãe, já aos 76 anos não tinha mais vaidades e possuía no seu guarda roupa  lençóis, cortes de tecidos em vários padrões,  gavetas cheias de  camisolas, toalhas e  dezenas de imagens de santos  em cima da cômoda, no momento em que  fui  abraçá-la,  pedindo-lhe a bênção  e dando-lhe os parabéns,  foi que pronunciei a frase mais feliz e importante de minha vida ao perguntar-lhe : “Mamãe, o que a senhora quer de presente?” Ela  me  deu a bênção e olhou nos fundos dos meus olhos e disse, calma e docemente: “Quero sua bebida de presente, meu filho.”   E  eu, na hora, sem titubear, com uma firmeza na voz até então desconhecida,  respondi:  “De hoje em diante, enquanto a senhorar for viva, não bebo mais.“  Mamãe  morreu  por volta de 5 horas, na  fria madrugada do dia 19 de março/07, dia de São José, com 92 anos, num leito do hospital geral, segurando minha  mão,  com a certeza de ter cumprido a missão que lhe fora confiada por Deus aqui na terra, inclusive, fazendo com  que  eu parasse  de beber. E lá já se vão 16 anos sem a “marvada pinga”. Uma BÊNÇÃO.