MEU BARBEIRO PREFERIDO
Milton Sapiranga Barbosa

Sempre que ouço alguém dizer que “a primeira vez nunca se esquece”, concordo em gênero, número e grau.
Essa certeza que a primeira vez é inesquecível,  ficou mais forte quando, ao chegar em casa, após cumprir a segunda jornada de trabalho do dia, encontrei o menino Vitor Gabriel, de  quatro anos, filho da Fernanda  e bisneto da dona Sabá e do saudoso amigo/irmão Delmivaldo Lacerda( Donga Lacerda ou Carudo para os mais chegados). Ele, o Vitor Gabriel, estava de cabelos cortados no estilo rapaz moderno e foi então que lembrei do meu primeiro barbeiro, o Sr. Jorge Modesto, que tinha seu salão com paredes de barro, alí no formigueiro, próximo da casa da mãe do Azevedo Costa, na av. General Gurjão.

Depois de ver aquele garotinho com os cabelos bem aparados, lembrei que na minha infância, até os 15 anos, o corte da molecada era no estilo Cascão, personagem de histórias infantis criado por Maurício de Souza. aquele que o Ronaldo Fenômeno usou na final da  Copa do Mundo de 2002,  um tufo de cabelos na parte frontal do cocoruto. Depois dos 15 anos o moleque já podia usar o corte estilo militar  e, só após completar 18 anos,  era que podia cortar aparadinho, junto as orelhas.  Daí pra frente foi uma enxurrada de lembranças, vi passar um filme com os barbeiros que conheci; Cardoso, Lacinho, Zezinho e seu irmão Tetê, Olinto, Maruim, Casaquinha, Holanda, Crispim e Alexandre. Todos eles, por mais de uma vez, derrubaram minha cabeleira pixaim, contudo, o meu barbeiro preferido foi, sem dúvida,  o Manoel do Carmo Xavier do Rosário, o Manoel Cametá, como era mais conhecido.

Ele chegou em Macapá, oriundo da terra dos Romualdos em 1952. Trabalhou por alguns anos na  ICOMI  como carpinteiro  e ao sair, usou parte da indenização para  alugar uma sala nas dependências do  bar do Alemão (Urca bar) e montar sua primeira barbearia, que era seu grande sonho, já que em Cametá já exercera a profissão de barbeiro com grande sucesso entre seus conterrâneos.

Seu Manoel Cametá, como todo jovem da época,  mostrava seus dotes de dançarino no salão do Pecó, no salão Rouxinol e nas sedes do Latitude Zero e do Trem e também nos dançarás da vida noturna macapaense, Merengue, Sobradinho, Lago dos Sonhos, etc…!  Por ser pé de valsa e bom de papo, conquistou a jovem Zaíra, tida como um das moças mais bonitas do bairro do Trem e  que mais tarde viria ser sua esposa cumprindo a risca a frase dita em cerimônia de casamento; “até que a morte os separe”.

Manoel Cametá trabalhou no salão do Carioca, na barbearia do Hotel Macapá, até que, já no bairro da Favela, onde fixou residência, inaugurou o  SALÃO NATAL, que tornou-se um dos mais famosos e procurados de Macapá.  Seu Manoel atraia o público masculino ( depois até feminino) por sua categoria como barbeiro,  por ser bom de conversa e contador de causos e piadas como poucos. Também era um gozador de primeira linha e o seu conterrâneo Bené, era quem mais sofria, por conta de ter pronunciado Nirce, quando o nome de sua esposa era Nilce. Ele se gabava que era bom jogador de dama, mas não conseguia vencer do seu Bezerra e do vigiense Lacinho. Ganhava sempre do Sapiranga, que não jogava nada.  Manoel do Carmo Xavier do Rosário, meu amigo, meu vizinho e meu barbeiro preferido, morreu no dia 18 de abril de 2009, após já ter sofrido dois derrames. O  filho Carlitos, a pedido do pai, continua mantendo abertas as portas do SALÃO NATAL, que seu Manoel Cametá tanto amou, fez muitos amigos e admiradores de  sua arte com a navalha e a tesoura.