Alcinéa Cavalcante

Liberdade de expressão!
Macapá - Amapá

Raimundão, o paraquedista

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 28/09/09 as 1:06 am

Milton Sapiranga Barbosa

Na Macapá dos anos 50/60, nos bairros periféricos, todas as casas tinham no quintal um poço e uma privada. Seu Aprígio, um nordestino arretado e boa praça, era o melhor e mais procurado cavador de poços  e privadas da cidade.

Face a demanda, contratou como  seu auxiliar o seu Raimundão. Seu Aprígio cavava e o Raimundão tirava a terra. Às vezes se revezavam nessa dura tarefa.Seu Raimundão era moreno, forte, do tipo atarracado, como se costuma dizer de um cara baixo e troncudo.

O bairro da Favela tinha muitas  casas construídas entre as ruas Odilardo Silva e Jovino Dinoá e as avenidas Duque de Caxias e Padre Júlio e, cujos quintais, terminavam dentro do igapó. Uma delas  pertencia ao seu Oscar Couto. No fundo do quintal do seu Oscar  tinha uma grande árvore, que servia  para descanso e ponto de observação para dezenas de urubus. Lá também se abrigavam e se alimentavam alguns camaleões. Tanto os urubus como os camaleões serviam de alvo para a turma da baladeira.

Na casa ao lado da do seu Oscar, o seu vizinho Mirico possuía uma vitaminosa, bastante procurada pela vizinhança devido a qualidade do açaí que vendia  e por suas bonitas filhas, Francisca e Filica, que se revezavam no atendimento  a clientela.

Certo dia, um senhor que parou para comprar  açaí, viu a molecada tentando derrubar os camaleões sem sucesso e disse: “deixa estar que sábado trarei meu rifle e vou derrubar algumas pra vocês (naquela época se podia caçar sem problema).

Dito e feito. No sábado, lá estava ele de arma em punho  e boa pontaria. Derrubou a primeira, a segunda, a terceira, mas a quarta,  que sem dúvida era a mais porruda, mesmo tendo recebido um balaço mortal não caiu, porque ficou presa em um galho tomado por ervas de passarinho. Seu Raimundão, depois  de tomar umas outras no Bar Popular, do seu Manoel Raimundo, ouviu o tiroteio  e foi lá olhar, como todo bom curioso. Quando ele soube  e viu o camaleão preso no galho, falou: “se tivesse uma escada  iria lá buscar o bicho”.

Do nada surgiu uma escada  e seu Raimundão se apressou em cumprir o prometido. Subiu, balançou o galho e o camaleão caiu. Nosso personagem ao iniciar a descida, olhou pra baixo.  Surpresa! A escada havia sumido, por arte e sacanagem do Pedroca, filho do seu Oscar e meu companheiro fiel nas traquinagens. Todo mundo se escondeu para ver  o que  seu Raimundão ia fazer para descer. Claro que a escada seria posta  no lugar, mas antes  que  se passasse do pensamento a ação, seu Raimundão se pendurou em um galho mais embaixo, que não  aguentou seu peso e quebrou. Junto com o estalo do galho quebrando, ouvimos o grito do Raimundão: “SAI DE BAIXO QUE LÁ VAI O PARAQUEDISTA”.  Por ser muito pesado (quase 100 quilos)  e ajudado pela força da gravidade, caiu entre umas aningueiras e ficou enterrado até a cintura. Deu um trabalhão tirá-lo  daquele atoleiro. Daquele dia em diante, a molecada não podia ver seu Raimundão que logo gritava em coro: “LÁ VEM O PARAQUEDISTA”. Gritava  e corria, pois sabia que um tabefe com uma daquelas mãos, grossa e calosa, de tanto cavar poços e privadas, devia doer uma barbaridade. Mas ele nunca bateu em nenhum moleque, só ficava na ameaça.

Seu Aprígio, seu Raimundão, a grande árvore dos urubus e camaleões, o atirador infalível, seu Oscar, Pedroca, seu Mirico  e suas filhas bonitas, são boas lembranças da minha infância feliz, vivida no meu querido bairro da Favela.

13 Comentários

  1. Deocleciano Nery disse:

    O nome do atirador era Hosana, consertava sapatos

  2. JORGE TAVARES disse:

    milton faltou a lurdes a + nova. milton eles estao morrando ainda ai

  3. anselmo disse:

    Milton, parabens. A “memória” das coisas e dos lugares bons deve ser preservada. Nasci e me criei em Macapá, no Bairro do Trem. Cheguei até trabalhar na radio educadora… voce lembra do Açai do Pecó?

    anselmo

  4. Flávio Cavalcante disse:

    Adorei a história do Raimundão. Parabens para Alcinea e para o Milton Sapiranga

  5. milton sapiranga barbosa disse:

    Néa, com sua licença, vou passar ao Fabrício Lopes Barbosa, alguns dados sobre seu Raimundão -O Paraquedista – que ele acha que pode ser seu avô materno. /Fabricio, seu Raimundão morava na Padre Júlio, entre jovino e leopoldo, lado esquerdo no sentido centro. Era pai do Amaro, da Maria, do Francisco. Era irmão da dona Zulmira(que morava na Cora de Carvalho, mãe do Arigò, do Mário. Você, se neto do seu raimundão, seria fiho da Maria, do Amaro ou da Maria? Um abraço.

    • FABRICIO LOPES BARBOSA disse:

      milton sapiranga barbosa, OBRIGADO PELA INFORMAÇÃO REALMENTE O RAIMUNDÃO ERA MEU AVÔ,NÃO CHEGUEI A CONHECE-LO POIS ELE MORREU NO ANO QUE NASCI.POR ISSO ME INTERESSEI MUITO PELO ASSUNTO. SOU FILHO DE MARIA DO CARMO DA SILVA LOPES,FILHA MAS NOVA PROFESSORA APOSENTADA . MUITO OBRIGADO

      • milton sapiranga barbosa disse:

        Fabricio,fico feliz por ter ajudado. Por inclivel que pareça e vc até não acredite, a Maria, se é que ela ainda se lembra, foi paquerada por mim na adoescência e hoje é uma grande amiga. Não se preocupe, seu sobrenome Barbosa é mera coincidência. Dê um forte abraço em sua mãe. Desejo saúde felicidades a todos. sempre. Como ela não me conhece por sapiranga, diga que é o Milton, colega do Mucura, que morava na mendonça furtado.Abraços, sapiranga.

  6. FABRICIO LOPES BARBOSA disse:

    Boa tarde Alcinéa, meu nome é Fabricio Lopes Barbosa,tenho 30 anos sou piloto de avião por vocação, casado tenho um filho. Sou um grande leitor de seu blog,e hoje estava lendo seu cometário sobre “RAIMUNDÃO, O PARAQUEDISTA”.
    BOM ALCINÉIA QUERIA MAS INFORMAÇÕES SOBRE RAIMUDÃO ACREDITO SER MEU AVO MATERNO.
    DESDE JÁ AGRADEÇO.

  7. Milton
    É muito gostoso ler o que você escreve. Retrata, com rara doçura,noentis de uma cidade que ainda tem muito a ser contado, antes de perder competamente a inocência.
    Seria bom se tudo isso resultasse em um livro. Una boa parte da história de Macapá estaria nele
    Um forte abraço
    Corrêa.

    • milton sapiranga barbosa disse:

      Oi querido amigo e mestre Corrêa Neto. Fiquei feliz e orgulhoso com seu comentário. VC sabe o quando lhe admiro, e não é de hoje. Um abração e muita saúde, sempre. Sapiranga

      • Deocleciano Nery disse:

        O nome do atirador era Hosana, consertava sapatos, vizinho do Roldão,pai do Mauro, Teodoro, Agnelo,Maura.
        O pedroca que escondeu a escada casou com uma das filhas do seu Mirico :A filica

      • Deocleciano Nery disse:

        O nome do atirador era Hosana, consertava sapatos, vizinho do Roldão,pai do Mauro, Teodoro, Agnelo,Maura.
        O pedroca que escondeu a escada casou com uma das filhas do seu Mirico :A filica
        Dede.

      • Deocleciano Nery disse:

        O nome do atirador era Hosana, Consertava sapatos e era vizinho do Roldão pai do Mauro, Teodoro, Agnelo, Maura.
        O Pedroca que escondeu a escada casou com uma das filhas do seu Mirico,a Filita
        Dede

Deixe o seu comentário!