Especial Dia das Mães – Carta

CARTA
Alcy Araújo

Há muito tempo, muito tempo mesmo que não escrevo para você. Não escrevo porque é muito difícil falar de coisas só nossas. Minhas e de você, como, por exemplo, o dia em que fugi de casa para conquistar o mundo e tinha apenas três anos. Também aquela vez que, maravilhado com a descoberta da caixa de fósforos, provoquei o mais belo princípio de incêndio que tenho na memória e que resultou em vigorosas palmadas que impediram que eu escolhesse, no futuro, a espetacular profissão de pirotécnico.
São coisas intimamente nossas, na saudade do que foi, como a escola e os sacrifícios que você fez para que eu fosse o que nunca pude ser o que você queria tanto que eu fosse. Às vezes fico pensando como seria a nossa vida hoje se eu tivesse podido entrar para o seminário de Belém. Quem sabe eu teria a minha paróquia como o padre Jorge? Mas o seminário não foi possível e ficou, até hoje, a frustração que atingiu o menino.
Há também a vida dura das oficinas e os plantões noturnos intermináveis nos jornais. E os nossos momentos felizes, apesar de uma existência tão plena de pobreza. O dia da minha primeira comunhão, a primeira vez que vesti o roquete de coroinha, o uniforme de escoteiro, o primeiro dinheiro ganho foram instantes de imensa felicidade. E as tristezas, como naquele dia em que Papai Noel não veio.
Depois o menino ficou homem e aconteceram muitas aflições e desencantos. Mas o menino que você embalou, que vestiu para o primeiro dia de aula não mudou em sua essência. É humilde e terno. Apenas sofrido. Carrega dores e cicatrizes no coração grisalho.
Mamãe, o menino ainda sente a mesma necessidade de carinho e de amor, sonha e tem as mãos cheias de ternura, para repartir entre os que necessitam de compreensão e de esperanças.
Que importa o que a vida judiou se os ensinamentos que vieram de você ainda permanecem? Mas não tem sido fácil conservar em meio a tantas mágoas o gesto de bondade.
Se isto pode servir de algum consolo para você, eu conto que o mundo não me fez mau. Digo isto porque você sabe que andei muitas vezes por caminhos proibidos. Mas isto, mãe, não é coisa nossa. Abençoe seu filho, nesta hora em que sinto uma vontade imensa de chorar…

(O poeta, escritor e jornalista Alcy Araújo Cavalcante, meu pai, nasceu em 7 de janeiro de 1924 em Peixe-Boi, no Pará, e morreu em 22 de abril de 1989 em Macapá. Sua mãe, Elvira Araújo Cavalcante, morreu em novembro de 1971 em Macapá)

Onde está o meu beijo?

Onde está o meu beijo?
Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

Regiane era uma criança alegre e inteligente. Lhe faltava algo, mas ela ainda não sabia. O pai e mãe dela trabalhavam muito. Era uma bela família e viviam felizes. Certa vez, quando Regiane tinha dez anos, foi passar uma noite na casa de uma amiga, colega da escola. Antes de dormir, a mãe da colega ajeitou os lençóis delas e Continue lendo