Chá da tarde

O poeta e o palhaço
Rui Guilherme

Uma que ri, outra que chora:
É assim a cara do palhaço
A lágrima que se demora
Fere mais fundo que o aço.

Enquanto a plateia, delirando,
Aplaude, às gargalhadas,
O pranto no peito, queimando,
Esconde-se sob as galhofadas
Do artista do riso falso.
Triste é a sina do histrião:
O picadeiro é o cadafalso
Onde imola a inconfessada solidão!

Assim também é o poeta.
O poeta, palhaço, é teu irmão,
Se tua arma é a cambalhota,
A do poeta é a caneta.
Tu, alvo eterno da chacota;
Ele, presa fácil da ilusão…

(Extraído da coletânea “Poesia na Boca do Rio”)