Chuva matina

CHUVA-MATINA
Alcy Araújo
(1924-1989)

De repente o azul do céu ficou cinzento e o sol que bailava em luz na manhã tomou a inesperada resolução de se esconder por trás do silêncio que se fez.
Um relâmpago fotografou o momento de espanto e um trovão rasurou a manhã que ficou pesada como chumbo. Então a chuva começou a cair sobre a cidade, comprimindo os pássaros contra as árvores molhadas e as crianças nas vidraças das janelas.
Depois a chuva começou a entrar no meu quarto, gotejar no meu poema, molhar o meu relógio cansado de marcar as horas lúcidas do meu imenso amor, refletido em lágrimas no espelho defronte e insone.
Poderia contar aos que ouvem meu poema nascendo, que muitas dores embarcaram inutilmente nos barquinhos de papel para naufragarem sem remissão logo adiante, na primeira curva do rio que a chuva inaugurou diante de minha janela. Mas não conto porque todas as tristezas voltaram a habitar o meu dia e a minha noite e o meu poema.
Estou visivelmente crucificado à minha dor. Mesmo porque não tenho uma rosa vermelha para mandar à Bem-Amada que chora a minha ausência e a infelicidade de haver me amado numa noite em que a música vinha do interior dos saxofones e nos tornou comovidos e solitários. Lembro que não conhecemos ninguém fora de nós mesmos, quando promovíamos a gestação da saudade.
Sei agora que ando de pés nus, pisando lágrimas cristalizadas que ferem como cactos. Mas longe, onde a esperança se esconde, a felicidade prometida sorri nos olhos daquela que tem as mãos cheias de afeto.
E a chuva continua lavando desencantos…
Não tenho, porém, nenhuma rosa e nenhum pássaro pousado nos meus ombros nesta manhã cinzenta. Quem estiver ouvindo o meu poema nascendo sabe que é assim e que me falta um gesto de amor que ficou na saudade e que pode voltar a qualquer momento, para minha eternidade absoluta. Digo isto porque o céu está ficando azul novamente, neste instante em que enxugo uma lágrima no lenço que guarda a lembrança das lágrimas que a Bem-Amada chorou, numa desesperada hora de amor.

  • Lindo. Sou apaixonada pelos escritos deste autor. Ler o que ele escreveu é como como fechar os olhos e poder ouvir tudo ao som de sua própria voz. Como varias vezes pude ouvi-lo, quando lia pra mim.

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