Artigo dominical

O procurador de verdade
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um ocidental que amava se definir como “procurador de verdade” desejava muito conhecer um sábio mestre oriental. Quando chegou à vila onde vivia o sábio, impaciente como era, precipitou-se com muita pressa para a casa que lhes tinham indicado ser a morada dele. Agarrou a mão do homem, que estava sentado em oração, e despejou sobre ele uma saraivada de perguntas a respeito da vida espiritual. O homem escutou em silêncio, depois disse:

– Irmão, tenho três coisas para te dizer: primeiro, és agitado demais para aprender alguma coisa; segundo, estás pisando nos meus pés; terceiro, eu sou um empregado; o mestre mora na casa da frente.

Entre tantas maneiras de definir o ser humano, uma das mais apropriadas é reconhecê-lo como um animal inteligente. O homem é curioso, quer saber, quer entender o porquê das coisas e dos acontecimentos. A história da humanidade é pontuada por contínuos avanços em todos os campos do conhecimento. Sabemos, mais ou menos, como tudo isso começou, mas temos a impressão que nunca terá fim. Com efeito, para quem busca a verdade sobre a vida, nos mais variados campos, mais se avança, mais novos horizontes se abrem. Apesar do acúmulo de conhecimentos e de experiências do passado, cada ser humano, ao longo de sua existência, deve percorrer fadigosamente o seu caminho pessoal de busca do sentido da própria vida. Muitos estão dispostos a nos ajudar. Pais, mestres, companheiros de caminhada. No entanto, entre acertos e desacertos, têm perguntas às quais cada um de nós deve dar uma resposta. Quem se satisfaz em não responder está reconhecendo, de fato, que não sabe de nada ou, pior, não quer saber de nada. Sem perceber, está desistindo da aventura mais desafiadora e mais digna de todo ser humano: dar um sentido à própria vida.

No evangelho deste domingo, Jesus nos diz uma palavra bem conhecida: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Podemos entender a mensagem de muitas formas. Sugiro uma leitura muito simples: a vida é um caminho, porque todos estamos de passagem neste mundo. Mesmo sem pensar muito, todos nós desejamos ser felizes e, portanto, queremos acertar o caminho e a meta para não admitir o vazio ou a inutilidade da nossa existência. Significa que a busca da verdade – isto é, do caminho certo – também faz parte do nosso caminhar. Certa dose de angústia, de medo de errar, é saudável para quem aceita o desafio de procurar e não engole qualquer mentira por adocicada e bem embalada que seja.

Jesus se oferece para nos ajudar. Cabe a nós conhecê-lo bem para poder acreditar que é confiável e, com isso, segui-lo até a meta. Para conseguir isso, não podemos ter pressa porque Jesus foi um Mestre todo especial. Ele não ensinava com palestras ou algo semelhante; ensinava – e continua ensinando – com a sua própria vida. Para conhecê-lo, os discípulos tiveram que acompanhá-lo nas suas andanças. Viram como ele amava, como correspondia aos anseios e aos medos das pessoas, como dava esperança aos desanimados. Viram como viveu e como morreu. Eles demoraram a entender. Foi difícil mudar muitas das suas ideias, mas, no final, aceitaram serem as testemunhas da sua morte e ressurreição e deram as suas vidas pela causa do Evangelho.

Para conhecer Jesus precisa caminhar com ele ou, me deixem dizer, caminhar nele, ou seja, fazer da vida dele o caminho da nossa própria vida. Sempre seremos tentados a experimentar outros “caminhos”. Errar faz parte da busca. Não tenhamos receio em voltar. Jesus é o caminho difícil, estreito, pedregoso, porque é o caminho do amor e da doação. Mas também ele é o caminho certo para ir além deste mundo. Com ele e nele chegamos à vida eterna, a vida plena que somente Deus pode doar.

Que pena que muitos não tenham a paciência de procurar. Talvez o mestre não more muito longe. Na casa da frente? Em nosso coração? A busca continua.

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