Artigo

Jango e a exumação da verdade
*Pedro Simon

Os leitores de Zero Hora foram brindados, semana passada (22), com um brilhante editorial. Partia de premissas corretas para chegar a conclusões equivocadas. Começava pelo título infeliz (Revisionismo pirotécnico) e acabava desmerecendo o esforço que faz o país para exumar o ex-presidente João Goulart e a verdade soterrada pela ditadura. Ninguém se excede ao reescrever uma História fundada na mentira, como imagina o jornal, que capitulou ao embuste ao justificar: O Congresso da época chancelou tudo.

O Congresso de 2013, porém, não se dobrou e, na madrugada de 21 de novembro, corrigiu um ato de submissão cometido pelo Congresso na calada da noite de 2 de abril de 1964. Há 49 anos, de forma leviana, contrariando os fatos e a verdade, parlamentares emprestaram suas biografias para chancelar a falsidade de uma suposta fuga do país do presidente Jango, que estava em Porto Alegre tentando resistir ao golpe, que acabaria fechando o próprio Congresso por três vezes.

Uma resolução proposta pelo senador Randolfe Rodrigues e por mim, agora, resgata a história real e retira da treva o caráter de legalidade que se tentou dar, ao longo do tempo, para uma truculenta manobra parlamentar que tentava camuflar o putsch envergonhado.

Os políticos, como os jornalistas, devem se pautar sempre pelo que é fato e é verdade, bases essenciais para a construção da democracia. Quando os eventos são mentirosos, eles devem ser apurados e recontados, cedo ou tarde, como tributo à História.

A resolução do Congresso não tenta reempossar Jango, nem desfaz o que fez a ditadura. A altiva decisão do parlamento, agora, corrige um deslize histórico que rebaixou o Legislativo ao papel de cúmplice de um regime que, depois, abastardou a vontade popular pela força das cassações e pela violência dos Atos Institucionais, que prescindem do Legislativo e do povo.

Todos os anos, às 10h de 27 de janeiro, os habitantes de Israel param o que estão fazendo e saem dos carros e ônibus para ouvir em silêncio as sirenes que varrem o país por dois minutos. É a lembrança perene pelos milhões de judeus mortos pelo nazismo e homenageados no Dia Internacional das Vítimas do Holocausto. É pura emoção, sem pirotecnia. É o simbolismo da raça humana que não se abate. O reconhecimento pelo Congresso de que Jango é um presidente deposto, e não fugitivo, tem o peso dos símbolos que orientam e elevam a consciência do mundo.

*Senador (PMDB-RS)

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