Artigo de Natal

“Eis aqui a serva do Senhor”
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Chovia muito. Uma senhora que viajava de taxi viu, à beira da estrada, uma velhinha que, toda molhada, estava esperando o ônibus. Tocada pela situação da pobre mulher, a senhora pediu ao taxista para encostar e parar. Convidou a idosa a entrar no carro e se ofereceu para deixá-la em sua casa, mesmo que, como logo soube, ela morasse bastante longe. Foi uma viagem demorada e o custo elevado. Quando, porém, a senhora abriu a bolsa para pagar, veio a surpresa.

O taxista também quis colaborar e deixou a tarifa pela metade.

Uma história simples e bonita. Um gesto de caridade que envolveu outra pessoa. Apesar de tudo, ainda dá para acreditar que o bem consiga se espalhar. Se o nosso coração ainda não é totalmente de pedra, é difícil ficar indiferentes a um gesto de bondade e de generosidade. Algo nos impulsiona a agir também, ou até a fazer mais numa santa disputa. É comum dizer que se as palavras convencem, os exemplos arrastam. Com certeza, não por mera propaganda ou promoção, mas pela atração do próprio bem.

Assim, no final do tempo de Advento, a liturgia sempre nos apresenta o exemplo de Maria. É a mãe que aguarda o nascimento do filho, ansiosa e esperançosa, como todas as mães. Mas, antes, ela é também a jovem capaz de entregar a sua própria vida para que a grande promessa de Deus se torne realidade. Maria, a pobre jovem de Nazaré, não doa simplesmente alguma coisa, ou empresta o seu corpo para alguns meses, ela doa a sua própria vida, seus sonhos, anseios e afetos. Sem saber tudo o que irá acontecer, confia nas palavras do mensageiro e aceita ser “a serva do Senhor”.

O diálogo interior de Maria, a sua fé e a sua decisão vão além das palavras e ecoam a história da própria humanidade e de cada um de nós. Basta entender a diferença que existe entre fazer um serviço e ser servo. Quem faz um serviço para alguém, se é honesto, procura fazê-lo da melhor maneira possível, mas quando tudo acaba, volta à sua vida particular, aos seus interesses, atividades e, talvez, caprichos. Pode esquecer o que fez. Não se envolveu. O servo, ou a serva, não. Este está sempre pronto a servir, acolhe como sua a vontade do seu senhor. Escravidão? Submissão? Renúncia à própria liberdade? Depende de quem é o senhor e o que ele manda fazer. Se o “senhor” é Deus, o servo acolhe, livremente, colaborar porque tem a certeza que aquele pedido é mais que uma ordem a ser cumprida, é o próprio bem acontecendo. Quem faz o bem, quem obedece à bondade, torna-se “escravo” do amor, da verdade, da justiça. Não são palavras de romance ou de enamorado enfeitiçado. É a pequena resposta da fé humana ao grande projeto amoroso de Deus. A pessoa não perde nada da sua liberdade porque, agora, quem manda nela é o bem. Sempre. Está livre do mal.

Com o seu “sim”, com a sua obediência, Maria entra de cheio a fazer parte do amor de Deus pela humanidade, daquele momento até aos pés da cruz de seu filho Jesus. Deus não precisa simplesmente de “colaboradores” para fazer alguma coisa, por gentileza, cortesia ou interesse. Precisa de cristãos confiantes, capazes de abraçar a sua causa, prontos a servir sempre, porque ser bons não pode ser simplesmente cumprir alguns gestos de bondade, mas escolher sempre o bem. Ser cristãos significa ser pessoas boas, justas e fraternas, tanto assim, a ponto de não conseguir mais pensar, planejar, desejar ou fazer o mal. Tudo isso acontece no mais profundo do nosso coração, da nossa consciência, na mais ferrenha luta contra as tentações do egoísmo, da ganância e da indiferença. Nada fácil, claro.

Viver o Natal não é só fazer alguns gestos de bondade, é querer ser bons sempre porque vale a pena amar, lutar para fazer outros felizes. Natal é para aprender, com Maria, a sermos colaboradores de Deus, servos por amor, servos do amor. E o amor se espalha.

Feliz Natal a todos!

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