Artigo dominical

Um simples e honesto cachorro
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

A brilhante e barulhenta civilização dos homens avançava. Poucas áreas verdes e de mata estavam sobrando para os animais. Todos se reuniram em assembleia para planejar a resistência. Precisava de um computador para organizar todas as informações. Somente a memória de um elefante daria conta.

– Eu sou um elefante – disse o caititu. E, porque tinha um tio na comissão foi aceito na equipe. Também precisava de um sistema de comunicação rápido e eficiente. Um pombo-correio resolveria.

– Eu sou um pombo – declarou a galinha. E, porque todos gostavam dela, foi aceita na equipe. Faltava um conhecedor de obras públicas para organizar as reservas de água. Um castor saberia das coisas.

– Eu sou um castor – falou a toupeira. E, porque sabia mexer por baixo dos panos, conseguiu a vaga. Assim todos conseguiram o seu emprego e o seu salário. Sobrou um cachorro. Os sábios lhe perguntaram:

– E você, o que sabe fazer?

– Eu sou somente um cachorro farejador – respondeu o pobre animal.

– Continua sendo cachorro – responderam as autoridades iluminadas. No entanto as coisas foram piorando cada vez mais.

– Quanta comida nos resta para sobreviver? – perguntaram ao caititu.

– Não sei, não me lembro – respondeu ele. Assim foi desmascarado e mandado embora.

– E a água? Onde está a barragem que o castor devia construir?

– Os trabalhos ainda não começaram – respondeu a toupeira. Também foi demitida.

– Vamos mandar o pombo para ver se ainda tem alguma campina verde.

– Mas eu não sei voar – respondeu a galinha. Foi expulsa.

De repente, do alto da colina, o cachorro farejador começou a fazer sinais para segui-lo. Os animais, ao extremo de suas forças, arrancaram pela ladeira e seguiram o animal. Ele ia à frente, fuçava o ar, mostrava a direção, organizava as filas. Voltava para encorajar os que ficavam para trás. De novo, estava lá em frente… Depois de tanto deserto, finalmente chegaram numa região verde, com água e árvores frondosas. Todos ficaram muito felizes, aplaudiram o cachorro e o aclamaram salvador.

– Peça qualquer coisa que nós vamos lhe dar. – disseram-lhe.

– Eu sou somente o cachorro farejador, um honesto cachorro farejador – foi a simples resposta.

Bem que Jesus nos alertou: “Muitos virão em meu nome dizendo: sou eu… Não sigais essa gente!”. No entanto a nossa pressa e a ilusão de resolver rapidamente todos os nossos problemas nos faz acreditar e confiar nos messias que se sucedem na história. Nada de novo. Ontem foram os impérios e os salvadores apareciam ameaçando todo o mundo, garantindo bem-estar para os amigos deles. Para sobreviver era o jeito acreditar. Hoje são os que prometem maravilhas para pessoas e para países inteiros. Somente mais tarde se descobre quem pagou a conta do “progresso”, quanto ficou mesmo para o povo continuar a pagar e quanto os líderes mandaram para as suas contas no exterior. Quem não gostaria ter uma vida mais cômoda, bem abastecida e sem problemas, se ainda fosse verdadeiro que nisso consiste a felicidade? No entanto não existem solu ções mágicas ou imediatas. Os caminhos da justiça e da paz são longos e exigem esforço, compromisso, lealdade e, sobretudo, honestidade. As mentiras só atrasam e confundem o caminho.

Também sobre isso Jesus nos avisou. É mais fácil aplaudir quem promete felicidade neste mundo, também se mente e vende ilusões, que acreditar em quem nos convoca para um mutirão de solidariedade e partilha. Como sempre, queremos resolver os nossos problemas cada um por nossa conta. Raramente percebemos a dimensão social das questões. Ficamos incomodados com quem nos pede fraternidade e não egoísmo, seja individual, seja de grupos. Quem fala assim sempre será perseguido pelos poderosos, porque ameaça a uniformidade do consenso e quebra o silêncio dos acomodados.

Quando Jesus fala do templo de Jerusalém, que será destruído, não quer nos apavorar; ele quer simplesmente lembrar que devemos decidir em quem confiar. Talvez precisamos aprender  a olhar além das pedras bonitas. Pode ser areia disfarçada de pedra. Quem garante? Devemos escolher qual será a pedra sobre a qual construiremos o sentido de nossa vida. Uma pedra que nos garanta permanecer firmes até o fim, para ganhar a vida, como Jesus prometeu.

Caititus que se proclamam elefantes, galinhas que se consideram pombos e toupeiras afirmando serem castores, aparecem todo dia. Mas quem ajudou mesmo os nossos amigos animais foi o cachorro farejador. Um simples e honesto cachorro. Sem disfarces, fachadas e mentiras. Deu certo.

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