Artigo dominical

A corrente
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

A corrente tinha vergonha dela mesma. – É assim – pensava – as pessoas querem ficar longe de mim e têm razão: elas gostam da liberdade e odeiam ficar acorrentadas! – Um dia, porém, passou por aí um homem, pegou a corrente, subiu numa árvore, amarrou as duas pontas a um galho bem forte e fez um balanço para as crianças. Agora a corrente serve para fazer voar para o alto os filhos daquele homem e é muito feliz.

Às vezes basta pouco para dar valor às coisas e às pessoas. Basta simplesmente encontrar alguém que saiba reconhecer este valor.

Com a Festa de Cristo Rei encerramos o ano litúrgico. A página do evangelho de Lucas, que nos é oferecida neste domingo, é o trecho sempre tocante do diálogo de Jesus, agonizante na cruz, com os dois ladrões condenados junto com ele. A cruz é o verdadeiro trono de Jesus e a sua coroa é de espinhos. No entanto, é naquele momento, único e irrepetível, que ele doa a sua vida para, com o seu amor, resgatar-nos do pecado e da morte. Mistério do amor de Deus: é na fraqueza que ele vence, é assumindo a morte que derrota a própria morte. Desarma-nos pela impotência, ganha-nos pelo sofrimento,  conquista-nos pelo amor. Não toma, doa-se. Não força,  humilha-se.  Não se vinga, perdoa. Nada mais podemos contestar a um Deus inerme, que se entrega em nossas mãos sangrentas. Ele, que teve compaixão dos homens nas suas doenças, misérias e pecados, agora pede o nosso amor compassivo. É a nossa vez de aprender a gastar nossas vidas por amor como resposta e gratidão pelo amor dele.

Ainda hoje muitos se juntam ao coro dos zombadores. A cruz sempre será escândalo e loucura. Um, porém, ao menos um, reage. É o bom ladrão. Talvez esteja encontrando Jesus pela primeira vez, não terá outra chance, está no final de uma vida perdida, pagando pelo mal cometido. Mas ele faz um último ato de fé. Reconhece que Jesus “não fez nada de mal” e lhe pede que “se lembre” dele quando estiver entrado no seu reino. Jesus lhe promete o paraíso. Porque o paraíso é isso mesmo: ser lembrados por Deus. O inferno é ficar longe do seu amor, ser esquecidos por ele. Isso se Deus conseguir mesmo esquecer-se de alguns dos seus filhos. Vai ser muito difícil. Basta que os filhos continuem a deixar-se encontrar por ele, apesar dos caminhos contortos da vida, porque é sempre ele quem vai atrás da ovelha desgarrada.

Jesus veio neste mundo justamente para nos lembrar de que Deus nunca se esqueceu de nós, nunca nos abandonou, por desfigurados e desumanos que sejamos. Ele quis ser nosso irmão até o sofrimento e a morte para ninguém dizer que teve vida fácil ou privilégios. Quis ser preso para nos libertar das prisões do egoísmo, da vingança, do ódio e dos vícios. Somente nos pede um ato de fé nele. Simples e sincera.

Com este domingo, concluímos também o Ano da Fé, que nos foi proposto pelo papa Bento XVI e continuado pelo papa Francisco. A fé consiste em saber em quem acreditamos.  Devemos sempre procurar conhecer melhor o nosso Deus, para não acabarmos acreditando em alguém que, afinal, não era ele. Mas também precisamos entender o porquê da fé.

Acreditamos para que não se perca nada das alegrias e das tristezas da vida, dos afetos e dos desafetos, do bem e do mal. O bem nos deveria fazer desejar mais, buscar a plenitude. O mal, por outro lado, deveria-nos ensinar a ficar longe dos caminhos errados. Nada fica perdido, nada e ninguém é inútil aos olhos e ao coração de Deus. “Vai e faze tu a mesma coisa”, disse Jesus ao mestre da Lei depois de ter contado a parábola do bom samaritano.

“Ainda hoje estarás comigo no paraíso” disse ao bom ladrão arrependido. Quem encontra Jesus sempre tem chance de mudar e de ser feliz. Ele não deixa ninguém jogado às margens da vida. Ele quer que sejamos participantes e colaboradores do seu amor. Esta é a felicidade.

Até a corrente ficou alegre por fazer voar os filhos daquele homem que a tinha tirado do esquecimento. Quanto mais Jesus nos fará felizes se confiarmos nele.

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