Artigo dominical

O jumento e o presépio
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

 Certa vez, um jumento conseguiu entrar, ninguém sabe como, numa igreja do interior. Era tempo de Natal e, num canto da capela, o povo tinha organizado um belo presépio. O jumento ficou olhando toda aquela arrumação. Não faltava nada. Tinha a estrela, as ovelhas, os pastores, os magos e tantas outras figurinhas de joelho em adoração. Finalmente o jumento reconheceu um seu semelhante, pequeno como os outros, mas com certeza seu parente. Chegou à conclusão de que tudo aquilo devia servir para celebrar o culto do jumento. Com um suspiro de saudade o animal pensou: “Antigamente, sim, os jumentos eram importantes. Deviam ser os donos do mundo!”.

Não sei se aquele jumento, ou burro que fosse, era tão inteligente para alcançar tamanho raciocínio, no entanto acontece também conosco que, muitas vezes, olhando as coisas e as pessoas, enxergamos somente aquilo que nos interessa, aquilo que achamos importante e vantajoso para nós. O resto passa despercebido ou mesmo ignorado.

Nestes dias, as nossas cidades estão cheias de luzes, de Papais Noéis de árvores de Natal de todo tamanho, cores e materiais. Quantas figuras e objetos, por causa da propaganda, tornam-se símbolos do Natal. Está passando despercebido o que está no centro, no foco do presépio: a Sagrada Família: Maria, José e o menino Jesus. Talvez porque estas personagens, afinal, não possam ser tão manipuladas, desfiguradas ou mesmo “pirateadas”. Foi mesmo aquela a família que Deus escolheu quando quis se tornar um de nós, humano, fraterno, solidário.

Assim, no domingo da Sagrada Família, somos convidados a contemplar àquela única e extraordinária família para aprender com ela e repensar também as nossas famílias, com todas as suas belezas e fraquezas. A família que o Pai escolheu para o seu Filho foi uma família muito comum, pobre, migrante, fugindo das ameaças dos poderosos. Foi uma família pequena, desconhecida, igual a tantas outras que, ainda hoje, sobrevivem nas periferias das grandes cidades, no interior de tantos países, enfrentando a luta do dia a dia. O extraordinário daquela família não esteve nas suas condições exteriores, nas suas regalias ou por não lhe faltar nada, esteve na fé que a alegrava, na esperança que a iluminava, no amor que a unia.

Quantas vezes a crise da família, hoje, é apontada como causa dos inúmeros desmantelos da sociedade. Escutamos isso de pesquisadores, juízes, pastores, políticos e policiais. Parece que as violências, drogas, crimes, depredações e desequilíbrios sociais e humanos tenham as suas raízes em famílias desarrumadas ou inexistentes. Pobre família! Lá, onde a alegria da vida deveria começar, onde o exemplo de doação e de carinho deveria ensinar por si mesmo, parece reduzida a simples convivência, a relações banais e interesseiras. Enchemos as casas de objetos e as esvaziamos de virtudes.

Talvez tenhamos que nos perguntar: o que fazemos para que a família continue digna da missão que lhe foi confiada? O que fazemos para alimentar no coração dos jovens um sonho bonito de família? Uma família que não seja um arranjo qualquer, algo que murche e passe de moda como qualquer enfeite de brilho superficial.

Precisamos confiar mais nas possibilidades das nossas famílias, nos laços que as unem, invisíveis, certo, mas capazes de desafiar os tempos e as circunstâncias da vida. Não será por existir a lei do divórcio que vamos desistir de acreditar no amor que dura para sempre, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Não será pela facilidade do aborto, tratado como uma questão de saúde pública, que a existência de uma criança será considerada lixo hospitalar. Não será pelas manipulações das ciências biológicas que deixaremos de amar as pessoas com deficiências.

Toda família pode ser sagrada quando acolhe a vida e a faz crescer “em sabedoria, tamanho e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52) como fizeram Maria e José com o menino Jesus.

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