Artigo dominical

Por dez mil rublos
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Certa feita, um jovem se queixava de Deus nos seguintes termos:
– O bom Deus dá riquezas aos outros, mas não dá para mim. Como começar a vida sem nada?
Um ancião que o ouvira queixar-se lhe diz:
– Serás tão pobre quanto acreditas? Deus não te deu juventude e saúde?
– Não digo que não e até posso me orgulhar da minha força e da minha juventude!

O ancião lhe toma, então, a mão direita e lhe diz:
– Deixaria que a cortassem por mil rublos?
– Certamente que não!
– E a esquerda?
– De modo algum.
– E consentiria, por dez mil rublos, em perder a visão?
– Que Deus me proteja! Eu não daria um único olho por nenhuma fortuna!
– De que se queixa então? – disse o ancião – Não vês que Deus te deu uma imensa fortuna? Vai e, doravante, sê mais grato.

Este diálogo é nada menos que do famoso escritor russo Leon Tolstoi. Uma sábia reflexão e, ao mesmo tempo, uma lição de vida. Com efeito, acredito que muitos de nós esqueçamos tantos dons que receberam da vida ou de Deus, se nele acreditam, que vivem constantemente insatisfeitos, porque não possuem aquelas riquezas que o mundo apresenta como indispensáveis para uma vida feliz.

Sonhamos, na prática, de possuir muito dinheiro. Mais temos, mais desejamos, pela simples razão de que sempre haverá alguém mais rico do que nós. Assim, ficamos com inveja, desejamos maus negócios para os outros que os julgamos adversários num combate sem fim. Ficamos tão obcecados pelas coisas materiais que acabamos, conscientemente ou não, desprezando outros tipos de riquezas, sobretudo aquelas que enriquecem o coração, mas não o bolso. Se o dinheiro é a medida de tudo, os bens que não podem ser comercializados perdem o valor, porque estão fora do mercado. Não têm nem vendedores e nem compradores.

No evangelho deste domingo, João Batista declara que Jesus é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Numa pequena frase ele resume uma longa história de lamentos e de esperanças, de profecias e de infidelidades e, ao mesmo tempo, faz uma maravilhosa profissão de fé. A esperança da libertação do pecado e da morte chegou ao fim. Agora está presente na história humana, solidário e irmão de todos, o Filho de Deus, capaz de obedecer ao Pai, até dar a sua própria vida. Nele está agindo o Espírito, não somente para uma missão específica e limitada, mas para realizar, uma vez por todas, a reconciliação do gênero humano com o amor misericordioso de Deus. Jesus é “o Cordeiro”. Não será mais necessário o sangue de animais, porque o sangue derramado pelo Filho, na cruz, reconduzirá plenamente a humanidade ao encontro com o Pai, numa comunhão renovada de vida e de amor, de paz e liberdade. Apesar dos nossos pecados e das nossas fraquezas, o amor de Deus, manifestado no Filho, é mais forte do que o pecado e a morte. Fomos, enfim, libertos.

Esta riqueza, esta possibilidade de amor, tem valor incalculável. Custou a vida do Filho. No entanto parece que tenhamos perdido a consciência do valor deste amor. Mal agradecemos e menos ainda procuramos entrar no caminho da vida nova que Jesus nos ensinou. Queremos riquezas, bem estar, saúde, conforto, muitos objetos desnecessários. Dificilmente pedimos que o Senhor aumente o nosso tesouro de amor, que nos dê a oportunidade de amar mais. Competimos em poder, nunca em generosidade. Desejamos ser grandes, famosos, mas nunca mais santos. É sinal que a bondade e a misericórdia valem pouco aos nossos olhos, as desprezamos e não tem lugar em nosso projeto de vida.

Jesus, o Cordeiro que tira o pecado do mundo, doa-nos um caminho de amor, talvez de sacrifício e de doação, com certeza de superação dos nossos defeitos e do nosso egoísmo. Pobres de nós se pensamos que a bondade do coração seja tempo perdido, esforço inútil, vida não vivida. E se fosse o contrário? Se a verdadeira riqueza estivesse mesmo na capacidade cada vez maior de amar, de fazer o bem, de “perder a vida para ganhá-la” (cf. Mt 10,39)? Talvez saberíamos agradecer mais a Deus e reclamar menos com ele. Seríamos mais felizes. Tolstoi tinha razão: Deus nos deu uma imensa fortuna.

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