Artigo dominical

As duas túnicas
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um jovem fez uma longa viagem pelo deserto para encontrar um misterioso padre.
– Padre – perguntou-lhe após tê-lo, finalmente, encontrado – como posso viver bem a minha vida?
O Padre lhe respondeu com uma pergunta:
– Como foi o caminho que te trouxe aqui?
O jovem explicou: – Quando saí da cidade o caminho era largo e muitas pessoas andavam por lá. Depois ficou mais estreito e poucas pessoas transitavam nele. Enfim se transformou numa vereda e fiquei sozinho até chegar aqui com o senhor-.
– Falaste bem: “se transformou”. Viver bem a própria vida significa transformar-se. E tu és aquela estrada.
Como assim? – perguntou o jovem.
– É muito simples – respondeu o sábio e tirou, de um pequeno baú, duas túnicas, uma vermelha e uma branca – A túnica vermelha é a da mocidade. Veste-a e vive a tua juventude começando daqui o teu caminho. Na vereda, terás a impressão de estar sozinho e viverás a angústia de começar a transformar o teu coração de egoísta em generoso. É uma luta difícil que vai durar toda a vida, mas podes sustentá-la com a força que tens em teus membros e a energia que sentes no fundo do teu coração. Tu te tornarás um pequeno caminho e já saberás orientar outros para seguir pelo rumo certo. Enfim, serás uma estrada e muitos caminharão através de ti na direção correta, com a alegria de não ter-se perdido. Chegarás assim à cidade: ao fervilhar do trabalho e do amor. Sejas uma cidade nobre, produtiva e generosa. No entanto, logo que perceberes que a tua túnica está perdendo a cor, deixe-a, veste a túnica branca e retoma o caminho de volta para o deserto. Será uma decisão dolorida, porque a cidade está cheia de vida e a estrada que sai de ti vai rumo à solidão. Tu terás, porém, a maturidade e a experiência necessárias para enfrentá-la. Seguirás em frente até não encontrar mais ninguém, se não a mim, que estarei te esperando. Te reconhecerei pela túnica que será de novo vermelha do teu sangue espiritual derramado para transformar-te de novo e sempre.

O jovem entendeu que a vida pode ser uma extraordinária aventura e que cada idade tem o seu sentido. Assim, leve, começou a caminhar pela vereda que saía do coração do Pai.

Neste domingo, a festa da Apresentação de Jesus ao templo prevalece sobre a liturgia do tempo comum. Isso nos dá a oportunidade de refletir sobre as profecias que os dois idosos, Simeão e Ana, expressam a respeito de Jesus e de Maria. Jesus, diz Simeão, será um “sinal de contradição”. Poderá ser “causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel”. Ainda hoje Jesus é razão de vida e de esperança para alguns, como também de escândalo e de loucura para outros. Difícil ficar indiferentes, tamanha é a novidade que ele nos trouxe: a “libertação” do pecado e da morte, como a velha Ana reconheceu. Para Maria, o anúncio é de sofrimento. Não podia ser diferente para a mãe daquele que nos resgatou pelo sangue da cruz.

Nesta página do evangelho, chamam-nos a atenção a criança que é Jesus e os dois idosos Simeão e Ana. Um começando, os outros chegando ao final do caminho da vida, mas alegres por ter visto de perto a realização das promessas. É fácil para os jovens estar cheios de sonhos e de projetos. Mais tarde, a vida se encarregará de redimensionar e concretizar tantas expectativas. Mais difícil para os idosos ter ainda algo para esperar.

No entanto, justamente nisso está a sabedoria e a fé das pessoas que já viveram grande parte de suas vidas: reconhecer que o que eles desejaram e sonharam está acontecendo, por pequenos que sejam os seus sinais. A alegria de ter contribuído para que o grande projeto do amor de Deus não parasse de acontecer deve encher os seus corações. Também os idosos são chamados a olhar para frente. A semente plantada dará frutos. Alguém colherá o bem semeado. Eles são chamados a viver a gratidão por ter tido a oportunidade de espalhar a fé em Deus e o amor dele. A vida é sempre uma extraordinária aventura. Sempre em qualquer idade.

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