Artigo dominical

Remorso e prazer
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Certo dia, um homem que nunca tinha mentido, contou uma mentira. Sentiu remorso, mas também prazer, porque a mentira tinha sido útil para ele. E, sendo que o mal é sempre fonte de prazer – porque se fosse fonte de sofrimento nunca ninguém o faria – começou a mentir todas as vezes que lhe era cômodo. Um dia, achou bom roubar, ele que nunca tinha roubado nem uma agulha. Sentiu remorso, mas também prazer, porque tinha aumentado os seus bens de uma maneira fácil demais. E, sendo que o mal é sempre fonte de prazer – porque se fosse fonte de sofrimento ninguém nunca o faria – começou a roubar todas as vezes que aparecia a oportunidade. Um dia teve a chance de matar, ele que nunca tinha pisado numa formiga. Sentiu remorso, mas também prazer, porque tinha experimentado a loucura do poder total. E, sendo que o mal é sempre fonte de prazer – porque se fosse fonte de sofrimento ninguém nunca o faria – tornou-se um assassino.

Nos dias de hoje, muitos vão atrás do prazer sem pensar de onde ele vem e assim se espalha o mal no mundo.

Uma pequena história – e relativa moral – para começar a quaresma. Sempre no primeiro domingo, deste tempo litúrgico, encontramos o evangelho das tentações de Jesus no deserto. A tentação acontece quando uma coisa errada se nos apresenta como boa, oportuna e conveniente. É o engano do mal que nos confunde. Esse, nunca se apresenta horroroso. Deve parecer mesmo cativante e gostoso. Se escolhêssemos o mal pelo mal, deveríamos voltar muito atrás na nossa consciência e nos perguntarmos quem foram os nossos mestres e se prestávamos atenção, quando os pais e as mães da nossa vida procuravam nos ensinar o caminho certo. Portanto, se escolhemos o mal é porque nos parece bom ou, ao menos, não tão errado. Qual será o segredo para desmascarar o mal disfarçado de bem?

Para vencer a tentação, precisamos ter muito claro o que é bom e o que está errado ao ponto de conseguirmos descobrir o engano. Não só, devemos gostar tanto do bem ao ponto de estar dispostos a lutar, sofrer e, até mesmo, morrer por uma causa justa, pela vitória do bem sobre o mal. Somente assim entendemos as respostas de Jesus ao Demônio e a sua perseverança na luta contra o pecado e a morte. O demônio apelou nada menos do que para a Palavra de Deus para tentar convencer Jesus. Se até a Palavra de Deus pode nos equivocar em quem mais podemos confiar? Isso prova que não basta ter decorado alguns versículos da Bíblia para estar seguros contra toda tentação. Precisa reconhecer e confiar no grande projeto de Deus, que é de amor e não de poder, para responder à altura.

As palavras de Jesus são todas citações da Bíblia, são palavras vivas e não mortas, são palavras comprometedoras e não interesseiras. Digo isso porque a nossa grande tentação de sempre será a de usar os meios duvidosos, ou mesmo errados, com a desculpa de defender uma causa justa ou de alcançar um objetivo bom. Mais uma confusão. Quando dizemos que “Deus pode escrever direito por linhas tortas” não significa que Deus  – e nós também – podemos usar do mal para fazer um bem,  mas quer dizer que de algo errado pode vir alguma coisa boa, como por exemplo alguma mudança em nossa vida, porque aprendemos com os nossos próprios erros ou ficamos conscientizados com as consequências desastrosas das nossas maldades.

Em geral, deveria ser evidente: o bem vem das boas ações, da verdade e da justiça praticadas com coragem, determinação e firmeza.  Somente se mantivermos os olhos fixos no bem e na verdade, somente se alimentarmos a nossa vida com uma Palavra de Deus viva e eficaz, poderemos desvendar os disfarces do mal e vencer as tentações. O tempo da Quaresma é um tempo muito bom para ficar alerta, atentos aos enganos e às armadilhas do mal. Cuidado, tudo pode começar com uma mentira e acabar num assassinado. Só porque ficou mais fácil, mais cômodo e mais conveniente.

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