Artigo dominical

O mais necessário
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um mestre sufi muito pobre, faminto e cansado da viagem, chegou uma noite perto de uma aldeia e foi rejeitado. O povo de lá era de outra religião e não gostava de sufis. A noite era fria, o homem estava com fome, cansado e tremia de frio. Sentou-se aos pés de uma árvore, longe das casas. Os discípulos dele, por sua vez, estavam cansados e com raiva. De repente, o mestre começou a rezar, louvando a Deus com estas palavras:
– Ó meu Deus, tu és maravilhosos! Sempre me dás o que eu preciso.
Isso era demais. Um discípulo o redarguiu:
– Agora estás exagerando. Estas tuas palavras são falsas. Estamos aqui cansados, com fome e com frio. Nesta noite, poderemos ser assaltados por animais ferozes. Fomos mandados embora e não temos para onde ir. Por qual razão estás agradecendo a Deus? – O mestre respondeu:
– É verdade e o repito: Deus me dá o que eu preciso. Esta noite eu tenho necessidade de pobreza, de ser rejeitado, de ter fome e medo do perigo. Se não fosse assim, por que Deus me teria dado tudo isso? Deve ser mesmo aquilo que eu preciso. Se acredito que Deus cuida de mim, ele conhece as minhas necessidades. Não posso deixar de lhe agradecer.

Sem dúvida, o mestre daquela religião tinha muita confiança em Deus, ao ponto de conseguir louvá-lo e agradecer-lhe, apesar das dificuldades e privações que estava experimentando. Deus não quer o nosso sofrimento, mas talvez nos deixe faltar algo que, pensamos, nos seja necessário, para que consigamos descobrir algo mais necessário ainda. Essa foi a grande descoberta da mulher samaritana, quando encontrou Jesus à beira do poço de Jacó. Ela estava precisando de uma “água” muito diferente, para satisfazer uma sede bem mais profunda que aquela corriqueira, que a obrigava a ir ao poço todos os dias.

O que o evangelista João nos conta precisa de uma atenta e minuciosa compreensão. O diálogo entre Jesus e a samaritana é muito mais que uma simples troca de palavras entre duas pessoas. Jesus tem algo muito precioso para nos oferecer, mas quer que sejamos nós mesmos a querê-lo. Assim a conversa começa com um pedido inusitado. É ele mesmo que toma a iniciativa. Ele, um homem judeu, que pede água a uma mulher samaritana. Dessa forma, ele se coloca no mesmo plano dela. Todo ser humano tem sede e precisa de água para satisfazê-la. Sempre, todo dia, a vida inteira, se não quer morrer. Água e vida andam juntas, assim como a sede de amor e a sede de Deus que procuramos sem mesmo saber.

A samaritana não tinha tido uma vida feliz. A prova eram os cinco maridos deixados para trás. Também o encontro com Deus não era fácil. Quantas discussões sobre a religião, talvez inúteis para quem não as entendia. Mas agora ela tinha à sua frente alguém que lhe falava da sua vida com a liberdade de um profeta, sem julgá-la ou condená-la. Alguém que lhe falava de Deus, com a sabedoria de quem conhece as profundezas do espírito, além de toda disputa. Alguém que com a sua amizade estava lhe oferecendo uma água viva que ele tirava do profundo do seu coração aberto, sincero, coração de quem quer caminhar junto com todos aqueles que buscam um sentido mais profundo e bonito da vida.

Assim Jesus diz àquela mulher anônima, pobre e infeliz, algo que não vai dizer aos mestres e aos doutores da Lei, aos grandes e aos abastados deste mundo: ele é o messias, o enviado do Pai. Para entendê-lo e acolhê-lo precisa ter fome e sede de amor e de paz, ter sede do Deus verdadeiro. Os que somente buscam grandeza, riqueza e poder, os que se constroem um deus feito de leis e preceitos não vão entender.

Faz bem sentir falta de alguma coisa e de alguém. Somente assim ficará um cantinho em nossa vida para que o amor de Deus e do próximo o possa preencher. Mas sempre se o pedirmos agradecidos. Como um dom.

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