Artigo dominical

Por amor a Deus
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Perto de uma mesquita, um jovem mendigo, sentado no chão, cantava com voz admirável um hino para Deus. Passou por aí um xeique e parou para escutar aquele canto suave. Quando acabou de cantar, o jovem estendeu a mão àquele senhor que tinha ficado impassível na frente dele e lhe disse:
– Pelo amor de Deus, eu lhe suplico, dê-me uma esmola.
O xeique tinha perdido a esposa fazia poucos dias e estava inconsolável. Tendo abandonado a fé, respondeu ao mendigo:
– Vou lhe ajudar; mas pelo seu canto bonito, não por amor a Deus.

Assim, falando, deixou cair algumas moedas de ouro no colo do pobre. Este, ouvindo aquelas palavras, disse-lhe:
– Como pode, meu irmão, apreciar o meu canto de louvor a Deus, se não o ama? Como pode compreender este hino, se não acredita nele? A minha voz não é, talvez, a voz dele?

Dizendo isso o mendigo afastou o cobertor que o cobria e sobre o qual tinham caído as moedas e lhe intimou:
– Retome o seu dinheiro!

O xeique curvou-se para recolhê-las e viu que o jovem não tinha pernas.
– Como eu teria podido viver sem Deus? Sem ter esperança nele? – disse ainda o jovem. O rico senhor afastou-se com o coração em tumulto sem dizer mais nada, mas, depois de alguns passos, percebeu que ele também estava cantando o mesmo hino de louvor a Deus.

Quantas vezes, se não estamos totalmente distraídos ou atordoados pelos afazeres da vida, uma palavra diferente ou uma situação imprevista nos obrigam a questionar a nossa própria fé. O que parecia certo fica confuso e o que estava escondido se torna claro. A luz da compreensão e a luz da fé são um dom de Deus. No entanto precisamos estar atentos para nos deixar iluminar, de verdade, por esta luz.

Jesus sempre se oferece como luz para quem quer sair da cegueira dos seus medos, das suas falsas seguranças ou do seu comodismo. O evangelho da cura do cego de nascença nos lembra de tudo isso. A ele, Jesus doa a luz dos olhos e a luz da fé, porque reconhece a sua sinceridade. Os pais dele ficam com medo e fingem não saber de nada. Os judeus, com os seus raciocínios, querem explicar o inexplicável, tudo para não ter que admitir que Jesus possa ser o enviado de Deus. Assim, por causa do medo e dos seus preconceitos, por não querer pôr em dúvida a própria visão de Deus, eles continuam na escuridão: perderam a possibilidade de acolher a luz que Jesus lhes oferecia.

Segundo a lógica dos fariseus, aquele homem tinha nascido cego por causa de alguma culpa dele ou dos pais dele. Imperfeição e pecado só podiam estar juntos. Também não queriam admitir que Deus pudesse se servir de um desconhecido como Jesus para curar um pobre cego, mais ainda infringindo a lei do sábado. No esquema religioso deles, não entrava a misericórdia e a liberdade amorosa de Deus. Preocupados em encaixar tudo na sua lógica, ficaram fechados às maravilhas do Pai, que estavam se manifestando nos gestos e nas palavras de Jesus.

Sempre acontece isso a quem se acha no direito de decidir o que Deus pode ou não pode fazer. Triste engano de quem pensa que sabe tudo e enxerga tudo, mas, na realidade, continua tateando na escuridão. Eles estavam vendo no cego, que agora enxergava, somente o pobre pecador e naquele que, diziam, o tinha curado, um perigoso charlatão. Jesus, ao contrário, viu no cego um irmão sofrido, expressão de uma humanidade excluída e desprezada precisando de luz. Assim surpreendeu a todos com as suas palavras e as suas ações. Esta luz continua a resplandecente para todos na escuridão da cruz; somente com os olhos da fé é possível enxergar tamanho amor.

Neste tempo de Quaresma, precisamos fortalecer e purificar esta nossa fé. Cegos não podem guiar outros cegos. Apesar das nossas limitações e fraquezas, somos chamados a ser luzes e a cantar sempre a grandeza do amor de Deus. Outros aprenderão também a cantar e a acreditar. Tudo por amor a Deus.

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