Artigo dominical

O beberrão
Dom Pedro José Conti, Bispo
de Macapá

Certa vez, existia um homem piedoso que tinha um pai beberrão. Todas as vezes que ele bebia demais, caía pela rua e os moleques lhe jogavam pedras, batiam e caçoavam dele. O filho sentia uma grande angústia e desejava morrer para não assistir a tudo aquilo. Todos os conselhos, todos os pedidos para que o pai parasse de beber não tinham êxito. Enfim, o filho teve a ideia de propor ao pai de beber o quanto quisesse e do melhor vinho da cidade com a condição de que ficasse trancado em casa. A proposta foi aceita e a partir daquele dia o beberrão foi servido em domicílio. Um dia, porém, o homem piedoso viu um bêbado deitado no chão. Os moleques atiravam pedras e zombavam cruelmente dele. Então disse a si mesmo: “Eu preciso trazer, aqui, o meu pai para que veja este triste espetáculo. Quem sabe ele para de beber”. Dito e feito. No entanto, quando o pai chegou à frente do bêbado, debruçou-se sobre ele e, baixinho, falou-lhe no ouvido:

– Diga-me onde encontrou um vinho tão maravilhoso?

Evidentemente não coloquei essa anedota para convencer alguém a parar de beber. Foi só para lembrar como é difícil mudar as ideias e os costumes das pessoas. Dizem, por exemplo, que seja mais fácil mudar de religião do que de time de futebol. Muitos fatores determinam as nossas convicções: o ambiente familiar, a educação, a necessidade, a acomodação. Falo de coisas sérias e não simplesmente de gostos ou caprichos.

No domingo da Ascensão, na leitura do livro dos Atos dos Apóstolos, escutamos Jesus enviando os seus discípulos em missão. Devem começar em Jerusalém, depois na Judéia, na Samaria e até os confins da terra. No evangelho de Mateus, ele envia também a batizar e ensinar. Desde aquele dia, nunca mais a Igreja deixou de ser evangelizadora e missionária. Ao longo da sua história milenar muitas coisas mudaram. Não podia ser diferente se entendemos que os cristãos partilham as mesmas condições de todo ser humano na luta pela sobrevivência e o progresso.

Vez por outra a Igreja precisa de reformas, de renovação ou de encontrar novas maneiras para continuar a anunciar sempre o mesmo Evangelho do mesmo Senhor Jesus. Se a Igreja deixasse de evangelizar trairia o mandato do seu Mestre e Senhor, mas também perderia o seu próprio sentido. Tornar-se-ia um grupo fechado, autorreferencial, destinado a desaparecer. Se isso não aconteceu é, justamente, pelo esforço de transmitir, mais uma vez, a cada nova geração, a cada novo ambiente e situação humana a alegria da Boa Notícia de Jesus. Nunca faltaram perseguições, previsões sombrias e derrotistas, momentos difíceis dos quais a própria Igreja, hoje, pede perdão. No entanto todas as vezes parece que a comunidade dos cristãos tenha uma sobrevida. Novamente atrai e convence. Surge, então, uma pergunta: essa vitalidade de onde vem?

Sempre haverá quem tente explicar tudo isso com circunstâncias históricas favoráveis ou pelo aparecimento de grandes personalidades, famosos pensadores e líderes. Na realidade, para os cristãos, a resposta é uma só: quem conduz a Igreja, povo de Deus a caminho na história, é o próprio Espírito Santo. É ele que abre os corações à Boa Notícia do Evangelho, que faz parecer valioso o compromisso cristão, que dá coragem e confiança no Senhor. Esta ação “misteriosa” não dispensa o trabalho evangelizador e missionário dos cristãos, tanto no silêncio e no escondimento, como nas grandes pregações e obras de caridade. O trabalho dos discípulos é visível, mas o Espírito Santo, invisível, chega antes, abre as portas, conquista os corações. Não podemos duvidar: quem está convencido, ou convertido, muda primeiro no seu interior, na sua maneira de pensar e decidir. Essa é a obra do Espírito.

Ninguém mais via o nosso amigo beberrão caído na rua, tinha sumido “por fora”, mas, infelizmente, não tinha mudado em nada “por dentro”. Faltou-lhe o mais importante.

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