Artigo dominical

Perdas e ganhos
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Certo dia, um jovem monge, após ter passado alguns meses no mosteiro, disse ao seu mestre:

– Mestre, refleti bastante; não penso em renunciar a tudo, agora que sou jovem. Vou fazer isso mais tarde, quando estiver mais velho. Agora existem coisas demais que quero experimentar no mundo.

Dito isso, deixou o mosteiro e foi embora. O mestre, naquela mesma noite, comunicou a notícia à comunidade com estas palavras:

– O nosso jovem noviço nos deixou, atraído pelo mundo. Ele acabará sendo como aquele homem que decidiu “deixar tudo” quando a mulher dele morreu, a sua casa pegou fogo e a sua colheita foi destruída pelos gafanhotos. Ao Senhor não interessa esse tipo de renúncia. Aquele que abandona o caminho da disciplina interior nunca estará pronto a “renunciar a tudo” até que ainda tenha alguma coisa à qual renunciar.

Neste domingo, celebramos a Assunção de Nossa Senhora ao céu e lembramos a vocação religiosa de tantos nossos irmãos e irmãs que respondem com alegria ao chamado do Senhor, trilhando os diversos caminhos da vida consagrada, através dos votos de pobreza, castidade e obediência. Em geral, pensamos nos religiosos e nas religiosas como pessoas que fazem grandes renúncias: dinheiro, vida matrimonial, autonomia nas próprias decisões. Verdade. Sempre pensamos no que “perdem” e esquecemos o que “ganham”.

Para entender isso, olhamos a Maria. Os evangelhos não nos fornecem tantos detalhes, mas o simples fato de insistir sobre o medo de Maria – e de José também – significa que Nossa Senhora devia ter o seu projeto de vida, provavelmente simples e humilde como as outras jovens da sua idade e do seu tempo. Nada demais e nada de menos. Talvez sonhava com uma vida pobre, mas feliz, um lar, alguns filhos. Tudo, porém, de acordo com promessas bem maiores porque partilhava a fé e a esperança do seu povo: a vinda do Messias.

Precisou, no entanto, de coragem para acolher a proposta de ser ela mesma a mãe do Salvador. Aparentemente, para os de fora, não mudou muito o seu sonho: teve um marido, um lar e um filho. Mas na realidade mudou tudo. Ela, a humilde serva de Nazaré acabou sendo a parte humana de um projeto divino. Ficou alegre e feliz porque acreditou, mas também sofreu a perda daquele Filho. Tornou-se a mãe da família daqueles que “põem em prática a palavra de Deus” (cf. Lc 11,28). Acabou sendo chamada de “bendita entre as mulheres”. Renunciou a muito, é verdade, mas ganhou muito mais. Por isso, desde já a contemplamos gloriosa no céu, participando, antecipadamente, daquela ressurreição que o Filho Jesus prometeu a todos aqueles que acreditarem nele.

Os nossos irmãos e irmãs religiosos e consagrados nos lembram sempre esses grandes horizontes da vida humana e cristã. Tem o horizonte das coisas que construímos e juntamos neste mundo. Nos dão alegria e satisfação. Faz bem aos pais “contemplar” os seus filhos, o seu lar, sobretudo quando este consegue ser uma pequena comunidade unida e amorosa. Faz bem às pessoas “contemplar” os frutos do seu trabalho, das suas fadigas. Tudo isso também é caminho de vida cristã e de santificação. No entanto existe para todos outro horizonte que não podemos esquecer: aquele que vai além das coisas deste mundo. É o céu, é o próprio Deus. Buscar essa meta não é alienação, mas libertação, porque significa julgar as coisas do mundo com o olhar de Deus e não com os critérios simplesmente humanos da acumulação e do sucesso. Quem olha para o céu ganha coragem para partilhar os bens deste mundo, amar os pequenos, socorrer os abandonados, consolar os aflitos, ir lá aonde poucos querem ir, porque custa sacrifício. Não são essas, afinal, as obras de misericórdia? Para todos, cada escolha, cada ganho, carrega também renúncias e umas perdas. O importante, qualquer seja a nossa “vocação”, é não perder nunca o amor a Deus e ao próximo. O resto passa, o amor ficará para sempre. Sejamos agradecidos aos religiosos e às religiosas que, muitas vezes no silêncio e no escondimento, apontam-nos metas mais altas e lucros imperecíveis.

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