Artigo dominical

O que vale mais
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Existia um homem nobre, dono de uma grande propriedade de terra, boa e generosa na produção. Estava ficando velho. Entendeu que tinha pouco tempo para escolher um herdeiro que continuasse a governar aquela região. Tinha dois filhos que amava muito; ambos eram ajuizados e de bom coração, no entanto somente um podia ficar no seu lugar. Mas qual dos dois? Uma noite o pai chamou os filhos e apresentou-lhes a sua proposta:

– Deixarei a minha herança àquele que me trouxer aquilo que, para cada um de vocês, vale mais no mundo.

No dia seguinte, os dois jovens se apresentaram ao pai com o que consideravam de valor absoluto. O filho maior abriu a mão e mostrou ao pai uma moeda de ouro.

– Isto é o que vale mais do que tudo no mundo. O ouro é mágico, abre todas as portas e pode satisfazer todos os desejos.

– Tem razão – disse o pai – Você escolheu bem.

Depois olhou para o filho menor e esperou que este também apresentasse o que achava mais importante no mundo. O jovem abriu a mão e mostrou ao pai um pequeno grão de trigo. Depois falou:

– Para mim, esta semente é a coisa mais preciosa que existe. Nela está escondida uma força inacreditável. Escondida na terra, molhada pela chuva e esquentada pelo sol, dela nascerá uma forte plantinha carregada de muitas outras sementes que poderão se tornar algo de preciosíssimo: pão. Meu irmão disse que com o dinheiro se pode comprar tudo. Mas, se sobre a terra não existissem mais plantas, frutas e terra cultivada, o que iríamos fazer com todo o ouro do mundo? Morreríamos todos. Por isso, esta pequena semente é o que vale mais do que tudo para mim.

O pai sorriu e disse: – Meu filho você escolheu o melhor. Você será o meu herdeiro.

Jesus conhecia muito bem o valor simbólico da semente. O usou nas suas parábolas e comparações. Cada semente revela e esconde algo ao mesmo tempo. Não é ainda planta, mas poderá sê-lo. Obriga a olhar para o futuro, a imaginar o que será, mas, ao mesmo tempo, é um convite à paciência. Como o agricultor que planta as sementes, mas deve aguardar que produzam os seus frutos no tempo certo. Tem mais: qualquer semente, para tornar-se planta, deve desaparecer. Deve morrer. É a condição para que nasça algo de novo. O que parece uma perda irreparável, na realidade é fonte de vida nova: somente assim a planta cresce, a semente se multiplica.

Para Jesus, a aventura da semente é uma parábola da vida humana. Não adianta nos iludirmos de parar o tempo. Os dias que recebemos de presente passam para todos e chegam ao fim. O certo é gastar a vida para algo que valha a pena, construindo relações, distribuindo afetos, oferecendo felicidade e alegria. Do jeito que for possível. Não temos certeza de que tudo irá dar certo, mas sempre vale o esforço, o empenho, a coragem de não desistir de fazer o bem. O egoísmo distorce o sentido da vida, faz nos dobrarmos sobre nós mesmos, numa autocontemplação que chega ao desprezo ou a indiferença com os demais. O que vale é o próprio bem-estar. E só. Assim perdemos a vida.

O curioso do evangelho deste domingo é que estas palavras reveladoras de Jesus sobre o sentido da vida, de imediato, parecem não atender ao pedido que alguns gregos tinham feito de querer vê-lo. Na realidade, ele exorta aquelas pessoas a olhar além da pessoa dele, ou seja, pede que o reconheçam nos frutos da sua vida doada: os seus discípulos e todos aqueles que buscarão ser dons para os outros. Tudo isso vale para cada cristão, mas também para a Igreja toda, corpo de Cristo vivo na história. Ela não existe para si mesma, mas para conduzir as pessoas ao encontro com o Senhor. Jesus deve ser visível na comunidade que também se doa a serviço do Reino, continuando a missão dele. Devemos poder reconhecê-lo ainda presente e atuante no meio dos pobres e sofredores, dos excluídos e esquecidos. A árvore, que um dia foi semente, se reconhece pelos frutos. Sejamos frutos dignos daquela semente que morreu para dar vida: Jesus.

  • Como sempre, ler o nosso Bispo, com sua sabedoria e simplicidade, me faz extremamente feliz. Obrigado D. José!

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