Artigo dominical

O tesouro
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Certa vez, Alexandre Magno, o grande guerreiro, foi visitar o reino da Cássia. O rei daquele país queria mostrar-lhe todas as suas riquezas, mas Alexandre lhe disse que preferiria conhecer as leis e os costumes daquela região. Por coincidência, naquele momento, se apresentaram ao rei dois homens que estavam brigando entre si por causa de um tesouro encontrado entre as ruínas de uma casa que um vendeu para o outro. Nenhum dos dois queria ficar com o tesouro. O comprador dizia que tinha comprado somente as ruínas e não o tesouro. O vendedor insistia que, quando vendeu as ruínas, também estava incluído o tesouro. Ambos temiam que aquele tesouro fosse roubado e queriam ficar longe de qualquer confusão.

Depois de muitas discussões, o rei perguntou a um se tinha um filho e ao outro se tinha uma filha. Responderam que sim. Então o rei mandou que os dois jovens casassem e ficassem com o tesouro encontrado. Alexandre Magno ficou tão surpreendido com a decisão do rei, porque este lhe perguntou:

– Será que eu julguei mal a questão?

– De forma alguma – respondeu Alexandre.

– Como teria julgado o caso conforme as leis do seu país? – quis saber o rei de Cássia.

– Dizendo a verdade – respondeu Alexandre – eu teria mandado cortar a cabeça dos dois e teria ficado com o tesouro.

Talvez tivesse muitas outras saídas para o caso apresentado ao rei. De fato, cada um tem liberdade para pensar e julgar diferente. É assim que começam todas as conversas, fofocas ou fuxicos que sejam. Unanimidade? Muito difícil. Tudo o que nós fazemos ou dizemos pode ser interpretado de maneira diferente pelos outros.

Aconteceu, e ainda assim acontece, com Jesus. Os parentes dele pensavam que estivesse “fora de si” e os mestres da lei que fosse possuído nada menos que por Belzebu, o chefe dos demônios. Logo entendemos que sempre haverá críticas também para Jesus. Já o velho Simeão, um dia, tinha falado daquela criança, como de uma “pedra de tropeço”. Por isso, Jesus, mais do que responder, ensina e explica como devemos nos aproximar dele antes de julgá-lo.

A primeira questão é, justamente, a própria contradição na qual se encontravam os mestres da lei. Um reino dividido, onde há facções disputando o poder, é fraco. Será destruído porque qualquer um pode vencê-lo. Então, em nome de quem Jesus expulsa os demônios? Mais forte que Belzebu só pode ser a bondade de Deus. O pecado “imperdoável” contra o Espírito Santo é, portanto, a recusa, consciente, de acreditar que Jesus esteja agindo com a força de Deus. Com ele não temos muitas opções a favor ou contra! Não é uma ameaça, é a realidade: a indiferença, o ficar em cima do muro, na prática, é uma rejeição. Jesus é exigente. Quer o nosso coração inteiro; só um pedaço ou as sobras, não serve.

Aos familiares, que talvez estivessem preocupados com a sua saúde – nem sequer podiam comer (Mt 3,20) – ou com a excessiva entrega a quantos o procuravam, Jesus responde lembrando a vontade de Deus. Mais uma vez, o que parece humanamente exagerado, de fato, é só um pequeno sinal da totalidade do amor do Pai. Um dia, aqueles que confiarem nele, entenderão o que significa “amar até o fim”. Por enquanto, deve-lhes bastar o exemplo de sua generosidade e acolhida. A obediência à vontade amorosa do Pai constrói novos laços entre as pessoas.

Após dois mil anos de cristianismo, Jesus é ainda um grande desconhecido. Somos muitos a falar dele, a querer explicá-lo, a pensar que esteja ao nosso lado. Usamos e abusamos do seu nome. Ainda podemos pecar contra o Espírito Santo acreditando mais em nossas ideias, crenças e julgamentos, em lugar de nos deixar conduzir por ele.  Casados ou não, a nossa cabeça continua muito dura, mas não precisa cortá-la. Basta amar, fazer o bem. Eis o tesouro de Jesus.

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