Artigo dominical

Um santo remédio
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

O rei estava a bordo de um navio com muitos dos seus servos. Um deles vinha das montanhas e nunca tinha feito uma viagem como aquela. Estava com muito medo e começou a chorar bem alto. Todos ficaram bondosos com ele e procuravam acalmá-lo, mas nada adiantava. Cada vez gritava mais e os berros dele começaram a incomodar o rei e toda a turma. Então, um dos servos mais antigos pediu ao rei se podia acalmar o homem aplicando-lhe um remédio que tinha aprendido com seus pais. O rei deu a permissão sem titubear, porque já não aguentava mais. O velho servidor, com a ajuda dos outros, pegou o pobre medroso e o jogou no mar. Ele, desesperado, debateu-se na água, fez esforços para respirar e, já no limite das forças, conseguiu agarrar-se à borda do navio implorando que o retomassem a bordo. Daí para frente, ninguém mais ouviu uma palavra de reclamação ou de choro do homem. O rei ficou curioso e perguntou ao velho servo:

– Que remédio é este que, de repente, deixou o meu servo tão calmo e calado?

O idoso respondeu: – Ele nunca tinha saboreado o sal da água do mar. Ele não conhecia os grandes perigos que existem no mar. Portanto, ele não poderia saber quão maravilhoso é ter as pranchas fortes do navio debaixo dos seus pés. Somente aquele que enfrentou o perigo pode saber o valor da paz e da tranquilidade.

Nos últimos domingos do ano litúrgico sempre encontramos leituras que parecem nos apresentar como será o final dos tempos. Ouvir falar em grande tribulação, sol e lua escurecendo e estrelas caindo do céu, só pode nos apavorar e desejar que nunca aconteça isso conosco. Na realidade, Jesus, para ser entendido, usou a linguagem daquele tempo. Diz o que todos diziam e que todos nós sabemos: tudo neste mundo passa. Estrelas, planetas e toda a matéria do universo, não sabem disso, mas nós o sabemos. Os cientistas debatem sobre o começo de tudo, fazem previsões sobre o seu fim, mas, no breve curso de nossa vida, todos percebemos o transcorrer inexorável do tempo. O planeta terra existia antes de nós. Aproveitamos dele o mais possível, mas um dia nos despediremos deste mundo. O Rio Amazonas podia correr em outra direção, alguns milênios atrás, e continuará a correr por um bom tempo, mas nós, que o contemplamos com tanto orgulho, deixaremos de vê-lo com estes olhos.

Neste sentido, as palavras de Jesus não nos revelam nada de novo. Também se o ser humano continua sonhando em prolongar sem fim a própria vida, esta, de fato, um dia irá terminar. Continua, angustiante para todos, a pergunta: o que irá ficar de tudo o que foi feito, de tantas discussões, disputas pelo poder, afetos e desafetos? O que vale a pena segurar nesta vida, se tudo passa tão de pressa? Em quem podemos confiar? Jesus, no evangelho deste domingo, propõe-nos as suas palavras. Estas “não passarão”! É um convite evidente a olhar além das realidades que passam. Não significa tanto olhar para o alto, o céu, mas olhar no profundo. Jesus nos revelou o destino último das coisas, não porque marcou datas ou eventos em si, mas porque mostrou o sentido do nosso viver e morrer, do nosso amar e fazer o bem ou deixar de fazê-lo.

É verdade que junto com as coisas materiais, riquezas e confortos, deixaremos também pessoas e laços de amor, mas, estes, carregaremos no coração e na memória. Serão a nossa única bagagem. Não porque Jesus prometeu que o bem que fazemos vai se juntando nos tesouros do céu, mas porque, afinal, esta é a tábua de salvação que pode preencher e alegrar a nossa vida. Quem passou a sua existência cegado pelas riquezas e o sucesso, pode pensar de ter comprado a felicidade, mas nunca teve a garantia da sinceridade dos que diziam de amá-lo. Amaram a pessoa ou os seus bens? A generosidade vai junto com a simplicidade e a pobreza. Enche de alegria o coração, pelo bem feito em si, não pela possível recompensa. Todos somos marinheiros de primeira viagem, mas já experimentamos o gosto amargo da inveja e da insatisfação, a tristeza de humilhar os pequenos e bater nos errados. Não teria sido melhor ser mais fraternos, fazer as pazes, ajudar? Na viagem da vida não tem outra prancha mais segura que o amor. É palavra de Jesus, que não passa.

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