Artigo dominical

As sandálias dos frades
Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

Lendas sobre santos não faltam. São Remáculo foi bispo das Ardenas e trabalhou muito para converter as populações daqueles lugares. Um dia resolveu construir uma igreja em Stavelot, bem no meio de um bosque do qual, porém, o diabo se achava dono absoluto. Começou a guerra. Satanás aterrorizava os pobres frades com toda sorte de armadilhas. Eles, porém continuaram a obra. O diabo, então, achou por bem fazer morrer o asno que ajudava os frades. Mas São Remáculo o pegou bem na hora e o obrigou a substituir o asno morto.

O diabo estava furioso, não acreditava que estava ajudando os frades a construir uma Igreja! Quando a obra acabou, o bispo dispensou o diabo dos trabalhos. Este, cheio de ódio, decidiu que ia se vingar. No dia da inauguração, lançaria uma pedra gigantesca contra a igreja e assim destruiria a igreja e mataria a todos. Já estava carregando a pedra nas costas quando um anjo avisou São Remáculo daquilo que estava para acontecer. O santo rapidamente juntou todas as velhas sandálias dos frades e as colocou num saco. Depois foi atrás do diabo. Quando o encontrou, este já estava cansado de tanto carregar a pedra enorme e, sem levantar os olhos, perguntou ao Santo:

– Está ainda muito longe a igreja de Stavelot?

– Ó, meu amigo, ainda está muito, muito longe – respondeu o santo.

– Estou vindo de lá e veja quantos sapatos já gastei no caminho!

– Satanás engoliu a mentira, pensou que ia chegar muito tarde para a cerimônia e tanto esforço seria inútil.  Jogou fora a pedra. A igreja e o povo foram salvos.

Só nas histórias é tão fácil assim livrar-se do demônio. No entanto, gostei das velhas sandálias dos frades. Pensei nos sapatos, mas, sobretudo nos pés dos evangelizadores e missionários de todos os tempos e de todos os lugares do mundo, a começar com aqueles primeiros setenta e dois que Jesus mesmo enviou. Já escreveu São Paulo na carta aos Romanos lembrando o profeta “Como são belos os pés dos que evangelizam” (cf. Rom 10,15).

Precisamos sempre acreditar que a Boa Notícia de Jesus faz belos os pés daqueles que a oferecem e a ensinam. Dependendo dos lugares, ainda hoje têm missionários que andam de pé, de burro, de canoa, de bicicleta, de rabeta. Outros já conseguem viajar de avião, de camioneta, de barco e voadeira, no entanto são sempre os nossos pés que nos levam ao encontro das pessoas. Para o evangelho as distâncias verdadeiras são o desinteresse, o desprezo e a indiferença que afastam os corações mais do que os milhares de quilômetros que podem ser superados. É o primeiro passo que vale; é a primeira decisão de abrir a porta da nossa casa e do nosso coração aos enviados de Jesus que nos fará superar todas as incertezas. O que parecia longe ficará perto. O pesado ficará leve.

O evangelista Lucas, no evangelho deste domingo, é o único que nos fala dos setenta e dois enviados, além dos doze apóstolos. Jesus não somente convida a segui-lo, também envia os discípulos na sua frente. Quem conheceu Jesus não pode deixar de comunicar a outros a alegria da sua descoberta. Este é um sinal claro de como andam as coisas entre nós e Jesus. Quem só pensa nele para seu próprio uso e consumo e tem vergonha de admitir a sua fé, ainda está só começando a conhecê-lo.  A empolgação, também, não é a melhor atitude para os verdadeiros missionários. O sucesso pode ser momentâneo. Nada de achar que vai ser tudo fácil. Precisa estar preparados para possíveis recusas. Cobras, escorpiões, isto é: calúnias, ameaças e perseguições fazem parte da vida dos evangelizadores.

Uma Igreja, comunidade viva, deve preocupar-se de ir ao encontro das pessoas, dos afastados, dos esquecidos, dos perdidos nos caminhos da vida. Pode ser necessário ir longe, partir para outros lugares, outros povos, outros continentes. No entanto, a missão pode começar em nossa casa, em nossa família. “A messe e grande, mas os trabalhadores são poucos”. Não deveria ser assim se cada batizado fosse um discípulo-missionário do evangelho de Jesus. Faltam pés e coragem para partir. Sandálias? Nem precisa. Jesus enviou os setenta e dois sem sapatos! Contudo, se eles servem para enganar o diabo, talvez o Senhor nos perdoe se os usamos e os gastamos para evangelizar.

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