Artigo dominical do bispo de Macapá

O segredo do pai
Dom Pedro José Conti,  Bispo de Macapá

Uma história de alguns anos atrás. A cantora americana Mary Garden estava no auge do sucesso e ganhava muito. Contudo não estava satisfeita, porque o pai dela pedia continuamente grandes quantias de dinheiro. Ela, por respeito ao pai, não tinha coragem de recusar aquela ajuda, também se achava tudo aquilo muito estranho. Afinal, para que tanto dinheiro? Como o pai conseguia gastar tanto? Ele respondia que tinha um projeto para ser realizado.

Quando chegaram os anos 30, veio a crise econômica conhecida como a Grande Depressão. A cantora Mary perdeu tudo o que havia investido. Porém, quando o pai morreu, logo em seguida, grande foi a surpresa da cantora quando lhe foi notificado que, num dos bancos ainda funcionando, tinha uma boa quantia de dinheiro depositada em seu nome. O pai tinha guardado para ela tudo o que lhe pedia, centavo por centavo.

É sempre muito bom encerrar o ano olhando para a Sagrada Família de Nazaré: Maria, José e o menino Jesus que, diz o evangelho deste domingo, “crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus, estava com ele”. Precisamos sempre voltar a confiar nas nossas famílias. Se não tudo, mas muito do que nós somos e buscamos ser teve início no lar que nos acolheu como família.

Ali começa a vida; pode ser acolhida com júbilo como um evento cheio de surpresas, porque assim deve ser cada pessoa “nova” que vem ao mundo. Nunca teve algo parecido. É a nossa unicidade e singularidade. Às vezes, porém, a nova vida é acolhida com preocupação. “Mais um”, pensam alguns pais. No entanto, se esforçam para criar espaço na casa e no seu coração para que caiba, sim, “mais um”. Todos os outros, que vieram antes, vão aprender a amar, também, o mais recém-chegado. Depois, é em família que aprendemos a nos relacionar com os outros: os grandes e os pequenos. Aos poucos, encontramos o nosso lugar. Às vezes, com sorrisos e abraços, outras vezes com algum empurrão, algumas lágrimas e caras feias, mas depois aprendemos a conviver com os pais, os avôs, os irmãos, os vizinhos. Aprendemos que as diferenças enriquecem; que cada um, junto com os seus defeitos, carrega também grandes possibilidades de ajudar, compreender, consolar, amar. O mais difícil chega quando o adolescente e o jovem querem sair daquele lugar. A família, até então muito aconchegante, agora se torna pequena. Os colegas são mais atraentes. As novidades do mundo, a internet, as fofoquinhas do “WhatsApp” parecem mais interessantes do que as historinhas da vovó ou os quadrinhos da televisão. Não tem jeito, o jovem precisa aprender a conviver, também, com os demais e com o resto da sociedade. A família foi o berço, lá aprendeu o necessário, agora começa o desafio de caminhar com as próprias pernas, de tomar decisões, de acertar e de errar, de experimentar conquistas e decepções, às vezes voltando para casa radiante, outras chorando.

Todos nós aprendemos assim. Querer segurar é impossível; querer proteger a todo custo pode criar filhos dependentes e inseguros. Cada um deve experimentar a sua dose de alegrias e tristezas na vida. Somente assim crescemos.

Nesta altura, os pais – e muitas vezes os avós – parecem sobrar. Filhos e netos parecem longe, afastados. Parecem… e talvez o sejam, por causa da busca do próprio caminho, mas nem por isso os pais podem deixar de amá-los. Tem o amor que resguarda, quando os filhos eram crianças, e tem o amor que previne. Este amor se parece mais com o amor de Deus. Não resolve tudo, não impede os erros e o mal, para que aprendamos a escolher e a perceber o tamanho da nossa responsabilidade e potencialidade. No entanto, sabe consolar, encorajar, indicar caminhos. Assim o Senhor respeita a nossa liberdade; faz-nos mais reflexivos, mais sábios. Ele sabe, mais do que nós, enxerga mais longe. Assim é o amor de Deus, assim deve ser o amor dos pais. Também quando os filhos não sabem ou parecem tê-lo esquecido.

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