Ele pode sempre adivinhar

Ele pode sempre adivinhar

Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

 Certo dia, o velho e bom Eleazar chamou seu netinho Samuel e lhe disse:

– Samuel, preste atenção ao que vou lhe dizer: quando alguém sofre sozinho, o sofrimento fica muito mais pesado. Entendeu o que estou lhe ensinando?

– Sim, compreendi, Nós sofremos muito mais quando estamos sozinhos.

– Mas, se uma pessoa olhar para ele e disser: “Como você está sofrendo, meu irmão”, o que acontece?

– Vovô, ele está acolhendo a dor do outro com os seus olhos.

– E se for cego, como poderá acolhe-lo?

– Com os seus ouvidos.

– E se for cego e surdo?

– Bom, poderá acolhe-lo com as mãos.

– Vamos supor, agora, que o irmão esteja tão longe que não possa estender a mão. Que seja cego, e não pode ver e surdo para não poder ouvir. Que nem tenha mãos para poder tocar. Mesmo assim, haverá um jeito de acolher a dor do irmão como se fosse a sua?

O netinho pensou um pouco e depois respondeu:

– Acho que sim. Ele pode sempre adivinhar.

O velho Eleazar ficou feliz com a resposta da criança e concluiu:

– É assim mesmo, querido Samuel; quem ama de verdade, consegue até adivinhar o sofrimento do irmão. 

Neste Quinto Domingo da Páscoa, continuamos a leitura do evangelho de João. Encontramos algumas palavras de Jesus na Última Ceia, após o lava-pés. Naquele discurso de despedida, ele quis nos deixar palavras preciosas, únicas, como aquela circunstância também irrepetível. Nas Escrituras do Antigo Testamento, já se encontram os dois mandamentos do amor: amar a Deus e ao próximo. Ensinando que o segundo é “semelhante” ao primeiro, Jesus corrigiu uma religiosidade feita de meras obrigações exteriores, consequência de uma obediência formal a Deus, sem precisar do amor aos nossos semelhantes. Será o irmão necessitado a nos dar a possibilidade de sermos o seu “próximo”, socorrendo-o. Assim, amaremos também a Deus. Fica tão clara a novidade de Jesus que, falando do julgamento final, ele nos disse que o bem que fizermos aos necessitados será considerado como um bem feito a ele mesmo. Será este amor, bem concreto e que chamamos de obras de misericórdia, a nos abrir, ou não, as portas do céu.

Na página do evangelho deste domingo temos, porém, mais duas novidades. A primeira é o compromisso dos cristãos a amar “como” o próprio Jesus amou. O “como” pode ser entendido da mesma forma de Jesus, ou seja na cruz, ou com a mesma decisão e intensidade. Fico com esta segunda interpretação. O que vale é a maneira de viver o amor: para nós mesmos, os nossos interesses, lucros e vantagens ou gastar a nossa vida para o bem dos nossos irmãos, aqueles que as circunstâncias nos colocam por perto. Amar “como” Jesus significa escolher a generosidade e não o egoísmo, a aproximação em lugar da indiferença. Nesse sentido, Jesus sempre será o exemplo mais sublime e luminoso de amor total e gratuito. Ele amou e perdoou até os inimigos. No entanto, ele fez is so passando por malfeitor, recusado e rejeitado. A morte na cruz, em si, tem tudo de vergonhoso e nada de heroico. É o amor dele que a tornou salvação para a humanidade.

A segunda novidade das palavras de Jesus, está no amor fraterno como sinal de sermos, ou não, seus discípulos. Sinal, evidentemente, para os de fora, ou seja, aqueles que desconfiam dos cristãos, os céticos, os indecisos, os críticos sem fim. Como a cruz, muitas vezes, é considerada uma derrota, assim também o amor fraterno, a partilha e a solidariedade, podem ser interpretados como loucura ou mero interesse de grupo. Seria assim se, esse amor fraterno, fosse algo fechado, gastando tempo e energias na defesa de alguns privilégios próprios e exclusivos. Mas, se for mesmo amor aos mais pobres e sofredores, sem nenhuma vantagem ou propaganda, mais se parecerá com a vida doada de Jesus. Será prolongamento do amor dele até a sua volta.

Nesta altura, os discípulos de Jesus se não querem passar por mentirosos ou hipócritas, não podem fugir de um amor sincero ao próximo, pessoal e comunitário. Esse será o verdadeiro culto a Deus. O que fazer? Qualquer gesto de amor vale, porque quem ama consegue ver com os olhos do coração o sofrimento do irmão. Até adivinha.

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