O filho do sapateiro

O filho do sapateiro
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Quando Abraão Lincoln tomou posse como presidente dos Estados Unidos, foi um choque para a aristocracia americana. Um proletário assumir a liderança do país? O senador que coordenou seu juramento à pátria fez um comentário irônico: “Vamos ver se o filho de um sapateiro tem condições de dirigir um país”. Ao que Lincoln respondeu: “Que bom que o senhor lembrou de meu pai. Eu gostaria de ser um presidente tão bom quanto meu pai foi como um sapateiro. Aliás, estou vendo que o senhor está usando um par de sapatos que ele fabricou. Eu aprendi a consertar sapatos com meu pai e, se algum dia os seus apresentarem algum problema, me procure que eu os consertarei. Não importa o que esteja fazendo, sempre tenha orgulho e crie sempre algo de especial, porque é nos detalhes que você deixa a sua assinatura”.

Neste domingo, e nos próximos dois, voltamos a proclamar o evangelho de Marcos. Depois de algumas andanças por outras cidades da Galileia, Jesus retorna para a cidade de Nazaré, a sua terra. Por lá tinha parentes e conhecidos. No mundo pequeno do interior, a convivência e os laços familiares aproximam sem querer. Não tem como se esconder dos olhares dos vizinhos, dos amigos e inimigos. Ninguém escapa das conversas amenas e das fofocas maldosas. Hoje, chamamos isso de “controle social”. Ser ou fazer algo diferente significava, e em muitos lugares ainda significa, ser objeto de juízos e comparações. Podem ser elogios ou críticas impiedosas. Contudo, é muito difícil para todos não querer saber das últimas novidades da vida…dos outros.

Acompanhamos o evangelho e aprendemos que Jesus cumpria as obrigações de todo bom judeu e participava das reuniões religiosas na sinagoga. A diferença é que ele “ensinava” e, pelo jeito – sabemos disso por outras páginas dos evangelhos – o fazia com uma autoridade incomum. Os ouvintes reconhecem nele uma sabedoria maior que de outros pregadores. Por isso, se perguntam de onde lhe vinha tamanha sabedoria. Logo lembram das suas origens humildes, dos familiares e demais parentes. Podemos até pensar em inveja ou algo semelhante, por parte deles, mas o evangelista fala de “falta de fé”. Marcos quer nos preparar a reconhecer algo que acontecerá com os discípulos que Jesus enviará em missão. A questão é sempre aquela de confundir a mensagem com o mensageiro ou reparar a pessoa que fala e não o que ela diz. Se isso acontecia com Jesus, que além de ensinar, também fazia “grandes milagres realizados por suas mãos”, o que dizer dos pobres evangelizadores desprovidos de tudo? Esse será o assunto do evangelho do próximo domingo. Por enquanto, refletimos sobre a atualidade da questão: não é o saber em si que está em jogo, mas a sabedoria. O saber se adquire estudando nos livros, passando nas provas, alcançando diplomas e reconhecimentos oficiais. No entanto, isso não significa que os &ldqu o;doutores” passem pelas inevitáveis e reveladoras provas da vida: a convivência fraterna e, sobretudo, o amor humilde e solidário.

 O trato gentil com as pessoas, a gratidão, a paciência e a generosidade, só para lembrar algumas virtudes das quais sentimos falta, muitas vezes, não se aprendem nos livros, mas nas nossas famílias, no trabalho honesto, no meio do povo simples e singelo. Talvez essas pequenas luzes de vida se encontrem mais nas crianças, nos jovens e idosos do que em adultos orgulhosos em busca do seu sucesso pessoal. As coisas não mudaram muito. Se uma pessoa famosa fala ou faz uma bobagem muitos ba tem palmas e se desdobram para interpretar a grandeza da mensagem ou do gesto dela. Todos os dias os pais, as mães, os avós ensinam mil coisas boas, verdadeiras e sensatas para os seus filhos, incluindo aqueles e aquelas que já se consideram donos do seu nariz, mas quem escuta mais? A missão de ensinar continua difícil e desafiadora, mas Jesus não desiste. Os profetas não podem calar, porque estão a serviço da Palavra que acolheram de Deus. Com Jesus é diferente: ele mesmo é a Palavra, a Boa Notícia. Nele, mensageiro e mensagem coincidem. Devem ser acolhidos juntos. Até a sua origem humilde é lição para nós!

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