O que o poeta quis dizer?

O que o poeta quis dizer?
Antonio Juraci Siqueira*
Quando estudante, essa foi uma pergunta que ouvi várias vezes em salas de aulas feitas por professores de português em trabalhos de análise de textos. O(a) professor(a), apresentava um poema aos alunos para que analisassem e ai daquele cuja interpretação passasse longe da pré concebida pelo professor. Não sei se atualmente essa pergunta ainda é feita aos alunos. Lembro do filme “Sociedade do Poetas Mortos” que inicia com um professor analisando um poema com base em equação matemática sem atentar que a poesia é arte e, como tal, não pode ser analisada racionalmente, senão pelos sentidos. A estética se vale do juízo de valor, subjetivo, para analisar uma obra de arte e não do juízo de fato, objetivo, como fazem as ciências exatas. Triste da obra de arte que não sirva a mais de uma interpretação! Mário Quintana disse num poema: “Quando te perguntarem o que quiseste dizer com teu poema, perguntar-lhes: o que Deus quis dizer com este mundo?” Ou como disse Salvador Dali: “Como querem entender os meus quadros se eu que que os faço não os entendo?” A pergunta tem sentido pelo fato que a arte deve ser sentida e não compreendida. O poeta não “quis dizer”, ele efetivamente disse com todas as letras. Dane-se o que ele quis dizer, vale o que o poema disse para cada leitor. Como no jogo do bicho, vale o escrito. Não há nada mais patético, mais melancólico, que o artista explicar sua obra, como vi, certa vez, um pintor explicando, numa exposição, uma pintura surrealista de sua autoria. O máximo que ele consegue é esvaziá-la. O simples título de uma obra já induz, já direciona a interpretação do público. Em 1984, participei e ganhei um concurso promovido pela secretaria de cultura de São Bernardo do Campo, São Paulo, na época das grandes greves do ABC paulista, tempo em que o Lula surgia como o grande líder metalúrgico. Dei o título de “Povo” ao poema pois era a ele que me dirigia naquele momento em que estávamos quebrando as algemas da ditadura militar. Publiquei com esse título na página “O Jornaleco” de A Província do Pará mas quando o incluí no livro “Travesseiro de Pedra”, em 1986, mudei para “Oleiro e Barro”, mudando completamente o olhar do leitor. Agora a mensagem é direcionada ao indivíduo e não mais ao povo. O professor Pedro Holanda, no seu TCC sobre a minha obra, pela UFPa, o remeteu ao Genesis, com Deus e não o poeta falando ao homem. Portanto, dane-se o que eu quis dizer e viva o que o poema disse e diz a cada leitor. E para você, o que foi que eu disse nesse poema?
OLEIRO E BARRO
Acorda! Já é dia e o teu destino
é fazer teu destino caminhando!
Tu és, ao mesmo tempo, oleiro e barro;
tu és, num só momento, o boi e o carro!
Acorda! O tempo urge…Tu não sabes
que deténs as rédeas da ação?
Tu és a solução dos teus problemas
e a chave que abre tuas algemas
repousa, eternamente, em tua mão!
Levanta! O sol se põe… Bate a poeira
acumulada por tantos verões!…
Tu és a vela-mestra da História,
o caminho que conduz à glória,
a semente das revoluções!

*Antonio Juraci Siqueira é poeta, professor, escritor, autor de mais de 70 livros

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