Ora, pílulas! – Por Rui Guilherme

ORA, PÍLULAS!
Rui Guilherme

Estar em dúvida é próprio dos inquietos. É bom? Eis a dúvida.

O espírito aplacado dorme, e não sonha. Tampouco tem pesadelos. Pesadelo é um sonho que não deu certo. Vale a pena dormir – e dormir é até mesmo terapêutico -, mas sem nunca sonhar? Pergunta-se: compensa a quase-morte de noite após noite, consolado pela ideia de que jamais se acordará, no meio da noite com a boca seca e o coração aos pulos, isso porque, nunca sonhando, igualmente não se será assolado por nenhum pesadelo? Ora, pílulas!

E os imigrantes, hein? Aqueles milhões de coitados deixam para trás suas casas, tudo o que construíram na vida, sua terra natal, expulsos pela violência de uma guerra fratricida a que não deram causa. São multidões de flagelados a vagar pelos velhos caminhos de um mundo velho onde facções opostas se explodem, se matam, se roubam, se violam. Que horror!

Mas, dirão os indiferentes (e, acreditem, há tantos deles…):- isso não é problema nosso. Dizem, e até pensam seriamente assim, com a consciência pacificada pelo fato de que não têm consciência. Ora, dir-se-ão, nenhum de nós tem nada a ver com os problemas das massas de desterrados do Velho e do Velhíssimo Mundo. Os incontáveis milhares de milhas náuticas e terrestres que não os deixam chegar ao Brasil asseguram que os molambentos sem terra e sem teto daqueles países longínquos não virão nos trazer mais problemas do que os muitos que temos e que estamos atravessando. Então … ora, pílulas! -, não temos nenhuma responsabilidade para com os desalojados pelas guerras em outros continentes.

Outro dia, brincando, anunciei numa roda de conhecidos que iria voltar a advogar, depois de cumprir a quarentena de três anos contados do dia em que se encerrou minha carreira de magistrado. Disse, sempre brincando, que iria me dedicar a causas cíveis; e, continuando a brincar, falei a colegas que continuam na ativa como juízes de varas civis, que estava disposto a comprar deles sentenças que favoreceriam minha futura clientela, partilhando com eles os lucros auferidos com a corrupção. Ora, pílulas, é consabido que, em cinqüenta anos de prática forense como advogado e magistrado, cheguei à inatividade por ter atingido a idade compulsória sem ter jamais praticdo qualquer irregularidade. Os que me ouviam tinham certeza de que a propalada compra de decisões judiciais era puro blague, de minha parte e da deles, todos juízes reconhecidamente competentes e honestos. Contudo… ora, pílulas!. A despeito da certeza de tratar-se de pura brincadeira entre bons amigos; de nada mais ser que inócua piada o gesto que fiz de “rachar” lucros da desonestidade; com tudo isso, imaginei se, entre aqueles meus ouvintes, não haveria pelo menos um, quem sabe, ávido na busca de notoriedade e espaço na mídia, que exultaria em poder me dar voz de prisão, ainda que imotivadamente…

Conforta saber que, no meio de tanta gente indiferente, há também aqueles que genuinamente deploram a miséria de seu semelhante; e que, de outra banda, vibram de coração com os sucessos honestamente conquistados por outro ser humano. São estes os eleitos de Deus. São estes os que receberão absolvição no juízo final. Não necessariamente por terem feito prodígios pelo bem da humanidade, mas simplesmente porque, em suas vidas simples, sem esforço especial, sem praticar atos heróicos, apenas souberam perdoar as ofensas que receberam, perdoar os que os têm ofendido e amar o próximo como a si mesmos.

* Rui Guilherme é juiz aposentado, professor universitário, poeta, escritor. Autor de livros de poesias, contos e romance, e participa de várias antologias.

 

 

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