Artigo dominical

Páscoa, vida nova
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Contam que o grande cientista Galileu Galilei, já avançado na idade, a quem lhe perguntava quantos anos tinha, respondia: “Oito, talvez dez”.Ao interlocutor, que o olhava sem entender, explicava: “Meu amigo, os anos que eu já vivi não me pertencem mais, já os perdi. O que posso ter ainda é o que resta da minha vida. Portanto, pense bem, o cálculo não está tão errado assim”. Sábias palavras de um homem consciente da pequenez humana.

Estamos acostumados a medir o tempo de nossas vidas tendo como limites o dia do nascimento e o dia, ainda desconhecido, da nossa morte. No entanto se podemos dizer que morremos um pouco a cada dia, podemos também fazer destes dias – da vida que passa – o amanhecer de uma vida nova, a vida de Jesus ressuscitado, que venceu a morte de uma vez por todas.

Fazemos tanto esforço para prolongar a nossa vida. É nossa obrigação, sem dúvida alguma, porque esta vida é o primeiro grande dom que recebemos, de graça, das mãos de Deus. O que vale, porém, não é a mera sucessão dos dias, como se a nossa vida fosse “vegetativa”, o que vale é a nossa maneira de viver. Nós somos uma mistura maravilhosa de pensamentos e ações, de impulsos e decisões, de afetos, desejos e vontades. Assim Deus nos fez: livres, ativos e criativos. Não conseguimos ficar parados como os vegetais; menos ainda nascemos, mais ou menos programados, como os animais. Podemos usar e abusar da nossa liberdade.  Podemos fazer o bem e podemos fazer o mal; às vezes confundimos tudo, mas às vezes est amos muito conscientes das nossas possibilidades de dar a vida ou de destruí-la; de dar esperança e alegria ou de sermos causa de desespero e lágrimas.

Como cristãos já deveríamos ter entendido que a morte verdadeira, afinal, é o mal que fazemos; todo coração incapaz de amar está morto também se funciona perfeitamente e bate sem parar. Precisamos colocar a vida nova da ressurreição de Jesus em nossas vidas, muitas vezes cheias de entulhos e de escuridão, faltando-lhes a beleza e a luz esplendorosa da Páscoa.

Quem teve a paciência de acompanhar a catequese da liturgia da Palavra, durante os últimos domingos da Quaresma, deve estar entendendo tudo isso. Todos os evangelhos nos convidaram a passar da morte para a vida. A figueira devia ser cortada porque não produzia frutos, mas ganhou uma sobrevida, na esperança de não ocupar mais o terreno inutilmente. O pai da parábola disse ao filho mais velho que o outro, o irmão dele, estava morto, mas agora voltou a viver. Por fim Jesus salvou a pecadora do apedrejamento e a devolveu, perdoada, para uma vida nova dizendo para ela: “Vá em paz e não peque mais”. Com o seu trabalho, o vinhateiro se propôs a dar vida nova para a figueira improdutiva. O pai devolveu ao filho aquela dignidade que tinha desprezado, mas nunca perdido. O filho pródigo encontrou uma vida nova no coração do pai que nunca esqueceu aquele que o tinha abandonado e considerado como morto, visto que pediu, antecipadamente, a sua parte da herança. Por fim, a adúltera, já condenada à morte por uma lei amparada por um falso deus, experimentou em Jesus a misericórdia do Pai que não condena o pecador, mas quer que viva por meio do perdão.

Páscoa é, portanto, uma nova vida, vida de amor que vence o ódio e o mal; vida de bondade, compaixão e misericórdia que supera toda indiferença e cegueira do coração. Tempo de vida verdadeira é quando gastamos os nossos dias para amar, mesmo sem ter total consciência disso, e, melhor ainda, se o fazemos sem nenhuma pretensão ou busca de recompensa. Quando saímos do nosso egoísmo interesseiro e amamos o nosso próximo com generosidade e gratuidade é a Páscoa acontecendo; é a vida nova de Jesus produzindo os seus frutos. Os dias que passamos articulando o mal, as horas que perdemos buscando o nosso exclusivo interesse, os instantes que gastamos na desonestidade e na mentira, não são dias de vida, são tempo de morte. Vale a pena nos perguntarmos, dos anos que já  vivemos, quantos vivemos para a vida e quantos para a morte? Talvez seja melhor não perder mais tempo e decidir viver a vida nova do amor de Jesus. É a Páscoa acontecendo a cada instante. Contra esta vida – vida de amor em Cristo – a morte não tem mais poder nenhum, já está vencida.

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UEAP rumo a uma Universidade Sustentável
Antonio Claudio Carvalho

Na última quinta-feira, dia 21 de março, o governador Camilo Capiberibe encaminhou à Assembleia Legislativa o Projeto de Lei 001/2013 que institui o Plano de Cargos, Carreiras e Remunerações (PCCR) do quadro efetivo dos docentes da Universidade do Estado do Amapá (UEAP).  Este é certamente um marco histórico, digno de registro, rumo à consolidação de uma das mais importantes estruturas do poder público estadual, em prol da sociedade amapaense.

O passo inicial para isso foi dado logo no início do governo, em janeiro de 2011, quando o governador Camilo Capiberibe nomeou para o cargo de Reitora, a Professora Maria Lúcia Borges. Uma servidora da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), com mestrado e doutorado na área de educação e com mais de 20 anos de experiência na estruturação e melhoria do ensino do Amapá.  Participou decisivamente do modelo exitoso de educação implantado município de Macapá na gestão do então prefeito João Alberto Capiberibe, passando pela secretaria de educação do estado e depois ingressando, através de concurso público, no quadro de docentes da UNIFAP.

Em janeiro de 2011, encontramos uma universidade estadual com uma estrutura sem as mínimas condições de atender as exigências da legislação da Educação Superior.  Não havia tido a preocupação, ou decisão política, de se consolidar legalmente a Universidade junto aos órgãos reguladores, tanto no Conselho Estadual de Educação, quanto no Ministério da Educação (MEC), em Brasília. Literalmente ela só existia no âmbito do estado do Amapá, pois não estava credenciada no MEC e, consequentemente, não constava no cenário da Educação Superior do País, uma vez que não era contabilizada por não participar do Censo da Educação Superior. Muitos dos cursos não tinham nem mesmo o básico: o projeto pedagógico encaminhado ao Conselho Estadual de Educação e a situação era caótica para os estudantes que estavam concluindo o curso, pois não se tinha previsão de formaturas, em razão de não haver condições legais para emissão de diplomas.

Hoje, pouco mais de dois anos depois, a realidade é outra: uma universidade com um quadro de professores permanentes com expressivo número de titulações entre Mestres e Doutores; ex-alunos graduados e diplomados atuando no mercado de trabalho ou prosseguindo os estudos de pós-graduação em instituições de todo Brasil. Mais de 20 alunos egressos da UEAP foram aprovados em seleções de mestrado nas mais importantes universidades brasileiras. No ano passado a UEAP recebeu notas 4 e 3 no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) para os cursos de licenciaturas e engenharias, respectivamente.  Este desempenho colocou a UEAP, dentre todas as universidades brasileiras, no grupo das 26% que receberam conceito 4 e no grupo das 40% que receberam 3. Uma excelente posição entre as universidades da Amazônia.

Não obstante, todos esses resultados positivos não teriam muita importância se não estivéssemos trabalhando rumo à consolidação de uma universidade estadual pública, democrática, eficaz e sustentável.  O primeiro passo neste sentido foi, fundamentalmente, a realização do concurso público que permitiu a formação de um quadro de servidores efetivos na instituição e, por conseguinte, a estruturação das entidades representativas de classes, como a formação do SINDUEAP (Sindicato dos Docentes da UEAP) e o fortalecimento dos Centros Acadêmicos. A eleição dos coordenadores dos cursos dentre dos docentes efetivos é outra demonstração do fortalecimento das instituições democráticas ruma à consolidação e sustentabilidade da UEAP.

O início do processo de construção do PCCR do quadro efetivo dos docentes da UEAP foi um pouco desajeitado e, por isso, houve certos desconfortos e desentendimentos. O SINDUEAP tentou encaminhar diretamente para apreciação do governador Camilo Capiberibe uma pré-proposta feita sob o ponto de vista do Sindicato.  O governador, considerando a importância e magnitude do documento, decidiu que o mesmo teria que ser construído e encaminhado de forma institucional. Assim designou que a Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia (SETEC) priorizasse o ato e, com a reitoria da UEAP deflagrasse o processo de institucionalização do referido PCCR.

Felizmente, como Diretor do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agrário (SINPAF), sindicato que representam os funcionários da Embrapa em todo o Brasil, eu tinha alguma experiência no assunto em tela. Como membro da Comissão de Negociação do SINPAF, participei diretamente da construção dos dois mais exitosos Acordos Coletivos implantados nos Centros de Pesquisa da Embrapa em todo o Brasil (2007 e 2008).   Essa experiência ajudou muito a liderar a construção do PCCS da UEAP.  O primeiro passo que adotamos como coordenador do processo foi instituir uma comissão de negociação paritária, formada entre os dirigentes do SINDUEAP e da UEAP, com agenda pré-definida de reuniões e obrigatoriedade do registro em Atas de cada item negociado.  Assim, com acumulação dos pontos convergentes, acordados e registrados, formos adquirindo confiança entre as partes e subindo degrau-a-degrau, em busca de um documento que pudesse ser pactuado ente o Governo e os docentes da UEAP. O processo não foi simples, precisamos de quase cinco meses de intensivos e calorosos debates. Às vezes cordiais, às vezes tensos, mas sempre com o canal aberto de negociações e confiança entre as partes. O final foi um documento moderno e inteiramente legitimado.

As conquistas desse PCCR serão decisivas na consolidação do futuro da UEAP. Seus efeitos serão sentidos de imediato, evitando evasão no quadro atual dos docentes e contribuindo significativamente na atração de quadros altamente qualificados, que juntos formarão a base dos futuros dirigentes da instituição.  Os três pró-reitores nomeados recentemente são todos do quadro efetivos dos docentes da UEAP.

Essa é uma boa oportunidade para dizermos obrigado Sr. Camilo Capiberibe. Primeiro, por sua visão de estadista e apoio político que nos permitiu tamanho avanço, concluindo um PCCS sólido que garante atraentes condições iniciais e uma progressão contínua na carreira dos docentes. Segundo, por sua determinação que já definiu a agenda para começarmos o processo de consolidação do quadro dos técnicos administrativos da UEAP.  Obrigado também, pela Lei de sua autoria, que como deputado estadual fixou o orçamento da UEAP em 2% do ICMS e agora, como governador, ter implantado esse orçamento, que totaliza já para o ano de 2013 mais de 12,5 milhões de reais.   Por fim, os esforços que o governo está envidando para lançar nos próximos meses a Ordem de Serviço da construção do campus definitivo da UEAP na rodovia JK,  nos dão a certeza que em breve teremos uma universidade estadual consolidada e sustentável.

1ANTONIO CLAUDIO CARVALHO é funcionário de carreira da Embrapa, mestre em estatística aplicada pela USP e doutor em desenvolvimento pelo NAEA. Atualmente ocupa o cargo de Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia do Amapá.

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Fraternidade e Juventude
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

No capítulo terceiro da Regra de São Bento podemos ler esta norma: “Todas as vezes que devem ser feitas coisas importantes no mosteiro, convoque o Abade toda a comunidade e diga ele próprio de que se trata. Ouvindo o conselho dos irmãos, considere consigo mesmo e faça o que julgar mais útil. Dissemos que todos fossem chamados a conselho porque muitas vezes o senhor revela ao mais jovem o que é melhor”.

Este grande santo, vivido entre o quinto e o sexto século, fundador de uma ordem monástica que existe, ainda hoje, já tinha entendido que os jovens podiam colaborar de maneira eficaz na própria organização dos mosteiros. Podemos pensar também que se São Bento teve que colocar esta norma na sua Regra foi, talvez, porque, raramente, os jovens eram ouvidos nas questões “importantes” da fraternidade. Talvez seja esta uma questão que, apesar de ter passado tantos anos, de fato se apresente a cada geração. Sempre ouvimos falar de “conflito” generacional, de uma confrontação entre o que os mais adultos afirmam ser o certo e o novo que os jovens acreditam ter condições e capacidades de fazer.

Podemos ler também deste ponto de vista a história do mundo. De geração em geração, de conflito em conflito, as coisas vão caminhando. O que parecia imutável no passado, os jovens transformam ou vivem de maneira diferente e criativa. Nenhuma mudança é fácil. Nenhuma passagem acontece sem sofrimentos e saudades. No entanto devemos reconhecer que é na continuidade da busca que se abrem novos caminhos, que se alcançam novas metas, as quais, por sua vez, abrem a outros horizontes. Assim vai a história da humanidade, ela nunca vai ser uma mera repetição do passado, nunca se cansa de nos surpreender. Com um ritmo cada vez mais acelerado cada geração jovem freme por querer dizer e fazer algo de novo. Os saudosistas ficam para trás e o novo irrompe na vida com a força e a garra da juventude. Quantas ideias, quantas descobertas científicas, quantas intuições brotaram nos primeiros anos da vida das pessoas, junto com os sonhos e os projetos de quem sabe que tem a vida toda à sua frente. Nem tudo o que foi imaginado poderá tornar-se realidade, mas, sem dúvida alguma, alimenta a esperança, dá força para superar obstáculos, leva a tomar decisões novas e corajosas.

Assim deveriam ser os jovens, todos os jovens. Lamentamos que alguns busquem a felicidade trilhando caminhos errados que levam à tristeza, à solidão, à morte. Outros, por se sentirem mal amados, pensam em afirmar-se com a violência. Nada entristece mais que a visão de jovens desperdiçando as suas melhores capacidades e energias, sem rumo algum, tendo perdido qualquer sentido da vida.

Vivemos numa sociedade onde o mito da juventude eterna tomou conta dos mais adultos. Quantos sacrifícios inúteis são feitos para esconder os anos que se acumulam nos rostos e nos gestos dos mais velhos. Os jovens não precisam fingir ou pintar uma juventude que não existe mais. Eles são jovens mesmo, cheios de vida, de sonhos e de esperanças. Cabe aos adultos colaborar com eles, escutá-los com carinho e amizade. Os jovens, também com as revoltas deles, pedem para ser ajudados, querem saber dos adultos se vale a pena lutar por coisas grandes como a verdade e a justiça, a fraternidade e a paz. O mundo jovem não precisa somente de celulares, computadores, tabletes ou redes sociais e tudo o que eles sabem utilizar com habilidades surpreendentes, eles precisam também dar respostas às perguntas que todo ser humano se faz: se são o dinheiro e o poder que fazem as pessoas felizes, se o amor existe ou se todas as alegrias da vida acabam com o passar dos anos, deixando só feridas e amarguras.

Os jovens querem saber se vale a pena ainda acreditar em Deus, se compensa ser amigos de Jesus e confiar nele. É nesses momentos que os pais, os mestres e a sociedade toda, podem ajudar os jovens a dar um sentido à própria vida. Não somente com conselhos e boas palavras, mas com o exemplo de adultos que vivem e praticam o que cobram dos mais jovens. Precisamos de adultos capazes de transmitir às novas gerações a beleza da vida – e da fé, para quem acredita – para que estas, por sua vez, não somente continuem no mesmo caminho, mas façam ainda mais e sejam melhores. Somente assim os mais velhos deixarão este mundo com o coração em paz e os mais jovens não se esquecerão, tão cedo, dos bons exemplos daqueles que os precederam.

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Chifres o orelhas
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um leão foi ferido pelos chifres de um touro. O rei dos animais baixou uma ordem, então, para expulsar do reino todos os animais que tivessem chifres. Espalhada a notícia, cabras, touros, carneiros, veados, corças, fizeram as suas trouxas e mudaram de ares. Uma lebre que comia grama, vendo a sombra das suas orelhas, achou-a parecida com chifres e resolveu ir embora também, apavorada com a possibilidade que os guardas do rei leão a descobrissem. Antes de se afastar foi despedir-se do amigo grilo que ficou admirado com a decisão da lebre. O grilo tentou de todo jeito fazer a lebre voltar atrás na decisão tomada, mas não conseguiu, pois esta confessara que morria de medo ao pensar que alguém poderia se enganar, pensando que suas orelhas fossem chifres.

Uma historinha antiga e popular para nos lembrar com quanta facilidade e superficialidade, muitas vezes, julgamos os outros e, por consequência, somos julgados. Justamente porque vivemos em comunidade somos objeto dos olhares e das críticas alheias. Em muitos lugares, hoje, lemos avisos com as palavras: “Sorria, você está sendo filmado”. É um alerta para saber que alguém está nos reparando através de uma telecâmera. Talvez não seja sempre verdade, mas é melhor não arriscar. Ninguém gosta de ser surpreendidos por uma multa entregue pelo Correio, ou por um vigilante na saída do Supermercado querendo surrupiar nossa bolsa. Tudo em nome da segurança, podemos até concordar. A questão é que, quase sempre, o olhar dos outros é também um julgamento. A frase poderia ser mudada em: “Sorria, você está sendo julgado”, que não mudaria quase nada, porque é o que acontece. Vendo os outros fazerem alguma coisa, já especulamos o que seja e o porquê o estejam fazendo. Difícil escapar da imaginação dos outros. Obviamente, isso vale também para nós: o que não sabemos, inventamos. Se depois a bisbilhotice eletrônica se espalha com a velocidade da luz, pouco importa. O estrago já foi feito, ou, quem sabe, tenhamos defendido a verdade e desmascarado a mentira.

Nada de mais atual que o caso da mulher do evangelho deste domingo surpreendida em flagrante adultério. Culpa tão grave de merecer, naquele tempo, e com aquelas leis, o apedrejamento. Talvez hoje as pedras que temos nas mãos sejam as mensagens da internet, mas continuam sendo, muitas vezes, fatais. Quantas pessoas sofrem por muito tempo as consequências de uma exposição caluniosa ao público ávido de novidades e de escândalos. Raramente, depois, dá para desfazer o mal causado.

Como cristãos devemos ser sábios e prudentes. Não somente pelas palavras de Jesus: “Quem é sem pecado atire a primeira pedra” (Jo 8,  ), mas sobretudo para não confundir o pecado com o pecador. É verdade que o pecado existe porque existe quem o pratica e, portanto, é algo de real e não uma mera ficção. No entanto Jesus nos lembra da cura da misericórdia e do perdão justamente para salvar a vida do pecador. “Pois Deus enviou seu Filho ao mundo não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17). Salvação que quer alcançar a todos, também aos que estão julgando a mulher! A eles também Jesus oferece o perdão na condição que se reconheçam pecadores e mudem de vida. O pior para nós todos é quando queremos julgar sem sermos julgados; queremos condenar os outros nos considerando melhores. Talvez sejamos tão responsáveis das coisas erradas do mundo quanto aqueles nossos irmãos que condenamos; não pelo mal que talvez, graças a Deus, não fazemos, mas,  simplesmente, pelo bem que deixamos de fazer.

O mal não é vencido pelas condenações, mas pelo amor que resgata, pela caridade que ajuda a sair das situações perigosas, pela solidariedade que humaniza a vida. Nós cristão acreditamos que nenhum ser humano pode vencer o mal por sua própria conta, precisa se deixar amar – até a morte na cruz – pelo amor de Jesus. Amor gratuito, total, para todos. As palavras finais do evangelho são: “Mulher, ninguém te condenou?… Eu também não te condeno. Podes ir em paz e, de agora em diante, não peque mais”. Hoje podemos dizer, com razão, uns aos outros: Sorria, você está sendo salvado . Pelo amor de Jesus.

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A tentação da curiosidade
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

O dia estava muito quente. Um empregado trabalhava duro no jardim do seu patrão. Sem pensar duas vezes, começou a blasfemar gritando contra Adão e Eva porque, pensava, afinal foram eles a causa de tanto suor e fadiga. O patrão ouviu as suas imprecações, aproximou-se dele e perguntou:

– Por que estás xingando tanto assim Adão e Eva? Aposto que no lugar deles nós também teríamos feito a mesma coisa.

– Eu não – respondeu – irritado o trabalhador – eu teria resistido à tentação!

– Veremos – disse o patrão, e o convidou para o almoço.

Na hora marcada, o empregado apresentou-se à casa do senhor e foi levado a uma sala onde tinha uma mesa preparada com vários tipos de comida. O patrão lhe disse:

– Pode comer tudo o que quiser; somente não deve mexer na vasilha tampada que está no meio da mesa, até a minha volta.

O trabalhador, que estava com muita fome, aproveitou bastante da comida. No entanto, morrendo de curiosidade, não tirava os olhos da vasilha que estava no meio da mesa. O que estava escondido lá dentro? O patrão demorava e ele não resistiu. Bem devagarzinho levantou um pouco a tampa. Imediatamente saiu um rato. O empregado fez de tudo para pegá-lo e colocá-lo de volta. Mas a caçada foi difícil. Pratos caíram no chão e algumas cadeiras foram derrubadas ruidosamente. Com a zoada o patrão voltou e disse, sorrindo, ao seu funcionário:

– Meu amigo, daqui para frente será melhor xingar menos Adão e Eva, viu?

Uma historinha alegre para refletir sobre um assunto muito sério: a fragilidade humana. Cada um de nós tem as suas tentações e todos os dias experimentamos como é difícil resisti-las. Apesar dos alertas da nossa consciência sobre o erro que estamos para cometer, a tentação se apresenta sempre muito atrativa, fácil, vantajosa e sem perigo. Por que não aproveitar? Um pouco de risco também, muitas vezes, em lugar de desanimar, aumenta a vontade de provar a nossa esperteza. Como resistir? São Paulo diria: Quem me libertará deste corpo de morte? Ele mesmo responde: Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. (cf. Rom 7,24-25).

No primeiro domingo de Quaresma, sempre encontramos um evangelho que nos fala das tentações de Jesus no deserto. Tentações terríveis que o acompanharam a vida inteira. O que estava em jogo era a própria missão dele. Jesus podia ter aproveitado da sua fama de “messias” para chegar ao poder, à riqueza, ao inebriante sucesso humano. Com certeza também alguns dos seus seguidores queriam que ele instaurasse um reino poderoso neste mundo. Um reino onde ele seria o mais importante, onde seria deus! Esta é, e sempre será, a tentação de todo ser humano: aceitar ser criatura limitada e, portanto, admitir a própria dependência de Deus, ou querer ser “deuses” e assim travar uma luta sem fim onde o Outro acaba sendo o eterno rival.

Desde a primeira tentação apresentada pela Bíblia tudo não passa de um grande engano. Deus oferece ao homem e à mulher um jardim para que sejam felizes, dentro dos limites de serem “criaturas” amadas por Ele. Na relação de obediência amorosa a Deus realizarão o sentido de suas vidas. Para serem felizes o homem e a mulher devem confiar em Deus. No entanto não pode ter amor verdadeiro sem liberdade e, portanto, sem uma adesão consciente e responsável. É neste ponto que entra em cena o Tentador. Simplesmente ele distorce para o casal a imagem de Deus. Ele não é nada confiável: Mente – não é verdade que irão morrer – e é ciumento, porque não lhes deixa conhecer o bem e o mal, assim nunca serão como Ele. Os dois caem na tentação, duvidando da palavra de Deus. A opção de toda escolha não é simplesmente entre ter fé ou não tê-la, é entre confiar em Deus ou optar pela própria autossuficiência.

A falta de fé-confiança nos afasta, cada vez mais, de Deus e nos impede de compreender o seu amor. A obediência-confiança total de Jesus ao Pai vence toda tentação e reconduz toda a humanidade, uma vez por todas, ao reencontro com o Deus verdadeiro, rico em misericórdia.

Em Jesus acaba a disputa entre Deus e o homem, porque nele Deus se manifestou plenamente confiável. Para nós é possível novamente corresponder livremente ao amor de Deus, porque Ele mesmo nunca deixou – e nem deixará – de amar a humanidade, mesmo quando é desobediente, revoltada e pecadora. Aí está a força para vencer toda tentação. Muitas vezes, porém, ainda “confiamos” mais nas ilusões do Tentador do que nas Palavras de Deus. A quaresma é sempre um tempo bom para reavivar a nossa fé, para reconstruir em nós a imagem dEle que o mal desfigurou.

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A Meridiana
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um rei do Oriente trouxe de uma viagem em terras longínquas uma meridiana para os seus súditos que ainda não conheciam as horas. Aquela invenção mudou a vida das pessoas. Olhando a meridiana, todos aprenderam rapidamente a dividir e a organizar as horas do dia. Começaram a ser diligentes, pontuais e ordenados. Dessa maneira, em poucos anos, o reino prosperou e ficaram ricos. Quando o rei morreu, os súditos, agradecidos, decidiram erigir um monumento que o lembrasse para sempre. A meridiana, também, era o símbolo e a origem das suas riquezas e, portanto, resolveram construir ao redor dela um magnífico templo com a cúpula de ouro. Quando acabaram de fechar a cúpula, os raios do sol não alcançaram mais a meridiana e assim aquele fio de sombra, que havia marcado o tempo, em todos aqueles anos, desapareceu. Em pouco tempo, alguns cidadãos deixaram de ser pontuais, outros faltaram com a diligência e outros voltaram a ter uma vida totalmente desordenada. Cada um resolveu andar pelo seu caminho, fazer as coisas quando e como bem queria, sem mais nenhuma atenção para os outros. O reino todo foi para a ruína.

A moral da história é simples. Aquelas pessoas deram muito valor à meridiana e se esqueceram da luz do sol que, de fato, fazia funcionar o relógio mais antigo do mundo. Isso acontece quando nós não buscamos o sentido mais profundo da vida e dos nossos conhecimentos. Ficamos satisfeitos com as aparências e perdemos a substância. Ocorre também com as pessoas e com as situações que vivemos.

O evangelho deste domingo é a continuação do trecho proclamado na semana passada. Jesus ainda está em Nazaré e o povo fica encantado com as suas palavras.  Devem ter pensado: se, como dizem, este homem tem poderes extraordinários, ele é dos nossos e vai fazer o que nós queremos. A eles não interessava quem era Jesus de verdade, quem o tinha enviado e por quê. Queriam curas, milagres, nada de questionamentos ou compromissos. No entanto Jesus tinha muito mais para lhes dizer. O amor de Deus que ele ensinava não podia ficar exclusivo para uma só aldeia, para um só povo. O Reino de Deus que ele anunciava e resgatava era, e é, muito maior porque é para todos. Com efeito, Deus não distribui privilégios porque quer a fraternidade. Não distingue ninguém com vantagens e regalias porque quer a partilha e a comunhão. O amor do Pai que Jesus manifestava devia chegar até os confins da terra. Todos os pobres e sofredores deviam poder ouvir e acreditar na boa notícia que o Filho amado vinha  comunicar. Todos deviam poder participar da alegria dos pequenos aos quais sempre são desvendados os segredos de Deus.

Se os moradores de Nazaré tivessem acolhido as palavras de Jesus poderiam ter sido os primeiros praticantes do Reino, os primeiros construtores da paz e da justiça. Um exemplo para todos. Mas não foi assim, não quiseram acreditar no profeta que tinha saído deles e que agora os convidava a segui-lo numa missão tão grande, tão nova e… tão perigosa. É sempre muito arriscado querer mudar o mundo e dizer coisas diferentes.  – Quem ele acha que é? – devem ter pensado – Melhor acabar logo com este exaltado antes que faça maiores estragos com as suas ideias e o seu modo de agir! -.  A tentativa de matar Jesus, jogando-o no precipício foi somente uma antecipação do que um dia irá acontecer com ele e o que sempre muitos tentam fazer quando a luz e a esperança do Evangelho interferem nos seus planos tenebrosos de orgulho e de poder.

“E a luz brilha nas trevas e as trevas não conseguiram dominá-la” escreve São João no prólogo do seu evangelho. A luta entre a luz e as trevas continua também na vida de cada um de nós. Quantas vezes achamos melhor apagar esta luz. Mas o resultado é desastroso. Sem a luz de Deus, sem a luz da fé e do amor só podem ganhar o mal, a desordem e a confusão. Como naquele reino onde, sem a luz do sol, a meridiana parou de funcionar. E a ruína foi grande.

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Leis rigorosas existem, o que falta para haver redução no número de mortes no trânsito no Brasil?
Alex João Costa Gomes

joaogomesNos últimos anos temos observado um aumento no rigor das leis de trânsito no país, mas paralelo a isso houve um aumento também no percentual de mortes no trânsito brasileiro. Segundo o Instituto Avante Brasil (IAB) que realiza estudos acerca desse tema, há um crescimento anual de 4% no número de mortes em nossas vias. Entre 2001 e 2010 o crescimento foi de 40,3%. Para o IAB em 2012 a estimativa era de mais de 46 mil mortes, já para 2014 durante a Copa do Mundo teremos, caso esse crescimento continue, mais de 50 mil mortes no trânsito do Brasil. O sinal de alerta já foi ligado a muito tempo.

Com a entrada em vigor da Lei 9.504/97 que é o nosso Código de Trânsito Brasileiro (CTB), houve redução no número de mortes em 1998, foram 30.890 nesse ano, redução considerável em relação a 1997 que foi de 35.620. Em 2008 entra em vigor a Lei 11.705/08, conhecida como Lei Seca, o rigor aumenta e a população fica cautelosa, mas logo o jeitinho brasileiro entra em ação, e formas de burlar a Lei Seca foram criadas. Em 2012 entrou em vigor a Lei 12.760/12, dando mais respaldo aqueles que realizam a fiscalização de condutores dirigindo sob o efeito do álcool. Agora no último dia 23 de janeiro, entrou em vigor a Resolução de nº 432/13 do CONTRAN, dispondo sobre os procedimentos a serem adotados pelas autoridades de trânsito e seus agentes de fiscalização no que tange ao consumo de álcool e a direção veicular, é a chamada Tolerância Zero.

Ao longo dos anos no país normas mais rigorosas foram criadas, citamos alguns exemplos de leis relacionados à questão do consumo de álcool e direção, visto que o número de mortes no trânsito por causa dessa combinação perigosa (álcool e direção) é um fator relevante, além do que estamos no período de carnaval no Brasil, onde o consumo de álcool aumenta, bem como o número de acidentes de trânsito e mortes. No Amapá em 2011 e 2012 não houve mortes no trânsito durante o período carnavalesco (os dias de festas), o poder público tem agido com o objetivo de evitar que isso aconteça, mas é algo que não depende tão somente da vontade e ações dos Órgãos de fiscalização de trânsito. Segundo estudos do DENATRAN o fator humano é preponderante para que aconteçam os acidentes e mortes em nossas vias, são da ordem de 90% (imprudência, negligência e imperícia), 4% são oriundos de falhas mecânicas no veículo e 6% devido às condições da malha viária.

Temos Leis rigorosas, ações integradas do poder público, campanhas de conscientização na mídia, notícias nos meios de comunicação diuturnamente sobre acidentes e mortes no trânsito pelo país, até porque diariamente mais de 130 pessoas perdem a vida em nossas vias, e esse número pode ser bem maior, por ano temos mais de 40 mil mortes, então, o que está faltando para ocorrer uma redução efetiva no número de mortes no trânsito brasileiro? Sinalização, fiscalização, ações educativas ou disciplina consciente? Devemos nos julgar primeiramente, verificar nossas ações para com essa problemática, quem sabe não encontramos uma resposta.

Como é tempo de carnaval, vamos nos divertir, mas com responsabilidade, respeitando as normas vigentes e principalmente a vida.

Alex João Costa Gomes  é Bacharel e Licenciado em História

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Eu fiz a ti
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

 Um santo homem passeava pelas ruas da cidade quando viu, numa esquina, uma criança maltrapilha e suja pedindo esmola. Elevou o seu pensamento a Deus:

– Ó Senhor, como podes permitir uma coisa destas? Suplico-te, faças alguma coisa.

De noite, sentado na poltrona de sua casa, assistiu ao noticiário da TV. Apareceram cenas de violência, de morte, de crianças abandonadas, feridas e doentes. Novamente rezou:

– Ó Senhor, quantos sofrimentos. Eu te peço, faças alguma coisa, por favor!

No silêncio da noite, o Senhor Deus lhe disse claramente:

– Eu já fiz alguma coisa: fiz a ti!

Muitas vezes pensamos que seja obrigação de Deus resolver certos problemas. Ou que Ele tenha ficado indiferente e insensível aos nossos sofrimentos. Chegamos a duvidar do seu amor. Este não é somente um dos mal-entendidos a respeito de Deus, é também a forma mais simples para nos desculparmos e não assumirmos as nossas responsabilidades. Será mesmo que Deus não fez – ou não faz – nada para nos ajudar?

O evangelho deste domingo nos apresenta Jesus voltando à sua cidade natal: Nazaré. Já havia muitas conversas sobre ele; algumas boas, falavam das suas curas e dos seus milagres, outras lembravam a sua família conhecida por todos. Jesus também ensinava. Assim lhe deram para ler e comentar um trecho do livro do profeta Isaías. Animado pelo Espírito, o profeta proclamava em poucas palavras o grande projeto de Deus. Estava comunicando a boa notícia da libertação para todos os que estavam presos pelas correntes da miséria, da opressão, da injustiça, da cegueira. Começava algo de novo; devia ser o tempo no qual se manifestava a bondade e a presença amorosa de Deus junto ao seu povo. Entendemos que eram palavras belíssimas capazes de dar coragem aos desanimados e reacender a esperança nos corações enfraquecidos. A pergunta que surgia, porém, nos corações dos ouvintes era sempre a mesma: “Até quando devemos esperar para que tudo isso aconteça? Talvez ocorra se Deus mesmo vier no meio de nós”. Mas, desta vez, inesperadamente, pela boca de Jesus, um homem igual a eles, bem ali na frente deles, veio a confirmação: “Hoje, se cumpriu esta passagem da Escritura que acabaste de ouvir” (Lc 4,21).

“Hoje”, é a palavra chave para entender não somente esta página do evangelho, mas a própria missão de Jesus. O “hoje” não significa que tudo já está feito e que nada mais tem para fazer. Isso é o que pensam os que acham que Jesus devia ter resolvido todos os problemas uma vez por todas e que, portanto, não devia ter mais sofrimento e injustiça alguma no mundo. A terra já deveria ser um céu. No entanto se ainda não é assim é porque Jesus foi um grande mentiroso e um vendedor de ilusões. Igual aos moradores de Nazaré que ficaram decepcionados com Jesus. Eles teriam gostado muito mais dele se tivesse sido um milagroso salvador da pátria. Pelo jeito, os preconceitos não mudaram muito.

O “hoje” do evangelho de Lucas significa que o tempo da espera terminou, porque agora o próprio Jesus é a boa notícia que Deus está enviando à humanidade. Ele é o “hoje” do Reino, acontecendo. Quem acreditar nele e começar a viver o que ele ensina encontrará a sua própria libertação. Quem seguir a Jesus experimentará o que significa quebrar, primeiro em si mesmo, as correntes do egoísmo e do desamor. Não poderá mais explorar ou escravizar alguém, não poderá mais desprezar um irmão. Será olhos para os cegos, ouvido para os surdos, pernas para os paralíticos, esperança para os tristes e abatidos. Perdoará inimigos e chegará a doar a sua própria vida.

O “hoje” do amor de Deus para com todos já começou, só falta a nossa colaboração, só falta acreditar mais. Falta ter a certeza de que a fraternidade, a paz e a justiça, não são mais impossíveis. Infelizmente continuamos desacreditando na capacidade do amor de transformar o mundo e os corações humanos. Assim não enxergamos o bem que acontece ao nosso redor, a fé que move montanhas, o Reino de Deus, grão de mostarda, crescendo. Em lugar de cobrar de Deus deveríamos acreditar mais no “hoje” do bem e fazê-lo acontecer, aqui e agora, em nossas vidas. Ele nos fez cristãos para isso.

Artigo dominical

O rosto de Jesus
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um dia o monge Epifânio descobriu que tinha o dom de pintar belíssimos ícones. Queria pintar um que fosse a sua obra prima; queria pintar o rosto de Jesus. Mas onde encontrar um modelo certo que expressasse ao mesmo tempo, sofrimento e alegria, morte e ressurreição, divindade e humanidade? Epifânio não teve mais sossego, viajou a Europa toda perscrutando cada rosto. Nada. O rosto capaz de representar Jesus simplesmente não existia.

Uma noite, porém, quando estava repetindo as palavras do salmo: “A tua face, Senhor, eu procuro. Não me escondas o teu rosto…” pegou no sono. Teve um sonho. Um anjo o reconduzia junto às pessoas que havia encontrado e lhe mostrava um detalhe que tornava aquele rosto semelhante ao de Jesus: a alegria de uma jovem noiva, a inocência de uma criança, o sofrimento de um doente, o medo de um condenado, a bondade de uma mãe, o desânimo de um órfão, a severidade de um juiz, a hilaridade de um menestrel, a misericórdia de um padre, o rosto desfigurado de um leproso.

Epifânio voltou para o seu convento e começou a trabalhar. Um ano depois, o ícone estava pronto e o apresentou ao abade e aos confrades. Todos ficaram boquiabertos e caíram de joelhos. O rosto de Cristo era, simplesmente, maravilhoso; tocava o coração, questionava e alegrava. Inutilmente perguntaram a Epifânio quem tinha sido o modelo.

Ainda hoje podemos somente imaginar o rosto de Jesus. Artistas, santos e poetas continuam livres para representá-lo por meio de todas as artes antigas e modernas. Cada um de nós pode fazer o mesmo. Todos podemos dizer que possuímos o “nosso rosto” de Jesus.  É aquele que fala ao nosso coração. Mas ninguém poderá dizer ter o único e definitivo retrato do Senhor, porque ele não cabe em nenhuma moldura, também se, ao mesmo tempo, deixa-se encontrar por todos. A busca nunca vai acabar. No entanto não é por isso que o conhecemos menos ao ponto de confundi-lo com outros. Os Magos acertaram e adoraram aquele Menino – e somente aquele – com Maria, sua mãe. No meio de tantos que iam receber o batismo de penitência de João Batista, o céu se abriu sobre Jesus – e somente sobre ele – e a voz do Pai falou: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu benquerer”.

Se for verdade que podemos fazer obras de arte diferentes sobre Jesus, ele, no entanto, continua o único Filho amado pelo Pai, da manjedoura de Belém até a cruz e o túmulo vazio da Páscoa. Nós cristãos acreditamos que o único Deus verdadeiro se fez conhecer, em sua plenitude, em Jesus. João na sua primeira carta escreve: “Todo aquele que nega o Filho também não possui o Pai. Quem confessa o Filho possui também o Pai” (1 Jo 2,23) e na segunda: “Todo aquele que se adianta e não permanece na doutrina de Cristo, não possui a Deus. Aquele que permanece na doutrina, esse possui o Pai e o Filho” (2 Jo 9).

Por que tanta insistência nessas citações? Porque estamos vivendo o Ano da Fé e, desde a sua abertura, os católicos são convidados a decorar e rezar os Símbolos de nossa fé: os “credos”. Afinal eles são a ampliação da fórmula do batismo cristão, obedecendo à ordem de Jesus de batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (cf. Mt 28,19). Lembram-nos o que afirmamos e acreditamos do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ao mesmo tempo, porém, defendem-nos de afirmações erradas, de proclamações que não tem nada a ver com a fé cristã. Uma maneira para nos alertar dos “falsários”, antigos e modernos, daquelas obras de arte que são as “profissões da fé”, os credos, e que nos foram transmitidas de geração em geração. Quem afirmar algo diferente, portanto, está falando de outro Jesus, talvez de outro Deus, é bom sabê-lo.

Podemos continuar a busca por um modelo do rosto de Jesus, mas que bom se ao rezarmos o Credo, ao professarmos sinceramente a nossa fé, caímos de joelho e ficamos admirados e atraídos pelo nosso Deus, agradecidos por ter enviado o seu Filho amado, que, ainda hoje, podemos encontrar, conhecer, amar e seguir.