Os fuxiqueiros – Dom José Conti

Os fuxiqueiros
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Todo ser humano, que viva no meio de fuxiqueiros, qualquer coisa ele faça é destinado a perder. Se é pobre, é porque não soube administrar. Se é rico, é porque trambicou ou teve muita sorte. Se se ocupa de política, o faz só por interesse. Se foge da política, não é suficientemente experto para se meter nessa. Se não ajuda ninguém é mão de vaca. Se faz caridade, o faz para aparecer. Se ajuda na Igreja, com certeza deve ganhar alguma coisa. Se não frequenta nenhuma comunidade, coitado, está perdido. Se manifesta afeto, é um sentimental. Se não o manifesta é um ser frio e insensível. E assim por adiante… Ninguém escapa das murmurações. Só que antes o fuxico acabava na rua ou no bairro, hoje se espalha pelo mundo inteiro. A tecnologia inventou um nome novo, em inglês: fake news, mas nad a mudou. Gostamos de falar da vida dos outros.

No evangelho de Mateus deste domingo, encontramos a parábola dos trabalhadores da última hora. No final dela, Jesus diz palavras surpreendentes: “Os últimos serão primeiros; e os primeiros, últimos” (Mt 20,16). Injustiça ou novidade do Reino dos céus? Para entender basta ler o versículo 30 do capítulo anterior. Lá, Jesus disse algo parecido como conclusão da resposta que ele deu à pergunta de Pedro: “Olha! Nós deixamos tudo e te seguimos. Que havemos de receber?” (Mt 19,27). Naquela ocasião, Jesus havia prometido que, no “mundo renovado”, todos aqueles que tivessem deixado “casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos”, iriam receber “cem vezes mais” e “como herança a vida eterna” (Mt 19,29). Aparentemente um “super” prêmio para os fiéis seguidore s. Contu do “muitos” dos primeiros ficarão por últimos. Haverá farta recompensa, sem dúvida alguma, mas com uma prioridade diferente daquela que podia ser entendida como uma ordem de chegada. A parábola dos trabalhadores da vinha é, portanto, a exemplificação de uma “justiça” nova ou, melhor, da própria bondade de Deus.

Jesus apresenta uma situação comum naquele tempo, mas com uma sucessão de fatos e uma conclusão inéditas. Os donos das vinhas contratavam de manhã cedo os trabalhadores. A jornada era de sol a sol e a paga era de uma moeda de prata. O patrão da parábola, porém, continuou contratando ao longo do dia, até faltar só uma hora para o término do dia. De fato, alguns operários trabalharam bem pouco. Mais do que justo seria que ganhassem menos ou em proporção às horas trabalhadas. Mas não foi isso que aconteceu: todos receberam a mesma moeda. Injustiça ou generosidade do patrão?

Obviamente teve murmuração e a resposta do dono da vinha não deixou dúvidas: por que invejar a sua bondade? Ele não podia dispor livremente do seu dinheiro? É fácil entender que, por trás da parábola, está a polêmica de Jesus com os escribas e fariseu que se achavam “os primeiros” chamados e, portanto, os mais dignos herdeiros das promessas. Essa, podia ser também a tentação dos discípulos que sonhavam com um tratamento privilegiado. Jesus não nega a precedência do povo da Antiga Aliança, mas deixa entender que no Reino dos Céus a recompensa será para todos, também para os que chegarem depois ou bem na última hora. O relógio da bondade de Deus funciona de maneira diferente.

Continuamos o fuxico: se for assim, podemos ser tentados a ficar aguardando a última chamada. Se ao final a recompensa é a mesma, por que ficar suando o dia inteiro? Vamos aproveitar da bondade do patrão e ficar à toa por aí. Quantos “cristãos” deixam sempre para depois as coisas de Deus. Outros não, se engajam nas obras do Reino desde a juventude e labutam a vida inteira. É muito bonito quando esses irmãos e irmãs “da primeira hora” fazem isso sem pensar na recompensa. Estão sempre prontos a ajudar, não medem esforço na busca da verdade, da justiça e da paz. Basta-lhes saber que estão colaborando com o Reino dos Céus. Deve ser a alegria desses irmãos e irmãs a atrair outros para o trabalho na vinha do Senhor. Porém, se são eles e elas os “primeiros” fuxiqueiros da Comunidade, é porque n&at ilde;o s ão felizes. Afastam em lugar de cativar.

O valor da vida x o interesse obscuro da pequena burguesia

O valor da vida x o interesse obscuro da pequena burguesia
Valdice Holanda*

Interessante esse “debate” promovido pela Comissão de Educação da Câmara Municipal de Macapá – CMM sobre o retorno às aulas presenciais. Primeira observação a ser feita é a ausência de representação de trabalhador da educação, uma vez que a secretária de educação não nos representa.

Participaram do “debate” um conselheiro tutelar, um promotor de justiça (único que demostrou imparcialidade, e portanto, fez o contraponto), a secretária de educação municipal, a presidente do SINEPE (Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino) e um conjunto de profissionais da saúde, que foram uníssonas em dizer que as aulas presenciais podem e devem voltar, independente da existência de uma vacina.

Esses profissionais disseram que as aulas devem retornar porque o índice de mortalidade por Covid-19 entre as crianças é 37,5% vezes menor que em adultos, menos de 1%. A mortalidade é menor, mas existe. Portanto, pergunto aos pais: “Quem quer receber esse ‘bilhete de loteria’ premiado ao contrário?”.

Muitas falas em defesa de retorno às aulas presencias foram apoiadas pelo discurso dos efeitos psicológicos sobre a crianças, que já estão há muito tempo longe da “tia”. Do apelo que elas fazem para voltar à escola e poder ver a “tia” e os coleguinhas.

Houve até apresentação de estudo europeu com a indicação de que as escolas deveriam ser o último recurso que os governos deveriam usar para controlar uma pandemia. Os governos erraram. Melhor seria se tivessem mantido o ensino presencial e muito mais pessoas, morressem. Assim, a pandemia se encarregaria de fazer a tão sonhada “limpeza étnica” de Hitler.

Foi falado também que as famílias estão aterrorizadas, apavoradas, desinformadas e que aquele debate e as informações ali apresentadas eram para informá-las. “Só que não”, como dizem meus alunos.

Realmente senti falta de representação sindical do trabalhador da educação nesse “debate”. A transmissão e mortalidade entre crianças pode ser baixa, mas a escola não é formada apenas por crianças. Há os trabalhadores da escola, os familiares da criança e há crianças com comorbidades. Além disso, a recomendação das organizações de saúde, é manter o distanciamento social. “Como isso será possível em salas de aula superlotadas?”. Ainda tem o uso de máscara. Nem adultos, que tem maturidade, fazem uso correto desse item de segurança, imagine a criança, que não tem maturidade suficiente para compreender a importância da proteção facial.

A escola particular, que teve representação no “debate”, por meio do seu sindicato, garantiu as medidas sanitárias para o retorno. E a escola pública, que vive uma realidade totalmente diferente e precária, será que terá como garantir todas as condições e recursos necessários para a volta às aulas: medidor de temperatura, tapetes sanitizantes, adequada higienização das salas a cada troca de turno, equipamentos de proteção para alunos e profissionais da escola? Na escola pública falta papel higiênico, sabão e até pia nos banheiros. Aliás, até quando teremos sabão nas pias instaladas para o retorno às aulas? Será que os professores precisarão coletar para comprar o sabão e o álcool, quando acabar o que for disponibilizado pelo poder público? Sim, triste realidade da “tia coleta”, que já virou cultura nas escolas, para que o professor possa trabalhar.

Outra fala interessante foi a comparação com a abertura de bares e balneários. Levar a criança ao shopping ou ao balneário é facultativo a cada pai e de responsabilidade deste. Eu continuo em isolamento, pois entendo que a pandemia não acabou. Todavia, no caso de retorno às aulas, quem será o responsável quando a primeira criança morrer por contaminação na escola?

O retorno das aulas presenciais é importante? Sim, sem dúvida alguma. Entre tantos outros problemas, essa pandemia escancarou as desigualdades sociais existentes em nosso país, e mais especificamente em nossa cidade. São famílias que vivem em situação de submoradia, que são vítimas da exclusão digital, que não têm acesso à internet de qualidade, que têm apenas um aparelho celular (quando tem) para receber as tarefas dos vários filhos e esse aparelho não suporta tantos arquivos. Resumindo, ninguém melhor que o profissional da educação para saber a importância da volta às aulas, pois ele vivencia essa realidade diariamente. Esse profissional é quem melhor pode defender a notoriedade da escola como o caminho possível para a superação das desigualdades sociais, pois uma população que recebe educação de qualidade, forma uma nação rica. Quem não sabe, ou melhor, finge não saber, são os governantes, que buscam currais eleitorais, e oportunamente eles simulam fazer algo pela educação pública. Não será esse o verdadeiro motivo de retorno às aulas presenciais, antes das eleições municipais?.

Os professores também estão adoecendo psicologicamente. Esse não é um “privilégio” apenas das crianças. Nós também estamos sofrendo, longe de nossos ambientes de trabalho. Não estávamos preparados para essa pandemia. Ninguém estava. Tivemos que nos reinventar, enquanto professores. Aprender a usar ferramentas que não precisávamos antes, porque o contato era direto. Hoje, não temos uma jornada de trabalho definida. Trabalhamos a qualquer hora do dia, inclusive de madrugada, pois, muitas vezes, nossos alunos enviam suas demandas a qualquer hora. Não raramente, de madrugada.

Ainda que, muitas vezes, trabalhemos em escolas insalubres, sem as mínimas condições, queremos, sim, voltar às nossas aulas presencias. Hoje completo 21 anos de serviço público para o município de Macapá e já trabalhei em sala superlotada, mal iluminada, sem ventilação, suja. Ainda tive que ouvir da gestão que trabalharia muitos outros dias assim, pois não havia funcionário suficiente para fazer a limpeza na troca de turnos – um total desrespeito com o profissional. Agora, é inaceitável querer que eu trabalhe em uma sala lotada, em meio a uma pandemia, colocando a vida de meus pais idosos em risco – ambos têm 83 anos e comorbidades e sou a cuidadora deles.

Nós, professores, queremos voltar às nossas aulas presencias. Sabemos perfeitamente a importância da escola. Mas precisamos voltar com segurança, garantias. Não aceitamos ser cobaias de um teste de como será, para quiçá ser um premiado a morrer, ou ver um aluno nosso perder a vida para essa doença.

A educação é prioridade sim, mas a vida é prioridade maior ainda.

No mais, nós nos solidarizamos com as mães que necessitam trabalhar e não tem com quem deixar suas crianças. De fato, essa é uma realidade a ser considerada, porém neste momento, com certeza, a escola não é o lugar mais seguro.

*Valdice Holanda é professora da rede pública de ensino de Macapá

Crise alimentar, crise humanitária

Crise alimentar, crise humanitária
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

“Nenhuma região do planeta está isenta de uma possível crise alimentar bem próxima causada pela pandemia covid-19. A Organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura (FAO) em conjunto com o Programa Alimentar Mundial (PAM) prepararam uma lista de ao menos 27 países que correm o risco da fome e, em alguns casos, já estão vendo o desgaste da insegurança alimentar experimentando um aumento considerável do número de pessoas levadas à fome extrema”. Isso revela o relatório das duas Agências da ONU apresentado à imprensa alguns dias atrás. Nos próximos meses, as previsões, para alguns países da Ásia, da América e da África, são das piores. Também porque alguns desses países já viviam uma crise alimentar grave antes da pandemia. As causas s&at ilde;o d iversas: recessão econômica, instabilidade e insegurança, eventos climáticos extremos como seca ou inundações, pragas na agricultura. Como será o futuro? Quantos milhões de seres humanos morrerão pela fome? Quantas crianças não desenvolverão as suas capacidades por causa da desnutrição? O que acontecerá no Brasil?

No domingo do evangelho da “multiplicação” dos pães e dos peixes começo a minha reflexão com essas notícias. Não é uma historinha imaginária. É a duríssima realidade de milhões de seres humanos como nós, com as mesmas necessidades de alimento e de água. Com a mesma vontade de viver! Mas o que podemos fazer? Todos nós nos sentimos impotentes frente às dimensões da crise, no entanto a nossa consciência de cristãos e de pessoas “humanas” não pode nos deixar indiferentes. Se acreditamos, as palavras de Jesus podem nos ajudar a entender e, espero, também a agir.
A primeira palavra é “compaixão” (Mt 14,14). Ao sair do barco, Jesus vê o povo e se enche de compaixão. É o sentimento de quem abre o seu coração para deixar entrar o sofrimento dos outros. A dor alheia se torna também a nossa. Mexe conosco. O contrário, evidentemente, é fechar os olhos, virar as costas e esquecer ou a desculpa de sempre: eu não sabia! São tantas as formas para calar a nossa sensibilidade. Curioso: choramos e torcemos para que o bem triunfe assistindo a filmes e telenovelas, mas estamos prontos a julgar um pobre como preguiçoso e vagabundo. Quando desistimos de ser “humanos”, deixamos também de sermos imagem e semelhança de um Deus que se revelou amoroso e compassivo.

A segunda palavra de Jesus é um verdadeiro desafio para os discípulos: – Dai-lhes vós mesmo de comer! (Mt 14,16). Eles só têm “cinco pães e dois peixes”. Pouco demais para a fome da multidão. Contudo, dá para começar. Talvez o segredo esteja nisto: ousar algo novo, algo que parece impossível. Arriscar a partilha, arriscar uma nova economia mundial. Ilusão? Papa Francisco sempre nos fala para sermos criativos, de abrir caminhos novos, de não esperarmos pelos outros. Não é possível que uma humanidade tão fecunda de tecnologia nas comunicações, nas armas letais, nos gastos enormes para shows espetaculares, não saiba o que fazer para resolver a fome no mundo. Estamos chegando em Marte, mas estamos “perdidos” ainda por aqui, no planeta Terra, porque estamos “perdendo” milhões de vidas humanas.

A terceira palavra de Jesus é: – Trazei-os aqui (Mt 14,18). Ele pede que confiem nele, que acreditem que o impossível pode acontecer com a compaixão e a partilha. Mas não só naquele momento, por causa daquela fome, mas sempre. Jesus nos pede para aprendermos com ele a vencer o medo de sermos mais fraternos e solidários. É por isso que o evangelista Mateus nos deixa perceber, antecipadamente, os gestos da Eucaristia, o que Jesus fará na despedida da Última Ceia. Esse é o “milagre” que não pode parar de acontecer: uma turma de discípulos que continua a manter viva a memória-presença de Jesus, reparte o Corpo e o Sangue dele, para construir uma humanidade “nova” de irmãos, sem ódio, sem ganância, sem fome. A Eucaristia não é só “comunhão” com Jesus sacramentado, é também comunhão com aqu ele Jesus que está com fome e que um dia vai nos dizer “foi a mim que o fizestes”.

A pandemia e a nova experiência parlamentar

A pandemia e a nova experiência parlamentar
Vladimir Belmino de Almeida*

A pandemia veio para mudar nosso dia a dia, e tem mudado nos últimos 3 meses nossas vidas, para o bem e para o mal. Há quem esteja lidando muito bem com o isolamento e outros se sujeitando a transtornos de toda ordem; alguns têm aproveitado o período de reclusão forçada para colocar planos em andamento, desengavetando-os; diversas pessoas têm visto nesse momento novas maneiras de se relacionar consigo e com os demais, além de inaugurar novas formas de se relacionar com o mundo.
Dentre essas novas experiências vem sendo criado um hábito, para o qual fomos levados, e que hoje, ao meu sentir, tornou-se irreversível:  as lives e as reuniões virtuais. Sinto que esse era o futuro que se avizinhava, futuro que viajou no tempo e se antecipou.

As crianças e todos os estudantes com aulas virtuais, consultas médicas prestigiadas com a telemedicina, compras por aplicativos e entregas de todo gênero chegando em todos os locais, audiências judiciais, sessões das casas legislativas à distância, todas as realidades alteradas para condições de realização remotas. Então é certo que algumas formas comerciais e de setores de produção mudaram. Tantas ganharam proeminência, se aperfeiçoaram, e tantas deixaram e deixarão de existir.

Assim também o foi com a função legislativa das casas do Congresso Nacional. O Senado Federal e a Câmara dos Deputados estão funcionando adequadas aos novos tempos; limitadamente, sem amplas discussões e com obstáculos à participação de segmentos representativos da sociedade, mas garantindo que questões importantes para o país não fiquem sem definições. Também falta aos parlamentares o papo franco do cafezinho ou do encontro pessoal no plenário, mas isso há de voltar com o passar do tempo e a superação da pandemia.

Com efeito, ocorreu a suspensão do recesso parlamentar, o presidente do Senado acordou então com os líderes para que as sessões deliberativas da segunda quinzena de julho fossem realizadas somente às quartas e quintas-feiras. Os trabalhos presenciais seriam retomados em 15 de agosto com a votação de uma sessão para análise de indicações de autoridades. Se os números da pandemia se agravassem, a retomada do trabalho presencial será adiada para setembro, o que aconteceu.

Mas merece destaque que há uma forma de ser na existência do Congresso Nacional, que acredito será alterada. Pela experiência recente, nos anos de eleição, as casas legislativas federais não funcionam sequer minimamente no segundo semestre dos anos pares. Os parlamentares ficam mais na base eleitoral, em seus Estados, para cuidar mais atentamente das eleições municipais, em especial em seus nichos eleitorais.

Claro que os parlamentares irão focar nas eleições em seus Estados, cuidando dos municípios onde têm mais interesse. Entretanto, a experiência das sessões legislativas à distância inaugurou uma nova fase. Pelo que se vê, nesta nova quadra, dentre os novos hábitos legislativos, temos a possibilidade de discussões e votações permanentes durante o segundo semestre desse ano par, ainda que à distância, por meio virtual, como vem ocorrendo, gerando produção legislativa significativamente diferente de todos os segundos semestres de anos pares que experimentamos recentemente.

Pode haver algum bem no mal que experimentamos e do lodo virá o lírio. O  Brasil pós pandemia tem a agradecer a nova forma de agir do Congresso Nacional.

*Vladimir Belmino de Almeida é advogado, assessor legislativo no Senado Federal, membro fundador e coordenador institucional da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político – ABRADEP.

Artigo dominical

Eu seria listrada
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Certo dia, um pregador fez esta pergunta para uma turma de crianças:

– Se todas as pessoas boas fossem negras e todas as más fossem brancas, de qual cor vocês seriam? A pequena Rose Mary respondeu:

– Reverendo, com certeza, eu seria listrada.

Graças a Deus, não existem pessoas listradas e o sermos bons ou maus não depende, de jeito nenhum, da cor da pele. Somos todos bem misturados; não pela cor da pele, mas pelo próprio bem e mal que, reconheçamos isso com honestidade, habitam juntos em cada um nós.

Na forma mais longa do evangelho de Mateus deste domingo, 16º do Tempo Comum, encontramos mais três parábolas do “discurso” de Jesus, iniciado domingo passado. Todas são introduzidas com as palavras: “O reino dos céus é como…”. Significa que a Jesus não interessa dar uma ou outra definição do “reino” em si, mas, ao contrário, apresentar, de forma bem variada, a dinâmica daquilo que o reino produz, antes e acima de qualquer explicação. O “reino dos céus” é algo que está sempre acontecendo, uma história que está sendo construída, e que tem um desfecho garantido, apesar das circunstâncias que podem parecer adversas ou das probabilidades de sucesso que o senso comum avalia olhando, simplesmente, de fora.

Vamos lembrar brevemente as três parábolas. A primeira é aquela do joio e do trigo. Além da interpretação que o próprio evangelho traz, é fácil perceber que o joio representa o mal e o trigo o bem. No campo, que é o mundo – mas também é a existência de todos nós – eles crescem juntos. Só ao passo que as plantinhas vão desenvolvendo, será possível distingui-los. O trabalho de todos é vencer a tentação de arrancar logo o joio e, ao mesmo tempo, continuar a não confundir os dois. Justamente porque o reino é algo que ainda está acontecendo precisa cultivar a virtude da paciência e não querer julgar tudo às pressas. Aliás, o julgamento final acontecerá, mas será do Filho do homem, do “Senhor da messe”. Graças a Deus, será ele a decidir porque somente o seu olhar chega ao profundo do coração de cada um; ele vê o bem e o mal, e não fica só na exterioridade. Cabe a cada cristão sincero praticar aquela tolerância que é, ao mesmo tempo, misericórdia e vigilância. Misericórdia, porque devemos admitir a possibilidade de errar se queimarmos, o trigo junto com o joio, antes do tempo que só Deus conhece. Vigilância constante, porém, também necessária, para ter consciência da presença do joio, para proteger o trigo, fazê-lo crescer bem, porque, somente assim, um dia, “os justos” brilharão como o sol no reino do Pai. Vamos ver agora as outras duas pequenas parábolas.

Na história humana também a questão do reino pode ser considerada pouca coisa, algo muito pequeno, quase invisível, como a semente de mostarda. No entanto o reino tem uma força própria, misteriosa, como acontece na natureza. Aquela sementinha vai crescer até se tornar uma árvore frondosa capaz de dar abrigo aos passarinhos. Surpresas do reino.
Por fim, a parábola do fermento na massa. A farinha é muita e o fermento tão poco, mas a mulher experiente mistura e amassa bem o conjunto. Toda a massa ficará fermentada e o bom pão garantido.

Nessas duas parábolas, tem um grande segredo: tudo, digamos, funciona a contento. A semente de mostarda, como na parábola do semeador, se transforma e produz fruto. Assim o fermento mexe com a farinha que, por sua vez, deixa-se fermentar. E a mulher também contribui com o seu trabalho.
Nesta altura, só nos cabe perguntar, a nós mesmos, se descobrimos ou não “as coisas escondidas desde a criação do mundo” (Mt 13,35) e que Jesus disse que estava proclamando para cumprir o que o profeta prometeu. O que nos parece “injustiça” de Deus, que não castiga, na realidade é a sua grande misericórdia. Deus nos espera. Ao contrário, nós cristãos confundimos paciência com acomodação. O “fermento” que faz levedar toda a massa, como o sal da terra e a luz do mundo, deveríamos ser nós, mas não tem jeito, continuamos indecisos demais. Continuamos bem listrados.

Viagem ao fim do mundo

Viagem ao fim do mundo
Douglas Lima*

Está escancaradamente aberta a temporada ao fim do mundo. A viagem é grátis, sem também a exigência de alimento não perecível. Para embarcar, basta ter imaginação fértil, destreza para distorcer as mensagens bíblicas e sempre querer e torcer para o pior, além de acreditar em falsos profetas.

A viagem ao fim do mundo é financiada pelo serial killer novo coronavírus, que até à tarde de quinta-feira, 30 de abril, já tinha matado 231 mil pessoas em todo o mundo. Esse mal, além de infelicitar milhares e milhares de famílias, ceifando vidas à larga, vem despertando ilusões e pensamentos sinistros, assim como emoções carregadas de impotência e terror.

 O coronavírus, causador da covid 19, nada mais é do que uma mutação genética letal de mesmo organismo acelular conhecido desde 1968, pelo menos, e que pela sua versão assassina atual acopla o termo novo no nome. Esse negócio não tem nada a ver com as sete pragas derramadas de cálices conduzidos pelos sete anjos do Apocalipse da Bíblia.

O momento é de orações coletivas ou individuais, elevadas para o Deus Criador do Céu e da Terra, tendo Jesus Cristo como Intercessor, à Luz do Espírito Santo. Orações para que a Santíssima Trindade cubra pesquisadores com os dons da sabedoria, inteligência, entendimento e ciência para que descubram, já, um antídoto para conter o inimigo número da humanidade ora em ação.

Mas é bom que se preste atenção no que em 2008 previu a escritora Sylvia Browne no livro de sua autoria ‘Fim dos dias: previsões e profecias sobre o fim do mundo’. Está na obra que por volta do ano de 2020 uma doença grave do tipo pneumonia se espalharia por todo o mundo, atacando os pulmões e brônquios e resistindo a todos os tratamentos conhecidos.

O livro também diz que “Quase mais desconcertante do que a própria doença será o fato de que ela desaparecerá tão rapidamente quanto chegou, atacará novamente dez anos depois e desaparecerá completamente”. Então, é o caso de todos dizermos em coro: Vá se cola!

*Douglas Lima é radialista e jornalista

A simbologia da Páscoa em tempos de pandemia

A simbologia da Páscoa em tempos de pandemia
Davi Alcolumbre*

A Páscoa é comemorada diferentemente por judeus e cristãos. Ainda hoje, os judeus se referem à festa pelo seu nome original: Pessach. De origem hebraica, quer dizer “passagem” e deu origem, entre outras, à palavra “Páscoa” em português.

Depois do pôr do sol desta sexta-feira, judeus do mundo todo iniciaram a comemoração de Pessach, festa judaica cuja data se aproxima da Páscoa cristã, comemorada neste domingo, e que lembra a libertação do povo judeu da escravidão no Egito.

A primeira Páscoa aconteceu durante a escravidão dos hebreus no Egito. Originários de Abraão, os hebreus estabeleceram-se em Canaã e, depois de um tempo de seca e falta de alimentos, mudaram-se para o Egito, onde foram escravizados. A libertação dos hebreus foi realizada por Moisés, logo após a execução das dez pragas no Egito, conforme a fé judaica.

Para os cristãos, a Páscoa significa a ressurreição de Jesus Cristo. Durante os 40 dias que precedem à Semana Santa e à Páscoa — período conhecido como Quaresma — os católicos se dedicam à penitência para lembrar os 40 dias passados por Jesus no deserto e os sofrimentos que ele suportou na cruz.
A Páscoa é uma solenidade tão importante que um dia só é pouco. Por essa razão, judeus e cristãos levam oito dias para festejar, respectivamente, a passagem do cativeiro à liberdade e da morte à vida.

Os cristãos marcam a Semana Santa com missas especiais como o lava-pés na quinta-feira e a procissão do enterro na chamada Sexta-Feira Santa, dia em que muitos fiéis evitam comer carne vermelha em respeito à morte de Cristo.

No domingo, muitas famílias celebram a tradição da busca por ovos escondidos, adotada de rituais pagãos. Os ovos de Páscoa se tornaram, com o passar do tempo, um dos símbolos mais conhecidos da data.

Já nós, judeus, não podemos comer nada feito à base de farinha. Macarrão, pizza e lasanha? Nem pensar! Uma iguaria que não pode faltar à mesa é o pão ázimo, feito só de trigo e água, sem fermento. Conhecido como matzá, simboliza a pressa do povo hebreu ao fugir da escravidão no Egito. Durante a Pessach, comemos ervas amargas para lembrar a amargura da escravidão, mas também bebemos vinho para recordar a doçura da liberdade.

Em meio à pandemia de Covid-19, judeus e cristãos vivem momento de angústia e de apreensão global. O temor desconhece limites geográficos, escreve um novo capítulo na história, troca a multiplicação matemática pela progressão geométrica, desafia a química e põe em risco a biologia. O mundo se debruça sobre o remédio para frear o vírus.

A Páscoa pede que tenhamos fé. Então, que tenhamos fé, mas façamos a nossa parte, com solidariedade, empatia, menos ganância, mais justiça e extrema responsabilidade. A vida é o que importa. Não há uma escolha entre economia ou saúde. Só há um caminho: manter as pessoas com vida, e o Estado tem que dar as condições para garantir a economia. É isto o que tem feito o Parlamento. Temos procurado mitigar os efeitos devastadores da pandemia.
Vai passar. Tudo passa nesta vida. Que tenhamos bom ânimo. E que a simbologia pascal, de passagem, de fé e de salvação, esteja presente em todos os corações. Amém! Shalom!

*Davi Alcolumbre é senador do Amapá e presidente do Senado e do Congresso Nacional

As palavras – Dom José Conti

As palavras
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá
 
“Têm palavras más e palavras boas. Palavras leves que voam e outras que pesam como pedras enormes. Têm palavras que ferem o coração e outras que o aquecem. Algumas fazem chorar, outr as sorri r. Têm palavras que fazem viver, porque dão coragem e dignidade. Com as palavras se pode errar, fazer sofrer, mas, depois, é possível corrigir o erro. Têm palavras carregadas de sentido como: ‘te amo’, ‘me perdoe’, ‘juntos’ … Têm também palavras de vida eterna. Mas, ainda as lembramos?”
Encontrei essa poesia, sem o nome do autor, e me lembrei da força das palavras da Escritura que Jesus usou para vencer as tentações. Foram chamadas de arma, de escudo. Penso que, mais uma vez, foram u ma li&cc edil;ão. Grande e simples ao mesmo tempo. No primeiro domingo da Quaresma, sempre encontramos a página dos 40 dias de Jesus no deserto. Entendemos que estas foram as tentações que o acompanharam ao longo de toda a sua vida. Podia ter sido um messias poderoso e triunfador, de acordo com a mentalidade e os sonhos do mundo ou, como foi, um salvador pobre e desconhecido aos olhos dos grandes, mas perfeito no amor e na entrega ao projeto do Pai.
A “lição” da página evangélica das tentações nos ilumina sobre o uso que fazemos das Escrituras e a maneiras de entendê-las. As consequências serão vis&iacu te;veis em nossas vidas. Hoje, por exemplo, somos tentados de pensar que com a ciência e a tecnologia, fruto da inteligência humana, tudo, ou quase, esteja ao nosso alcance. É possível reciclar até o lixo e ganhar dinheiro. Mas também é possível fabricar armas letais, silenciosas e microscópicas como um vírus sem cura. Milhões de seres humanos gostariam que as pedras se tornassem pão, porque morrem de fome. O que continua de pedra é o coração dos ricos e a ganância de um sistema que vive só pelo lucro. Poder, riqueza e sucesso continuam a ser os ídolos mais adorados da história humana.
Podemos usar as palavras da Escritura para lembrar as promessas grandiosas de Deus, a partir de Abraão, pai de uma multidão incalculável. Lembrar o compromisso que o reino de Davi não ter&aacut e; fim. Até o pobre Jó, tão sofredor, após aguentar os desaforos dos amigos para ficar fiel a Deus, recebeu como prêmio mais bens e mais filhos e filhas do que tinha antes. Teria sido tão simples para Jesus receber todos os reinos da terra, bastava dobrar ao menos um joelho. Tem mais uma palavra muito usada para quem continua achando loucura a cruz de Cristo: “Maldito todo aquele que for suspenso no madeiro” (Dt 21,23, citato em Gl 3,13).
Não precisa mexer com Satanás. Basta refletir um pouquinho para entender que podemos usar a mesma Escritura para explicar as coisas do mundo, para chamar riqueza e saúde de benção e pobr eza e do ença de castigo. Ou, deixar que seja o próprio Jesus a abrir a nossa inteligência, como fez com os seus discípulos após a ressurreição. É a lição exemplar da vida dele que dá luz às Escrituras e não o contrário. A Palavra de Deus deve ser um alimento que motiva a generosidade e não o egoísmo, a partilha e não a acumulação, uma economia solidária e não somente lucrativa. Também tentamos o Senhor quando o desafiamos a se mostrar com algo extraordinário, quando invocamos o seu nome para que ele faça aquilo que nós deveríamos fazer e não fazemos, ou seja, amar-nos e perdoar-nos mais. Não enxergamos mais o milagre da vida que acontece todos os dias de baixo dos nossos olhos. Deixamos de contemplar a natureza, com sua beleza e harmonia, assim esquecemos o primeiro livro, sempre aberto, que nos fal a de um Deus amoroso e providente. Aclamamos e dobramos os joelhos diante de falsos deuses, estrelas da mídia, salvadores de pátrias fabricadas com a propaganda e os números maquiados das pesquisas encomendadas. Jesus foi plenamente humano; aquelas tentações são sempre também as nossas. Se apresentam fascinantes. Mas nós fomos salvos porque ele não desceu da cruz, porque nos amou até o fim. Em tempo de Quaresma, precisamos de palavras verdadeiras, de vida e esperança, não de discursos tentadores e promessas falsas.
É o caminho da cruz, mas é a felicidade da vida doada.

O Conselho – Dom José Conti

O conselho
Dom Pedro José Conti –  Bispo de Macapá

Um marido foi visitar um santo eremita para pedir algum conselho, a respeito da difícil convivência com a esposa. O eremita escutou com benevolência todas as queixas do homem, depois deu o seguinte conselho: “Irmão, os defeitos da mulher, ou se corrigem ou se suportam. Quem os corrige, melhora a esposa, quem os suporta melhora a si mesmo!”

Neste domingo e no próximo, continuamos a leitura do quinto capítulo do evangelho de Mateus. Nele, Jesus é apresentado como alguém que, pela própria autoridade, faz a releitura dos mandamentos da lei dada por Moisés. A cada assunto se repetem as palavras: “Ouvistes o que foi dito…”, “Eu, porém, vos digo”. É, justamente este “eu” que deve chamar a nossa atenção. É ele, Jesus, que fala e nos diz claramente que não veio para “abolir” a lei e os profetas, mas, ao contrário para dar-lhes pleno cumprimento (Mt 5,17). Já ficamos, espero, curiosos: não era a lei o sinal e o compromisso da Aliança entre Deus e o povo escolhido? O que faltava à lei? Devia continuar a ser praticada e ensinada (Mt 5,19), no entanto, Jesus põe como condição para entrar no reino de Deus uma justiça maio” do que a dos fariseus e dos mestres da lei. Nós já sabemos a resposta. Não basta cumprir os preceitos da lei ao pé da letra, precisa ter a coragem de reconhecer com qual ânimo e com qual coração fazemos isso. A Deus não interessam tanto pessoas obedientes só no mínimo necessário; ele quer amigos sinceros que, alegres e livremente, construam relações de paz, bondade, partilha, amor para com ele e com o próximo. Ou seja, segundo as palavras de Jesus, o Pai quer “filhos” cujo coração bata em comunhão com o dele, sempre bondoso e misericordioso para com todos, bons e maus, justos e injustos (Mt 5,45). Pensando bem, tudo isso é uma verdadeira viravolta ou revolução, se preferem. Os cristãos devem obedecer à única lei do amor que nos torna livres das amarras do egoísmo e das negociações de quem faz as cois as – o bem – somente se tiver alguma vantagem em troca.

As propostas de Jesus são de uma atualidade impressionante. Vivemos um tempo de violência, exercida, muitas vezes, em nome da segurança e de direitos, alguns honestos, mas outros negados ou roubados de irmãos e irmãs mais fracos e pobres. É mais fácil se encolerizar que buscar entendimento e reconciliação. Acontece nas nossas famílias. Em nome da felicidade individual, jogam-se fora as promessas, as juras de amor, o futuro dos filhos e de quem – o cônjuge – partilhou anos e anos de alegrias e dificuldades, numa verdadeira comunhão de vida. Adultério é palavra pesada, mais fácil são a indiferença, o descaso ou a acomodação, as “saidinhas” e situações de fachada. Para que o casamento não se torne uma triste e inútil prisão, o amor deve ser alimentado, renovado, reavivado sempre, com coragem e abnega& ccedil;& atilde;o. O mais difícil, talvez, seja se deixar moldar pelo outro ou pela outra, corrigir os autoritarismos, desmascarar o machismo e o feminismo, acreditar no diálogo e desistir da pressa de mudar os outros, antes de mudar a nós mesmos. Enfim, o evangelho fala de “Não jurar o falso”. Em época de fake-news, a coisa mais fácil, hoje, é espalhar notícias falsas ou de origem duvidosa ou desconhecida. Sobretudo quando uma mensagem nos parece “importante”, porque escandalosa ou tocante, logo a multiplicamos. Depois, fica muito difícil voltar atrás e reconhecer a mentira e o uso do sofrimento alheio por parte de pessoas inescrupulosas. A honestidade das pessoas ficou manchada para sempre e o ditado popular: “onde tem fumaça, tem fogo” gera suspeitas e desconfiança. Não gostaríamos que isso acontecesse conosco, e por que ajudamos para que aconte&cce dil;a co m os outros? Também espalhar notícias dizendo que foi, me perdoe, Nossa Senhora, ela mesmo, Maria a falar é, no pouco dizer, ousado ou até desrespeitoso. Quem garante que foi Maria mesmo que disse aquilo? Nossa Senhora pode ameaçar pragas para os seus filhos? Com certeza, ela nos exorta a crer mais, rezar mais e a sermos mais bondosos, a não ter medo e a “fazer” sempre “tudo” o que Jesus nos disser (Jo 2,5).