Pobre mundo! Por Rui Guilherme

POBRE MUNDO!
Rui Guilherme

 Microcosmo, macrocosmo. Imagine-se você em pé junto a uma sumaúma de mais de cinqüenta metros de altura; ou de uma sequóia de cento e quinze metros. Mais ainda: veja-se a si mesmo no sopé de uma montanha de três mil metros. A desproporção é imensa; faz você sentir-se microscópico diante desses gigantes naturais.

E que somos nós senão alguns bilhões de formiguinhas insignificantes diante do planetinha que habitamos, cujo diâmetro é de 12.742 quilômetros? Ou da estrela que nos aquece, cuja cintura mede um milhão e quatrocentos mil quilômetros? Um bilhão e quatrocentos milhões de metros? As diferenças não param de crescer na medida em que nos conscientizamos de que a Terra é um mero grão de poeira cósmica a girar infinitamente em torno de uma estrela de quinta grandeza, integrante de uma entre trilhões de galáxias no cosmo universal.

Quanta arrogância em cada um de nós, seres ainda mais minúsculos diante do espaço sideral do que micróbios e bactérias em comparação a este colosso biológico que é o corpo do ser humano hospedeiro, a achar-se grande em sua altura mediana de pouco mais ou menos do que um metro e setenta centímetros…

Na ordem natural, contudo, um homem de porte médio há de parecer ao olhar espantado de um corona vírus, ou de outro ente microscópico, mais gigantesco do que a sumaúma ou a sequóia; ou do que a montanha, para assumir as colossais dimensões que têm os corpos celestes na concepção do ser humano. E pensar que este mundo de vida que é o homem pode ter sua vida aniquilada por um vírus invisível a olho nu tal como este que, agora, surgido na China, põe em alerta a população do globo.

Pobre mundo! Entre seus bilhões de habitantes há alguns, pouquíssimos que o sejam, embora a quem multidões de formiguinhas conferiram uma enorme somatória de poder que pode fazer deles seres tão letais para a humanidade quanto o novo vírus o é para o indivíduo por ele infectado.

Fugir, para onde? Como escapar de tantas e tão variadas ameaças? Em vez de tentar uma convivência inteligente com a natureza, cujas forças tornam nossas fátuas habilidades tão escancaradamente impotentes, não cessamos de agredir o meio ambiente, intoxicando-o no ar e nas águas, extinguindo recursos naturais, matando a fauna e a flora. Movidos pela ganância mais cruel na busca de enriquecimento passageiro, tornamo-nos indiferentes a tudo que se pôs de mais precioso na orbe. Somos, para

Gaia e para nossa própria espécie, mais devastadores que os agentes infecciosos.

Dizia o poeta que estava indo embora para Pasárgada. Lá, achava ele que iria ter uma vida boa porque era amigo do rei. Doce sonho, não passa de poética ilusão. O rei, se havia algum, estava até acima de qualquer impeachment. Se lhe haviam dado o poder, quase certo que, a esta altura dos acontecimentos, o monarca já se teria deixado contaminar pela ânsia expansionista. Poder tem dessas coisas. Quanto mais empoderado, mais se quer ser, mais se quer ter, mais gula pelo mando, mais indiferença diante do infortúnio que suas políticas possam causar.

Levado por uma tristeza imensa; acabrunhado pela minha absoluta impotência diante do quadro que se desenha mais nitidamente  sombrio a cada dia que transcorre, pensei em pedir ao poeta que me ensinasse como chegar a Pasárgada. Não que quisesse ir para lá a fim de fazer amizade com o rei, nem com seus ministros, nem com nenhum dos poderosos. Para mim, bastaria a segurança e o conforto do anonimato. Escondidinho, poderia amar meus amores, ler meus livros, ver meus filmes, ouvir minhas músicas, escrever, quem sabe até cometer alguma poesia. Caí em mim: Pasárgada, não mais. O que nos resta é esse mundo – pobre mundo, tão lindo, tão colorido! – que eu e meu próximo estamos arrastando para um futuro calamitoso que, se tudo o que se fizer não passar de proféticas lamentações, de registros tristonhos que nem esse que acabo de produzir, vai chegar mais cedo do se pensa.

Eu vou contigo – Dom José Conti

Eu vou contigo
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá
 
Um casal de jovens tinha-se casado havia poucos meses, mas o matrimônio deles era um verdadeiro fracasso. Ele não suportava o gosto horrível da comida que ela preparava e e la se perguntava como tinha pensado que as brincadeiras dele fossem divertidas. Resmungavam, mas nenhum dos dois falava abertamente o que pensava. Porém, certa tarde de domingo, quando discutiam de qual cor pintar a sala, a raiva, guardada fazia tempo, explodiu. Foram gritos e berros; cada um jogou acusações e defeitos na cara do outro. Alguns dos pratos ganhos no dia do casamento se espatifaram. O marido pegou as chaves do carro, saiu de casa e as últimas palavras dele foram:
– Basta! Vou te deixar! No entanto, antes que o motor do velho carro pegasse, a porta lateral do passageiro se abriu e a mulher caiu de peso no assento. Tinha o rosto marcado de lágrima s, mas estava cheia de determinação.
– Onde pensas que vai? – perguntou o marido. A esposa hesitou um instante antes de responder. Aquelas palavras iam decidir qual direção tomariam as suas vidas nos quarenta e sete anos sucessivos.
– Se tu me deixas – respondeu a mulher – Eu vou contigo.

Contei um caso real de amor conjugal que…não acabou. Curiosamente, no evangelho deste domingo encontramos o caso fictício de uma mulher com sete maridos-irmãos. Segundo as normas de Moisés, se um homem casado morresse sem ter filhos, um dos irmãos do falecido devia casar-se com a viúva para dar descendência ao irmão defunto. Nesse caso imaginário, todos os sete irmãos morreram antes da mulher. Aqueles que não acreditavam na ressurreição queriam saber de Jesus com qual dos sete maridos ela ficaria, depois que morresse também, já que todos tinham-se casado com ela. Um caso inventado, só para ridiculizar a fé na ressurreição. Na sua resposta, Jesus simplesmente nos diz que a situação dos ressuscitados será de vida, mas não com as mesmas relações, matrimoniais por exemplo, como neste mundo. Na ressurreição haverá somente o amor de Deus que unirá a todos e a todas numa comunhão perfeita, muito além dos laços humanos anteriores. Nada se perder&aacu te; dos amores terrenos; também aqueles que foram santos e bonitos serão transformados no amor de Deus e serão mais santos e mais bonitos ainda. Os ressuscitados participarão da vida amorosa plena e perfeita de Deus. Detalhes? Não temos, mas o que Jesus disse alimenta a nossa fé e a nossa esperança, porque, como São Paulo ensina, quando essas virtudes não servirão mais, ficará somente o amor e será o amor grande, sem fim, o amor de Deus (1Cor 13,13).

A resposta de Jesus aos saduceus é muito mais que uma informação sobre a vida futura. Saber que todo amor humano é caminho para a vida plena e tem consequênci as na eternidade nos ajuda a viver profundamente esse amor. Seria muito ousado dizer que todo amor neste mundo, o conjugal, o dos irmãos, dos pais com os filhos e dos filhos com os pais, o amor sincero de amigos, é sinal e memória, ao mesmo tempo, do amor eterno de Deus? Através do amor do pai terreno, os filhos amados conseguem, ao menos um pouco, acreditar e desejar o grande amor do Pai Deus. Quem está disposto a dar a vida pelo amigo, quem se compromete por causa da amizade, torna visível novamente o amor divino daquele que “não poupou seu Filho” (Jo 3,16). Os cônjuges fazem o mesmo quando se doam um ao outro com liberdade, só por amor, “todos os dias das nossas vidas” como eles dizem no dia do casamento (Ritual do Matrimônio). Também os que não se casam, quando abraçam as grandes causas da justiça e da paz, são sinais de uma esperança na v ida e no amor que vai além dos cálculos e dos projetos humanos destinados a acabar. O celibato ou a virgindade consagrada por causa do Reino de Deus, para servir os pobres e abandonados, falam por si mesmos da ressurreição, também quando são mal compreendidos ou parecem fora de moda. Todo amor que brilha pela gratuidade e a doação, que não se prende a prazos, interesses, trocas ou algo semelhante, é um sinal do amor gratuito e sem fim de Deus. 47 anos? Nada mal para os dois que iam se largar.

O cabo do machado- Dom José Conti

O cabo do machado
 Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

As velhas árvores da floresta eram muito orgulhosas delas mesmas. Altas, grandiosas, chamavam a atenção dos que passavam e todos as admiravam. Certo dia, chegou um homem que estava precisando de um cabo de madeira forte e do tamanho certo para o seu machado. Por ser muito educado, ele perguntou antes às velhas árvores qual delas devia se sacrificar para conseguir o cabo. Explicou que machado sem cabo não servia para nada. As velhas árvores reuniram o conselho e, depois de muitos ruídos de ramos e mexer de folhas, sentenciaram que o homem devia cortar uma jovem árvore lá à margem da mata. O homem foi lá, cortou a pequena árvore e, depois de alguns acertos, o cabo de que precisava estava pronto. O homem, feliz da vida e sem pedir mais nada para ninguém, começou a cortar, uma por uma, as velhas árvores. Elas, caídas no chão, perceberam, tarde demais, o erro que tinham cometido. Chorando diziam umas às outras: – Se tivéssemos sabido, teríamos defendido a nossa irmã mais nova.

Vivemos em tempos nos quais se fazem muitas previsões sobre o que pode acontecer. A meteorologia nos diz se vai chover ou se teremos tempo firme. As bolsas de valores projetam o tamanho dos lucros para os investidores nunca perder o seu dinheiro. As pesquisas sobre as intenções de voto, pretendem nos dizem, de antemão, qual será o resultado das eleições. Também Jesus, no evangelho deste domingo parece nos convidar a planejar o futuro da nossa vida. O faz com o exemplo de quem quis construir uma torre, mas calculou errado o material e, por isso, não deu conta de acabar a construção. Será motivo de chacotas. Igualmente, um rei quis partir para a guerra contando com as suas forças para ganhar. Depois, porém, descobriu que o outro exército era mais forte e numeroso. Foi prudente, resolveu desistir e negociar a paz. Será que Jesus quer que sejamos frios calculistas ou negociadores interesseiros? São comparações. Jesus quer que, dito com palavras simples, não passemos vergonha. O que está em jogo não é a construção de uma torre, mas o crescimento do Reino de Deus. Não se trata de vencer uma guerra com armas e soldados, mas de ganhar a luta contra o mal que está dentro e fora de nós. Ele nos convida, simplesmente, a fazer uns cálculos, a pensar bem, para ver se daremos conta ou não da empreitada.

Nesta altura, seria mesmo para ficar desanimados. Quando teremos inteligência e capacidade para construir o Reino da justiça do amor e da paz? Um Reino, este, que é “de Deus” porque deixa vislumbrar já aqui na terra um pouco da perfeição e da plenitude divina. Quando teremos forças para vencer a guerra contra o mal e o pecado em todas as suas formas cada vez mais disfarçadas e sofisticadas? Nunca! É a resposta certa, a não ser que…façamos o que Jesus também nos diz no evangelho deste domingo. Se contamos com pais, mães, mulheres, filhos, se confiamos no dinheiro, nos bens e no poder que temos, juntaremos sim uma numerosa turma, mas estaremos fazendo cálculos inúteis. O único que pode “vencer” o mal e completar a obra que iniciou é ele mesmo, o Senhor Jesus, o crucificado que ressuscitou e venceu a morte. Somente quando deixarmos de contar com as nossas forças, de nos sentirmos capazes, quando entregarmos tudo nas mãos dele, aí sim, algo novo – o Reino de Deus – acontecerá. Tudo será novo. As nossas famílias não serão mais empecilhos ou campos de batalha, mas laboratórios do Reino, na comunhão e na paz. A desistência do nosso orgulho nos fará enxergar as necessidades do outro, nos tornará humildes, capazes de aprender, de recomeçar, de partilhar saberes e alegrias. Os bens materiais, as riquezas da natureza, os frutos da inteligência humana, não serão desprezados, porque são criaturas e dádivas de Deus. Também não serão só explorados, serão usadas para o bem de todos, dos pequenos, dos pobres e famintos. A cruz a ser carregada é aprender a doar a vida, a fazer do amor uma semente de vida nova.

As velhas árvores, calcularam mal e perderam tudo. Nós também, não queremos doar nada e deixamos escapar o tesouro do Reino. Vão rir de nós.

O ganhador

O ganhador
Dom Pedro José Conti –
Bispo de Macapá

Chegou o dia tão esperado dos Jogos da Juventude, uma competição esportiva entre os alunos dos colégios da cidade. João Pedro com os seus 14 anos, alto e for te, sabia que tinha chance de ganhar, na corrida, a prova de velocidade. Mário, seu colega, era, porém, o seu maior adversário. Era mais baixo, mas muito rápido. Os pais dos alunos enchiam as arquibancadas do estádio e torciam por seus filhos. A primeira prova foi dos 200 metros rasos. João Pedro correu bem, passou na frente e ganhou de Mário. Ficou feliz pela medalha e os aplausos. Depois, houve a prova dos 100 metros. João Pedro estava lá para correr e Mário também. De novo, ele partiu bem e estava decididamente na frente, mas, quando faltavam poucos metros para a chegada, parou e deixou a corrida. Assim Mário ganhou. Depois da premiação, os pais de João Pedro lhe perguntaram:
– Por que você fez isso? Teria ganho novamente!
– Certo, mãe, mas eu já tinha uma medalha e Mário nenhuma!< /span>
Palavras bonitas. Foi coisa de adolescente ou gesto singelo de amizade?

O evangelho deste domingo, Lucas nos propõe uma grande lição de humildade de duas formas diferentes. A primeira diz a respeito aos lugares dos convidados numa festa. Naque le tempo, como hoje, quem se achava importante queria, evidentemente, alguma posição de destaque. Queria, de fato, que todos os demais presentes reconhecessem o seu valor. No entanto, Jesus alerta que, num evento, sempre pode chegar alguém ainda mais importante e que os donos da festa lhe peçam para ceder a ele, ou a ela, o primeiro lugar, conforme os critérios mundanos da fama, do sucesso, da riqueza ou da posição social. Nesse caso, com os lugares ocupados pela lógica da ambição, só poderiam ter sobrado as últimas vagas. Seria um rebaixamento vergonhoso para quem se considerava merecedor de atenção. Jesus sugere agir de maneira contrária. Melhor escolher o último lugar, assim, se o dono da festa achar por bem colocar você mais na frente, esse reconhecimento será uma honra. Autoestima é ter consciência do valor e da dignidade própr ia e de cada ser humano; não significa, porém, avaliar-se acima da realidade e, no fundo, ser obcecados pelo orgulho de si mesmo.

Na segunda parte do evangelho, Jesus continua o seu ensinamento. Um belo sinal da humildade verdadeira de uma pessoa aparece quando ela organiza, por exemplo, uma festa. Se convida os amigos r icos, ou somente pessoas importantes, significa que ela também se considera parte desta classe social “superior”. É fácil distribuir honrarias, elogios e favores quando se espera receber de volta tudo o que foi dado. Isso não tem nada a ver com generosidade, simplesmente foi um agradar quem poderá devolver até mais no momento oportuno. Para os seguidores de Jesus deveria ser diferente, eles não devem agir acompanhando os critérios deste mundo. Devem aprender com Deus, que é generoso com todos, e com ele mesmo, Jesus. O discípulo deve agir com gratuidade, sem esperar recompensa. Acontecerá assim somente se convidar para um almoço ou um jantar os pobres, os pequenos, os que nunca terão como lhe dar algo em troca.

Nesse caso, sim, será pura generosidade, porque o amor verdadeiro viaja de mão única. Se esperar algo em troca, terá mais o gosto de interesse que de doaç&at ilde;o. No entanto, o próprio Jesus fala em recompensa. Certo, mas essa “recompensa” não será a curto prazo e nem calculada. Será o prêmio que Deus Pai reservará para os seus “filhos”, ou seja, aqueles que, de alguma forma, mesmo sem saber, doaram algo aos irmãos pela simples e maravilhosa alegria de fazê-los felizes. Humildade, portanto, é acreditar que somos muito amados sem merecer, que já recebemos muito e, por isso, procuramos aprender a doar, ao menos um pouco, do que nos foi derramado com largura no coração. Melhor perder uma medalha e ver o outro sorrir que estufar o nosso peito de orgulho. Uma “derrota” útil, porque se transforma em grande vitória sobre a nossa inútil soberba.  

O furo na parede

O furo na parede
Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Havia uma casa de espessas paredes, construída há muito tempo no alto do monte. Estando isolada não era servida pela rede elétrica. Uma bela manhã, o velho camponês que a habitava, viu subir até a sua propriedade um carro cheio de material.

– Estamos para passar uma linha elétrica pelo planalto. Ela vai ficar perto da sua casa. O senhor gostaria de ser ligado a ela?

– Certamente! Seria maravilhoso! Terei enfim luz todas as noites, corrente para a serra e o torno, as imagens da televisão o dia inteiro!

– Mas as paredes da sua casa são espessas. Teremos que fazer um furo para a linha passar.

– Isso nunca! Vai fazer barulho, encher tudo de poeira! Na minha casa vocês não vão entrar! Não vão mexer nas minhas paredes! E o camponês teimoso, por não aceitar fazer uma brecha em sua carapaça de velhos hábitos, ficou sem luz em sua casa. Preferiu ficar no escuro e no escuro ficou.

Peço desculpa por contar uma historinha boba no domingo no qual encontramos uma das páginas mais lindas e comprometedoras dos evangelhos: a parábola do bom samaritano. A “compaixão” é a brecha que abre o nosso coração e deixa entrar a luz de Deus Amor. Dos três homens que encontraram o desafortunado caído no chão, somente um se deixou envolver, comprometeu-se e gastou do que era seu para ajudar. Somente ele se tornou “próximo” de verdade do ferido. Os outros dois, apesar da sacralidade e respeitabilidade do ofício, passaram adiante. Todos nós sabemos que é muito fácil encontrar desculpas para tentar justificar o nosso coração de pedra. Para muitos, hoje, a “compaixão”. É uma fragilidade sentimental. Para Jesus era só amor ao próximo, sem enfeites ou holofotes, sem tantas leis, verbas, projetos, ONGs e tudo mais. Algo, enfim, ao alcance de todos. Basta um coração amoroso e compassivo. Um coração “humano”, a imagem e semelhança do coração de Deus.

No final do trecho evangélico, ficamos sabendo que o mestre da Lei, que tinha feito a pergunta, entendeu o ensinamento. A ele, e a todos nós, Jesus diz: “Vai e faze a mesma coisa” (Lc10, 37). “Fazer”! A parábola do bom samaritano não é simplesmente um bom conselho ou uma orientação moral, é a exemplificação da identidade do cristão. “A vida eterna” é mais do que um prêmio ou uma herança para o outro mundo, após a nossa morte. Ela é a presença de Deus em nossa vida agora, deve ser a luz que ilumina e dá sentido ao nosso agir no dia a dia. O que virá depois será pura gratuidade de Deus da sua infinita misericórdia e bondade.

Nós, cristãos, tomamos muito a sério o “mandamento” de Jesus: “Fazei isso em minha memória”. Fazemos isso em todas as missas. É a “memória litúrgica” de Jesus à qual deveria corresponder a “memória existencial”, porque não pode ter separação entre o que cremos e celebramos e o que vivemos. Quem tem dupla personalidade está doente. Deve se deixar curar. E a cura vem do outro “mandamento” que Jesus nos deixou também na Última Ceia, antes da sua paixão e morte. No fim do lava-pés, Jesus perguntou aos discípulos se tinham entendido o seu gesto e, à resposta afirmativa deles, disse: “Dei-vos o exemplo, para que também vós façais assim como eu vos fiz” (Jo 13,15). De novo, um “fazer”! A fé cristã é mais que um conjunto de do utrinas e práticas religiosas. É uma maneira de encarar a vida humana com todas as suas belezas e fraquezas, com seus anseios e esperanças, mas também dúvidas e incertezas. Toda escolha traz um risco e revela em que confiamos mesmo. Se nos tornamos próximo dos sofredores é sinal que acreditamos no amor fraterno, que a nossa esperança não está tanto nas coisas e nos bens materiais, mas na possibilidade do coração humano de se tornar como deveria ser, fraterno e não inimigo, solidário e não indiferente. A luz da nossa vida não pode ser o dinheiro ou o último lançamento tecnológico ou a mais badalada diversão, só pode ser a capacidade de amar e fazer o bem a que precisar. Isto é possível a todos, cristãos e não, “homens de bem” e malfeitores. Basta abrir uma brecha. A luz do amor, que é Deus, entrará.

Pode ficar com o troco

Pode ficar com o troco
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Tem coisas que todos sabemos, mas que custamos a reconhecer. Por exemplo: quando nos relacionamentos pessoais e familiares começa a entrar o interesse através da troca de favores ou com promessas de dinheiro, algo quebrou. Este é o testemunho de uma mãe: “Certo dia, de muito calor, na hora da merenda, preparei quatro potinhos de sorvete para os me us filhos. Chamei-os e disse que podiam comprá-los com um abraço. Formaram uma fila. Os três pequenos me deram um aperto rápido e foram embora com o seu sorvete. Voltaram a brincar. Quando chegou o meu filho adolescente, o último da fila, me deu dois abraços. – Pode ficar com o troco – me disse sorrindo. Quase chorei.”
No Domingo da Santíssima Trindade só podemos falar do amor. O Amor grande demais que é o próprio Deus, assim como ele se fez conhecer: Pai, Filho e Espírito Santo, mistério de comunhão perfeita. Mas também, o amor simples, cotidiano, quase corriqueiro, que, sustenta a nossa vida. No fundo, nenhum amor verdadeiro é pequ eno ou inútil. Todo gesto de amor, de doação, de acolhida, é um sinal que o Amor existe, que ainda não foi sufocado pelo egoísmo e sobrevive apesar de tudo. Basta reconhecê-lo, admitir que nos faz falta e não ter medo de oferecê-lo. Todos somos carentes disso e todos podemos doar um pouco de amor sincero. Ser cristãos significa acreditar não somente no Amor de Deus do qual nada pode nos separar (Rm 8,35 ss), mas também na nossa possibilidade de experimentar e comunicar amor.
Na véspera deste domingo teremos algumas ordenações presbiterais em nossa Diocese. Agradeçamos ao Senhor da messe pelos operários que nos envia. Depois, na quinta-feira seguinte, celebraremos a Festa do Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo. Sairemos em procissão com a Eucaristia pelas ruas das nossas cidades. Para muito s, hoje, aceitar ser padres na Igreja Católica pode parecer uma loucura e uma procissão um resquício folclórico de tempos passados. Não cabem aqui discussões. No entanto, um pouco de razão estes nossos irmãos podem ter, Papa Francisco e eu concordamos. Se um jovem pensa em ser padre para ter uma vida cômoda, se tornar importante e, quem sabe, fazer carreira na Igreja, está totalmente enganado e ficará rapidamente desiludido. Igualmente, se a procissão de Corpus Christi fosse semelhante a uma passeata qualquer e tivesse como finalidade a propaganda, também estaríamos todos muito equivocados. Espero que nada disso passe pela cabeça dos ordenandos e dos organizadores das procissões. Os padres da Igreja Católica, antes de muitas outras tarefas e missões, celebram a Missa, oferecem, para que seja distribuído aos fiéis, o Pão da Palavra e o Pão da Vida que é o próprio Jesus nos sinais que ele mesmo nos deixou para que o fizéssemos em sua memória. Além disso o padre pode dizer a quem pedir perdão: – Os teus pecados estão perdoados. Vá em paz e não peque mais. Como Jesus dizia cheio de compaixão e misericórdia.
Estou misturando tudo, é verdade, mas agora volto à Santíssima Trindade porque, junto com o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, este é o grande mistério de amor do nosso Deus. Quem não acredita que o amor é possível e que amar é o único caminho para a verdadeira alegria , pode continuar a pensar diferente. A fé também, como o amor, só é verdadeira se é gratuita, isto é, buscada, pedida e acolhida como um dom do próprio Deus. Ser padre não é somente a resposta consciente a um chamado, é também um presente precioso que deve ser resguardado para que se torne um dom também para todos, cristãos ou não. Esta é também a lição da Eucaristia. O Corpo dado e o Sangue derramado de Jesus andam juntos com o lava-pés e as palavras do Senhor: “Sabendo isso, sereis felizes se o praticardes” (Jo 13,17). Por isso, não tenho receio a repetir que todo amor verdadeiro é grande e vai junto com a gratuidade. Tem a doçura do afago de um pai, de uma mãe, de um irmão, tem o aperto do abraço de um filho, tem sempre a alegria do coração. Sem troco. Sem nada em troca

‘Mamãe te amo!’- Dom José Conti

‘Mamãe te amo!’
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Uma criança, de mais ou menos dez anos, ia todos os dias à praia e escrevia na areia: “Mamãe te amo!”. Depois olhava as ondas do mar apagar as palavras e corria embora, sorrindo. Um velho, meio triste, passeava também, todos os dias, naquele lugar; via o menino fazer aquilo e pensava: “Que bobagem!” Mas um dia, resolveu aproximar-se dele e lhe disse:

– Não tem sentido você escrever “Mamãe te amo!” na areia, porque depois as ondas apagam tudo cada vez! Por que não diz logo isso para ela? – A criança levantou e respondeu:

– Eu não tenho mais a minha mãe. Deus a levou consigo, como as ondas fazem com as minhas palavras. No entanto, eu volto aqui todos os dias para lembrar a ela e a Deus que não se pode apagar o amor de um filho por a sua mãe. O velho se ajoelhou e, com os olhos molhados de lágrimas, escreveu na areia: “Conceição te amo!”. Era o nome da esposa, falecida havia pouco tempo. Depois, pegou na mão da criança e juntos viram aquelas palavras desaparecer.

Neste Quarto Domingo de Páscoa, temos muitos assuntos para refletir: é o Dia das Mães, mas também o Dia Mundial de Oração pela Vocações e o Domingo do evangelho do Bom Pastor. O evangelista João faz dizer a Jesus que as suas ovelhas o conhecem pela voz. Ele também as conhece todas, e elas o seguem. Poucas coisas revelam a familiaridade entre as pessoas. Uma delas é a voz. Hoje a tecnologia nos permite ver, pelo celular, com quem estamos falando. Ficou ainda melhor. Além da ouvir a voz de quem está do outro lado, podemos ver a expressão do seu rosto. Se não somos atores consumados ou mentirosos profissionais, tudo contribui para nos ajudar na nossa comunicação. Podemos partilhar alegrias e tristezas, lágrimas e consolações, medo e coragem, afagos e… insultos, infelizmente. Parece que estamos perto, também se enormes distâ ncias nos separam. Sempre, porém, tem um segredo, chama-se sinceridade. Por educação, falamos e respondemos a qualquer um, mas a poucos abrimos o nosso coração e com poucos brincamos. Nisso sempre estará a diferença entre aqueles e aquelas que se reconhecem pela voz e os demais. Assim, nesta maneira simples, todos nós sabemos em quem podemos confiar e, também, de quem é melhor… desconfiar.

Se acreditamos nele, a “voz” de Jesus nos chega através das palavras daqueles que nos amam, os nossos pais e amigos; através dos pastores e educadores chamados a acompanhar e guiar o rebanho. A “voz” de Jesus nos chega pelos apelos dos pobres e excluídos. Às vezes são gritos por socorro. São fortes e somos tentados a tampar os ouvidos. Outras vezes, são vozes tão fracas que, se não pararmos para prestar atenção, passam totalmente despercebidas. Por fim, a “voz” de Jesus deveria ecoar em nossas vidas pelas suas Palavras guardadas e transmitidas pela comunidade dos seus amigos e seguidores. É através de todas essas “vozes” que o Senhor continua a nos chamar pelo nome, continua a nos convidar a segui-lo e nos pede uma resposta pessoal, livre, alegre e responsável. Ele não quer um bando de fanáticos que batam palmas a q ualquer suspiro do seu ídolo. Não quer “escravos”, mas amigos, porque não é um patrão cobrador. O Bom Pastor quer pessoas conscientes e felizes de acompanhá-lo até no caminho da cruz, porque sabem o que ele faz e por que (Jo 15,15). Rezemos pelas vocações todas. Precisamos de “bons pastores”, padres, religiosos, religiosas, missionários e missionárias, mas também de bons pais e mães, de profissionais honestos e competentes. Precisamos de políticos e governantes com coração de pastores, comprometidos com o bem comum, com o povo mais humilde, sempre escutando a voz dos pequenos e esquecidos. Nesta altura, penso nas vozes das nossas mães, nos seus conselhos e nas suas orações. Penso nas palavras de bênção delas para os filhos, obedientes e desobedientes, os de perto ou os de longe. Mas penso també m nas suas lágrimas pelos filhos surdos aos apelos delas, às súplicas para que deixem os caminhos errados. O tempo pode apagar as palavras, mas não o amor. Igualmente, sempre seremos ovelhas amadas pelo Bom Pastor.

A aprovação da PEC do Orçamento Impositivo e o fim do complexo de pires na mão

A aprovação da PEC do Orçamento Impositivo e o fim do complexo de pires na mão
Por Simone Palheta

O Senado aprovou em dois turnos a PEC 34/2019, conhecida como PEC do Orçamento Impositivo, que prevê a obrigatoriedade da execução das emendas de bancadas por parte do Executivo.

Cabe lembrar que desde 2015 as emendas individuais já faziam parte do que se chama “Orçamento Impositivo”, ou seja, de execução obrigatória, com fundamento na EC 86/2015.

A proposta aprovada, que ainda segue para Câmara dos Deputados, caminha como mais um passo na independência do Poder Legislativo para com o Executivo no que diz respeito à aplicação do orçamento.

Não é difícil puxar à memória histórias e “causos” de parlamentares que tinham que pegar chá de cadeira e fazer acordos em ministérios para terem suas emendas liberadas. Laurentino Gomes retrata histórias de casos onde parlamentares tinham que agradar o Rei para obterem seus favores.Tal fragilidade fazia com que o Governo Federal tivesse um controle dos parlamentares, pressionando-os a apoiar pautas governistas. O resultado disso foi por muito tempo uma oposição tacanha e intimidada.

Com a aprovação, as Emendas de Bancada, que são aquelas emendas decididas em conjuntos pelos parlamentares, como aconteceu por exemplo com o Hospital Universitário, passam a ser de execução obrigatória, impedindo que o Executivo use a autorização para intimidar o Legislativo.

Pelo texto aprovado, os Estados terão direito a um bilhão cada, em um prazo de três anos, sendo que o Amapá terá trezentos milhões por ano apenas com verbas de Emendas de Bancada, para serem executados sem necessidade de aprovação do Executivo. É um avanço para o Brasil!

Assim, aquela ideia de que parlamentar de oposição não traz recurso para o Estado ou, de que FAZER OPOSIÇÃO AO PRESIDENTE PREJUDICA O AMAPÁ, cai por terra! Ganha a população e fortalece a democracia.

Tendo a obrigatoriedade da execução das emendas individuais e de bancada, a relação entre o Parlamento e o Executivo se institucionaliza ainda mais, ficando livre dos vícios da má e velha política.

Registro a luta incansável de nossos Senadores Randolfe Rodrigues, líder da oposição e Davi Alcolumbre, atual presidente do Senado.

Doravante, os parlamentares da base de apoio do governo, não farão mais com a sombra do interesse nos recursos, assim como, os parlamentares de oposição, poderão exercer seu papel fiscalizatório sem sentirem-se intimidados ou acanhados pela caneta do ordenador de despesas.

Esperamos que assim, o Brasil e o Amapá alcance uma consciência política mais evoluída e que o posicionamento dos nossos parlamentares seja baseado em seus deveres constitucionais e não pela necessidade do “Pires na mão” em prol do Amapá.

*Simone Palheta é Doutora em Direito pela UFMG, Professora da Universidade Federal do Amapá e pastora evangélica. Simone é membro da Academia Amapaense de Letras Evangélicas

Artigo dominical

Duplica a dose
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Um médico sábio disse: – Os melhores remédios são o amor e o cuidado.
– Mas o doente perguntou: – E se não funcionarem?
O médico sorriu e respondeu: – Duplica a dose!
Com o terceiro domingo da Quaresma, iniciamos o próprio deste ano litúrgico no qual estamos lendo o evangelho de Lucas. É o evangelho da misericórdia de Deus manifestada de tantas formas por Jesus em sua vida terrena. Não que os outros evangelistas transcurem o tema da misericórdia, mas Lucas é particularmente atento a esse assunto. No evangelho deste domingo, podemos perceber facilmente a novidade da mensagem de Jesus.
Algumas pessoas trazem a ele a notícia triste da crueldade de Pilatos com os galileus. O próprio Jesus, na sua resposta, lembra outra tragédia: a queda da torre de Siloé, que tinha causado 18 vítimas fatais. As perguntas que o povo se fazia naquele tempo são sempre as mesmas, são as nossas também: por que eles e não outros? Será que eles mereciam morrer daquele jeito? Por que eles e não eu? Será que eu vou escapar? Se somos sinceros, não temos respostas. Ou, se temos, delas surgem outras perguntas. Por exemplo, se respondemos que tudo foi um acaso ou uma fatalidade, deve ríamos admitir que a nossa vida está pendurada no vazio e no imponderável. Nada sabemos, nem do hoje e nem do amanhã. Eis, pois, a nova pergunta: se tudo já está decidido, nós somos somente bonecos nas mãos do nada ou de um ser caprichoso e imprevisível? Um “deus” assim não é muito entusiasmante. Como acreditar e confiar em alguém que não sei o que pensa e o que quer? Também as respostas que Deus quis assim ou, pior , que ele precisou daquela pessoa que morreu, não nos satisfazem. Queremos saber mais. Jesus, no entanto, não responde com raciocínios intelectuais ou afirmações altissonantes. Conta uma parábola.
Primeiro, porém, nos convida à conversão, ou seja, a mudar a nossas ideias mesquinhas sobre Deus. Ele não é um jogador de dados, um justiceiro ou alguém que, simplesmente, não liga para nós. É um Pai amoroso que doa a vida aos seus filhos amados, os acompanha com carinho e, sobretudo, tem muita, muita paciência. Este é o sentido da parábola da figueira que, pela intercessão do vinhateiro, ainda receberá os cuidados por mais um ano. Mas o segredo está nos frutos. A utilidade, ou inutilidade, da planta depende dos frutos. Igualmente o sentido da nossa vida não está na quantidade d os anos, no acúmulo de riquezas ou de grandes sucessos. O valor da vida, que passa para qualquer um, depende dos frutos de bondade e de amor que conseguimos produzir. Até os sofrimentos, mais ainda se forem por causa do Evangelho ou pela fome e a sede de justiça, são frutos agradáveis a Deus. Por isso, a vida vale apena ser vivida. Não sabemos a sua duração, mas o rumo o conhecemos e o Caminho também. O vinhateiro que int ercede e se compromete a colocar mais adubo na pobre figueira, antes condenada ao corte, é o próprio Jesus. O “adubo”, perdoem a comparação, é o seu exemplo, as suas palavras, a sua própria vida, a sua esperança. A esperança de Jesus? Isso mesmo. Porque apesar da nossa cabeça dura, das nossas dúvidas, ainda o vinhateiro diz: “Pode ser que venha a dar fruto!” Onde podemos encontrar um Deus tão bondoso e compassivo? Foi Jesus que veio no meio de nós para que o conhecêssemos e, sobretudo, o amassemos.
Tudo isso é simplesmente maravilhoso. Nós estamos doentes de celebridade, de “selfies” e holofotes. Queremos aparecer. Poses e aplausos podem satisfazer o nosso orgulho, mas talvez não sejam frutos tão bons. Que tipo de pessoas nós somos: doces, amigas, confiáveis e generosas, ou chatas, egoístas, arrogantes e invejosas? Graças a Deus, quantos frutos bons existem por aí produzidos, na humildade e no silêncio, por tantas pessoas anônimas, solidárias e fraternas. Simplesmente “humanas”, capazes de aproveitar bem das suas longas ou curtas vidas, sem medo de Deus, porque, quando forem chamadas, terão tantos frutos bons para lhe oferecer, tantos que, talvez, nem elas sabiam. Em todo caso, uma “dose dupla” de Jesus e do seu exemplo não faz mal para ninguém, ao contrário…