Conto dominical

A flor e a borboleta
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Certa vez, um homem pediu a Deus uma flor e uma borboleta, mas Deus lhe deu um cacto e uma lagarta. O homem ficou triste, pois não entendeu o porquê do seu pedido vir errado. Daí pensou: “Também, com tanta gente para atender!”. E resolveu não questionar. Passado algum tempo, o homem foi verificar o pedido que deixara esquecido, e, para sua surpresa, Continue lendo

Ateei fogo às memórias

Ateei fogo às memórias
José Machado

Ao longo dos anos vamos guardando coisas, entupindo gavetas, empilhando prateleiras com recortes de jornais, de revistas, fotografias, convites para casamentos de gente que há muito se separou, cartões de agradecimento de pessoas cujo rosto esquecemos.
Ao abrir caixas nos deparamos com lembranças. Algumas, têm história e grande valor sentimental que nos trazem gratas recordações. Alguém que foi muito importante para nós, outras foram nossos filhos que compraram e nos deram; um objeto que compramos quando éramos mais jovem ou conseguimos quando estávamos viajando e nos lembra bons momentos- peças que são heranças familiar- memórias incríveis de uma época especial de nossa vida.
Logo que adquirimos, a sensação é boa, gratificante e juramos que irão acompanhar-nos até que a morte nos separe. Mas essa sensação nunca dura muito tempo. Isso acontece com qualquer coisa que envolva desejo. Mas não é o desejo que é ruim.
O problema é o apego que criamos e desenvolvemos por todas essas bugigangas de que não nos livramos porque as associamos a alguém, a algum momento, a algum lugar, funcionam como portais do tempo – são elos do passado ao presente.
Durante esse fim de semana, enchi sacos grandes de tudo e de nada.Muitos, eram objetos sem sentido. As lembranças que preciso estão dentro de mim, não nessas coisas. Algo guardado há muito tempo, retém energia negativa. Por isso, o budismo prega o desapego.
É bom esquecer e livrar-se de alguns trecos, para abrir espaço para novas experiências. Vivemos em um mundo de palavras e imagens, que nos empurram rumo aquilo que não temos, que ainda não somos, que ainda não vimos e, que ninguém nos garante que teremos, seremos ou veremos.
Colecionar ou guardar coisas, é uma tentativa de dar feição familiar a um todo, que na maioria das vezes assusta pelo tamanho que alcança. Mas alguns objetos têm lembranças demais para irem ao lixo.
Por isso, mantive alguns. Cada um deles, me transporta a um tempo diferente da minha vida, é uma prova de que vivenciou uma boa época comigo. Dizem que a vida é curta, mas não é verdade. A vida é longa para quem consegue viver pequenas felicidades.
Algumas coisas doei, olhava-as carinhosamente e decidia intimamente quem ficaria com elas… Não podemos nos desconcentrar no que temos de mais precioso – as relações de amizade e parcerias verdadeiras ou acabaremos lotados de tralhas que não preencherão o nosso vazio existencial.
Doar, é um ato puro, de quem se desprende de seu mundo para oferecer prazer ao desconhecido, sem esperar nada em troca. Daqui pra frente vou adotar uma espécie de prazo fiscal caseiro. Dois anos e adeus…Fogo naquilo que não serve pra ninguém.

A amiga “estraga-prazer”

Matilde olhou-se demoradamente no espelho e sorriu. Um sorriso largo. Estava feliz, se achando linda, leve e bem mais jovem do que quando entrou naquele salão.
“Acho que rejuvenesci uns dez anos”, disse ao
cabeleireiro . “Sim sim. Cabelos curtos rejuvenescem. Agora você está linda e po-de-ro-sa. Aliás, linda você sempre foi, só faltava diminuir essas madeixas”, disse o serelepe cabeleireiro .
Matilde pagou, deu-lhe um afetuoso abraço, olhou-se mais uma vez no espelho e saiu jogando beijinhos. Feliz. Feliz.
Resolveu que linda como estava era um desperdício ir almoçar em casa sozinha. E tomou o rumo de um bem frequentado restaurante. Ali desfilaria seu novo visual.

No caminho foi lembrando da enorme quantidade de xampu e outros cremes que tinha que usar pelo menos duas vezes por semana, do tempo que perdia secando e escovando os longos cabelos que chegavam quase ao meio das costas. “Agora com esse corte chanelzinho basta um tantinho de xampu e só alguns minutos para secar”, pensou alto olhando-se no espelho do retrovisor.

Sorrindo entrou no restaurante. Estava folheando o cardápio, sempre sorrindo, e quando já ia chamar o garçom para pedir um filé com fritas e salada e um suco de laranja ouviu:
Matildeeeee!!!
Levantou os olhos. Era Concy, sua amiga.
-Senta aí, Concy. Vamos almoçar juntas.
Concy não se fez de rogada. Puxou a cadeira, sentou-se; na outra colocou sua bolsa… e antes de mais qualquer coisa olhou de um jeito tão sério para Matilde que assustou-a.

-Que foi? Perguntou Matilde já sem sorrir.

– Amiga, você cortou seus longos cabelos

– Ah, cortei sim. Cansei daquele cabelão, de horas para lavar, secar e escovar. Amei esse meu corte. É prático, leve e me deixou mais jovem. Não achas?

– Ah, amiga, posso ser sincera?
– Claro. Tudo que se espera de uma amiga é sinceridade.

– Não gostei. Tá muito curto, tá estranho, não combina com você. E quer saber mais? Não te rejuvenesceu um dia sequer, acho até que te envelheceu.

Matilde perdeu o apetite. Levantou-se, despediu-se da amiga e foi embora pensando “como tem gente estraga-prazeres neste mundo”.

Se a pessoa está feliz ela está bonita, pois felicidade é uma beleza que vem de dentro. Mas pessoas como Concy só tem olhos para ver a capa, o que está do lado de fora. Imagino que em Concy não existe beleza interior. É o tipo de gente que se você estiver deslumbrante dos pés a cabeça, ela é capaz de descobrir que um minúsculo botão do seu vestido está fora do lugar ou que tem um pelinho rebelde na sua sobrancelha.

A amiga estraga-prazer – por inveja ou por prazer – sempre vai descobrir ou inventar algo para tentar apagar teu sorriso, mexer com tua auto-estima, te colocar para baixo. Não é verdade?

E quem não tem ou nunca teve uma amiga assim levante as mãos para o céu e agradeça.

A esposa obediente -Dom José Conti

A esposa obediente
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

 Certa vez, um sábio e bom mestre voltava para a sua casa, acompanhado por alguns dos seus discípulos. Eles conversavam, descontraídos, sobre os acontecimentos daqueles dias. Ao dobrar uma esquina, uma mulher saiu ao seu encontro e despejou na cabeça do mestre um balde de água suja. A agressora Continue lendo

O Tempo

Floriano Lima

O TEMPO
Floriano Lima*

Hoje passando pelo Igarapé das Mulheres, o encontrei!
A memória fotográfica foi benéfica nesse momento. Acho eu, que mais de 30 anos não o avistava! Observei as rugas, o andar lento e curvo, sem pressa como que deixando o tempo fluir!
Na minha cabeça fiz um “flashback” e voltei para o campo onde hoje é o Teatro das Bacabeiras e depois para a Praça Veiga Cabral e me coloquei dentro daquelas barquinhas de madeira bruta, com cores dos times mais famosos, e entre elas a barquinha do Paysandu que era o meu time, e ali começava a disputa com a do Remo, para ver quem embalava mais alto.

Eram as “barquinhas do arraial”, feitas pela mão desse cidadão, que segurava com braço forte, quando acabava o tempo da brincadeira. O cumprimentei e lhe disse: Obrigado por nos proporcionar uma brincadeira tão singela e marcante!
Entrei no carro,e olhei em mim mesmo algumas rugas, muitos cabelos brancos, as vezes um leve cansaço e vi em mim a marca implacável do tempo! Mas o melhor, foi que vi que o “garoto” continua em mim de maneira indelével e esse vai comigo!

*Floriano Lima é administrador, fotógrafo, músico e cronista

Jogando xadrez – Dom Pedro Conti

Jogando xadrez
Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

       O velho padre da paróquia tentou ajudar um pecador a emendar-se. Convidou-o para uma partida de xadrez, um jogo do qual sabia que ambos gostavam. Durante a partida fez um movimento errado. O homem ia aproveitar-se do engano, mas o padre pediu para desculpá-lo, dizendo que prestaria mais atenção na próxima vez. Pouco depois, porém, errou de novo. Desta vez o adversário se negou a relevar a falha. Disse-lhe então o padre, com a maior simplicidade: – Amigo, ficas tão Continue lendo

O corte perfeito

O corte perfeito
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

 Certo homem foi nomeado mandarim na China, uma espécie de conselheiro. Envaidecido, pensou em mandar confeccionar roupas novas. Para isso, um amigo lhe recomendou um alfaiate que sabia dar o corte perfeito à roupa de cada cliente. Depois de tomar nota de todas as medidas necessárias para o serviço, o homem perguntou: Continue lendo

O início da televisão em Macapá

O início da televisão
Cléo Farias de Araújo

Antes de 1974, só assistia televisão quem viajasse pra fora de Macapá. Belém era o lugar mais próximo. Era comum alguém, “querendo aparecer” pros outros, dizer que assistiu tal programa ou tal novela em Belém. Imagem, mesmo, só nos cines João XXXIII, Macapá e Paroquial, pois ainda estávamos na era da novela de rádio.

Depois de algum tempo, surgiram boatos de que, na casa do Seu Assis da SEVEL, a antena era tão poderosa que pegava uma emissora de Caracas, na Venezuela. Aí começou a multiplicação de antenas na cidade. Lembro que tinha uma na casa do Pachequinho e outra, na casa do seu José Maria Papaléo, da Continue lendo

Uma crônica de Elton Tavares

O Capitão Caverna, o meu super- herói favorito
Elton Tavares

Adoro desenhos animados antigos, mas não sou muito chegado nos que são exibidos agora. Normal, tô ficando velho. Concordo que as animações antigas perdem em recurso tecnológico para os “mangás & Cia” que passam na TV atualmente, mas ganham, e muito, em criatividade dos de hoje. Pois eles eram engraçadíssimos e possuíam uma originalidade fantástica.

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