(Adoráveis) Invasores

(Adoráveis) Invasores
Discretamente eles começaram a frequentar o quintal e, como ninguém se importou, eles passaram a se achar donos. Fizeram morada nas árvores, comeram algumas frutas e jogaram outras no chão.
Um dia avançaram mais e chegaram até a garagem, onde começaram a cantar e fazer festas. Ninguém os expulsou.
Não demorou muito um deles, talvez o líder do grupo, ousou mais: entrou sorrateiro na área de serviço. No outro dia voltou, comeu a ração dos cachorros e chamou seus comparsas para um banquete.
E como ninguém se importou abusaram mais ainda; invadiram a cozinha, se apropriaram da fruteira e bicaram mamão, bananas e outras frutas.
Da cozinha para a sala foi um pulo, ou melhor, um voo. E agora são os primeiros a chegar para o café da manhã e alegrar nosso amanhecer com seus maviosos cantos.
(Alcinéa)

Uma dúzia (ou mais) de saudades

Nesses 131 dias de isolamento social, saí uma única vez. Foi semana passada. De carro, meu filho fez comigo um passeio na orla pra ver o rio, já que eu estava com tanta saudade de ver o nosso majestoso rio Amazonas
E nesses 131 dias sinto saudade de muita gente e de muitas coisas. Mas prefiro ficar quieta em casa do que correr risco e pior ainda colocar em risco os meus familiares, que tanto amo.Das saudades que sinto:
1 – Dos abraços, beijos, risos e conversas com meus irmãos e sobrinhos
2 -Saudade imensa da Igreja Messiânica, onde ia diariamente para rezar, ministrar e receber Johrei, tomar um cafezinho na cantina e conversar com meus irmãos de fé.
3- Dos amigos no meu pátio rindo e bebendo Chandon, brindando a vida e amizade
4 – Dos saraus no meu quintal
5- Do café da tarde com os amigos
6 – Do bate-papo na minha varanda com meus amigos poetas
7 – Do cafezinho e conversa boa na biblioteca Elcy Lacerda
8 – Da paz na velha catedral de São José e no Santuário de Fátima (igrejas que gosto de ir fora do horário de missa)
9 – Dos passeios a pé pelo meu bairro, observando jardins, casas antigas e parando aqui e acolá para conversar com idosos
10 – De sentar no primeiro banco do canteiro florido da Av. Mendonça Furtado e no banco da praça Veiga Cabral
11 – De andar sem pressa na orla, admirando o rio, vendo a lua nascer e comendo um abacaxi temperado com sal, gengibre e hortelã ou bebendo uma água de coco
12 – Dos encontros de numismatas, com cafezinho, papo gostoso, troca de moedas e muito conhecimento sobre tanta coisa. Sim. As moedas contam muito da história, civilizações, economia etc
+ E tem muito mais, como ficar de bobeira no Curiaú, tomar banho de rio e igarapé, passar horas dentro de uma livraria, declamar poesias, visitar museus, ver o por do sol na Fazendinha, tomar café na Casa das Rosas, comer charque frito com os amigos no Bar do Índio, viajar…

Mas quando essa pandemia passar faremos uma festa. E como diz o poeta Chacal “vou dançar até o sapato pedir pra parar, aí eu paro, tiro o sapato e danço o resto da vida”

E você? Me conta as saudades que tens.

Poema para o amigo

Poema para o amigo
Alcinéa Cavalcante

É possível que eu te conte
uma história de príncipes e fadas
que escutarás com o olhar perdido na infância.
Ou que te conte uma piada tão engraçada
que rolaremos de tanto rir.
Nossas gargalhadas contagiarão os passantes
e de repente todo mundo estará rindo
sem nem saber por que.

É possível
que eu faça um café com tapioca e te chame
pois café, tapioca e amigo tem tudo a ver.

É possível que eu chegue na tua casa sem avisar
só pra te ofertar uma rosa que acabara de nascer
e te oferecer um Johrei.

É possível que eu te ofereça uma música no rádio
ou te mande, pelo Correio,
uma carta numa folha de papel almaço.

É possível que eu te ligue
no meio da noite
no meio do dia
a qualquer hora
– mesmo na mais imprópria –
só pra dizer:
Amigo, eu amo você.
(Alcinéa Cavalcante)

Assim

Necessário que hoje os sorrisos se ocultem por trás de máscaras para que amanhã possam ressurgir largos e iluminados, numa explosão de alegrias, na troca do tão esperado – e demorado – abraço.
(Alcinéa Cavalcante)

Você já viu porco dar risadas?

Você já viu porco dar risadas? Eu também não.

Mas é comum a gente falar “que porco dá risada” quando nos referimos a uma fruta muito, mas muito, azeda, muito ácida.

“Nossa! Essa laranja tá tão azeda que até porco dá risada”, dizemos, fazendo careta, quando chupamos uma laranja insuportavelmente ácida.

Quando criança tentei várias vezes ver um porco rir, jogando a ele as frutas mais ácidas, como araçá, taperebá, limão caiana…

Tínhamos um vizinho que todo ano criava um porco para comê-lo no Natal. A vizinhança, sempre solidária, costumava mandar “babugem” para alimentar o bicho. Babugem é aquele resto de comida que fica nos pratos após a refeição. Junta-se os restos de todos os pratos, coloca-se numa tigelinha, numa lata ou num saco e aí está pronta a “babugem” que vai ajudar a engordar o suíno.

Pois bem, com a desculpa de jogar a “babugem” para o porco, a molecada jogava também um pedaço de araçá, um limão ou uma banda de laranja super azeda e ficava ali, escorada no chiqueiro, à espera que ao comer aquela coisa o porco do vizinho começasse a dar sonoras gargalhadas.

Às vezes o porco comia, outras não. Mas rir, nunca. Pelo menos na frente da patotinha.

Será que o porco era tímido e tinha vergonha de rir na frente de várias pessoas? A gente se perguntava isso, pois volta e meia algum moleque chegava contando que quando estava sozinho com o bicho ofereceu-lhe uma fruta azeda, o bicho comeu e se danou a rir. O moleque então entrava para a lista dos sortudos da rua e conquistava assim a posição de líder entre os demais.
(Alcinéa Cavalcante)

Um doce ajuntamento

Saudade desse doce ajuntamento numa tarde de domingo na Praça Floriano Peixoto e a gente (Randolfe Rodrigues, Flávio Cavalcante, eu, Rostan Martins e Pipitinho) comemorando a amizade com pirulitos sabor de infância

Quando a gente se guiava pelas estrelas

Quando a gente se guiava pelas estrelas

“Olha! Olha!” Exclamava o menino apontando para o céu.

“Lá vai, lá vai”.

E todos olhavam e viam e falavam sobre o objeto que passava saltitante entre nuvens e estrelas.

Não. Não era um disco voador. Era simplesmente um satélite, provavelmente desses que ficam fotografando a Amazônia.

Diversão da meninada naquele tempo, quando a noite caía, era sentar na frente da casa e olhar o céu, caçar satélites e estrelas cadentes, procurar São Jorge na Lua e identificar constelações.

O telescópio era um canudo de cartolina.

Ah, tempo bom, quando a gente sabia se guiar pelas estrelas e sonhava ser astronauta para visitar outros mundos, brincar em outros planetas e, depois, voltar à Terra com as mãos transbordantes de estrelas.

Trazer também uns fiapos de nuvem para fazer algodão doce, pois que a vida, meu irmão, era uma doçura e plena de encantamento naquela rua sem asfalto, sem bangalôs, sem muros e sem televisão.

(Alcinéa Cavalcante)