Eu, professora

Me formei com 21 anos, portanto, bastante jovem eu já estava na sala de aula e nos laboratórios da Escola Integrada de Macapá (antigo GM) dando aulas de Tecnologia Mecânica, Desenho Técnico e Fabricação Mecânica.
Conciliava o jornalismo e o magistério.
Jornalismo eu fazia nas horas vagas, pois o magistério era a minha prioridade, minha paixão. Lecionei durante muitos anos com dedicação e amor e tive meu trabalho reconhecido. Todos os anos, fosse qual fosse o diretor, recebia portaria de elogio da direção da escola pelo meu desempenho e até da Câmara de Vereadores recebi diploma de “Honra ao Mérito” pela “grande contribuição dada à educação amapaense”.
Foram anos inesquecíveis dos quais tenho lindas lembranças. As amizades que fiz permanecem até hoje. Meus alunos eram mais que alunos. Fiz deles meu amigos.
Por eles até hoje tenho imenso carinho e afeto. De vez em quando encontro alguns deles por aí e vocês nem imaginam a felicidade que toma conta de mim quando recebo o abraço deles, o carinho e me chamam com orgulho de “minha professora”.
Neste dia, dedicado ao professor, parabenizo todos os professores amapaenses e registro aqui minha gratidão a todos meus professores (desde o jardim da infância aos cursos de pós-graduação) e aos meus queridos ex-alunos.

Marte? Nem pensar!

Marte? Nem pensar!

Não , meu bem.
Desta vez não vou contigo.
Marte não me seduz.
A água de lá não tem o cheiro do mururé.

Em Marte, meu bem,
não tem flores,
logo não tem beija-flor.

Não tem mangueiras,
logo não tem aquela algazarra de periquitos
que inebria o poeta Fernando Canto.

Não tem praças, música, livros,
papel e caneta.
Não tem poesia nem poetas.

Li no jornal que os habitantes de lá
tem voz metálica
corpo engraçado
e cara esquisita.
São todos verdes, todos idênticos, todos estranhos.

Você quer ficar verde de susto, meu bem?
Eu não.

(Alcinéa Cavalcante)

(Adoráveis) Invasores

(Adoráveis) Invasores
Discretamente eles começaram a frequentar o quintal e, como ninguém se importou, eles passaram a se achar donos. Fizeram morada nas árvores, comeram algumas frutas e jogaram outras no chão.
Um dia avançaram mais e chegaram até a garagem, onde começaram a cantar e fazer festas. Ninguém os expulsou.
Não demorou muito um deles, talvez o líder do grupo, ousou mais: entrou sorrateiro na área de serviço. No outro dia voltou, comeu a ração dos cachorros e chamou seus comparsas para um banquete.
E como ninguém se importou abusaram mais ainda; invadiram a cozinha, se apropriaram da fruteira e bicaram mamão, bananas e outras frutas.
Da cozinha para a sala foi um pulo, ou melhor, um voo. E agora são os primeiros a chegar para o café da manhã e alegrar nosso amanhecer com seus maviosos cantos.
(Alcinéa)

Uma dúzia (ou mais) de saudades

Nesses 131 dias de isolamento social, saí uma única vez. Foi semana passada. De carro, meu filho fez comigo um passeio na orla pra ver o rio, já que eu estava com tanta saudade de ver o nosso majestoso rio Amazonas
E nesses 131 dias sinto saudade de muita gente e de muitas coisas. Mas prefiro ficar quieta em casa do que correr risco e pior ainda colocar em risco os meus familiares, que tanto amo.Das saudades que sinto:
1 – Dos abraços, beijos, risos e conversas com meus irmãos e sobrinhos
2 -Saudade imensa da Igreja Messiânica, onde ia diariamente para rezar, ministrar e receber Johrei, tomar um cafezinho na cantina e conversar com meus irmãos de fé.
3- Dos amigos no meu pátio rindo e bebendo Chandon, brindando a vida e amizade
4 – Dos saraus no meu quintal
5- Do café da tarde com os amigos
6 – Do bate-papo na minha varanda com meus amigos poetas
7 – Do cafezinho e conversa boa na biblioteca Elcy Lacerda
8 – Da paz na velha catedral de São José e no Santuário de Fátima (igrejas que gosto de ir fora do horário de missa)
9 – Dos passeios a pé pelo meu bairro, observando jardins, casas antigas e parando aqui e acolá para conversar com idosos
10 – De sentar no primeiro banco do canteiro florido da Av. Mendonça Furtado e no banco da praça Veiga Cabral
11 – De andar sem pressa na orla, admirando o rio, vendo a lua nascer e comendo um abacaxi temperado com sal, gengibre e hortelã ou bebendo uma água de coco
12 – Dos encontros de numismatas, com cafezinho, papo gostoso, troca de moedas e muito conhecimento sobre tanta coisa. Sim. As moedas contam muito da história, civilizações, economia etc
+ E tem muito mais, como ficar de bobeira no Curiaú, tomar banho de rio e igarapé, passar horas dentro de uma livraria, declamar poesias, visitar museus, ver o por do sol na Fazendinha, tomar café na Casa das Rosas, comer charque frito com os amigos no Bar do Índio, viajar…

Mas quando essa pandemia passar faremos uma festa. E como diz o poeta Chacal “vou dançar até o sapato pedir pra parar, aí eu paro, tiro o sapato e danço o resto da vida”

E você? Me conta as saudades que tens.

Poema para o amigo

Poema para o amigo
Alcinéa Cavalcante

É possível que eu te conte
uma história de príncipes e fadas
que escutarás com o olhar perdido na infância.
Ou que te conte uma piada tão engraçada
que rolaremos de tanto rir.
Nossas gargalhadas contagiarão os passantes
e de repente todo mundo estará rindo
sem nem saber por que.

É possível
que eu faça um café com tapioca e te chame
pois café, tapioca e amigo tem tudo a ver.

É possível que eu chegue na tua casa sem avisar
só pra te ofertar uma rosa que acabara de nascer
e te oferecer um Johrei.

É possível que eu te ofereça uma música no rádio
ou te mande, pelo Correio,
uma carta numa folha de papel almaço.

É possível que eu te ligue
no meio da noite
no meio do dia
a qualquer hora
– mesmo na mais imprópria –
só pra dizer:
Amigo, eu amo você.
(Alcinéa Cavalcante)