Macapá antiga – Biblioteca

Era assim a Biblioteca Pública do Amapá.  O  histórico prédio foi derrubado no primeiro governo de Anníbal Barcellos para a construção da nova biblioteca que no governo João Alberto Capiberibe recebeu o nome de Biblioteca Elcy Lacerda.
A foto é de 1948

Crônica do Sapiranga

Dia primeirio de junho, eu não respeito senhor!
Milton Sapiranga Barbosa

Neste  primeiro  de junho, como  de costume, mesmo  estando de férias,  acordei as   6 da manhã.
Após  agradecer  a Deus pelo  ótimo  sono e   por  ver nascer  mais um novo dia,  assisti, no  canal   96  da Via Embratel,  as peripécias da  dupla Tom  e Jerry. A  eterna briga do gato com o rato.
Durante o primeiro  intervalo  do  desenho animado, percebi  que Macapá  estava silenciosa, muito silenciosa.  Não se  ouvia pipocar  de fogos   e  nem  a  salva  de tiros  disparados pelos  canhões da Fortaleza de São José de Macapá,  acordando a cidade   e  homenageando  o  primeiro governador  do  Território Federal  do Amapá, Janary Gentil  Nunes, cujo   aniversário é comemorado no primeiro  dia do  mês  da quadra  junina no Brasil.
Aí   bateu  uma tremenda  saudade da Macapá  de antigamente. Lembro  que  naquele  tempo, o  primeiro de junho, era  repleto de comemorações, que iniciavam ao   romper da aurora  e  varavam noite  a dentro.  Tinha churrasco, torneios  de futebol, natação, festa na piscina territorial  e  em diversas sedes  de  clubes  locais. Tinha marabaixo  na casa  da dona Gertrudes  e  do Mestre Julião Ramos. Todos  prestando   homenagem ao  Governador  do Amapá, inclusive imortalizado por Mestre Ladislau na cantoria que dizia: “Pra onde  tu  vás rapaz, por  este caminho  sozinho.? Vou  fazer minha  morada, lá prós campos do Laguinho” / Dia primeiro de junho, eu não respeito senhor, eu  saio gritando vivas, ao nosso  Governador”  e por  aí vai.
Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, gostou  e gravou  os versos   de “Ladrão” de Ladislau.
Ao  sentir   que   se  aproxima a quadra junina, lembrei  também  das  noitadas  de festejos   de  Santo Antonio (13), São João (24),  São  Pedro (29)   e  São Marçal (se  dizia São Marçá) no  dia  30, encerrando  as  festividades  da quadra junina.
Me vi   outra  vez, junto   com  meus  amigos  de infância, entre eles, Moacir, Pilão, Arideu, Dodoca, Zé Rodinha, Deodato, Mucura, Boquinha e  tantos outros, percorrendo  ruas  e  avenidas  da  Favela,  em  desabalada  carreira  para  poder  ter impulso  e pular as   fogueiras   que  eram  acesas   em  frente  de cada  residência  do  bairro.  Os   adultos, sempre  que  percebiam que  íamos  pular, nos  avisavam  que  era perigoso, que  alguém podia  se ferir. E   eles  tinham razão. Mas  sabe  como  é  moleque, não  tem noção  do perigo. Muitas vezes  alguém   errava  o pulo, batia  numa haste  de lenha  e ia  ao  chão, arranhando joelhos, mãos, cotovelos  e alguns  até   ficavam  com  a cara  esfolada. Era  bonito  de se ver o  bairro iluminado  por   fogueiras  armadas nos  mais  diversos tamanhos  e com  todo tipo  de madeira  disponível.
A minha  querida  mãezinha, preferia  fazer  a  fogueira em  frente de casa  com   galhos de muricizeiro, pois  depois  que  a sirene da Usina de Força e Luz apitava avisando que eram  21  horas,  ela  apagava   e  no  outro  dia  aproveitava  o carvão para  colocar no  ferro de engomar (passar  roupa)   e  os  pedaços que  não  tinham  sidos queimado  totalmente,  ela  usava  para  cozinhar   o feijão do  dia  a  dia (até   hoje não sei  porque, o  feijão  cozido no  fogão  a lenha  tem um sabor  diferente, do cozido no  fogão a gás. Será  pelo  cheiro da fumaça que  entranha no caldo?. Ah, essa modernidade).
As  vésperas  e nos  dias   que   os  santos Antonio,  João e Pedro são  homenageados, nós saíamos pulando  fogueiras  até   as   existentes  em bairros  adjacentes (como  Trem e Bairro Alto) por exemplo, mas     no  dia  30,  nós  nos  aquietávamos. É  que   São Marçal  é  homenageado  com  fogueiras  feitas  de  paneiros, muitos paneiros, que  provocam altíssimas  labaredas  e aí sim, pular  era  por  demais  perigoso  e  só  então  acatávamos os  conselhos  dos  mais  velhos.
Puxa, como  era bom naquele  tempo. Ir de casa  em casa   e  se  deliciar  com cuiadas e  cuiadas de mingau  de vários sabores, mas  o  preferido, não tenho dúvidas,  era  o  de milho branco. Comer canjica, milho  assado,   milho cozido, tacacá, aluá  e  outras  iguarias  da época, era uma delícia só.
Naquele  tempo  o  vizinho   fazia  questão da presença das  comadres  e  compadres, muitos  só  de  fogueira, naquela   de: “Santo Antonio disse, São  João  confirmou, que   o Milton há de ser meu  afilhado, que  Jesus  Cristo mandou”. E não é, que mesmo sem ser abençoado por um  padre,  valia, se  respeitava  e tomava-se benção, sempre  que se encontrava  um padrinho ou madrinha de fogueira?.
As mulheres  passavam fogueira  e  se travam  de “ Meu Botão”, “ Minha Rosa”,  “ Minha Flôr”, “Minha Boneca”,  e  depois  só  se  tratavam por  esses  nomes, por  toda a vida, sempre  que  se  encontravam.
E  as     apresentações   dos  Bois Bumbás,  com  seus  caçadores , índios, pagés, catirinas, etc, etc?.  Tinham  também  exibições  de  cordões, sendo  que  o mais famoso  deles   foi  o  cordão do Uirapuru, na  minha opinião, mas na verdade, todos  eram bacanas de se  assistir .
Meus  olhos  estão  nublados por  lágrimas  saudosas  que  teimam  em rolar  face abaixo, não  me  deixando  mais continuar minha  viagem     pela   romântica, festiva,  segura  e bela  Macapá  de antigamente.  Saudade, muita saudade  dos  bons  tempos vividos, principalmente, na minha  querida  Favela.

Retrato em preto-e-branco

Quem dançou, se esbaldou, namorou nos bailes da Piscina Territorial?
Houve uma época que os melhores bailes – até nas tardes de domingo – eram na Piscina Territorial. Muita gente descobriu  o amor de sua vida dançando de rostinho colado lá.
Se você é desse tempo diz aí que conjunto (naquela época não se chamava banda) é este que está tocando e o nome dos integrantes.
Ah, e pode contar umas “historinhas” que você viu, viveu ou ouvir falar daquele tempo.

Retrato em preto-e-branco

1945 – Residência oficial do governador construída pelo primeiro governador do Amapá. De lá pra cá já passou por várias reformas e algumas adaptações. Agora está passando por outra e chega ao blog a informação de que nesta reforma paredes estão sendo demolidas e a configuração arquitetônica estaria sendo modificada. Espero que não seja verdade, pois a residência oficial é um dos primeiros prédios construídos no Território Federal do Amapá. Faz parte da história.

Crônica do Sapiranga

BOM  DE  LAÇO
Milton Sapiranga Barbosa

Em seu   comentário  sobre a crônica “ Briga Boa”, o meu bom amigo  Ruy Miranda Maia, indagou se eu já  havia postado crônica falando dos  papagaieiros  famosos da  bela época de Macapá  de antigamente, do tempo que  se  podia  dormir  com  as janelas abertas sem medo de ser roubado. Finalizando  o seu  comentário, o  Rubilac (um de seus apelidos entre os moleques da Favela), teve a ousadia de dizer, que se  o  fizesse, contando  quem  era  bom de  “laço”, não citasse meu nome, pois  eu  não era  bom para  estar  entre  eles.

Creio que  deu um branco na  memória de  meu  amigo. Ele esqueceu de  quem

Ruy Miranda Maia, o Rubilac

cortava  as  “curicas”  e as  “cangulas”  dele  e de seus irmãos, rente  o  chão, pois  eles  eram “penosos”,  que   não empinavam  acima  da  fiação   elétrica. Mesmo  assim, empinando  bem baixinho, não  tinha  jeito,  eu  e  o  Dudú da Lindoca, meu parceiro, dávamos  rasantes formidáveis  com nosso  papagaio (cada um dava um laço)   e cortávamos  os  moleques pindurando na mão, termo  usado quando se  cortava o opoente  com  muita linha. No  meu  tempo  de moleque, era  raro  se  avistar uma  “rabiola” no  ar, exceção  feita  pelo seu Jorge, que não  tinha  paciência para  empinar um papagaio normal, que  dirá  um  guinador. A rabiola, ele  dizia, subia  com mais  facilidade   e  com pouco  vento. E  era  verdade. Nos  dias de hoje, o  céu  fica  colorido com dezenas e dezenas de rabiolas  e suas  enormes caudas “rabos”. O  moleque  de hoje  não  sabe   o que é  um papagaio “Vezinho, um Tê, Borboleta, Careta, Caveira, Três Bolas, Xis, Japão” .  Guinador então  nem pensar. Alguns  filhos de bacanas empinavam papagaio  Caixa  e Arraia, que  a gente tinha maior facilidade para  cortar.  Hoje  existem dezenas e dezenas de fabriquetas de rabiolas, até  porque fazer  pipas virou  uma profissão  rendosa, principalmente  durante as  férias  escolares, julho e final de ano, que são os  períodos  reservados para  a referida brincadeira.
Os mini Box, mercearias, botecos  e similares,  ficam abarrotadas de rabiolas nos mais variados padrões. Antes a maioria  da molecada  fazia  sua  cangula, curica ou papagaio, mas o  Guinador,  só  alguns  bambas faziam, pois  tinha que  sair com as talas certinhas na horizontal  e vertical, caso contrário ficariam “pensas” (pendendo para um dos lados, obrigando colocar  um contra peso pra contrabalançar).
Entre os  mais  famosos  papagaieiros que conheci, o melhor  deles, na minha modesta opinião, foi  o MINDODÕ, do Bairro Alto, que  nos  deixou  recentemente. Quando  ele  perdia um laço, coisa  rara, não  se fazia  muita questão do papagaio três bolas que  “chinava”,  o mais importante era  pegar  um pedaço da linha encerada pelo Mindodô, para emendar na nossa  e colocar  no “gargo”. E o moleque só procurava dar laço  roçando na linha do adversário  com o  pedaço da linha do Mindodô.
A linha mais  usada era a  da marca “espingarda” (não fabricam  mais), nos  números 30  e 40, as mais resistentes. A de número 50, menos resistente,  só  era usada para fazer  o  rabo  e  o  peitoral (em duas voltas). Como  nem sempre  tinha dinheiro para comprar  um tubo de linha 30 ou 40, cansei de levar tabefes da dona Alzira, porque  filava  de  sua  máquina de costura  umas  quatro  ou  cinco  braçadas de linha para fazer minhas  curicas, cangulas e papagaios, quando  tinha  entre 8 e 12  anos.

Vevê era papagaieiro respeitado

Além  do Mindodô, conheci outros papagaieiros famosos, como: José de Sena Bastos, Zé Oleiro, Ratão, Macaquinho, Wálter Damasceno, Manoel Paixão, Carlito,  Bereco, Durval, os  irmãos  Silas e Belmar Salgado, Pelado, Dedé, Olavo, Pau Preto,    Dr. Rocha, Dr. Iacy,  Ferramenta, Nossa Amizade, Timbó, Lelé, Izo, Jarbas, Miracy, Érick Lucien  e o Vevê. Sim meus amigos, o primeiro prefeito eleito de nossa cidade, o Raimundo Azevedo Costa, era muito bom de laço. Seu cerol  era  respeitado no bairro alto e  adjacências.
No  bairro da  Favela, o Mário, filho  da dona Lili, era  o campeão, com  seus  papagaios  guinadores,  vermelhos, principalmente quando estava na vantagem e revirava o laço:  estar na  vantagem, significa estar na Jovino e seu oponente no meio do quarteirão da Mendonça Furtado;  revirar a laçada: é levar seu papagaio para a direita e depois retornar pela  esquerda, pindurando (puxar a linha fazendo seu  papagaio pegar pinura ( ir bem alto) no  seio  da linha do  adversário;  Nesse tipo de laço, na maioria das vezes, sempre quem estava na vantagem vencia.
Na brincadeira o grande momento era quando alguém gritava “Lá  se Vem” (quando  o papagaio era cortado e  chinava). Já  quem cortava, gritava na hora; “ Lá Se Poula” ou “Lá se Vai”.
Era regra geral: Pegar  com vara não vale: se pegar, “Guisa”. Mas  tinha uns moleques parrudos  que as vezes quebravam essa regra e  outros que  tomavam o papagaio que um menor pegava. Bem,  aí  era o jeito apelar pra baladeira. Andei inchando costela  de muito moleque na Favela.
Cerol fino era pra  discair (soltar a linha por  cima da linha do inimigo), já o  cerol grosso ou  meio bololo (era para pindurar, já explicado em tópico acima).  Dos vidros para pilar os melhores  eram de magnésia  e de garrafão de vinho, mas também se usava de ampolas, lâmpadas e outros.  Uns sabidinhos, molhavam  papel verde ou papel amarelo e espremiam  no  cerol  e diziam  que era aço do pique ou  aço  do muriate. E a gente temia  enfrentar, pois  eles  diziam que  queimava a linha. Na santa ingenuidade de criança, não pensávamos que, se queimasse, a primeira a ser queimada era de  quem encerava com aqueles ácidos.
Hoje existe muita polêmica sobre empinar papagaio ( pipa) em Macapá, mas no meu tempo  não, se brincava à vontade e éramos tão  felizes.

Lembras

quando o Macapá Hotel era assim?

A sorveteria, com as mesas ao ar livre sobre um piso de cerâmicas pretas e brancas, era o único lugar onde o sorvete era servido em taças e a gente aos domingos, depois da sessão da tarde no Cine João XXIII ou no Cine Macapá,  dizia “vamos tomar um sorvete na taça no Macapá Hotel“. E o sorvete era servido pelo simpático e famoso garçon Inácio.
Na entrada do Hotel, cadeiras de madeira, onde hóspedes e não-hóspedes gostavam de ficar horas recebendo a brisa do rio Amazonas.
Ao lado da entrada, um salão (com portas em arco) que funcionava como sala de reuniões, outras vezes salão de festas da alta sociedade e também  salão de jogos onde o primeiro governador do Amapá, Janary Nunes, gostava de jogar xadrez. Ao lado desse salão,  o Museu Histórico-Científico Joaquim Caetano da Silva com suas coleções de madeiras, óleos, pedras, fitoterápicos, poesias e artes plásticas. Dirigido pelo cientista Waldemiro Gomes que sabia tudo sobre o Amapá e a Amazônia e ainda tocava serrote para os visitantes (sim! serrote, aquela ferramente usada por carpinteiros. Ele tocava usando arco de violino). Mas antes do Museu ali funcionou a primeira agência do Banco do Brasil.
Na última sala, (também com as portas em arco)  funcionava a barbearia do “seu” Aprígio, um dos barbeiros mais famosos do Amapá.
Lembras disso? De que mais lembras? Conta aí na caixinha de comentários vai.