Macapá do meu coração! Por Ray Cunha

Macapá do meu coração!
Ray Cunha

Adelantado de Nueva Andaluzia, assim foram chamadas as terras tucujus, futura Macapá, por Carlos V de Espanha, em 1544, numa concessão ao navegador espanhol Francisco de Orellana. Macapá nasceu de um destacamento militar, instalado em 1738 na Praça São Sebastião, atual Veiga Cabral. Em 4 de fevereiro de 1758, o capitão-general do Estado do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, fundava a Vila de São José de Macapá, e foram surgindo edificações, como a Fortaleza de São José de Macapá.

Amo muitas cidades. Cada uma delas marcou meu coração. Há, contudo, uma que me ilumina, pois é como uma mulher que desejamos por muito tempo e que de repente está diante de nós, nua, aos primeiros raios do sol de julho. Macapá emerge da boca do rio Amazonas avançando na Linha Imaginária do Equador, e quando a cidade nos engole, mergulhamos num mundo prenhe de jasmineiros que choram nas noites tórridas, merengue, a poesia azul da Alcinéa Maria Cavalcante, a casa do Fernando Canto, que recende ao Caribe de Gabriel García Márquez, mulheres cheirando a Chanel número 5 e maresia, o embalar de uma rede no rio da tarde, mapará com pirão de açaí, tacacá, Cerpinha.

Quando entro neste santuário, dispo-me de todas as feridas, e oferto rosas, pedras preciosas e luz, toda a minha riqueza, aos que eu amo, e te chamo, Macapá, de querida!

Sempre me perco em ti, e sempre de propósito, numa vertigem da qual só me recupero em Brasília, dias depois. As viagens que fazemos no coração são vertiginosas demais para a pobre física terrena. A casa da minha infância, cada palavra que garimpei em madrugadas eternas, cada gota de álcool com que encharquei meus nervos, cada mulher que amei nos meus trêmulos primeiros versos, cada busca do éter, nas noites alagadas de aguardente, os jardins da casa da Leila, no Igarapé das Mulheres, o Elesbão, a casa da Myrta Graciete, a casa do poeta Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, o Macapá Hotel, o Trapiche Eliezer Levy, estão para sempre no meu coração, que enterrei na Rua Iracema Carvão Nunes.

Macapá 262 anos – Velha praça

Praça da Matriz em 1935  (hoje Veiga Cabral)

No coreto se apresentavam as bandas de música da Guarda Territorial e do Mestre Oscar. Foi ouvindo estas bandas que interpretavam de forma magistral clássicos da música que muitos casais começaram a namorar e casaram, aí pertinho do coreto mesmo, na bicentenária igreja de São José.

O poeta Arthur Nery Marinho – que veio para o Amapá em 1946 – chegou a tocar  no coreto e relembra a velha praça nesta poesia publicada no livro “Sermão de Mágoa”, em 1993.

Praça Antiga
Arthur Nery Marinho

Velha praça, velha praça,
tenho saudade de ti.
Não da bonita que estás
mas da que eu conheci.

A praça do tio Joãozinho
e do seu Naftali:
o primeiro era Picanço
e o segundo Bemerguy.

A praça do João Arthur
também a praça do Abraão,
a praça que outrora foi
da cidade o coração.
A praça em que se jogava
todo dia o futebol,
esporte que só parava
quando já dormia o Sol.

Parece que isto foi ontem,
mas tanto tempo passou,
o que deixou de existir
minha saudade gravou.
Vejo a barraca da Santa,
vejo ali o ABC.
Há muito tempo não existem
mas a minha saudade os vê.

Da igreja o velho coreto
eu avisto, neste ensejo.
Do mestre Oscar vejo a banda
e lá na banda eu me vejo.

Eu considero um castigo
não apagar da lembrança
o que me foi alegria
e agora é desesperança.

Velha praça, velha praça,
renovaste e linda estás.
Não tens, porém, a poesia
do que ficou para trás.

Programação de aniversário da cidade neste domingo

A programação em comemoração aos 262 anos de Macapá prossegue neste domingo com exibição de filmes, exposição de artes visuais, shows, dança e teatro, além de corrida.

Confira:

Domingo (02/02)
Corrida Cidade de Macapá 262 Anos – Praça Floriano Peixoto:
6h – Corrida;
7h30 – Adail Jr.

Festival Curta Macapá – Mercado Central:
19h – Sem Negativo (Débora Bararuá);
19h30 – Um Filme Bonito de Se Ver (Jhenni Suelen)
20h – Mostra de Curtas-Metragens Livre;
19h às 22h – J. Márcio – exposição de artes visuais.

Festival de Iemanjá – Fazendinha:
15h – Grupo de Capoeira Quilombo Brasil (Aricélio Benjamim);
16h – Grupo Sereia do Mar (Maria Iolete);
17h – Tambores Tucujus (Grupo Cultural Afro-ameríndia);
21h – Afoxé Alaremi (Federação de Cultos Afros Religiosas de Umbanda e Mina Nagô);
22h – Show Encantaria – Mayara Braga;
23h – Trio Bom Ki Só (Grupo de Samba).

Palco Artes Cênicas – Praça Floriano Peixoto:
16h – Cia. de Dança Aguinaldo Santos – um brinde a Macapá;
16h30 – Cia. de Artes e Talentos – dança;
17h – Dança, Vida e Saúde em Macapá (Silvano Santos);
17h30 – Chapeuzinho Vermelho em conspiração do jantar (Márcio Ayres);
18h – Palhaço Mutuca, de Sol a Solo (Jones Barsou – Casa Circo);
18h30 – Se deixar, ela canta (Cia. Cangapé);
19h – Bonequinha de pano (Cia. Ói Nóiz Akí);
19h30 – Curupira: um ser inesquecível (Movimento Cultural Desclassificáveis); 20h – Grupo de Dança Amigos da Toada (Sandro Conceição);

Aniversário de Macapá terá cortejo do Banzeiro do Brilho-de-fogo

Macapá completa 262 anos, e o Banzeiro do Brilho-de-fogo finaliza os preparativos para o Cortejo de Aniversário, dia 4, para comemorar com festa aberta para o público. O desfile da cultura amapaense será logo após a missa, e batuqueiros, mulheres do Cordão das Açucenas, músicos, crianças do Jardim do Banzeiro, artistas e marabaixeiros seguem pelas ruas da cidade até a praça Floriano Peixoto, onde finaliza a apresentação. A programação em homenagem à Macapá é realizada pela Prefeitura de Macapá (PMM). O Cortejo sai da frente da igreja.

O Cortejo do Banzeiro integra os eventos em comemoração ao aniversário de Macapá e interliga com música e elementos da cultura tucuju, a programação religiosa com a cultural. Após a missa na antiga igreja São José, acontece o Encontro das Bandeiras, quando as bandeiras do Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade se cruzam na roda de marabaixo, em alusão ao reencontro das famílias que nos anos 40 saíram do centro da cidade para o Laguinho e Favela. Logo após este momento, o Banzeiro dá início ao Cortejo, acompanhado da população, que segue acompanhando o repertório com músicas que cantam a cidade, até a praça Floriano Peixoto, onde diversos artistas se apresentam durante todo o dia.

Banzeiro
O projeto Banzeiro do Brilho-de-fogo é uma criação de artistas e militantes da cultura, que em 2014 se organizaram para planejar o que é hoje, um forte movimento de preservação da cultura macapaense, que reúne pessoas de todas as idades que aprendem a tocar caixas de marabaixo e sobre as tradições locais, com descendentes de pioneiros e de famílias tradicionais. Crianças, jovens, adultos e idosos, participam das oficinas, e se preparam para os cortejos, seja como batuqueiro, dançadeira do Cordão das Açucenas, e se for criança, no Jardim do Banzeiro.

Homenagens
Neste ano duas personalidades serão homenageadas pelo Banzeiro do Brilho-de-fogo, a artista Oneide Bastos e Dida Lima. Oneide é cantora amapaense com uma carreira que rendeu discos e shows, no Amapá, outros estados e países. Mãe de filhos igualmente talentosos, como Paulinho e Patrícia Bastos, ela é batuqueira do Banzeiro, participa dos ensaios e dos cortejos, com a mesma dedicação dos iniciantes. Irenilza Lima, a Dida, também recebe homenagens do Banzeiro. Ela professora, quituteira e batuqueira veterana, está desde o primeiro Cortejo, e junto com a mãe, que é açucena, a filha e dois sobrinhos, batuqueiros, fazem parte do projeto Banzeiro.

A concentração para o Cortejo é às 8h, próximo da antiga Igreja Matriz de São José, e a saída será após o Encontro das Bandeiras, pela avenida Mário Cruz, segue pela rua Cândido Mendes, percorrendo outras vias do centro, até a Floriano Peixoto. Onde estará armado o palco para shows musicais com artistas amapaenses.

(Texto: Mariléia Maciel – Fotos: Kallebe Amil)