Entardecer

Entardecer

Te  prometo, Poeta,
que no próximo entardecer
vou pintar um arco-íris
para deixar tua tardezinha
menos triste.

Hás de sentir que o entardecer
pode ser tão belo
quanto o alvorecer
que ilumina teu rosto
e abre sorrisos no teu olhar.

Presta atenção, Poeta,
o entardecer
é o momento solene
no qual Deus apaga o sol
para acender a lua e as estrelas
Principalmente aquela estrela
que tanto te encanta
quando estás
tecendo sonhos
e versos na madrugada.
(Alcinéa)

Explicação

Explicação

Vivo do ato de escrever
sobre tragédias
e espetáculos
sobre o candidato vitorioso
e o derrotado
sobre o deputado corrupto
e o governante que finge ser honesto
sobre a exportação da mandioca
e a importação da farinha
sobre a fome e a riqueza
sobre o real e o dólar.

Perdoa-me, Anjo.
Não sobrou tempo
para escrever
um poema de amor.

(Alcinéa Cavalcante)

Musical

Musical

Depois do show
quero descansar a cabeça
no teu ombro
no teu braço
no teu peito
e sonhar
para que a canção
não fique apenas na brevidade
desta noite
mas se eternize em nós.

(Alcinéa)

Vem, amado

Vem, amado

Vem, amado meu,
enquanto existem borboletas amarelas
e um beija-flor
beija a flor
que Deus plantou no meu jardim.

Vem, amado meu,
enquanto o vento brinca com as nuvens
criando códigos
que só nós dois sabemos decifrar.

Vem, amado meu,
enquanto há risos de crianças
e a tarde está pintada de ternura.

Não demores, amado meu,
Pois o meu amor é breve
como esta louca vontade
de sair bailando contigo pela vida.

(Alcinéa Cavalcante)

Chá da tarde com J.G. De Araújo Jorge

LIBERDADE
J.G. De Araújo Jorge

(20/05/1914 — 27/01/1987)

A liberdade é o meu clarim de guerra
e eu sou, no meu viver amplo e sem véus,
como os caminhos soltos pela terra,
como os pássaros livres pelos céus.

Ela é o sol dos caminhos ! Ela é o ar
que os enche os pulmões, é o movimento,
traz num corpo irrequieto como o mar
uma alma errante e boêmia como o vento.

Minha crença, meu Deus, minha bandeira,
razão mesma de ser do meu destino,
há de ser a palavra derradeira
que há de aflorar-me aos lábios como um hino.

Liberdade: Alavanca de montanhas!
Aureolada de louros ou de espinhos
há de cingir-me a fronte nas campanhas,
há de ferir-me os pés pelos caminhos.

Sinto-a viva em meu sangue palpitando
seja utopia ou seja ideal, – que importa?
Quero viver por esse ideal lutando,
quero morrer se essa utopia é morta !

Chá da tarde com Alessandra Del’Agnese

Memórias da minh’alma
Alessandra Del’Agnese*

Para escrever, basta-me a alma ,
A ditar sentimentos, memórias
Desengavetar lembranças,
Amores, e saudades

Um diálogo próprio
De irmã mais velha,
Moderando valores,
A tripudiar os amantes

Minh’alma é quem ordena
De sentir a natureza,
Mergulhar nas profundezas
A liberdade de sentir
De querer não ter fim

Alma de poeta, amante
Do inavegável mar
Das torrentes ondas
Que me jogam de um lado ao outro
Dos amores novos, antigos são
Eternos, ficam nos trajetos,
Nos rabiscos de poemas e fados

Ah!! Alma amiga, irmã de laço
Nas peleias e nos bálsamos
Das migalhas fizemos o pão
Divino, juntamos os pedaços
Tecemos o manto sagrado
Dos amores, e descasos

Arco que sou d’alma
Flecha ligeira, lançada
Ao tempo, penetrou a tua alma
Num instante derradeiro
A alma se fez por inteiro
Dissolvida na tua alma
Do amor um mensageiro.

Eu, tua alma, um fragmento.

Alessandra Del’Agnese* é gaúcha, mudou-se recentemente para  Macapá. É conceituada chefe de cozinha e uma grande poeta. “Sou chefe de cozinha, a minha alquimia.
E escrever  poesia é a vestimenta da minha alma. Então posso dizer que tenho e sou agraciada pela sensibilidade do divino”, diz.
Ela criou um podcast para recitar suas poesias e de outros poetas. Acesse e se encante aqui

Carta

Carta
Alcinéa Cavalcante

Se eu tivesse o teu endereço
eu te escreveria uma carta
numa folha de papel almaço.

Minha caneta verde
deslizaria no papel
te colocando a par das novidades daqui
e te contando que quando chove
sinto uma saudade danada de ti.

Não sei se sabes
mas aqui
continua chovendo todos os dias.

Ele

Ele
Alcinéa Cavalcante

Ele veio sem pressa
Caminhando entre estrelas
parando aqui e acolá
para orvalhar uma ou outra roseira.

Quando chegou
tinha os cabelos molhados de luar
e no bolso esquerdo
um raio de sol
que depositou nas minhas mãos
com tanta ternura
como quem deposita um beijo.

Por isso
acordei
com este brilho no olhar.