Sem Mandamentos

Sem Mandamentos
Osvaldo Montenegro

Hoje eu quero a rua cheia de sorrisos francos
de rostos serenos, de palavras soltas,
eu quero a rua toda parecendo louca
com gente gritando e se abraçando ao sol.
Hoje eu quero ver a bola da criança livre
quero ver os sonhos todos nas janelas
quero ver vocês andando por aí.
Hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse
eu até desculpo o que você falou
eu quero ver meu coração no seu sorriso
e no olho da tarde a primeira luz.
Hoje eu quero que os boêmios gritem bem mais alto
eu quero um carnaval no engarrafamento
e que dez mil estrelas vão riscando o céu
buscando a sua casa no amanhecer.
Hoje eu vou fazer barulho pela madrugada
rasgar a noite escura como um lampião
eu vou fazer serenata na sua calçada
eu vou fazer misérias no seu coração.
Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
para escrever a música sem pretensão
eu quero que as buzinas toquem flauta doce
e que triunfe a força da imaginação.

Chá da tarde

Dedução
Maiakóvski

Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.

Chá da tarde

Tão-somente as reticências
Acyr Castro

Há que evitar a lentidão do meio da semana.
Fugir da nostalgia. Esquecer dores e ais.
Não pensar na tristeza nem na estrela lá no alto.
Ler nos jornais apenas a boa nova,
o obsoleto, o que não fere mais.
Nada de exumar melancolias ou saudades;
ficar ao léu, afastado vento.

Permitir da vida só as reticências.
E matizar o vácuo, distante do lembrar.
Fazer do pensar tão-só uma sonata,
sem remorsos.
A solidão uma jornada a olvidar
e, passageira, a escrever.

Cantiga para Mario Quintana

Cantiga para Mario Quintana
Paulo Mendes Campos

Sei lá porque eu canto!
Nem sei se é canto… ou espanto…
Talvez cante sem querer…
Talvez pra ver… ou não ver…
Ou viver… ou reviver…
– Eu não tenho o que fazer!

O anel de vidro

O anel de vidro
(Manuel Bandeira)

Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
-Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou –
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo na alma a saudade celeste…
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste…

Sábado de poesia, afeto e amigos

O sábado foi de poesia ternurando a tarde de céu azulzinho e espalhando lirismo na noite enfeitada por uma Lua Cheia e pelo planeta Marte.
Um belíssimo sarau, com poetas amapaenses e paraenses, foi realizado na Biblioteca Pública Elcy Lacerda e continuou no pátio da minha casa.
Presença ilustre do poeta Antônio Juraci Siqueira, considerado um dos maiores trovadores do Brasil e autor de mais de cem livros.

A estrela – Manuel Bandeira

A estrela
Manuel Bandeira

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?
E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

Manhã à Janela – T. S. Eliot

Manhã à Janela
T. S. Eliot

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das bordas pisoteadas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.
As ondas castanhas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.