Chá da tarde com Mauro Guilherme

História de rio
Mauro Guilherme*

Um rio cortando a tua cidade,
o teu amor,
o teu destino.
Um rio só,
um rio grande,
que te faz pequenino.
Um rio de águas turvas e perigosas
– cuidado para não te afogares -,
que te causa medo e fascínio.
Um rio da lua,
um rio do sol,
olhando para ti desde menino.

*Mauro Guilherme é promotor de Justiça, músico, escritor premiado, autor de mais de dez livros de poesias, contos e romances; organizador de várias antologias.  (Leia mais sobre Mauro Guilherme aqui)

 

Por ti

Por ti

Gosto de ser assim
: livre.
Sem relógio
sem telefone
sem hora de partir
ou de voltar.

Gosto de ser assim
: livre
De não dizer
estou aqui
vou ali
irei acolá.

Gosto de ser assim
: livre
Sem hora marcada
pra dormir
acordar
comer
passear
cantar
trabalhar.

Mas
se me quiseres
compro um relógio
e um celular
organizo o tempo
e até aprendo a cozinhar.

(Alcinéa Cavalcante)

Carta

Carta

Se eu tivesse o teu endereço
eu te escreveria uma carta
numa folha de papel almaço.

Minha caneta verde
deslizaria no papel
te colocando a par das novidades daqui
e te contando que quando chove
sinto uma saudade danada de ti.

Não sei se sabes
mas aqui
continua chovendo todos os dias.

(Alcinéa Cavalcante)

Chá da tarde com Manoel Bispo

Origami
Manoel Bispo*

Pássaro azul, de papel mil vezes redobrado
por mãos de fadas no artesanal e terno invento
pássaro de planuras leves e canto quebrado
ave-arte, cujo voo paira no vagar do intento.

Quantos planos afloram entre as dobraduras
legiões de ângulos rasos como se escondidos
nos ninhos feitos dessas mesmas linhas puras
que a geometria acha nos seus elos perdidos.

Dobrar até a bela formatura sair do abstrato
e o imaginário coração de pássaro disparar
como dispara o coração de Goya no retrato

E, se faltar alguma dobra na ave dita e feita
que não seja o caso de medir ou comparar
posto que é ponto sabido: não há dobra perfeita!

*Manoel Bispo é professor, músico, artista plástico, autor de vários livros, organizador de diversas coletâneas, ex-presidente do Conselho Estadual de Cultura, ex-diretor da Escola de Arte Cândido Portinari; ex-presidente da Fundecap (atual Secult). É membro da Academia Amapaense de Letras

Paisagem Antiga

Paisagem Antiga

Quero de volta a paisagem antiga da minha rua
com suas casinhas brancas cobertas de palha
gamela no jirau
fogão de barro na cozinha
e passarinhos no quintal.

Quero de volta aquela paisagem antiga
com a casa avarandada do Mané Pedro
e a casa sem pátio da Maria Banha.
Os meninos de pés descalços
jogando bola na rua sem asfalto
e as meninas de sapatinho branco
brincando de roda.

Quero de volta a paisagem antiga da minha rua
com minha casa de venezianas cor de rosa,
minha mãe no alpendre
bordando flores nos lençóis
e minha avó rezando o terço.

Quero de volta a paisagem antiga da minha rua
só pra sonhar de novo
os sonhos que sonhei na infância
quando o mundo era feito só de amor
e todos sabiam viver como irmãos.

(Alcinéa Cavalcante)

Chá da tarde com Luiz Alberto

Reminiscência
Luiz Alberto Costa Guedes*

Quando ouvires de alguém
um verso lindo falar de amor;
quando receberes de alguém
toda ternura num buquê de flores;
quando sonhares que alguém,
num frenesi apaixonado,
te abraça e te beija com ardor;
quando sentires que, de todo sonho,
apenas saudade foi o que restou;
quando olhares à amplidão etérea
e te extasiares com o luzir constante;
quando no mar o rebrilhar das águas
refletir a tua imagem linda;
quando as flores pelos prados,
a passarela pelos bosques,
mais bela te tornarem a vida,
verás que todo passado
se tornará presente.
Então, teu coração em festa
recordará de alguém
que te amou intensamente!

*Luiz Alberto da Costa Guedes é professor, sociólogo, pesquisador, membro da Academia Amapaense de Letras e da Associação Amapaense de Escritores