Crônica do Sapiranga

Contrário tá na porteira
Milton Sapiranga Barbosa

Desde  há  várias  décadas passadas, sempre   que se aproxima  à  época junina, no  sexto mês  do ano, sou  envolvido por uma forte  dor no peito, num misto  de  tristeza  e saudade.  Tristeza, por ver que  hoje  em dia já não se  brinca  mais  quadrilha  como  antigamente. Saudade  de  quando  as  quadrilhas obedeciam  ao comando  de  um marcador, com seus  gritos de “ lá vem chuva ” , a turma ameaçava correr e ele gritava, “é mentira”: “ olha  a cobra ”, a turma pulava e ele voltava a dizer:” é mentira”, e  assim  ia comandando  seus  brincantes . Hoje as quadrilhas são estilizadas, usam  roupas  luxuosas e dançam ao  som  de músicas  ditas “bregas”(nada contra os fãs de Reginaldo Rossi).

A  saudade  se  faz mais  presente,  e  doi mais forte, é  quando me lembro  do  meu  tempo  de moleque na Favela, das  apresentações do  “ Bumba –Meu- Boi” (bailado popular cômico-dramático, com personagens humanos, animais e fantásticos, sobre a morte e ressurreição do BOI),com suas  catirinas, caçadores, vaqueiros, pajés , etc, etc…

Era bonito  ver   o  Boi do Tio Maçarico se apresentar (Tio Maçarico morava numa imensa área atrás do Glicério Marques, onde  hoje, entre outras, ficam as casas do Orlando Barbeiro e dos pais  do Adelmo Caxias e parte da av. Antonio Coelho de Carvalho).  A maior  disputa  era  entre os Bois  do Tio Maçarico   e   do Tio Julião ( policial GT que morava  na Almirante Barroso, onde  hoje fica a casa do amigo Orlando Santana. Ele era meu padrinho de fogueira). Mas  eu torcia pro Boi do Tio Maçarico vencer.

Um outro  boi  famoso daquela  época,   vinha  lá das bandas do laguinho para disputar  com  os  da Favela e era  comandado por  outro  Julião, o Mestre.

Os  duelos  entre  esses três bois eram  sensacionais, divertidos  e ansiosamente  esperados  pela  população. Cada boi  tinha  sua  leva  de  simpatizantes, que  faziam a maior festa, batiam palmas e soltavam foguetes  quando  seu  boi  preferido  entrava   no   campo da disputa para fazer a  sua exibição.
Naquele tempo (ô saudade danada que me faz chorar), a família  que quisesse  que um boi se apresentasse em frente a  sua residência, bastava garantir o café para os assistentes  e muita birita para os brincantes.  Lembro  que  por  causa da  água que passarinho não bebe, muitas das vezes, quem dançava embaixo do boi, ficava tão porre que não conseguia  ressuscitar  o “bicho”. O Pantera  foi um deles, pois fizera uma prateleira na parte interna da armação do Boi pra guardar a garrafa de Canta Galo e bebeu tanto, mas tanto , que só levantou no outro dia.  Além da  representação  da morte do boi  e a luta  do pajé  para  salvar    o animal do patrão,  o ponto alto da brincadeira, que levava  o público  ao  delírio, era  quando  começavam os desafios das  cantorias .
Ainda hoje lembro ( e não canso de agradecer a Deus  por  essa memória privilegiada) de trechos  dessas  cantorias.  Juro a vocês, até me parece  ver  nitidamente  a figura imponente do  Tio Maçarico, no  meio do  terreiro de seu  quintal,  devidamente  paramentado, cantando  em provocação  ao  boi  do Tio Julião da Favela.

Ele  entoava  assim:
Contrário tá na porteira/ Não deixa ele entrar/
Ele veio aprender toada/ Pra cantar no boi de lá

E em cima da bucha ouvia  em  resposta :
Contrário já tá entrando/ com suas próprias toadas/
Prepara logo teu boi/ pra levar umas lambadas

E a cantoria  seguia  por horas e horas, noite  a dentro,  para deleite  da grande platéia  que presenciava  o desafio, e que  ria e  batia palmas  a cada  provocação  de um  e  da resposta do outro.
Depois  que Tio Maçarico, o Tio  Julião  e  o Mestre  se foram para outro plano, as  brincadeiras dos Bois Bumbás (Bumba Meu Boi)  foram  morrendo aos poucos.

Um Oleiro, que  morava na maloca (área de terra existente na Mendonça Júnior, entre Jovino  e Odilardo), chamado de Mestre Júlio,   por  alguns  anos, talvez quatro no máximo,   com  seus  próprios recursos e a ajuda de seu filho Zé Oleiro, ainda tentou  manter  viva a tradição do Bumba Meu Boi em Macapá, mas sem apoio  dos poderes públicos e sem concorrência, teve  que  entregar os  pontos
E aí  sim, o Boi morreu,.
E não teve pajelança que  o fizesse  ressuscitar.
Uma pena

Crônica do Sapiranga

BATE LATA
Milton Sapiranga Barbosa

Um  dia, passando em frente a uma  residência localizada na  avenida  Pedro Baião, no bairro do Trem,  deparei-me  com uma cena que  há muito não via.  Lá,  um  senhor, aparentando ter entre 85 e 90 anos de  idade, proseava  com um garoto de  8 anos de idade. Curioso, freei  a bike,  fingindo verificar algum problema em um  dos  pneus, pois queria ouvir o que  a  dupla conversava.
O senhor idoso  contava ao garoto sobre casos de assombração que vivera em  sua juventude, em andanças pela  mata fechada,  realizando   caçadas noturnas. O  menino  ouvia atento, mostrando ao mesmo tempo em seu semblante, admiração  e medo.

Sai  de lá lembrando  as  histórias que  os  queridos  pretos  velhos de minha  infância  contavam, entre eles, tio Congó, Antonio Cirino,  Bulivino, Pirico, Félix, Zeca Caiano,  as  Antônias  Duarte e Mangabeira, os  irmãos Casemiro, Bernardo e Margarida, dona Juliana, (mãe  desse trio)  e  tantos outros, que  cercados por  dezenas de moleques da Favela, contavam  histórias maravilhosas   e  em  sua  maioria, assombrosas.  Em algumas delas  eles  diziam de pessoas, que  em noite de lua  cheia se  transformavam  em animais, geralmente  porcos, que  vagavam    pela  cidade  em busca de  crianças  choronas, desobedientes  e também aquelas que não gostavam de  estudar  e/ou de  tomar banho.
E nos ouvíamos  atentos, sem piscar.  E o pior, acreditávamos. Eles  também contavam  que  durante  um  eclipse,  todo mundo  tinha  que  fazer  muito barulho para  não  deixar a Lua  dormir, pois  se  ela  adormecesse as  crianças  iam nascer defeituosas, as  galinhas  deixariam de por ovos,  os  cabritos não mais berrariam, a cachaça ficaria  envenenada, o mundo  acabaria. Aliás, que  eclipses solares  e lunares, no tempo  de antigamente, eram  reportados como  maus presságios  e causavam sustos  ao  acontecer.

Sempre  que  ocorria um eclipse  lunar (ocorre quando a Lua e  o Sol  ficam em lados opostos da terra), a boa  e velha  Macapá   era  sacudida  por  um  BATE LATA infernal, com  crianças, jovens e adultos  percorrendo ruas e avenidas batucando  sem parar, no Centro, Trem, Laguinho, Favela, Igarapé das Mulheres.
Tudo  que  fazia  barulho  era usado pela população tucuju. Podia ser lata, panela, frigideira,  ferro  com ferro, não importava. Só não podia  deixar  a lua  nem ao menos  cochilar, quanto  mais  dormir, pois aí seria  o caos, o mundo acabaria.
Depois  que  o  eclipse  terminava, devolvendo o  brilho e  o maravilhoso luar  da  lua cheia, era aquela  festa. Todo mundo pulava, se abraçava, soltava fogos, pois para a alegria de todos, a lua  continuava acordada. Depois que o  eclipse terminava, tinha até quem se gabava  de ter feito  mais  barulho , achando-se  o mais  responsável pelo  despertar do  satélite da terra.

A minha mãe, Dona Alzira, contava que em maio de 1947, eu  então com  2 anos, um  eclipse total  do sol (só ocorre na fase da Lua Nova, quando a Lua se interpõe entre o Sol e a Terra), deixou todo mundo apavorado em Macapá. Foi uma loucura. Em plena 10 horas da manhã, o  dia virou  noite . Escuridão total. Todo mundo se abraçando e chorando, pensando ser aquilo um aviso de Deus que  o mundo ia acabar.
Dizia ela que  o Bate Lata para despertar o astro  rei foi intenso, quase ensurdecedor. Até tiros de espingardas para o alto foram  disparados. Os velhos canhões  da Fortaleza de São José também troaram por  várias  vezes. No fim de alguns minutos, todos  sorriam felizes, o mundo não acabara,  afinal o sol voltara  a brilhar intensamente para todos e assim  está até hoje.

Bons  tempos e de muita felicidade na Macapá  de outrora. Como  era  divertido o BATE LATA na cidade, em  especial, na minha  querida  e amada FAVELA.

Daquele tempo de bate lata, ainda estão por aí muitos amigos e conhecidos, entre os quais, Adelmo Caxias,  Mauro Vilhena, Arideu Dias, Zuleide Farias,  Barata, Paulo Armando, Moacir, Alcinéa e  Alcione Cavalcante, Pilão, Carrapeta, etc…

PS: Todos os outros  que   fizeram barulho para acordar a lua, e que  não tiveram seus nomes  citados na crônica, sintam-se  também  lembrados e homenageados.

Você bateu lata? Então comente aí!

Crônica do Sapiranga

Banheiro público faz uma faaaaaaalta!
Milton Sapiranga Barbosa

No  meu último  dia  de trabalho na Rádio Difusora de Macapá, no   dia  6 de janeiro de 2011, depois de 6 meses de  contrato com a velha  boa, quando  o  relógio marcava 12 horas,  me dirigi  a  direção do departamento comercial  e junto a dona Elizamar, prestei  conta do movimento  financeiro da manhã, isto é, do  arrecadado  com as mensagens e notas que  seriam  divulgados no Alô Alô  Amazônia daquele  dia.
Cumprida  a obrigação, saí  às  pressas do prédio da emissora, pois por  ser muito emotivo,  sou  avesso a  despedidas, já que me emociono e choro com muita  facilidade.  Meu  retorno  para  casa, como  fiz, na maioria das vezes,  durante os 6 meses, tanto na ida como na  volta,   foi  pela  avenida  Beira Rio,  apreciando a beleza do majestoso Rio Amazonas.
Quando  já  estava passando  em frente a Igreja Santa  Inês, do Bairro do mesmo nome, tive que  apressar  minhas  pedaladas, pois  comecei a  sentir  fortes dores  e  aquela necessidade urgente  e  desesperada de  encontrar  um  sanitário  disponível, onde pudesse  me aliviar da tremenda dor de barriga que me acometera, acho que  devido a suculenta  feijoada  traçada  na  noite  anterior.
Nessas horas de aperreio qualquer local ermo, construção abandonada, uma moita  ou uma grande pedra, onde  possa se esconder, serve  para  você  se  desapertar. Olhava para um  lado, para outro  e nada de avistar um   local para desalojar o barro  que  ameaçava vazar a qualquer instante.
Pensei  em procurar  um local deserto  onde pudesse  descer  a praia  e de cueca  entrar na  água  e  fazer o  serviço. Contudo, o  movimento de pessoas, lanchas  e carros pela orla, não me permitiam  ficar de cuecas, além do que, eu, pensei melhor, e   não  quis mais    aumentar  a  poluição fecal  do  Rio Amazonas, aliás, exemplo este,  que poderia ser seguido por  centenas e centenas de ribeirinhos e pessoas  que tomam banho  ou  singram  em suas  águas  nas    suas embarcações.
Naquele  sofrimento, mais  e mais pedalava  e não  via nenhuma residência  de  um  conhecido,  ao  qual eu pudesse  pedir  socorro. Afinal não  estava  em um  bairro  antigo da  cidade, como Trem, Laguinho, Favela, Perpétuo Socorro, Pacoval, Santa Rita, onde  sempre encontro algum  amigo ou  conhecido de infância. Pensei, com a  onda de violência que assola nossa Macapá  de Norte a Sul, de Leste a Oeste, se batesse em uma  residência  situada ao longo do percurso, certamente não  seria  atendido, já que as pessoas  temem ser  assaltadas, mesmo  estando  no  recesso do lar, cercado por  grades, de tão  perigoso que está  de viver  em Macapá  hoje  em  dia. No  meu  pedalar desesperado em  busca  de  uma  “retrete”,  e  que me veio a  lembrança: “ Banheiro Público”.

Se  ainda  existisse,  seria  fácil  me livrar daquele incômodo que ameaçava sujar-me  a  cueca, a calça e parte do corpo. Se  os  Banheiros Públicos  não  tivessem sido  destruídos, eu  teria subido  pela  av. Pedro Baião, entrado na  rua Feliciano Coelho, para usar  o  Banheiro Público do Bairro do Trem  e  em  seguida  poder exclamar  feliz: “Ufa, que  alívio!”

Este prédio era o Banheiro Público do bairro do Trem – Av. Feliciano Coelho

É pessoal,  até   então   eu  não  tinha  me  dado  conta de quanta  falta  faz  um Banheiro Público. Eu, que  no  meu  tempo de infância  e adolescência, podia  dispor de três, um no Centro, outro no Laguinho e  no Trem,  para tomar  um  banho após a bola   ou  fazer uma necessidade fisiológica, hoje não encontro  mais nenhum. E  tenho  certeza, jamais voltaremos a  ter esses  logradouros em nossa  Cidade. Criaram os  banheiros químicos, mas você  só os  encontra  em  dias  de grandes  eventos.
Só  que  o  aperreio pelo qual passei  não  acontece só nos dias  de  Micaretas, Feiras  e outros acontecimentos festivos. Pode vir a qualquer momento, em qualquer local, quando você menos  espera. E  tome  sufoco. O  bom disso  tudo, é  que  consegui, acho até que, batendo  o recorde de velocidade para  um velho de 6.5 anos de idade , e inveterado  fumante, ainda por cima, chegar  em casa  na hora H, e puder  me  aliviar daquela  tremenda  pressão  e  medo de cagar em  cima da  Bike.
AH, SIM! Que nenhum de vocês passe pelo que passei naquele 6 de janeiro. Pois, mesmo não sendo da minha época de moleque, vai sentir o quanto faz falta um Banheiro Público.

Crônica do Sapiranga

AGORA PODE!
Milton Sapiranga Barbosa

Como nasce um  apelido? Até  hoje não  apareceu nenhum  estudioso que pudesse explicar, com  exatidão, a origem do apelido.
Quem foi a primeira pessoa a ficar conhecida por  uma alcunha?
De receber   apelido  nem  Cristo escapou. Lembrem-se que  na cruz  em que Ele foi  crucificado, acima de  sua cabeça colocaram uma tábua  onde se lia; “INRI”,-traduzindo: Jesus Cristo, o Rei  dos Judeus.
Grandes figuras da  história  receberam apelidos, uns exaltando  façanhas de guerra, atos heróicos ou de maldade, como Alexandre  ( o Grande), Átila,  o   Huno-  Flagelo de Deus  ou Praga de Deus).

Existe   até  competição entre Cidades para saber  qual  é a campeã dos apelidos.  Cametaenses  e Vigienses, chamam, cada um  para si esse título, mas ninguém se arrisca  a dizer  qual  das  duas  é  na verdade  a  cidade  dos  apelidos.

O meu amigo Carrapeta, cametaense da gema, sempre que nos  encontramos  no sábado à tarde, narra fatos  hilariantes sobre como nasce um apelido. Narra ele que; “ Uma senhora, todos os  dias  ia  para a  roça  e deixava  sua  filha em casa,, levando   um   sua  companhia   o  genro  e  o  neto.  Certo dia o neto escutou  gemidos  roucos vindos  do meio  do  mato, foi  olhar  e o que  viu o deixou  apavorado. Seu pai  estava por cima de   sua   avó, que se contorcia toda. O moleque saiu então  em disparada  para ir  avisar  sua  mãe que  seu pai  estava matando  sua  vovozinha. A noticia vazou e a  partir daquele  dia seu genitor ficou  conhecido na cidade por: “ NÃO MATA A VOVÓ”.

Para  defender a  Vigia, lembro   do  saudoso  amigo Suzete, pelhudo de quatro costados,  que  contava; “ Um juiz que fora destacado para  Vigia, sabendo antecipadamente da fama  da população  em colocar apelidos, fez  todo mundo  saber que duvidava que alguém tivesse coragem de lhe apelidar. Esse juiz tinha um problema na perna direita. Dava um passo  com a  esquerda  e puxava a direita de  encontro a primeira, provocando  aquele barulho  de ordem unida, batendo  um sapato de encontro ao outro quando  o instrutor grita  ALTO. Um  dia ao passear pela  cidade   encontrou um  senhor no alto de uma escada pintando  e  deu bom  dia. No ato  recebeu a resposta do velho gozador vigiense; “Bom  dia seu TRANCA  E CHUTA”.  Era o que faltava, daquele  dia em diante  o Meritíssimo, passou a ser soado por todos pelo apelido de Tranca e Chuta. Os moleques gritavam e corriam, os adultos chamavam e se escondiam.. Segundo o Suzete, ele não  demorou muito por lá.

Muita gente já morreu e matou por causa de um apelido. Nos meios jurídicos, dizem que  durante um julgamento, o advogado  pro réu, iniciou  a defesa  de seu  cliente repetindo quatro vezes  a frase; “Meritíssimo  Juiz, quero dizer a Vossa Excelência e ao corpo de jurados que”. Só falava isso. Dava uma pausa e repetia:  Meritíssimo…! Até que  na  quarta  vez, o juiz irritado falou: “ Ou o senhor concluiu logo  seu pensamento ou serei forçado a suspender  a sessão”.
De imediato o advogado retrucou, dirigindo-se aos jurados. Vejam senhores, por apenas  quatro vezes, só  quatro vezes, tratei o presidente deste  júri com o maior respeito, tratando-o por Vossa Excelência e ele  ficou irritadíssimo.
Agora, imaginem o estado de meu  cliente, que por  20 anos foi humilhado, na frente de todos, sendo chamado de  Cara de Cavalo!
Os jurados, contam, absolveram o  réu por unanimidade.

Quem de vocês não  conhece uma pessoa apenas pelo apelido? Quem de vocês não  foi apelidado  ou apelidou um  conhecido, de infância, escola ou trabalho?
Se alguém se  declarar isento, vou custar a acreditar, até  prova  em contrário.

Eu, quando  criança, ganhei de um amigo um apelido que  me fez brigar muito, balar  e apedrejar muito moleque, quando não  conseguia  chegar junto e partir pra  briga.
O  odioso apelido em questão é BUNDA DE XERIFE.

Vou logo  afirmando que não tem nada de imoral  e aconteceu  assim:  Numa manhã qualquer da  semana, a turma da Favela  estava  reunida no vão entre a Sapataria do seu Barbosa e a Carvoaria Positiva do seu Manoel Cardoso.  Por um desses acasos do destino, eu que sempre chegava na frente, fui o  último a  chegar no local, pois antes precisei encher com  água um barril de 200 litros, pois se não o fizesse, nerusca de sair  para brincar. Ao  chegar junto aos meus  colegas fui logo dizendo: hoje  eu  vou ser  o Rocky Lane. Mas um outro moleque já havia se apossado do nome. Dalí em diante  fui desfiando um  rosário de nomes de artistas das histórias em quadrinhos e do cinema: Gene Autry, um gritava, sou  eu. Búffalo Bill. Esse  sou  eu, dizia  outro. E assim foi. Durango Kid, Flexa Ligeiro, Zorro, Tonto, Monte Hale, Bill Dinamite, Randolf Scott, Jesse James,  Kid Colt, Tex Riter, Hopalong Cassidy, Roy Rogers, Cavaleiro Solitário, Cavaleiro Negro, Kid Carson. Todos esses  nomes  e mais  alguns  já haviam  sido  escolhidos. Até  o Zorro Espadachim, no  cinema interpretado por  Errol Flyn,  pertencia ao Isnard Lima, que possuía o uniforme completo do  referido personagem.
Sem  poder  me  apropriar do   nome  de um  dos  meus  heróis, pronunciei a frase  que  iria  me provocar muita  raiva, por anos e anos.  Falei em alto e bom  tom: “Já que todos os artistas estão escolhidos só me resta ser o xerife!”   O  Lelé, que  estava sentado, escorado na  parede da carvoaria, e que  até  então se limitava a traçar  riscos  no  chão, parou o que  fazia, levantou a cabeça e pronunciou pausadamente, como  que para marcar a frase: “ Tu não és nem a bunda do xerife! Foi o bastante. O  apelido Bunda de Xerife  pegou na hora e  por  causa dele briguei muito.
É que naquele tempo  eu não sabia que não se deve  ligar para apelido. Agindo assim  não pega, mas se você se  aporrinhar, aí   é que a turma  pega no  pé  pra valer.
Hoje, alguns  amigos, como  o Lelé, Percival, Izo, Hamilton, Haroldo Vitor  e  alguns  mais, ainda me  chamam de Milton Bunda ou Bunda de Xerife.

Bom, mas AGORA  PODE. Não brigo e nem balo mais ninguém.

Crônica do Sapiranga

BOM  DE  LAÇO
Milton Sapiranga Barbosa

Em seu   comentário  sobre a crônica “ Briga Boa”, o meu bom amigo  Ruy Miranda Maia, indagou se eu já  havia postado crônica falando dos  papagaieiros  famosos da  bela época de Macapá  de antigamente, do tempo que  se  podia  dormir  com  as janelas abertas sem medo de ser roubado. Finalizando  o seu  comentário, o  Rubilac (um de seus apelidos entre os moleques da Favela), teve a ousadia de dizer, que se  o  fizesse, contando  quem  era  bom de  “laço”, não citasse meu nome, pois  eu  não era  bom para  estar  entre  eles.

Creio que  deu um branco na  memória de  meu  amigo. Ele esqueceu de  quem

Ruy Miranda Maia, o Rubilac

cortava  as  “curicas”  e as  “cangulas”  dele  e de seus irmãos, rente  o  chão, pois  eles  eram “penosos”,  que   não empinavam  acima  da  fiação   elétrica. Mesmo  assim, empinando  bem baixinho, não  tinha  jeito,  eu  e  o  Dudú da Lindoca, meu parceiro, dávamos  rasantes formidáveis  com nosso  papagaio (cada um dava um laço)   e cortávamos  os  moleques pindurando na mão, termo  usado quando se  cortava o opoente  com  muita linha. No  meu  tempo  de moleque, era  raro  se  avistar uma  “rabiola” no  ar, exceção  feita  pelo seu Jorge, que não  tinha  paciência para  empinar um papagaio normal, que  dirá  um  guinador. A rabiola, ele  dizia, subia  com mais  facilidade   e  com pouco  vento. E  era  verdade. Nos  dias de hoje, o  céu  fica  colorido com dezenas e dezenas de rabiolas  e suas  enormes caudas “rabos”. O  moleque  de hoje  não  sabe   o que é  um papagaio “Vezinho, um Tê, Borboleta, Careta, Caveira, Três Bolas, Xis, Japão” .  Guinador então  nem pensar. Alguns  filhos de bacanas empinavam papagaio  Caixa  e Arraia, que  a gente tinha maior facilidade para  cortar.  Hoje  existem dezenas e dezenas de fabriquetas de rabiolas, até  porque fazer  pipas virou  uma profissão  rendosa, principalmente  durante as  férias  escolares, julho e final de ano, que são os  períodos  reservados para  a referida brincadeira.
Os mini Box, mercearias, botecos  e similares,  ficam abarrotadas de rabiolas nos mais variados padrões. Antes a maioria  da molecada  fazia  sua  cangula, curica ou papagaio, mas o  Guinador,  só  alguns  bambas faziam, pois  tinha que  sair com as talas certinhas na horizontal  e vertical, caso contrário ficariam “pensas” (pendendo para um dos lados, obrigando colocar  um contra peso pra contrabalançar).
Entre os  mais  famosos  papagaieiros que conheci, o melhor  deles, na minha modesta opinião, foi  o MINDODÕ, do Bairro Alto, que  nos  deixou  recentemente. Quando  ele  perdia um laço, coisa  rara, não  se fazia  muita questão do papagaio três bolas que  “chinava”,  o mais importante era  pegar  um pedaço da linha encerada pelo Mindodô, para emendar na nossa  e colocar  no “gargo”. E o moleque só procurava dar laço  roçando na linha do adversário  com o  pedaço da linha do Mindodô.
A linha mais  usada era a  da marca “espingarda” (não fabricam  mais), nos  números 30  e 40, as mais resistentes. A de número 50, menos resistente,  só  era usada para fazer  o  rabo  e  o  peitoral (em duas voltas). Como  nem sempre  tinha dinheiro para comprar  um tubo de linha 30 ou 40, cansei de levar tabefes da dona Alzira, porque  filava  de  sua  máquina de costura  umas  quatro  ou  cinco  braçadas de linha para fazer minhas  curicas, cangulas e papagaios, quando  tinha  entre 8 e 12  anos.

Vevê era papagaieiro respeitado

Além  do Mindodô, conheci outros papagaieiros famosos, como: José de Sena Bastos, Zé Oleiro, Ratão, Macaquinho, Wálter Damasceno, Manoel Paixão, Carlito,  Bereco, Durval, os  irmãos  Silas e Belmar Salgado, Pelado, Dedé, Olavo, Pau Preto,    Dr. Rocha, Dr. Iacy,  Ferramenta, Nossa Amizade, Timbó, Lelé, Izo, Jarbas, Miracy, Érick Lucien  e o Vevê. Sim meus amigos, o primeiro prefeito eleito de nossa cidade, o Raimundo Azevedo Costa, era muito bom de laço. Seu cerol  era  respeitado no bairro alto e  adjacências.
No  bairro da  Favela, o Mário, filho  da dona Lili, era  o campeão, com  seus  papagaios  guinadores,  vermelhos, principalmente quando estava na vantagem e revirava o laço:  estar na  vantagem, significa estar na Jovino e seu oponente no meio do quarteirão da Mendonça Furtado;  revirar a laçada: é levar seu papagaio para a direita e depois retornar pela  esquerda, pindurando (puxar a linha fazendo seu  papagaio pegar pinura ( ir bem alto) no  seio  da linha do  adversário;  Nesse tipo de laço, na maioria das vezes, sempre quem estava na vantagem vencia.
Na brincadeira o grande momento era quando alguém gritava “Lá  se Vem” (quando  o papagaio era cortado e  chinava). Já  quem cortava, gritava na hora; “ Lá Se Poula” ou “Lá se Vai”.
Era regra geral: Pegar  com vara não vale: se pegar, “Guisa”. Mas  tinha uns moleques parrudos  que as vezes quebravam essa regra e  outros que  tomavam o papagaio que um menor pegava. Bem,  aí  era o jeito apelar pra baladeira. Andei inchando costela  de muito moleque na Favela.
Cerol fino era pra  discair (soltar a linha por  cima da linha do inimigo), já o  cerol grosso ou  meio bololo (era para pindurar, já explicado em tópico acima).  Dos vidros para pilar os melhores  eram de magnésia  e de garrafão de vinho, mas também se usava de ampolas, lâmpadas e outros.  Uns sabidinhos, molhavam  papel verde ou papel amarelo e espremiam  no  cerol  e diziam  que era aço do pique ou  aço  do muriate. E a gente temia  enfrentar, pois  eles  diziam que  queimava a linha. Na santa ingenuidade de criança, não pensávamos que, se queimasse, a primeira a ser queimada era de  quem encerava com aqueles ácidos.
Hoje existe muita polêmica sobre empinar papagaio ( pipa) em Macapá, mas no meu tempo  não, se brincava à vontade e éramos tão  felizes.

Crônica do Sapiranga

BRIGA BOA
Milton Sapiranga Barbosa

Numa certa  manhã  de  domingo, lendo as noticias policiais de um  jornal local, fiquei estarrecido com a seguinte manchete: “Briga entre adolescentes termina  com um morto”. A  continuação da  reportagem  informava  que “ fulano de tal”  brigara  com   “cicrano de tal” (ambos com  14 anos de idade), por ocasião  de uma  festa realizada na sexta-feira  no  bairro Brasil Novo. No embate o “cicrano de tal” levou  a pior   e, no sábado, em companhia de vários amigos, foi a forra de maneira covarde, matando seu  desafeto, o “fulano de  tal”, com várias pauladas  e  golpes  de facas, desferidas  por   ele  e  seus parceiros. Fiquei  pensando: “quanta maldade existe nos  corações  dos  garotos  de  hoje”.  Terminada  a leitura da  página   policial, passei a ler as  noticias de política, os  artigos  diversos e  as  noticias esportivas, principalmente, as  referentes ao meu  Fluzão.

Guardei   o jornal e  fiquei  matutando, lembrando  das  brigas  entre  os  garotos  do  meu  tempo de infância e  adolescência, quando  brigávamos de mãos limpas, sem usar  qualquer  armamento  para  sobrepujar o  adversário. As vezes a  querela era por  discussão boba  no  jogo  de bola ou por  ter  a linha  de  papagaio (Espingarda número 30 ou 40) cortada quando ainda  se  estava  encerando a linha  e por  outros motivos banais.
No  calor  da discussão, para que a briga  começasse logo, um moleque  maior  e mais velho,  colocava  dois  pedaços de paus,  dois  ossos  ou duas  latas  no chão  e dizia: “Essa  aqui  é a  tua mãe e essa  é a mãe  dele”. Um  dos moleques  chutava um daqueles objetos  e a porrada  comia no centro.  Tinha  também aquele  que  colocava  uma das mãos  entre  os  dois litigantes  e  pronunciava  a  frase   estopim: “Bate  aqui  e bate na  cara do  outro”. Era  pá  e pá,  e a  poeira  subia. Só que naquela  época, o moleque só  se  preocupava  em bater e  se  defender, com a  certeza  que  seu  oponente, mesmo  que tivesse  irmãos  e amigos presentes, eles não se  meteriam na briga, pois  os garotos  maiores  que organizavam a   roda  logo  diziam: “Deixa  só os  dois”. E  você  tinha  que  se  virar na porrada, bater  mais  do que  ser  batido, até  porque  os  nossos pais (no meu caso, mãe/pai), sempre  diziam: “ Se tu   achar  pai  na  rua,  quando chegar  aqui  tu  apanhas de novo”. Nos casos  em  que você  achava  que  o resultado da  briga não  fora justo, o  adversário  era  desafiado  para  novo embate,  mas  sempre   com as mãos limpas, no braço.

Vi  confrontos  memoráveis  entre  dois moleques  do mesmo bairro, em que  um não podia  ver  o  outro aparecer, que ia  logo   tirando a camisa  e sem dizer nada um  pro  outro, transava na porrada. Desses confrontos, destaco  três:  Pilão  x Pelado,  Carlito  x Hildebrando  e  Silas Salgado  x Guisado, sendo este  o  mais famoso  de  todos. Mas  nunca, em momento algum,  um deles  apelou pra  covardia, se  armando  de pau,  de faca ou convocando outros  colegas para  se vingar do  adversário em caso  de  derrota. Era  BRIGA BOA, limpa. Briga  que  dava  gosto de assistir  e fazer  gozação   com  o perdedor, o que  doía  mais  que  a  surra levada. Pelado  e Carlito  já nos  deixaram, mas o Sandoval (Pilão),o  Hildebrando e   o Silas, pelo  que  sei, ainda  estão por aí para  comprovar. O  Guisado, que  foi embora de Macapá, não  se  teve mais noticias.

Tinha  também aquelas  brigas  em que   as  animosidades começavam  dentro da  sala  de  aula.  Como não se  podia  brigar  na  sala,  se dizia   para  o moleque provocador: “Te pego  lá  fora” .   A  turma toda  ficava  ouriçada  na  expectativa  de uma boa  briga  e  logo se  formavam  as  torcidas dos  dois que se enfrentariam  na saída. Era  tocar  a campainha, passar  do  portão   que   não tinha perdão, não  tinha mais  volta, era  porrada  na certa, até  porque incentivo  não faltava.
Fui parar  muitas  vezes  na diretoria do Barão, do Anexo da Escola Normal  e da Escola Veiga Cabral.

Briguei muito. Bati  e  apanhei nos  confrontos   com  o  Rocky Lane, Pedrinho Marques, Barbosinha, Monte, Pedroca, Dedé, Dicoçá, Jovico, Carrapeta, Paulão  e  outros moleques. Depois crescemos   e  até  hoje ,  os que ainda  estão  vivos, são  meus grandes  amigos. Não  restou nenhum  ódio, mágoa ou desejo de vingança em nossos  corações. Bem  diferente  dos  tempos atuais,  quando um amigo  e  até   um irmão, mata o  outro por  qualquer besteira.  Até  por um cigarro negado, um  real não emprestado  pelo  pedinte, tem  levado muito jovem para  baixo  dos sete  palmos.

É  bom   dizer  que   no meu  tempo de infância   e  adolescência, não existiam  essas  malditas  drogas (cocaína, heroína, maconha, crack e outros  entorpecentes). Existia   a cola, mas ninguém cheirava,    só  era  usada  pelos  profissionais  que   consertavam  sapatos  e  por  fabricantes de móveis  artesanais.  Tinha  também o Lança Perfume, mas  só   os   adultos usavam, até  ser proibido.  Naquela época (anos 60)  moleque  não ficava na  rua  até  de madrugada bebendo, serenando ou  participando de festas .  Até  que  serenávamos as festas no  Rouxinol  e no Salão   do Pecó, mas  era  só  a sirene  da Usina de Força  e Luz apitar, as  9  da  noite, que  cada  um   corria  no rumo  de  sua casa, pois se  chegasse  10 minutinhos  depois que  a sirene silenciava, era  surra na certa.
Hoje  os pais não  impõem limites  aos   seus filhos, não sabem  por  onde   ou com quem andam  e o  que  é  pior, nem  procuram  saber  onde  ele   conseguiu  dinheiro pra beber ou comprar aquela  roupa de marca. O  que  é  uma pena.

OBS –   existiam  outras  brigas  boas, famosas, entre  dois moleques nos  bairros  doTtrem, Laguinho, Jacaré Acanga, Beirol, Igarapé  das Mulheres, Morro do Sapo, Baixa da Maria Mucura, no Elesbão e Vacaria, mas essas são  vocês que  poderão dizer aí  nos  comentários.
Um abraço do Sapiranga

Crônica do Sapiranga

PARABÉNS MANA!
Milton Sapiranga Barbosa

Hoje, 25 de Agosto, dia  do soldado do Exército Brasileiro, é um dia muito especial para a família Barbosa/Brito, pois, no ano de 1930, que a Dona Alzira A. Barbosa, então com 15 anos de idade, colocava no mundo MARIA CÉLIA BARBOSA, que 20  mais tarde, depois de casar com o jovem vigiense RAIMUNDO BRITO, passaria a assinar seu nome como Maria Célia Barbosa Brito.

Mariazinha, como era tratada em família e por suas muitas amigas, era a bondade em pessoa, prestativa e uma de mulher de fibra, sempre ajudando nossa mãe, lavando e passando roupas, fazendo doces e salgados, lavando cuias e mais cuias nas quais mamãe vendia mingau e tacacá, nas noites de festas do Salão do Pecó, e ainda encontrava tempo para ensinar as primeiras letras ao seu irmão caçula, esse que vos escreve, danado que só quando moleque.

Dá união com Raimundo Brito( que foi jogador do Luzeiro da Vigia, São José, Amapá Clube e Seleção amapaense) nasceram   8 filhos, 5 homens e 3 mulheres, sendo que   duas meninas( Cleide e Socorrinho) não atingiram dois anos de vida e um homem( Ti Nem) morreu aos 6 anos de idade. Os cinco restantes, Carlos Brito, Carmem Lúcia, Cláudio ,  Clovis e Cleoney, ainda estão por aqui dando continuidade a formação da árvore genealógica dos Barbosa/Brito..

Minha irmã, mesmo tendo perdido o marido e um filho vítimas  de acidentes automobilísticos, nunca se  deixou abater. Desde que seu marido foi acidentado ela não o abandonou um instante, mesmo estando grávida de 7 meses  de seu oitavo filho, acompanhou-o até Belém e, com muita coragem, os últimos momentos de vida do esposo, único homem que amou em vida e pós morte, pois sendo viúva e ainda jovem e bonita, não se interessou em encontrar um  substituto, mesmo que fortuito, para padrasto de seus  filhos. Viu ele morrer, praticamente em seus braços. Com a ajuda de mamãe criou  5 filhos  com a maior dignidade e honradez, dando-lhes maravilhosos  ensinamentos de vida para que fossem pessoas de bem. Os ensinamentos foram seguidos à risca, eles nunca praticaram qualquer tipo de ação que pudesse manchar a memória de seus pais. Foi dona Mariazinha, minha querida, saudosa e inesquecível irmã, que colaborou e muito com  mamãe na minha formação, inclusive nas muitas surras que fizeram meu lombo arder.  Mais enquanto viver, lembrarei com o maior orgulho  de  tudo que aprendi com ela.

Hoje, 25  de agosto, se viva fosse, a mana Mariazinha  estaria completando 80 anos de vida e eu, mesmo  com os olhos derramando lágrimas saudosas, não poderia deixar de prestar-lhe, pós morte, esta homenagem de reconhecimento e agradecimento por tudo que ela representou e ainda representa em minha vida, já que de vez enquanto  me vejo seguindo suas lições e cantarolando as músicas que ela cantava para me fazer dormir.

Receba meus parabéns, Mana, aí ao lado do bom Deus, pois, tenho certeza, você mereceu estar aí. E dá um beijo na Mamãe.

Crônica do Sapiranga

ORA, PALMADAS!
Milton Sapiranga Barbosa

Estou invocado  com  a  polêmica criada em torno da aprovação da Lei que proíbe os pais de corrigirem , uma atitude errada dos filhos,  com  umas boas palmadas.  Psicólogos, pediatras, pedagogos e outros que acham  que entendem tudo de educação infantil, são unânimes em afirmar que com palmadas, a criança vai ficar traumatizada, revoltada, crescer  com tendência a se tornar um adolescente e mais tarde um adulto violento , podendo, inclusive, se bandear para o lado da bandidagem.  Ao escutar  esses comentários, fico pensando com meus botões: “quem dera que no meu tempo de criança fosse castigado com palmadas”, seria uma maravilha.  E é  do meu tempo de criança que conto a seguir duas historinhas “doloriíííídas”.

Primeiro  caso:
Uma bela manhã de sábado, dona Alzira, minha mãe, mandou-me ir no comércio do seu Serafim, que ficava  nos fundos da Igreja dos Irmãos, bem pertinho de casa, comprar  açúcar. Tão logo entrei  na   baiúca, avistei, do lado de fora do balcão, uma nota novinha de 50 cruzeiros. Ninguém a vista, vupt,  guardei  o achado no cós do calção. Fiz a compra, deixei em casa e imediatamente fui  na Banca do Chico Leite, precursora  da  Livraria Zola, e  comprei um monte de gibis  dos meus heróis preferidos( Capitão Marvel, Roy Rogers, Rocky Lane, Tarzan, Cavaleiro Negro, Flexa Ligeira,  Sobrinhos do Capitão, Zé Carioca  e outros mais). Na época se revezavam no atendimento, seu Chico Leite, João Leite,  Lelé, Percival e o Dom Pedro. No domingo, já abraçado com os gibis e pronto para  ir assistir  um filme do Cantinflas no Cine Macapá, a sábia dona Alzira, como toda mãe, perguntou onde  eu tinha conseguido dinheiro para comprar todas aquelas revistas. Contei-lhe  o ocorrido no sábado quando fui fazer compra. Pra que? Ela pegou uma vassoura de açaí   e passou a  acariciar, com lambadas fortíssimas, todo o corpo magricela deste que vos escreve. Enquanto  batia ela    dizia: “Meu filho, o que está dentro de casa não está perdido”, e toma bordoadas e mais bordoadas no couro do Sapiranga. Ela estava coberta de razão . Aprendi  com dureza a lição e repassei aquele ensinamento “que dentro da casa não está perdido”  pros meus guris e até hoje não tenha queixas deles.

Segundo caso:
Certa tarde, depois  de um bom jogo de bola no campinho do aeroporto,  cuja  pista  era onde hoje  existe a rua Hamilton Silva,  cheguei em casa (morávamos na av. Almirante Barroso, em  uma casa velha de assoalho de  paxiúba,  paredes  de palhas, com portas  e janelas de miriti), e reparei que estava “pinhada “ de vizinhos, dentro e fora.  Então perguntei  assustado e surpreso  para dona Leocádia:  O que  foi que aconteceu? Ela respondeu: “ foi um sapo que mordeu tua mãe  quando ela tirava roupa do quarador (o quarador ficava onde hoje é a rua Jovino Dinoá). Não  contei  parada, pequei  um pedaço  de pau  e  fui atrás do sapo maldito que mordera minha querida mãe ( eu não sabia que os mais velhos diziam que era sapo para o veneno da cobra não fazer efeito). Acho que se dissesse que era cobra, o veneno era fatal. Felizmente não foi.

Tava eu lá levantando mato a procura do batráquio, quando senti a costa arder. Era minha irmã, Mariazinha, que  quando soube o que eu tinha ido fazer,  pegou uma corda, dobrou em  duas  voltas   e tome  surra. Ela veio batendo até chegar em casa, quase metade do quarteirão entre Leopoldo e Jovino, onde hoje mora o Sr. Miguel Galvão. Depois ela chorando, colocava  pano embebido em vinagre  para aliviar a dor  e sumir com as  partes roxas em minhas costas. Além  desses dois casos, sofri  muitas outras surras brabíssimas, tanto  que mamãe, 8 anos  antes de falecer, toda vez que ia  em casa e tomava a benção ela dizia “ meu filho, perdoa tua mãe pelas surras que ela te deu”, ao que eu respondia, a senhora não tem nada que pedir perdão, se não fosses  aquelas surras, talvez eu não fosse  hoje, uma pessoa de bem.

Não cresci traumatizado, nem revoltado  e  nem, como  dizia minha “velha”, não “cambei” para o lado da bandidagem . Agora  vem  esses doutos, pra não dizer “babacas”, querendo proibir  umas  “palmadinhas mixurucas” no bumbum da molecada.  Pergunta para finalizar;  Quem, nascido nas décadas de 40, 50 e 60, não levou uma boa surra dos pais ou irmão  mais velho.?  Com certeza, até ele, o Lula,  lá em Garanhuns  deve ter levado umas  boas lambadas do velho Alcides, seu pai, com umbigo de boi, mas  está aí, com pouco estudo, é certo,  como presidente de uma grande nação, o Brasil.

Mamãe e minha irmã Mariazinha já foram para outro plano, mas continuam vivas  em minhas lembranças e amadas em meu coração.

Sapiranga na Copa

Gente do blog assiste jogos do Brasil vestindo camiseta super estilosa e exclusiva feita artesanalmente pela artista plástica Tica Lemos, do ateliê Coisa da Tica.
Olha só a camiseta que o nosso cronista Milton Sapiranga Barbosa vai vestir daqui a pouco para torcer pelo Brasil.

Tica Lemos caprichou grafando no espaço mais anil o nome do nosso queridíssimo Sapiranga. Ele merece, né?