Raimundão, o paraquedista

Milton Sapiranga Barbosa

Na Macapá dos anos 50/60, nos bairros periféricos, todas as casas tinham no quintal um poço e uma privada. Seu Aprígio, um nordestino arretado e boa praça, era o melhor e mais procurado cavador de poços  e privadas da cidade.

Face a demanda, contratou como  seu auxiliar o seu Raimundão. Seu Aprígio cavava e o Raimundão tirava a terra. Às vezes se revezavam nessa dura tarefa.Seu Raimundão era moreno, forte, do tipo atarracado, como se costuma dizer de um cara baixo e troncudo.

O bairro da Favela tinha muitas  casas construídas entre as ruas Odilardo Silva e Jovino Dinoá e as avenidas Duque de Caxias e Padre Júlio e, cujos quintais, terminavam dentro do igapó. Uma delas  pertencia ao seu Oscar Couto. No fundo do quintal do seu Oscar  tinha uma grande árvore, que servia  para descanso e ponto de observação para dezenas de urubus. Lá também se abrigavam e se alimentavam alguns camaleões. Tanto os urubus como os camaleões serviam de alvo para a turma da baladeira.

Na casa ao lado da do seu Oscar, o seu vizinho Mirico possuía uma vitaminosa, bastante procurada pela vizinhança devido a qualidade do açaí que vendia  e por suas bonitas filhas, Francisca e Filica, que se revezavam no atendimento  a clientela.

Certo dia, um senhor que parou para comprar  açaí, viu a molecada tentando derrubar os camaleões sem sucesso e disse: “deixa estar que sábado trarei meu rifle e vou derrubar algumas pra vocês (naquela época se podia caçar sem problema).

Dito e feito. No sábado, lá estava ele de arma em punho  e boa pontaria. Derrubou a primeira, a segunda, a terceira, mas a quarta,  que sem dúvida era a mais porruda, mesmo tendo recebido um balaço mortal não caiu, porque ficou presa em um galho tomado por ervas de passarinho. Seu Raimundão, depois  de tomar umas outras no Bar Popular, do seu Manoel Raimundo, ouviu o tiroteio  e foi lá olhar, como todo bom curioso. Quando ele soube  e viu o camaleão preso no galho, falou: “se tivesse uma escada  iria lá buscar o bicho”.

Do nada surgiu uma escada  e seu Raimundão se apressou em cumprir o prometido. Subiu, balançou o galho e o camaleão caiu. Nosso personagem ao iniciar a descida, olhou pra baixo.  Surpresa! A escada havia sumido, por arte e sacanagem do Pedroca, filho do seu Oscar e meu companheiro fiel nas traquinagens. Todo mundo se escondeu para ver  o que  seu Raimundão ia fazer para descer. Claro que a escada seria posta  no lugar, mas antes  que  se passasse do pensamento a ação, seu Raimundão se pendurou em um galho mais embaixo, que não  aguentou seu peso e quebrou. Junto com o estalo do galho quebrando, ouvimos o grito do Raimundão: “SAI DE BAIXO QUE LÁ VAI O PARAQUEDISTA”.  Por ser muito pesado (quase 100 quilos)  e ajudado pela força da gravidade, caiu entre umas aningueiras e ficou enterrado até a cintura. Deu um trabalhão tirá-lo  daquele atoleiro. Daquele dia em diante, a molecada não podia ver seu Raimundão que logo gritava em coro: “LÁ VEM O PARAQUEDISTA”. Gritava  e corria, pois sabia que um tabefe com uma daquelas mãos, grossa e calosa, de tanto cavar poços e privadas, devia doer uma barbaridade. Mas ele nunca bateu em nenhum moleque, só ficava na ameaça.

Seu Aprígio, seu Raimundão, a grande árvore dos urubus e camaleões, o atirador infalível, seu Oscar, Pedroca, seu Mirico  e suas filhas bonitas, são boas lembranças da minha infância feliz, vivida no meu querido bairro da Favela.

Velho graças a Deus (continuação)

Milton Sapiranga Barbosa

Sei que muita gente  vai se perguntar: “como pode um texto finalizado ter continuação?” Eu  Explico.  Tive que  voltar  ao assunto porque o motorista apressado e fdp que quase me manda dessa para melhor, como se costuma dizer, me conhece muito bem. Cheguei  a  essa conclusão,  após receber um  telefonema por volta de 20 horas  do  dia 10/09/09, quando um cidadão me chamou de “Sapiranga”, com  tanta intimidade, que pensei: esse cara me conhece. Era verdade. Mesmo   ele  não tendo  se identificado e  tomado todas  as precauções para não ser rastreado, pois tendo o número de meu telefone em sua agenda telefônica, ligou de um orelhão. No papo, ele se  desculpou pelo incidente, quase acidente, dizendo que  naquele  dia estava com pressa e perturbado pois  um  parente seu estava em estado grave.

Disse  que ficou sabendo do caso ao ler  meu texto aqui no blog da Alcinéa, de quem ele, como  eu  e milhares, também é fã.  Em resposta, disse-lhe  que  estava tudo bem,  que  “quase” não é “acontecido”, e finalizamos a conversa. Só que ele não sabia que há muito já o havia perdoado. É possível, que depois que  ler este relato, ele  possa se apresentar, para  nos abraçarmos e darmos boas risadas com o ocorrido.

A  continuação, do “Velho graças a Deus”, é  também para agradecer  as pessoas que postaram comentários no blog, de incentivo, cumplicidade e, principalmente, de felicitações pelos meus 64 anos de vida. Aos amigos conhecidos e  aos desconhecidos, que  já  estão  dentro do meu órgão  bombeador   de sangue, como a Tica Lemos, que segundo ela, já está também na fase do SOU DO TEMPO QUE:  se comprava caranguejo no côfo direto das mãos do cabloco, sem  a figura do famigerado atravessador. Sou do tempo que farinha era vendida no paneiro. Sou do tempo que se comprava  banana em  dúzia, penca ou cacho, melancia a unidade, sem a maldita pesagem, na qual o consumidor não sabe se a balança foi corretamente aferida, mesmo sendo digital. Sou do tempo que Macapá tinha banheiro público, do tempo que a LBA distribuía leite do programa Aliança  para o Progresso. Sou do tempo que o governador Janary  homenageava o trabalhador  no Dia  1º  de Maio com churrasco à vontade no Glicério Marques. Sou do tempo que se tirava retrato e se guardava as louças no “pitisqueiro”  e os perfumes na “ pintiadeira”. Sou do tempo que meu ídolo Altair Lemos jogava basquete no Amapá Clube e era o rei do lance livre, no estilo lavadeira (com as  pernas abertas, o atleta segura a  bola com as duas mãos e arremessa de baixo para cima em direção a cesta). Neste tipo de jogada, o Altair dificilmente errava. Sou do tempo do time de botão formado com tampas de bilhantina gessy, talco palmoliver, pomada glostora, do  remédio pepsamar e dos potes de pickles.  Nas tampas  colávamos fotos de jogadores dos times cariocas que vinham em bombons vendidos na casa Nely. Sou   do   tempo  que  se bebia  o Café Canário. Você bebeu Café Canário? Não?  Pois é,  eu bebi, e muito.  Finalizando, sou  do tempo que em Macapá se podia dormir de janelas abertas, varar quintais  dos vizinhos ou não, sem o menor problema.

Sou  da Macapá antiga, com aeroporto em pleno centro  da cidade. Sou  do tempo que em  Macapá  era muito melhor de se viver, disso não tenho dúvidas. Sou do tempo que… no the end.

Os caçadores de minhoca

National Geographic registra pesquisa da Embrapa-AP

Durante esta semana, uma equipe da produtora australiana Gulliver Media está no Amapá registrando imagens e depoimentos de especialistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para o documentário “Os caçadores de minhocas”. O projeto é do National Geographic Channel (canal de televisão da National Geographic Society), que anuncia a finalização e distribuição do vídeo para 2010. Depois de passar por diversos países, a equipe desembarcou em Macapá (AP) no último domingo, 6/9, fez filmagens na Embrapa Amapá e seguiu viagem até o distrito de Lourenço, em Calçoene, município localizado a 374 quilômetros da capital amapaense. No Brasil, o Amapá é o único estado visitado para este documentário.

No distrito de Lourenço (Calçoene) a equipe será guiada pelos técnicos da Embrapa Amapá (pesquisador Marcelino Guedes e o assistente Carlos Alberto Moraes) que têm experiência de coletas de minhocas naquela região, e pelo produtor Antônio Mendes, conhecido como um exímio caçador de minhocas. A equipe da produtora é formada por Rebecca McElroy (produtora), Randall Wood (diretor e roteirista) e apoio técnico-científico dos pesquisadores biólogos Samuel James, do Centro de Pesquisa em Biodiversidade da Universidade do Kansas (EUA), e George Garner Brown, da Embrapa Florestas (Paraná).

De acordo com os pesquisadores envolvidos no documentário, as minhocas têm papel importante na cadeia alimentar de várias espécies e auxiliam na decomposição de material orgânico no solo. Além de ajudar na estruturação do solo, colaboram com a troca de gases e melhoram a infiltração de água no solo, entre outras atividades. A importância das minhocas para a fertilização e recuperação dos solos já era conhecida há mais de 2000 anos pelos antigos.

George Brown observa que apesar da extinção dos invertebrados (caso das minhocas ) não contar com o mesmo apelo que a extinção de mamíferos, as minhocas desempenham grandes serviços ambientais, tanto em ecossistemas naturais quanto na agricultura. “Porém, seus efeitos são pouco reconhecidos e as minhocas não têm recebido a atenção que merecem no Brasil, onde existem mais de 300 espécies. As minhocas são importantes na natureza, assim como a onça pintada ou o lobo guará, por isso defendemos sua preservação”.

(Dulcivânia Freitas, da assessoria de comunicação da Embrapa)

A Turma do Buraco

Miltom Sapiranga Barbosa, especial para o blog

Já  como   aluno da  terceira série  do curso  primário,  queria que o tempo passasse  bem rápido, para logo chegar a quinta série  e então poder  prestar o exame de admissão ao  ginásio, pois assim, além de melhorar meu grau de conhecimento para  a vida, poderia  vir a almejar uma vaga   no quadro da “Turma do buraco”. Essa era minha grande meta, já que  o programa, uma espécie de bolsa para  estudantes, mantido pela PMM,  iria aliviar a folha de  despesas da minha querida mãe, que dava um duro danado, amassando açaí, lavando e  passando  roupa da vizinhança, além  de trabalhar com a venda de mingau e tacacá  para poder manter a casa.

Quando estava na  quarta série, já estava estabelecido que quem tivesse  notas boas  podia prestar o exame. Utilizando deste benefício, tentei o Colégio Amapaense e não passei, e após concluir a quinta série, fiz exame na Escola Técnica de Comércio do Amapá (que depois foi CCA e hoje  e Gabriel de Almeida Café).  Fui aprovado. Aliás que só o Colégio Amapaense mantém o nome original desde sua inauguração.

Foi  como  aluno da ETCA  que  pude então ser  um dos integrantes da famosa “turma do buraco”, junto com Raul Seabra, Odoval Moraes, Machado, Jackson Picanço, Maquizanor, Carneiro e outros tantos. Por três anos  servi como  bolsista da PMM  e  vivi  três casos engraçados, que não poderia deixar de postar aqui.

1) – Raul Seabra,  o namorador  da turma  e o mais enxerido,  disse para a namorada que trabalhava num escritório e a turma ficou sabendo: um belo dia (sempre tem um belo dia) estávamos  cavando buraco  para plantio de mangueiras em frente ao HGM   quando, como que saindo do nada,  a namorada do  Raul  apareceu  e ao  vê-lo de picareta na mão, perguntou: “ é esse o teu  escritório?”  Na hora um gaiato  completou: “é, e essa é a caneta dele”.

2 –  Fomos destacados para derrubar as árvores    que  existiam na Praça do Aeroporto para que fossem feitas ali algumas melhorias. Sol  quente, machado  tinindo  na madeira dura, o Raul  jogou para cima uma das  pedras que  protegiam  os canteiros   e a mesma atingiu o Maquizanor que desmaiou (fingiu)  e  o Raul ficou apavorado, pois insinuávamos  que  ele havia morrido. Depois de muita    zoação,  a vítima  voltou  a vida para alívio do nosso amigo Seabra.

3 –  Uma outra missão foi  cavar  buracos  na praça em frente ao barracão da Fortaleza (onde funcionou o Círculo Militar) para arborização do local e lá fomos nós. Como a terra era fofa  não demorou para que o serviço fosse   concluído. Para aproveitar a folga no horário de trabalho, fomos tomar banho  e  fazer guerra com casca de melancia na praia. Guerra comendo solto, percebi  que alguém tentava me surpreender  e dei  uma volta  por trás  de uma grande pedra  e  tasquei  um pedaço de melancia no tutiço do  inimigo. Quando a vítima  se virou  para ver quem atirara, para minha surpresa, constatei que  era o apontador Dinamar, que tinha  ido pegar o ponto do pessoal e como  não viu ninguém na área de trabalho  foi atrás. Quando ele tirou a camisa e a calça, ficando só de cueca,  já me preparava pra correr, quando, para meu espanto,  Dinamar se abaixou e  juntou  uns bagaços de melancia   e entrou na guerra também.

Os  alunos  bolsistas da “turma do buraco”, no tempo do apontador, a guerra com casca de melancia, são lembranças da minha infância feliz vivida no meu querido bairro da Favela.

A Favela no futebol amapaense

Milton Sapiranga Barbosa, especial para o blog

Sim, no tempo do amadorismo de priscas eras, o bairro  da Favela  tinha  dois  clubes  disputando os campeonatos organizados pela Federação Amapaense de Desportos(FAD).

cb_sao_jose-ap-5Um era o São José, do seu Messias, onde jogavam, entre outros, Bulhosa, Pantera, Jurandino (Carudo), Justo, Raminho e Mosquito, cuja sede ficava na esquina da Leopoldo Machado com a Presidente Vargas, mas um acordo entre Messias e Humberto Santos, levou o São José  para o bairro do Laguinho.

O outro era o Araguary Esporte Clube, sendo que este não tinha sede, a turma se reunia na casa de um dos atletas, escolhida aleatoriamente. Nesse tempo, Araguary e Fazendinha era o grande clássico da segunda divisão (Santa Cruz, Primavera, Guarany, depois Ypiranga e Santana, sem esquecer o Atlético Latitude Zero, também  integraram a segundona da FAD).

Sempre que Araguary e Fazendinha se encontravam o Glicerão ficava apinhado de gente. Mauro, Abiezer, Beto, Barata, Bento, Carneiro, Dioneto, Elionay, Ferramenta, Peteca e Palito (um carvoeiro bom de bola, que chegava sempre em cima da hora para jogar, pois antes precisava desmanchar suas caieiras)   e  Nolasco, eram alguns  dos integrantes do Araguary Futebol Clube. Pelo Fazendinha, destacamos Zezé (um goleiraço), Marinheiro, Flávio Góes, Valdir  e seu irmão Papaarroz (um cracaço, que batia penalty de letra) e Estrela.

Eu  gostava de estar entre a rapaziada do Araguary para ouvir as  histórias  das viagens que o time fazia pelo interland amapaense. Nolasco,  meu vizinho, era um jogador razoável, mas muito bom para contar histórias e rápido  para  fazer uma paródia, fosse qual fosse a situação, senão vejamos: certa vez, numa excursão a Mazagão, no tempo  em só se chegava ao município por via marítima, Nolasco não  foi  escalado de saída no time que iria  enfrentar a seleção mazaganense. Terminado o primeiro tempo, começa o segundo e o Nolasco no banco de reservas. Jogo já no final do segundo tempo, eis que ele  é chamado  para substituir um companheiro,  ele se negou e saiu-se  com essa : “eu fui  em Mazagão/ fiquei encabulado/ pois só comi feijão e ainda fui barrado./ quando jogo estava pra terminar / técnico veio me chamar pra entrar lá no gramado/ eu não sou doido e também não sou maluco/ pra entrar lá no gramado e jogar  cinco minutos.”

Doutra feita, eles  se reuniram e metidos na roupa de domingo, foram  a  uma  festa    no bairro do Laguinho (aquela época, já rivalizando com o bairro da Favela, por causa do Marabaixo e do boi bumbá). Todo mundo alinhado, festa animada, muita cocota no salão e eles de fora olhando, pois  o porteiro não deixou eles entrarem. Aí o Nolasco criou uma musiquinha, que tinha um trecho que dizia assim: “Fui numa festa lá no Mestre Julião/ deu meia noite o baile vai começar/  se  é  do Laguinho o porteiro manda entrar/ se é da Favela ele faz voltar”.

O  Araguary  é do tempo que se dava chagão (jogar a bola por um lado do adversário e correr pelo outro e contiuar a jogada – hoje drible da vaca), do avião ( hoje chapéu, lençol), por baixo da saia ( hoje entre as canetas), do xilique (joelhada forte na coxa do oponente e doía uma barbaridade (hoje chamam tostão). O Araguary e seus  integrantes, suas histórias e paródias são lembranças de minha infância feliz viviva no meu querido bairro da Favela.

A capelinha, o padre, escoteiros e molecada

Milton Sapiranga Barbosa, especial para o blog

Com  o encanto e o charme  de uma igreja do interior, a capelinha de capelinhaNossa Senhora de Fátima,  foi  construída  para arrebanhar fiéis  do bairro da CEA (atual Santa Rita), que crescia  de maneira muita rápida, até porque, funcionários da Companhia de Eletricidade do Amapá-CEA, estavam adquirindo  terrenos  no novo bairro e também como uma maneira de  diminuir  o número de fiéis da igreja matriz, que já estava ficando pequena  para comportar  o povo católico de Macapá e os que chegavam  de outros estados.

Os moradores da Favela, que trabalhavam de carpinteiros, pedreiros, pintores  e  auxiliares de serviços gerais, foram  convocados para atuarem na construção da  igrejinha,  num terreno próximo ao marco zero da estrada Macapá- Santana (atual Duca Serra), onde  hoje  existe o Hospital de Emergências, que já foi  o Pronto Socorro Oswaldo Cruz (como mudam nomes  de órgãos e logradouros públicos  nesta cidade).

Junto  com a  capelinha, foi  construído  um barracão/escola, que servia também  para reuniões  dos Marianos, das  Filhas  de Maria  e  para exibições de filmes. Ao  lado  da capela ficava  o campinho de pelada  e  nos fundos deste  construíram a  sede  dos  escoteiros São Maurício  (uma bandola 4 por 6 , com uma espécie de palco no alto,  que cabia apenas uma mesa de ping-pong  e uns 2 ou 3 armários, mas que era por nós orgulhosamente chamada de sede).

O padre  Salvador Zonna  foi o  titular da capelinha. Era um italianoneaeone de bom porte físico, com  uma fisionomia séria, de poucos sorrisos. Mas  era só fachada. Padre Salvador era boa praça, tanto que suportava as  traquinices  dos moleques Moacir, Mucura, Boquinha, Deverde e Tique-imbiga, este o mais danado de todos  e  que   era sempre  expulso  do barracão   tão logo o  filme começava. A expulsão  do Tique era o momento aguardado por todos, pois  antes de sair da sala, ele se virava no rumo do padre e gritava:  “õ,õ,õ,õ  bubagem.” E saía correndo na frente do padre, que atrapalhado pela batina e pela ligeireza do moleque, nunca pode dar-lhe um corretivo. Mas no outro dia já estava tudo bem entre o padre e o muleque, até uma nova sessão  do seriado  do Tarzan.

Como os escoteiros, em sua maioria, eram coroinhas   e ajudavam em todas as  atividades  promovidas pela  igrejinha, o padre Salvador  dava todo apoio ao  grupo de escoteiros comandado pelo chefe Madureira, tendo como chefes auxiliares Juracy Freitas (Jupaty), Orlando Brandão,  Duquinha  e Pedro Cardoso. Também pertenciam ao grupo de seguidores de Badem Power o Moacir, Ceará, Picolé, Diógenes, Boneco, Sapo, Grilo, Dejacir, Manoel Guedes, Jorge e Marcos Albuquerque,  Alcione Cavalcante, os  Wálter  Maia  e Damasceno, João Dutra, Rui e Antônio Maia,  Garrincha,  Pedro, etc, etc.

Depois que o objetivo que levou a construção da capelinha foi alcançado  e o número de fiéis já era grande, obrigou  a construção de uma igreja propriamente dita, maior e mais confortável. Construíram então a nova igreja de Nossa Senhora de Fátima  e  a capelinha foi demolida. Como Adorinam Barbosa eternizou na canção Saudosa Maloca, “cada tábua que caía, doía no coração” de todos  que  a frequentaram, casaram, fizeram a primeira comunhão, foram batizados ou crismados na capelinha de Fátima, que junto com o padre Salvador, os integrantes  do grupo de escoteiros São Maurício, são boas lembranças de minha infância feliz vivida no meu querido bairro da  Favela.

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Seu Rocha, Bamba e o jutaizeiro

Milton Sapiranga Barbosa, especial para o blog

A quadra onde hoje  estão situados  os prédios do Conservatório Aamapaense de Música, da Receita Federal, da Justiça do Trabalho e da operadora de telefonia Oi, era área pertencente a Panair do Brasil, que depois  passou a ser  Viação Aérea   Cruzeiro do Sul. A parte da frente se estendia até  as imediações  onde hoje está o prédio da Camâra de Vereadores  e  os fundos iam  até o muro da escola Princesa Isabel.

O terreno da Panair, além das torres, depósitos  e  oficinas,  era cheio de  árvores  frutíferas, umas plantadas pelo seu Rocha, que morava com a família numa residência da companhia, outras eram nativas, como mameira, tucumanzeiro, mucajazeiro e um imenso jutaizeiro, que quando estava carregado de frutos,  era a árvore mais procurada pelos moleques. Era sair da aula ou  da pelada,  íamos   apanhar jutaí,  subindo na árvore, jogando pau ou  usando  uma baladeira. Seu Rocha, que não gostava  que entrássemos no terreno,  costumava usar uma espingarda com cartuchos carregados de sal para espantar a molecada, mas nunca feriu ninguém. Era ele aparecer de espingarda em punho que a turma se mandava. Num belo dia (toda história tem sempre tem um belo dia),  estávamos lá apanhando jutaí e o Bamba, um  moleque corajoso e ágil para subir  em árvores, foi  até as grimpas do jutaizeiro, pois lá estavam os maiores e mais maduros frutos. Tava lá o Bamba enchendo o macacão escolar de jutaí, quando de repente surgiu  o velho Rocha que, astutamente, havia se escondido antes da chegada da turma. Os que estavam  embaixo, atirando pau  ou balando jutaí, conseguiram fugir, mas o Bamba, pobre Bamba,  ficou lá em cima, sem poder descer, pois um   homem  armado,  de cara amarrada,  dava  plantão embaixo da árvore.

Os que fugiram ficaram de longe observando a cena: seu Rocha apontou a espingarda  no rumo  do  invasor e disse: “muleque, agora tu  vais  morrer!” Pra que? O Bamba  desatou a chorar e no auge  do desespero, disse, chorando de dar dó: “pelo amor de Deus, seu Rocha, deixe ao menos eu ir em casa tomar bênção da mamãe, depois eu volto para o senhor me matar”.

A molecada do lado de fora da cerca ria as gargalhadas. Seu Rocha, também não aguentou, deu um  largo sorriso  e mandou o Bamba descer, antes prometendo não fazer nada com ele. O Bamba desceu. Seu Rocha, ainda sorrindo mandou-o  embora, não sem antes dar-lhe  um leve pescoção. O Bamba, depois  do susto, sumiu ladeira abaixo e só parou quando chegou em casa.

Apanhar jutaí, para o nego Bamba nunca  mais.  Panair, seu Rocha, o Bamba  e o jutaizeiro, são boas lembranças da minha infância feliz, vivida no meu querido bairro da Favela.