Palavras cruzadas

Débora Borralho
Débora Borralho

Perdoa-me por me traíres
Por Débora Borralho

É complicado começar o ano falando de traição, mas temos que iniciá-lo encarando todas as adversidades que nos são impostas pela vida, para mostrar que somos dignos e merecedores de cada dia na terra.

No momento em que depositamos a nossa confiança em alguém corremos o sério risco de nos magoar e nunca estamos preparados para isso. Dói. Dói muito confiar em um amigo, em um parente, em um profissional, em um amor e perceber que não deveríamos ter feito isso.

O gênio Nelson Rodrigues é sempre a maior referência que tenho para descrever os dramas humanos. Ele vai fundo, na essência, captando o que mais gostamos de esconder e fingir que não existe. Talvez por isso cause tanto espanto e escandalize as pessoas com as suas obras.

Dissecando o ser humano, Nelson escreve sobre a traição como ela exatamente é: asquerosa, com poder de destruição humana incalculável, ferindo cada lembrança boa que ficou. Às vezes, planejamos não confiar em mais ninguém, mas somos traídos pelo próprio instinto humano e sem querer, deixamos que a traição seja uma constante em nossa vida.

Outro gênio da literatura que também fala sobre a traição em sua obra-prima é Dante. A Divina Comédia diz que o maior dos crimes e o pior dos pecados é a traição, por fazer uso da confiança alheia de forma covarde e tem como castigo o último círculo do inferno, o nono – gelado e sofrido. A honestidade e a nobreza de caráter sempre serão reconhecidas em qualquer obra literária e por qual motivo não seriam reconhecidas na vida?

Devemos nos perdoar por permitir que as pessoas nos traiam, pois elas só fazem isso se conseguem a nossa total confiança. Devemos oferecer ao traidor exatamente o nono círculo do inferno desde a vida na terra: um silêncio profundo e gelado, uma forma fria de lidar com tal sofrimento, pois tortura maior não há. Só assim, aprenderemos juntos com os livros que a traição sempre vem de quem menos esperamos e que nada podemos fazer para mudar o caráter mesquinho de quem se acovarda e nos apunhala enquanto nos envolve em um abraço.

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