A mercadoria mais preciosa

A mercadoria mais preciosa
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Certa vez, um homem sábio viajava num navio com vários comerciantes. Um deles, bisbilhoteiro, perguntou-lhe:

– São muitas as mercadorias que o senhor leva?

– São muitas, sim, preciosas, e… não tenho nenhum medo do mar! – respondeu imediatamente o sábio.

Na realidade, ele não tinha nenhuma caixa no porão do navio e o indiscreto mercador sabia disso. Achou aquele sábio ingênuo e riu dele, espalhando a conversa com os demais passageiros. Aconteceu, porém, que o navio naufragou. Todos eles, a muito custo, salvaram suas próprias vidas. Todas as mercadorias se perderam. Foram para o fundo do mar. Os sobreviventes, arruinados, foram pedir esmola pelas ruas da cidade portuária. Cada um contava a sua história. Assim, alguém convidou o sábio a prof erir uma palestra sobre um assunto muito discutido, naquele momento, na cidade e ele mostrou tanto conhecimento da questão e de tantas outras ciências, que logo lhe ofereceram a vaga de diretor da escola principal com direito a um excelente salário. Os comerciantes, na miséria, foram implorar a ajuda dele para a viagem de volta e ele, prontamente, os socorreu. No fim, o comentário deles foi unânime: “De verdade este homem carregava uma mercadoria muito mais preciosa do que a nossa. Ele a levava consigo e nada perdeu da sua sabedoria!”.

No domingo no qual escutamos, novamente, o evangelho da chamada “confissão” de Pedro, lembramos também o serviço dos e das catequistas nas nossas paróquias e comunidades. Jesus diz a Pedro que aquela clara profissão de fé não lhe veio da sua inteligência. Foi Deus Pai que o ajudou a reconhecer naquela pessoa tão humana quanto ele, o Messias, o Filho de Deus vivo. Quando falamos das coisas da fé, usamos também da nossa inteligência, porque precisamos de palavras con hecidas por nós que nos permitam formular o nosso pensamento. No entanto, o assunto do qual falamos vai além de todas as nossas palavras e definições. Nós cristãos não acreditamos simplesmente em declarações sobre Deus, por mais bonitas e bem elaboradas que sejam. Essas servem para tentar dizer algo que, porém, sempre ficará muito além do nosso palavreado e até da mais fina teologia. Se o nosso Deus fosse somente um conceito filosófico, caberiam n’Ele as nossas palavras. Seríamos nós a ajustar o seu tamanho e a dizer como Ele é ou pensamos que seja. O Deus da Revelação, o Deus Libertador da Antiga Aliança, o Deus Pai de Jesus Cristo não é um conceito, é um Ser vivo, amoroso e misericordioso. Podemos encontrá-lo e conhecê-lo porque Ele mesmo se deu a conhecer. Contudo Ele sempre estará al&eac ute;m das nossas limitações humanas. A fé nunca será o óbvio resultado da explicação de uma bela doutrina. A fé é um longo percurso de descoberta, de experiência, de oração e, sobretudo, de pedido ao Pai para que Ele mesmo se doe a nós, abra sempre e de novo o nosso coração e a nossa inteligência à confiança, ao desejo de mergulhar no seu amor infinito.

A missão insubstituível dos e das catequistas, é a missão da própria Igreja-Comunidade: ensinar os caminhos da fé, mas, sobretudo, viver e testemunhar essa fé na comunhão, na memória viva das maravilhas do Senhor, no compromisso generoso na construção do Reino. A fé é um “dom” que precisamos desejar e pedir. A Catequese prepara a criança, o jovem e o adulto ao grande encontro pessoal com o Senhor, a fazer a própria profissão de f&eacut e;. O “Nós cremos” contribui, mas não substitui o “Eu creio”. Também não é simplesmente o conjunto de todas as profissões de fé pessoais. O “Nós cremos” é o resultado da alegria de nos encontrarmos todos no Nome do Único Senhor Jesus, constituindo, como a primeira comunidade ideal “um só coração e uma só alma” (At 4,32). O dom da fé não deveria ser uma mercadoria que podemos perder ou deixar para trás em alguma etapa da vida. Deveria ser um verdadeiro e grande bem que levamos sempre conosco. O único bem que não se perde nas tempestades da vida e que, olha lá, podemos levar conosco até ao encontro com o Senhor.

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